Por Tatiane Silva da Silva
Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/tYX27
Há 10 meses e 15 dias fizeste a passagem para o mundo espiritual, ainda assim, tem dias que me pego tentando acreditar no que aconteceu... Naquela sexta-feira do dia 18/12/2020, perto das 15h30, você entrava no SAMU, só estava “meio amarelinho”, segundo me relataram... E, no mesmo instante, começava o meu desespero para chegar em Porto Alegre o quanto antes, pois só conseguia pensar no teu medo de estar num hospital, porque tu era assim, tinha medo de quase tudo (rsrsrs), mas era parceria para os filmes de terror, deixava o medo de lado e assistia só para me acompanhar...
Enquanto aguardava na rodoviária, um milhão de coisas passavam pela cabeça, não conseguia pensar racionalmente, era um misto de sentimentos que disputavam espaço com rezas e súplicas e, obviamente, o discurso que estava na ponta da língua, pois claro que eu iria te cobrar explicações! Tudo em vão...
Às 18h tu perdias o bem mais precioso: a vida. Engoli o discurso, mas não o choro. Choro ao lembrar que tiraram tua chance de se vacinar, porque esse governo medíocre atrasou o máximo que pode a aquisição das vacinas pela ganância do dinheiro. Choro porque tu tinhas uma vida inteira pela frente, só tinha 48 anos. Choro pelas coisas que não farás com o teu guri (o orgulho da tua vida), choro pelos sonhos e planos interrompidos. Choro porque tínhamos a certeza que coisa boa não viria desse governo, antes mesmo das eleições, tinha algo maligno pairando no ar e já estávamos em sofrimento. Choro porque tu não me ouviste… e pelas diversas vezes que te pedi para ficar comigo, pois, aqui, os casos eram baixos. Choro porque tu dizias que estavas bem e, provavelmente, naquela altura já sabias que não resistirias à doença. Choro porque sabia que tu estavas com muito medo e não falaste nada para não me preocupar. Choro quando passam as programações que combinávamos de assistir juntos, choro quando termina um filme e não tenho a tua opinião e, antes, sempre trocávamos os pontos de vista acerca dos filmes...
Tudo me leva a lembrar de ti. Nesses quase 10 anos, fazíamos tudo juntos (mesmo à distância), éramos nós pra tudo, sempre.
Diante de todo o horror exposto na mídia, difícil não me perguntar "Por que te foste tão rápido? Anteciparam tua partida? Te deram remédios sem eficácia comprovada?" Afinal, todo mundo vai morrer um dia, tu serias apenas mais um naquele momento… Será que teu porte de não atleta valia a exaustão dos médicos? Será que decidiram quem morreria ou viveria? Será que viram uma oportunidade de se pouparem de trabalhar?
Meu choro não é pela morte em si, porque ela é a única certeza da vida, meu choro é pela injustiça de terem usurpado tua vida sem nenhum escrúpulo, de propósito, de caso pensado, coisa antiga, afinal, a meta era matar uns 30 mil e a pandemia só facilitou a intenção.
Aos que elegeram esse governo genocida, meus parabéns, atingiram o objetivo com sucesso. Que vocês tenham vida longa e plena, porque gente de mentalidade rasa, atrasada, tacanha e todos os maus adjetivos que existirem nesse mundo são insuficientes para denominar vocês. Certamente vão precisar de muitos e muitos anos de vida para refletir as malezas pensadas e cometidas e, ainda assim, será pouco tempo pra limpar todo o ódio espalhado por vocês neste mundo. Estou tentando retomar a paz que me tiraram na marra, porque sou muito maior que vocês, em sentimento e espírito.
Aprendi muitas coisas contigo nesse tempo. Em vida foste meu farol, nada mais justo te retribuir agora. Te celebro a cada dia e vou celebrar até o fim da vida. Quero que recebas toda a iluminação possível. Provavelmente estás agitando aí em cima, gostavas de ser o centro das atenções em vida e não poderia ser diferente agora. Te imagino cercado de luz, sob uma chuva de flores celestiais e bons espíritos. Fica bem, aí. Vou ficar bem, aqui. Até porque nós merecemos. Te lembrando, amando e venerando.
P.S: Ficas me devendo as verificações nos textos que eu sempre te pedia.
* Tatiane Silva da Silva, 44 anos, natural de Porto Alegre, estou engenheira civil concursada no município do Rio Grande desde fevereiro de 2019. Namorava com o Iuri desde abril de 2011.
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Histórias e(m) Movimento
por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI
A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




