22/11/2021

Por Vitória Passos Bender

 

Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/abvfq  

 

Entre meu pai e eu são incontáveis as despedidas. Quando eu passava as férias com minha mãe em Porto Alegre. Quando, aos 11 anos de idade, decidi viver com ela. Nas visitas que eu fazia, e ele sempre pedia pra eu ficar "mais uns dias". Há quase 4 meses, a última e mais dolorosa despedida. A covid-19 levou meu pai.

Foram uns 10 dias entre o resultado positivo do exame e a internação hospitalar. Dias de febre, de antibióticos, de dificuldade para respirar, de verificação da saturação, de apreensão. Eu acompanhava tudo de longe, afinal, havia risco de contaminação. Meu pai estava no quarto, isolado, e não tinha nada que eu pudesse fazer além de acreditar que tudo ficaria bem. Até que, no dia 21/05/2020, recebi uma mensagem no whatsapp, as últimas palavras dele pra mim: "Não dá mais, vou ter que ir para o hospital. Estão vindo me buscar". Uma vez mais a impotência... eu não podia fazer nada além de continuar acreditando que tudo ficaria bem.

O hospital em que meu pai foi internado permitia a permanência de um acompanhante. Na prática, meu irmão foi internado junto. Não podíamos revezar, se ele saísse de lá, não poderia retornar, mas pelo menos sabíamos que o pai não estava só. Meu irmão foi corajoso e incansável. Mano, obrigada por isso! No segundo dia de enfermaria, quando a máscara de Hudson já não ajudava e ele precisou do respirador, o medo tomou conta de mim. Tentando segurar o choro, corri pra casa, arrumei uma mala e "voei" para Canguçu. Naquele momento, já era quase impossível manter a calma. Meu pai era jovem, saudável, eu simplesmente não conseguia acreditar que ele estava se aproximando de uma entubação, de leito de UTI ou do pior. Na manhã do quarto dia de internação, veio a notícia que nenhum de nós queria ouvir: meu pai seria sedado e entubado. Em uma chamada de vídeo, que durou pouco mais de 1min, tivemos de nos despedir. Eu só consegui dizer que o amava, que ia ficar tudo bem e que estávamos esperando por ele.

As visitas na UTI eram sempre muito tristes, as notícias nunca chegaram a ser boas de verdade e nos apegávamos a qualquer pequena possibilidade de melhora. Eu me orgulhava de conseguir não chorar perto dele, naqueles míseros 15 minutos de visita, conseguia me manter forte, falar das coisas que ele gostava de fazer, das "sapequices" da Elena, minha irmã mais nova, e do churrasco que eu assaria quando ele voltasse pra casa. Eu sei que ele sentia nossa presença, mesmo sedado. E, de alguma forma, reagia. A mão que tentava segurar a minha, a sobrancelha que levantava levemente, os batimentos que aceleravam. Ele sabia que estávamos lá por ele. Pra ele.

Foram quase 30 dias de uma batalha injusta, dolorosa e cruel. Meu pai resistiu bravamente, mas o corpo já não aguentava mais. E eu, que tantas vezes disse adeus, tive que me despedir pela última vez. "Parada cardio-pulmonar, insuficiência respiratória, SARA por Covid-19" é o que consta na certidão de óbito como causas da morte. Eu acrescento: falta de vacina, negacionismo, negligência, aposta na imunidade de rebanho, genocídio. Por duas doses de uma vacina que já existia. A dor da perda e a saudade são infindáveis. A revolta e a sensação de impotência, também. Sempre lembrar, para nunca esquecer daqueles que não tiveram chance de lutar com todas as armas.

* Vitória Bender é filha de Clésio Bender, falecido em 18 de julho de 2021, aos 49 anos, em decorrência da Covid-19.

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Os editores e editoras se reservam a fazer apenas pequenos ajustes ortográficos/digitação, mantendo o texto na sua forma original e a escrita espontânea dos autores e autoras.

Histórias e(m) Movimento

por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI

A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




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