Z: Zonas, Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas
Por Ana Paula Mendonça, Laura Copelli, Lívia Dinnebier e Martina Kipper
45′ antes
Sábado à tarde, sol entre entre nuvens, enquanto vozes, passos e o barulho do trânsito ecoam no ar e nos guiam pela orla morna do Guaíba até um dos cartões-postais da capital gaúcha, o Beira-Rio. Ao se locomover na sua direção, os pontos vermelhos que vão se acumulando como um rastro de formigas retornando ao ninho não escondem que hoje é dia de jogo do Inter.
A tarde começa serena. O trajeto, seja ele de carro, ônibus ou a pé, até o ponto de encontro que são os lugares já tradicionais para os colorados, como a Padre Cacique e o Parque Marinha, vai ganhando vida aos poucos. A partida, pela 33ª rodada do Brasileirão, entre o Inter e o Bahia é vista como uma corda bamba para os colorados, que estão em risco de rebaixamento para série B, enquanto o Bahia vive um momento mais estável, mas ainda busca melhores resultados fora de casa. Nos bares em frente ao estádio grupos de amigos que se reencontram e conversas se misturam ao burburinho. Nesse som todo, percebem-se as especulações ansiosas, a tensão, a esperança por uma vitória e até o pragmático “se a gente empatar, já tá bom”, que circula entre os torcedores.
À medida que nos aproximamos, as vozes se unem em um chamado, um clamor que vibra no ar, criando a sensação de que estamos prestes a entrar em um show que já iniciou. Não deixa de ser um show, mas é na verdade o aquecimento da “Guarda Popular”, uma das torcidas organizadas do Sport Club Internacional, que se reúne para ir ao encontro do ônibus do Internacional chegando para a partida. Os integrantes tocam os instrumentos de percussão como se acendessem o coração da torcida, cada acorde tocado cria um som pulsante e junto com os clamores, entoam o canto que demonstra amor ao clube. A música cantada durante o percurso afirma que a derrota não é uma opção, além referenciar e homenagear Fernandão, ídolo do time campeão da Libertadores e do Mundial em 2006, que faleceu em 2014.
“Colorado, hoje eu vim te ver
Ponha raça, não podemos perder
Te levamos dentro do coração
Essa barra que honra o Fernandão.”
Em meio à vibração das canções tem-se a sensação de que o jogo já começou antes do apito inicial. As músicas ocupam o espaço público, neste caso o estádio, e transformam em um território afetivo, onde diferentes torcidas organizadas, cada uma com suas próprias sonoridades, se unem em uma harmonia sonora.
Além disso, há uma convergência de estilos musicais em cada área das proximidades do Beira-Rio, cada grupo com seus próprios gostos musicais, mas com um único propósito de estar ali em um sábado de sol. A disputa do espaço público e suas diferentes sonoridades, ali, enfrentam poucos desafios. Além da simpatia dos torcedores entre si pelo amor em comum pelo time, o Beira-Rio possui arredores amplos e organizados, possibilitando que cada um dos grupos aproveite o momento com suas próprias expressões sonoras. A entrada e os arredores do estádio são de uma serenidade imensa, talvez o último suspiro dos torcedores frustrados com a situação atual de seu clube.
10′ antes
Ao entrar no estádio pelo Portão 9, que leva à cadeira superior ao lado da torcida adversária, aquela alegria elétrica transcorre no corpo. O gramado surge como um enorme tapete verde, e a expectativa pelo que está prestes a começar se intensifica. Dali, observamos as diferentes torcidas quase como espectadores de um teatro: estamos acima da organizada do Inter, a Camisa 12, e no lado oposto da Popular. Nessa seção do estádio, o ambiente é mais calmo. Na sua maioria, são famílias e torcedores mais velhos, que acompanham o jogo de forma mais contida, sentados, em contraste com a energia mais vibrante das arquibancadas do outro lado.
Pelas caixas de som, toca o hino do Internacional, anunciando que a partida se aproxima, enquanto o público vai ocupando seus lugares. Quando começa o anúncio da escalação, o estádio se transforma em um espaço onde a opinião coletiva se manifesta. Cada nome provoca uma resposta: vaias secas para alguns, aplausos calorosos para outros, criando um mosaico sonoro que revela o humor da torcida antes mesmo da bola rolar. Com o início do Hino Nacional, alguns se levantam, poucos cantam, e logo em seguida o foco se torna definitivamente coletivo, fixando-se nos jogadores que entram em campo.
(Áudio com a apresentação dos jogadores do Internacional no início da partida)
Quando a bola começa a rolar a sensação no Portão 9 é que estamos em um jogo de tênis, visto que os sons que mais ressoam no setor são as palmas quando um jogador realiza uma jogada boa ou o goleiro defende os chutes a gol do Bahia. Mesmo estando próximo da Camisa 12 não é possível reconhecer as músicas cantadas pelo grupo, uma vez que o som se dispersa e as canções da Guarda Popular ressoam mais alto.
A entrada pelo portão 7 é menos amigável, torcedores com pressa buscam passar rápido pelas catracas e se integrarem a torcida no setor mais democrático do estádio. Sem assentos, apenas amparado pelas barras clássicas de um estádio de futebol, é ali que a banda da Popular se estabelece. Entre faixas, bandeirões e bateria, a sensação é de euforia. Neste jogo em específico, grandes hastes com a bandeiras nas cores do Rio Grande do Sul estão espalhadas pelo setor.

Torcida colorada leva bandeiras do RS para estádio
0′ – 25′
Antes mesmo de o apito soar, a banda da Guarda Popular já inicia a torcida. O som do tambor reverbera pelo estádio e é o coração, não apenas daquele setor, mas de todo o Beira-Rio. O canto da torcida demora a esquentar e a tensão presente no ar é palpável na falta de disposição dos torcedores de se envolver com o alento. Até o primeiro gol, o canto e as reações tem gosto de uma expectativa frustrada que o torcedor não deseja experimentar de novo em uma nova partida.
É gol de Carbonero, e a torcida vibra: será que hoje sai os três pontos? O alívio foi passageiro, o VAR anulou o gol. Aqui, a torcida fica – se é que era possível – ainda mais tensa. Aquele gostinho de esperança frustra um torcedor já exausto e isso reflete nas reclamações e gritos da torcida.
25′ – 52′
Logo, essa linha tênue, tensionada ao máximo que é a insatisfação da torcida, relaxa quando Inter garante um gol ainda no primeiro tempo. O torcedor se permite comemorar, mas com cautela, e os cantos vibram ainda mais através do Beira-Rio.
Ao se aproximar da área superior próxima à Popular, instantes antes do gol marcado pelo Vitinho, parece que entramos em outro estádio. Agora não mais de uma partida de tênis e sim do verdadeiro futebol. Uma vez que as sonoridades emitidas pelos torcedores tornam-se mais nítidas, pois os colorados deste setor entram em um ritmo, aumentam o volume do canto e deixam que as mãos subam e desçam ou batam as palmas, criando uma coreografia coletiva. Gritos de “vaiii” “vamo inter” “chuta” “uuuuuh” se misturam aos cantos e tambores. E cada gesto e som parece incentivar o time a buscar mais gols ao mesmo tempo em que transforma o ambiente em uma atmosfera vibrante e descontraída.
Felipe Trotta afirma que “as músicas têm um papel importante de compartilhar pensamentos morais e desafiá-los” (Trotta, 2023, p. 29) e entendemos que seus significados são resultados de avaliação e expectativas morais do ouvinte e a forma que ele interpreta as mensagens presentes. No contexto das torcidas do Internacional, os cantos vão além dos ritmos, eles reforçam identidades coletivas e compartilham crenças.
(Áudio com os cantos da torcida)
E falando em cantos de torcida, não tem como ir a um jogo do Inter e não se deparar com as provocações dirigidas ao rival (mesmo quando ele não está presente). Um dos cantos mais icônicos da torcida se espalha atrás do gol, com um ritmo pulsante, carregado com um sorriso debochado de quem o canta. Ouvimos:
“Sempre louco atrás do gol
Acendendo um do bom
Eu voou
Matar um puto tricolorE depois de me chapar
A cerveja acabar
Eu voou
Matar um puto tricolorVaamo Inter
Hoje temos que vencer
Vaamo Inter
Hoje temos que vencerDale dale dale ôôô”
Essa relação simbiótica entre os times chama a atenção, e chega a ser engraçada. Afinal, muitos podem admitir que a graça de ser do Inter está em zoar o Grêmio, e que ser do Grêmio só faz sentido porque existe o Inter para provocar. A rivalidade é, assim, parte essencial da identidade gaúcha e do espetáculo do futebol local.
Intervalo
Com o primeiro gol garantido, o clima melhorou entre os colorados. Após o apito e o início do intervalo, é possível escutar uma coisa quando a banda da Popular para por um instante: tem mais bandas no estádio. Isso adiciona mais uma perspectiva a análise dessa tal linha tensionada que relaxa e estressa conforme o torcedor reage ao jogo, em momentos de insatisfação ou vibração coletiva e momentos de canto motivados pela banda da Popular.
Acionando os conceitos do artigo de Marra e do Vale (2020), uníssono refere-se aos momentos em que uma coletividade se expressa como uma só voz, uma sonoridade homogênea, sincronizada, que simboliza coesão e alinhamento entre os participantes. Já balbúrdia diz respeito ao oposto: à multiplicidade sonora, à desordem produtiva formada por diferentes vozes, ritmos e intenções que coexistem no mesmo espaço, gerando um ambiente complexo, heterogêneo e nem sempre harmônico.
Idealmente, os momentos de uníssono em um estádio seriam aqueles em que toda a torcida se reúne a cantar em uma só voz uma música durante o jogo, mostrando sua força em volume sonoro. Entre os colorados, no entanto e inclusive neste dia, existe mais de uma torcida organizada, e portanto mais de uma música sendo cantada e mais de uma banda tocando durante o jogo. Os momentos de união nos cantos costuma acontecer em grandes partidas, decisivas ou finais, o que não vemos neste dia.
A reflexão que cabe ser feita é que talvez os verdadeiros momentos de uníssono, frente a esse cenário, foram aqueles em que a torcida reagiu como uma só durante o jogo, vibrando com o gol ou xingando e resmungando durante a análise do VAR. Esses foram os momentos que verdadeiramente a torcida mostrou sua força como uma só. Existe uma inversão, então, do que a balbúrdia representa nesse caso. Aqui, a balbúrdia existe nas manifestações múltiplas das torcidas, que geram menos impacto como um todo comparado com os momentos de comemoração e reclamação.
(Áudio com um dos famosos cânticos da torcida do Internacional)
52′ – 60’
O segundo tempo iniciou com a dominância do colorado e um gol aos 49’, e é possível ouvir um suspiro de alívio ecoar pelo estádio. O nó que estava bloqueando o fôlego do colorado ao cantar as músicas é retirado. Nesse momento, a banda toca as músicas mais conhecidas pelo público e a manifestação sonora fica ainda mais forte. O time brilha com a vibração do público e também parece espelhar o ânimo das arquibancadas. Parece que é a pressão do canto vibrando e impactando os corpos, que por vezes submete os jogadores do time adversário a falha em frente a goleira. Com o canto ecoando e a sensação de ter todos os olhos em seus movimentos, o Bahia perdeu inúmeras oportunidades de gol neste meio tempo.
60’ – 106′
O futebol como qualquer outro esporte é uma caixa de surpresa e a qualquer momento pode ter uma reviravolta.
No portão 7, ao lado da Popular, o clima é tenso, diferente de outras partidas, não há crianças correndo pelos níveis da arquibancada ou sobre as barras para balançar as faixas no ritmo do canto. O momento de revolta com o desempenho do time dispersa os presentes e diminui a presença de muitos frequentadores ao estádio. Com a baixa densidade, o clima é tenso e o odor de cigarro toma conta do espaço, o tempo chuvoso colabora com pingos eventuais sobre nossas cabeças, que estão descobertas por conta do setor escolhido.
É neste clima, com o sabor da vitória na boca da torcida colorada que, nos seis minutos de acréscimos finais do jogo, aos 94’ o Bahia conquista a bola e faz o gol final da partida, transformando o sabor alegre em tristeza e nervosismo pela fase do time que piora a cada derrota e empate no campeonato.
Com o placar 2 x 2 o Internacional e os colorados que pensavam que os 3 pontos na tabela do Campeonato Brasileiro estavam garantidos. O que, minutos antes era festa, se transforma e se apaga como uma vela, as palmas param e o coro se transforma em gritos de revolta. O que demonstra a capacidade de reconfigurar coletivamente os discursos musicais conforme o decorrer da partida, reafirmando expectativas e julgamentos sobre o time e o desempenho em campo.
Apito final
O som do apito final explode em todos os cantos do estádio quebrando a expectativa de mais um gol dos colorados. Aos poucos, em meio ao silêncio e passos lentos surgem murmurinhos que expressam descontentamento com o desempenho do time. Sair de um jogo em que a vitória parecia tão perto e empatar tão próximo do fim deixa um gosto amargo difícil de engolir. Deixar o estádio vira quase uma caminhada da vergonha, como pegar o trem de manhã, ainda com roupa de festa, enquanto todo mundo ao redor está a caminho do trabalho.
Para a despedida do time, não ouvimos aplausos ou felicitações. Na verdade, é entoado o hino “Vergonha, vergonha; Time sem vergonha”, um dos cantos de protesto mais genéricos do país, visto que é usado por todos os torcedores insatisfeitos.
No setor 7 o clima de insatisfação esvazia a arquibancada em minutos, as faixas são retiradas com rapidez e os corredores internos são reflexo do resultado insatisfatório. Ao passarmos pela parte externa do estádio, onde dirigentes estão presentes, parte da torcida protesta contra a administração do clube, com palavras de ódio e xingamentos, e o presidente, Alexandre Barcellos, é cobrado pelo desempenho e baixa nas vitórias do time, que começou a temporada de 2025 como nunca antes. Assim como afirma Marra e Do Vale (2020, p. 320)
” A rua emerge como o espaço no qual agentes vivenciam, enfrentam e questionam os fluxos de informação, imagens, sons e slogans políticos que circulam nas mídias tradicionais e novas, bem como onde aparecem e disputam a visibilidade pública que dissemina suas pautas e garante a legitimidade de suas reivindicações.”
(Áudio com protesto dos torcedores contra os dirigentes do Sport Club Internacional)
Nos arredores, nada convida para que a festa continue. As ruas esvaziam rápido e os sons da torcida viraram lembrança, os bares não enchem e o torcedor quer ir para casa. Tal qual a noite termina silenciosa nos arredores do Beira-Rio, assim como começou, também se recolhem os sons que, por algumas horas, deram forma a um território vivo. Ao longo do jogo, a torcida desenhou no espaço aquilo que podemos associar com o texto de Proto (2019), que apresenta o conceito de um território resistente: um lugar criado e sustentado pelo som, onde corpos, vozes e relações humanas constroem uma comunidade em movimento, “O som parece existir, desta forma, como vetor político, agenciador abstrato de uma micropolítica da escuta e da fala, produtor de lugares-a-ser.” (Proto, 2019, p. 112). No estádio, essa paisagem sonora é a expressão da identidade de quem é colorado, da mística de um dia de jogo, formada desde os clássicos cantos, os gritos, risadas, e brigas, do batuque que marca o passo da massa, até do silêncio atento que antecede um gol.
Entendemos assim, que os sons que atravessam o Beira-Rio não são apenas ruídos do futebol: são símbolos culturais. A camisa vermelha, o copo na mão, o ódio ritualizado ao rival e o próprio Gigante que hospeda a festa se tornam parte de um mesmo repertório sonoro-afetivo. É uma cartografia sonora que desenha o que significa ser colorado.
De tal forma, essas sonoridades se traduzem como gostos, origens, histórias, valores e incômodos. Se condensam em corpos e vozes que afirmam pertencimento, mas também marcam fronteiras: quem canta, de onde canta e para quem canta. E quando o estádio se esvazia e o barulho se desfaz no ar, o território permanece na identidade coletiva. A paixão colorada tem como parte de si o som como forma de existência compartilhada, como gesto de resistência e celebração, como uma festa que o Gigante abriga e que renasce, inteira, a cada novo jogo.
REFERÊNCIAS
PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.
TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v17i2p25-48.
MARRA, P. S.; DO VALE, A. B. M. Uníssono e Balbúrdia: Sonoridades de protestos e manifestações políticas de rua no Brasil. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, p. 317–339, 2020. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/27445. Acesso em: 26 nov. 2025.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de coisas.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.