Por Gilmara Bueno
Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/CnpJB
Minha mãe, Conceição Bueno, 76 anos, faleceu de Covid-19 em 3 de março de 2021, na cidade de Passo Fundo – RS. Faleceu três semanas após os primeiros sintomas (ficou uma semana em casa, uma semana no leito do hospital e uma semana na UTI). Deixou dois filhos, além de mim: Paulo (54 anos), Alexandre (46 anos); e três netos: Arthur (20 anos), Felipe (14 anos) e Augusto (9 anos). Três semanas após seu falecimento, começou a vacinação para sua faixa etária.
Conceição partiu de forma súbita, quando vivia o melhor período de sua vida em termos de saúde. Havia superado um câncer de mama, em remissão desde 2017.
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O adeus por WhatsApp:
Vivenciei a dor de não poder vê-la, tocá-la, estar ao seu lado para lhe alcançar um copo de água, uma fruta, uma flor... oferecer meu carinho e minha presença. A imagem dela sozinha é muito vívida em minha mente. Através de vídeo chamada por WhatsApp, pude dizer a ela o quanto estava sendo forte e guerreira. Uma valente, cujo semblante transmitia paz e serenidade. E pude dizer também o quanto eu a amo!
Fui tomada por um enorme sentimento de impotência. Subitamente percebi, que mesmo sendo médica, naquele momento, nada podia fazer para ajudar, nada podia fazer para salvá-la. A doença seguia seu curso inexorável. Apenas orei e entreguei nas mãos de Deus nossas vidas.
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Conceição foi uma mulher alegre, cheia de vida. As crianças costumavam chamá-la de: “titia perfumada e colorida”. As amigas referiam-se a ela como: “alguém que Deus fez e jogou a forma fora”. Sim, ela era única e especial. Com seus expressivos e lindos olhos verdes, era cativante e empática. Dotada de temperamento expansivo, fazia amigos onde quer que estivesse. Era amada por todos e também amou os amigos e a família intensamente.
Sofreu grandes decepções, tristezas, incompreensões, traições, porém, nunca deixou a amargura tomar conta de sua essência, tão pouco o ceticismo. Seguia confiante no amor e na bondade. Generosa, afetiva era o elemento agregador da família. Priorizou a família em sua vida, amava as festas e a casa cheia. Foi minha referência de amor, meu modelo de mulher e ser humano, minha grande amiga e confidente.
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Faço agora uma reflexão que vem da música composta por Bono Vox (vocalista do grupo de rock U2). Bono a compôs em 2020 para esse momento da pandemia que estamos passando. Diz assim: “cante como um ato de resistência / cante apesar de seu coração derrotado / cante, quando você canta, não há distâncias / então, deixe seu amor ser conhecido”.
Eu canto para a minha mãe, que me embalou com cantigas de ninar. Que hoje embalam meus sonhos.
Mãe, canto para você a canção interpretada pelo grupo de tenores IL Divo, que se chama “Mama”.
“Mama (mãe)
Mãe, obrigada por quem eu sou
Obrigada por todas as coisas que eu não sou
Desculpe-me pelas palavras não ditas
Mãe, relembre toda a minha vida
Você me mostrou o amor e se sacrificou
Pense em todos os dias, desde o início
Como eu mudei ao longo do caminho...
Eu sei que você acredita
Eu sei que você tinha sonhos
Me desculpe se levei todo esse tempo para ver
Que eu estou onde estou
Por causa da sua verdade
Eu sinto sua falta
Mãe, desculpe pelas vezes que você chorou...
Desculpe-me por não fazer as coisas certas
E por todas as tempestades que eu possa ter causado
Eu estava errada, seque suas lágrimas, seque suas lágrimas...
Mãe espero que isso a faça sorrir
Espero que você esteja feliz com a minha vida
Em paz com todas as escolhas que eu fiz
Como eu mudei ao longo do caminho... pelo caminho”.
Obrigada, Conceição!
“Quando se diz obrigada, se dizem muitas coisas mais, que vêm de muito perto e de muito longe. De tão longe quanto a origem do indivíduo humano, de tão perto quanto o secreto pulsar do coração” (Kahlin Gibram).
Obrigada, Mãe!
Por ter acreditado no meu ideal, na minha utopia, no meu mundo de sonhos. Por ter escutado minhas angústias, alegrias e decepções, sempre como se fosse a primeira vez. Por acreditar que ainda chegarei a ser mais do que sonhei.
*Gilmara Bueno é médica psiquiatra com atuação em Porto Alegre – RS. Idealizadora e CEO da plataforma de saúde mental Junta Mente (www.juntamente.com.br).
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Histórias e(m) Movimento
por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI
A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




