Por Pâmela Copetti Ghisleni e Rafaella Copetti Ghisleni
Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/rt6Sc
O que é um pai, afinal?
A relação entre pais e filhos se constrói numa ambivalência no mínimo curiosa. Não sei o que é ser um pai, nem mesmo uma mãe, mas sei o que é ser filha de um pai presente. Então, acho que posso responder a essa pergunta.
Quando, aos 18 anos, me inscrevi para o vestibular de engenharia florestal e, como se a minha insanidade não tivesse limites, também para engenharia elétrica, meu pai silenciou. Não me encorajou. Mas também não me castrou. Apenas disse “vai, minha filha”.
Fui. E voltei. Uma semana de curso foi suficiente para perceber que aquilo não era para mim. Lembro da brisa fresca da noite de março na qual fui até a universidade para trancar o curso. Cheguei em casa e revelei o que eu achava que seria um escândalo (eu achava também que seria uma revelação). No aconchego do lar, vi que não era nem um escândalo e muito menos uma revelação. Meu pai limitou-se a dizer “eu achei meio estranho mesmo, mas também achei que você devia tentar para ver se gostava”.
E foi nesse exato momento, talvez um pouco tarde, é verdade, que eu percebi que tu, meu pai, me conhecias como ninguém.
Quando brigávamos, porque é evidente que brigávamos (eu sinto tanta falta do nosso “gritedo”, “gritedo” este que me situava no mundo e me fazia ver e sentir que em minhas veias corria o teu sangue e a tua potência), tu fazias questão de “cobrar” da mãe o que parecia ser culpa dela, mas na verdade tinha tudo a ver contigo: “mas, Liane, esta guria quer ter sempre a última palavra!”. Tu tinhas razão. Realizei-me profissional e também existencialmente fazendo Direito. Realizei-me ainda mais como advogada e professora e, nesse terreno que eu gosto de desbravar como quem abre uma picada a facão, é importante marcar posição, principalmente quando corremos o risco de querer que as coisas, o mundo e principalmente as pessoas mudem.
Quando publiquei meu primeiro livro e as caixas com a primeira tiragem chegaram aqui em casa, você saiu meio que à espreita com o celular à mão e lembro de ter pensado que tu não havias dado a importância devida para aquele momento. Ledo engano. Em poucos minutos, na rádio local, anunciavam que a filha do Jaime e da Liane e a irmã da Rafaella havia publicado sua primeira obra. Eu olhava para você, todo espaçoso sentado na sua namoradeira do quiosque, e via no fundo dos teus olhos marejados um orgulho tão bonito. “Estou fazendo meu pai feliz”, pensei, “é isto que um filho deve fazer para o seu pai numa relação em que existe amor e cumplicidade”. Choramos juntos.
Pouco antes de você adoecer, íamos a Curitiba para que eu fosse fazer o concurso público da Polícia Civil do Paraná (tu rias de mim dizendo que eu “não ia ‘dar muito certo’ como Delegada”; tu tinhas toda razão). Estávamos às voltas com os locais de prova, que não eram anunciados, justamente em meio à pandemia. Mesmo sabendo que eu não queria a carreira, tu achavas que eu devia ir. “Vai para treinar, minha filha”. Chorei (coisa que não costumava fazer; agora faço mais
do que gostaria). Eu definitivamente não sabia se devia, e nem mesmo se queria, ir. Tu então me disseste, com a firmeza que lhe era tão particular: “Minha filha, essa decisão é tua, é tu quem tem de saber se quer ou não ir”. Chorei mais. Quando os locais de prova foram finalmente anunciados, no sábado pela manhã, a menos de 24 horas da realização das provas, abri a porta do teu quarto e da mãe, que ainda dormiam, e sussurrei, sentada ao pé da cama: “pai, mãe, saíram os locais de prova”. Em uma fração de segundos, como num piscar de olhos, tu estavas de pé. Olhou-me com aqueles teus olhos pretos de jabuticaba, aquele bigode anarquizado, e disse-me, olhando-me no fundo da alma, “viu?!”, como se anunciasse que já devíamos estar na estrada. Decidi que não iríamos. E que bom que não fomos (as provas foram canceladas na madrugada do dia no qual seriam realizadas). Acho que tu me ensinaste a ser meio bruxa, a acreditar na minha intuição. É bonito pensar assim, mas a verdade é que você me ensinou, como dizem por aí, a “assumir os meus BOs” (e às vezes os teus também). Que homem sábio tu foste, meu pai.
O dia de hoje não dói mais ou menos do que o de ontem ou do que o de amanhã. Tu nem gostavas destas datas comemorativas mesmo. O dia de hoje dói como doem todos os outros. Mas hoje é o saudoso “Dia dos Pais”, e tu mereces mais um texto. As palavras, tão valiosas para mim, instrumento do meu trabalho, do meu dizer e do meu desdizer, são o presente que ainda posso te dar. Se tu não podes ouvi-las, que o mundo inteiro saiba, e que fique registrado para a posteridade, que eu tive o melhor pai do mundo.
Eu, Pâmela, acho que isto é um pai.
E como despedir-se de um pai?
É curioso pensar que podemos viver 100, 200 anos. A vida nunca vai nos preparar para despedir- se de um pai. Despedir-se de um pai é fazer o impossível, mas é fazer o que tem de ser feito. Despedir-se de um pai é dizer, uma vez mais, que ainda estamos juntos, e que sempre estaremos.
Entrar na UTI e me despedir de ti foi a coisa mais difícil que já fiz na minha vida. Antes de entrar, o Marlon pegou na minha mão e me disse "fala pra ele que se estiver difícil ele pode descansar". A Dinda Martha, que chegou lá em 5 minutos, me disse pra pedir pra que se ele tivesse um pouquinho de força, lutasse mais um pouco. Entrei e te vi saturando 80%. O pulmão expandindo quase nada. Nora lá em cima e a PA caindo. Alternei umas 15 vezes entre falar que se estivesse difícil, você podia descansar que a gente ia ficar juntas e bem, mas que se você tivesse forças e pudesse lutar mais um pouco, que a gente ia estar juntas e te ajudar no que fosse preciso. Alternava tanto porque eu sabia que você precisava descansar, mas não queria que você sentisse que eu queria que você descansasse.
Foi o dia mais difícil e triste da minha vida, e, assim como Chimamanda, peço a Deus pra que nunca haja um dia que supere esse.
Hoje consigo perceber que tudo que tu me ensinou na vida me preparou pra esse momento. Tu me ensinou a ser forte, a ser corajosa, a puxar a frente e seguir em frente. Me ensinou a ter voz, a não baixar a cabeça, a ser independente. Me ensinou que eu tenho de me entregar de coração pra fazer e defender o que acredito, pois é isso que dá sentido a vida. É olhar pra trás e ter orgulho do
que se fez, do que se viveu. E eu sei que tu tem muito orgulho da vida que viveu e de mim e da Pâ, onde quer que tu esteja. E quero que tu saiba que nós temos muito orgulho de ti.
Obrigada por ter me dado um amor tão grande que me preparou pra tudo nesse mundo, inclusive pra ficar longe de ti.
Eu, Rafaella, acho que isto é um pai, e acho que esta foi a forma que encontrei de dizer, uma vez mais, com as mãos agarradinhas, ainda que apartadas pelos EPIs, que eu te amo.
Ijuí-Porto Alegre/RS, 08 de agosto de 2021.
Das gurias do Jaime, Pâmela e Rafaella Copetti Ghisleni.
*Jaime Luís Cottens Ghisleni faleceu vítima do novo coronavírus em Ijuí/RS, no dia 31 de março de 2021, aos 61 anos de idade. Jaime chorava mais de alegria do que de tristeza. Na tristeza, calava- se. Quando formou as duas filhas, uma em Direito e outra em Medicina, chorou. Gostava de sonhar. E como todo bom sonhador, contagiou os outros com os seus sonhos, especialmente as duas filhas, que mesmo com os pés fincados no chão, também gostam de sonhar.
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Histórias e(m) Movimento
por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI
A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes de maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




