Por Patrice Schuch
Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/jxCEb
Minha mãe morreu num 07 de setembro. De súbito. Feriado nacional, foi um dia silencioso. Eu estava em casa com Luísa, minha filha, então com 3 anos. Em minha pressa para ir ao hospital, fui parada por Luísa, que pediu para ir junto, “ver a vovó”. Mas nunca mais a viu, apesar da minha insistência ao pé de ouvido de minha mãe, desacordada e já sem chances de qualquer vida. Naquele momento, pedi para ela voltar, disse que a esperávamos para fazer um bolo de chocolate, daqueles que só ela mesma sabia fazer, daqueles que nós adorávamos. Lembro, depois do velório, de ir à casa dos meus pais. Foi lá que comi a ambrosia feita um dia antes por minha mãe, uma delícia que ela tinha aprendido a fazer com a minha avó, mãe dela. Era uma receita de família, daquelas que todo mundo tem uma, mas enfeita para ser a sua. A dela, de minha mãe, naquele dia, em cada colher que eu degustava tinha a certeza de ser única. A única e a última.
Minha mãe não morreu de Covid-19, mas em decorrência de uma trombose. Morreu também sem ar, não por um vírus, mas por um trombo. A dela, uma doença silenciosa que pegou todos nós, a família, em desaviso. Por algum tempo, pensamos sobre a inevitabilidade de sua morte, tentando descobrir como poderia ter sido evitada, postergada, preterida. E se (...)? A sensação era de que a minha mãe ainda tinha muito a viver, mas a pressa da morte nos encheu de escuridão, tristeza e desamparo. Em mim, esse sofrimento não desapareceu, mas convive com as boas lembranças de uma vida de amizades, de sorrisos e de cuidado. Virou saudade: uma “solidão acompanhada”, como definiu poeticamente Pablo Neruda[1]. Com a saudade, veio também o acolhimento da finitude que me atravessa – e a todos nós. Afinal, é porque morremos que a vida, os afetos e a procura do outro tem sentido. Pensemos nos mortos, então.
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“O que morre quando as pessoas morrem? O que existe e resiste quando os mortos são lembrados? Qual é o lugar da morte na vida dos que sobrevivem?” Essas questões animam o vídeo “Evocação”, produzido por um coletivo de antropólogas e antropólogos para homenagear e honrar os mortos do Brasil de 2020[2]. Mortos da violência. Mortes da indiferença. Mortes do preconceito. Mortes da intolerância. Mortos da pandemia da Covid-19:
“Mortes classificadas como naturais que poderiam ser adiadas, mortes identificadas como violentas que deveriam ser evitadas. Mortes morridas e mortes matadas, vidas interrompidas pela intolerância, atingidas pela indiferença, ameaçadas pela ignorância. Morrer que transforma a própria morte ao mostrar que a vida não tem um só fim. Viver que se manifesta nos encantamentos de honra aos mortos e faz do nascer e morrer lutas, parte de caminhos que se cruzam em si” (Evocações, 2020).
Mortes que provocam lutos e lutas. Lutas que eternizam nomes, rostos, corpos, sabores, cheiros e memórias das pessoas que deixam saudade. Lutos que inscrevem politicamente as mortes que se acumulam – até setembro de 2021, já eram mais de 580.000. Mortes que interrogam sobre sua inevitabilidade. E se houvesse um programa eficaz de distanciamento social? E se houvesse uma política de testagem? E se houvesse vacina mais cedo? E se houvesse infraestruturas econômicas, sociais e de saúde adequadas para o enfrentamento da pandemia? E se, para muitos, importasse uma e tantas mortes? Se a morte pode evocar a vida, o genocídio não. Ele fala apenas de destruição do outro. Da violência. Da eliminação da palavra. Do terror.
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Escrevo esse texto em 07 de setembro. Estamos em 2021. Feriado nacional, é um dia barulhento. De madrugada, adoradores do presidente Jair Bolsonaro – em sua maioria brancos e de camadas médias da população brasileira - invadiram a Esplanada dos Ministérios, desejando a derrocada da democracia. A partir da violência e do medo, acionam a morte como um espetáculo do extermínio do outro. Em contraposição, perto dali, acontece a II Marcha das Mulheres Indígenas, cujo tema é: “Reflorestando mentes para a cura da Terra”. No manifesto lançado pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, escrevem:
“Estamos em busca da garantia de nossos territórios, das que nos antecederam, para as presentes e futuras gerações, defendendo o meio ambiente, este bem comum que garante nossos modos de vida enquanto humanidade. Para além de mero recurso físico é igualmente morada de espíritos das florestas, dos animais e das águas da vida como um todo, fonte de nossos conhecimentos ancestrais”[3].
Nessa política da coexistência posta em prática pelas guerreiras da ancestralidade, entrelaçam-se mortes e vidas, lutos e lutas. As mortes tornam-se perdas que abrem espaço para novos caminhos, projetos, solidariedades. Um reflorescer. Talvez seja essa a mensagem que importa para hoje. Flores-Ser. Quem sabe, esse movimento nos leve à criação de um novo passado. Oxalá, à invenção de um futuro ancestral. Nenhuma morte terá sido em vão.
* Patrice Schuch é doutora em antropologia social, professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS e pesquisadora do Projeto “A Covid-19 no Brasil: análise e resposta aos impactos sociais da pandemia entre profissionais de saúde e população em isolamento” (Convênio Ref.: 0464/20 FINEP/UFRGS) desenvolvida pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI. Email: patrice.schuch@gmail.com
[1] “Saudade. Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já… Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida… Saudade é sentir que existe o que não existe mais… Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam… Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou. E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido. (Pablo Neruda).
[2] O vídeo “Evocação” (2020) foi apresentado no 32 Reunião Brasileira de Antropologia, realizada em novembro de 2020 e pode ser acessado, juntamente com a sua ficha técnica, a partir do seguinte link: https://expo.abant.org.br/evocacao/
[3] Sobre isso, ver: https://anmiga.org/marcha-das-mulheres/
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Histórias e(m) Movimento
por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI
A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes de maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




