Parte 1
Por Ivarlete de França
Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/eU7Fk
Não sei muito por onde começar, nem sei se esse é o começo, meio ou o fim, mas vou contar. Certa vez minha cunhada me presenteou com uma xícara de porcelana. Ela continha os dizeres: "Para uma Super Cunhada”. Ao me entregar a xícara, ela me recomendou quase como um pacto, que sempre ao tomar um café eu me lembrasse dela. Ela veio de Londrina, no Paraná, para Xangri-lá, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, onde residimos. Ela era uma pessoa que adorava viajar e aproveitou uma viagem que fez a Gramado para me trazer a xícara de lembrança. Eu fui a única da família a receber um presente naquele dia o que me deixou lisonjeada especialmente pelos dizeres. Minha cunhada significava muito para mim e se ela me via como uma super cunhada, isso demonstrava o sentimento de afeto e admiração recíprocos que nos unia desde os tempos da adolescência. Ao mesmo tempo, eu sentia nessa mensagem o peso da minha responsabilidade pelo fato de estar sendo vista com tamanha qualidade e virtude. Sei lá, só sei que eu fui eleita uma super cunhada. Por que razão eu me sentia tão viva? Afinal, era apenas uma xícara, dessas que são vendidas como souvenir em todos os lugares frequentados por turistas. Penso que os momentos em que passamos junto de alguém, compartilhando nossas dores, alegrias e sonhos, vivendo a vida com toda sua intensidade, nos torna capazes de experimentar sentimentos de grandiosidade e até mesmo de imortalidade. É como se o universo conspirasse a nosso favor - um processo natural do ser humano no sentido de se eternizar, especialmente no amor.
Minha cunhada era como uma irmã para mim. Ela era a irmã mais nova de três, e meu marido é o mais velho. O irmão do meio veio a falecer tragicamente, ainda muito jovem. Não bastasse essa perda, no mesmo dia em que ele morreu faleceu também a mãe deles, minha sogra, foi um sofrimento duplo. Após isso, ocorreu o falecimento do meu sogro, ficando somente ela, minha cunhada e o meu marido, os dois únicos membros da família ainda vivos. Meus pais também logo faleceram e nos deparamos unidas pela dor do luto, que infelizmente chegaria pra mim novamente.
Foi no auge da pandemia, enquanto procurávamos encontrar forças para sobreviver ao clima obscuro no qual fomos submetidos, que recebemos a notícia de que minha cunhada, o marido e um filho haviam testado positivo para o vírus. Ela mesma nos tranquilizou ao telefone dizendo que os sintomas eram leves e que não havia motivos para preocupação. Nós mulheres, somos sempre as cuidadoras da família, e como grande cuidadora, ela não arredou pé do lado do marido e do filho. O marido precisou ser entubado e ela não saiu de perto dele no hospital. Ao contrário dele, ela não tinha comorbidades, sua saúde era de ferro, como costuma se dizer na expressão popular. Nenhum deles havia sido vacinado, pois estavam na interminável fila de espera, aguardando sua vez. Logo, o coração da gente já começou se afligir. Em menos de uma semana, numa madrugada fria e sombria, uma voz desesperada ao telefone trazia a triste notícia de sua morte. Tivera uma parada cardíaca no momento da intubação, falava o meu sobrinho, enquanto parecia se sentir perdido, pois o pai ainda estava hospitalizado. Nessa hora, perdemos o chão. A incredulidade tomava conta da gente, milhões de perguntas sem respostas nos atormentavam todos os dias e noites. Tratava-se de uma pessoa saudável, então por que, por que, por quê? Fomos impedidos de fazer o ritual de passagem, de dizer o adeus final, de chorar ao lado do corpo, de abraçar os sobreviventes e oferecer conforto, de estar junto da família. Cada um sofria sozinho. A dor da perda se amplificou com a solidão, com a negação da despedida, com o cancelamento da presença daquele que se foi e de quem ficou. Quem fica, não fica, se vai também, mergulhado no escuro de não poder ver de perto aquele que partiu.
Tomada pelo desânimo, eu só sabia lamentar a ausência e os planos que fizemos para o ano de 2022, quando nos encontraríamos em Curitiba para comemorar minhas bodas de ouro. Tudo tinha ido por água abaixo e aquela sensação de impotência parecia interminável. Foi quando eu vi o chamado numa rede social de um amigo querido que se recuperava da infecção pela Covid-19, para compor um coletivo de pessoas, vítimas e familiares das vítimas da Covid 19, e que tinha o objetivo de dar voz aos que se encontravam alijados dos espaços de fala e de representação. Senti que era ali onde eu poderia ser acolhida e também acolher os que sofriam as dores das perdas pelo luto. Refleti muito antes de me colocar à disposição, pois ainda continuava lutando para enfrentar minha dor. Pensei: nada melhor do que um café para nos ajudar a tomar decisão. Foi quando a força das palavras, gravadas naquela xícara, com os dizeres "Para uma Super Cunhada”, me impulsionaram a contribuir com esse projeto sensível, acolhedor e humanitário, que se propõe transformar nossos lutos solitários em uma estratégia de luta coletiva – “do luto à luta”. Pela primeira vez, além das lembranças sofridas, a xícara de café assumiu seu verdadeiro sentido para mim! Hoje, integro a Associação das Vítimas e Familiares das Vítimas da Covid 19 – AVICO como Diretora de Saúde e faço parte do seu Grupo de acolhimento e apoio psicológico às pessoas enlutadas.
*Ivarlete Guimarães de França é Psicóloga, especialista em Saúde e Pós Graduada em Saúde e Trabalho pela UFRGS. Iva, como é carinhosamente chamada pelos amigos, é também ativista em Direitos Humanos e Saúde Mental, diretora de Saúde na Avico, bem como Integrante do Fórum Gaúcho de Saúde Mental. Iva, está em processo de elaboração do próprio luto, amenizado no coletivo.
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Histórias e(m) Movimento
por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI
A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




