Por Cláudia Dantas Pinto de Sousa
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Há meses sentia a necessidade de exteriorizar meus sentimentos de angústia e revolta provocados pelo passamento de minha afilhada e sobrinha Gianni. Revolta porque, com apenas 34 anos e transbordando vida, foi retirada de seu sonho e projeto de, em um futuro próximo, experimentar a plenitude da maternidade.
Há 34 anos, ela chegou para alegrar minha família. Ainda tinha meses, quando sua mãe, minha irmã, separou-se do seu pai e, assim, toda a família ganhou uma filha, uma sobrinha e uma neta. Para todos resumido em uma única palavra: filha querida e amada.
Com espírito alegre e extrovertido, não escondia seus sentimentos. Muitas vezes, devastava o ambiente com suas explosões. Vivia para ver um sorriso nos lábios de cada sobrinha que amava incondicionalmente. Por outro lado, se algo a descontentasse, não media palavras para esbravejar suas raivas e frustrações.
Entretanto, um dia mostrou-se cansada em estado gripal. Cinco dias se passaram, esse cenário não deu trégua e silenciosamente invadiu seu pulmão. Nesse momento, uma frase marcante para seu pai: - não consigo ficar sentada, meu pai, sinto-me muito cansada – e assim foi galopante a deterioração de sua saúde. Um dia depois, segundo domingo de maio, não pode compartilhar a mesa com a figura feminina mais importante de sua vida: sua mãe! Pela manhã, procurou ajuda, embora tardia. Adentrou os corredores do hospital , e a partir daí somente mensagens dela pelo “whats app”, o restante do dia queixando-se de fraqueza. Um dia após, o quadro se agravou, as enfermeiras nos acalmavam com telefonemas de acalento e assim mantínhamos a esperança. Jamais passava em nosso pensamento um acontecimento pior.
O fim da tarde veio como um crepúsculo; pois a médica de plantão, amiga de infância da Giannni , dizia com os olhos seu verdadeiro estado de saúde. E assim foi, nas horas derradeiras do dia dez de maio de 2021, após uma tentativa de intubação, seus últimos suspiros de vida foram dados.
Esse triste acontecimento com minha sobrinha querida e com milhares de outras pessoas me pôs a refletir sobre o caos que nos encontramos. Se há um culpado por essa tragédia, que seja divinamente perdoado pelo mal que está conseguindo fazer à humanidade!
* Cláudia Dantas Pinto de Sousa, 49 anos, professora da rede estadual de São Paulo há 27 anos. Casada há 31 anos e moradora de uma pacata cidade de Salesópolis, berço do Rio Tietê.
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Histórias e(m) Movimento
por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI
A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




