Por Turma do Seminário de Cultura e Comunicação 25/2
Kiki. Parecia quando tu tá boiando no mar, mas parece quando tu tá de ressaca boiando no mar, com água embaixo do ouvido, ouvindo motor do barco, e o barulhinho da areia. Não ia aguentar o tempo inteiro, e fui no banheiro. Dava pra ouvir um sonzinho, uma
melodia. Eu fui na vibe da praia. A primeira palavra foi sereia, depois seguie e parecia que a voz dela fazia o movimento de vem e volta, e o resto parecia areia, com ondinhas de vem e volta. O riff grave da guitarra me lembrou algo feminino e erótico, como algo tendencioso. Parecia sons de sereia, tava ouvindo água, e os sons estridentes era como se fosse piratas fazendo uma incursão no navio, mexendo em corda. Parecia uma preparação bélica. Eu fui pro céu, escrevi burburinho de espíritos -> barulho do vento, fundo de montanha. Fiquei sentindo o grave enquanto essa coisa de baixo, o fundo, e
a voz, soava muito etéreo, quase um burburinho de vozes etéreas. Eu fui por essa linha, imaginei como se fosse um deserto, como se tivesse um cristal no meio do deserto
refletindo as luzes. Eu fui pra floresta, e quando tu falou de onça eu falei “aha, ela também tá lá”, e fiquei viajando com o azul. E teu pé tava pra cima, e já fui anotando um
monte de coisa. Pé de Poesia. Me apeguei muito a parte material e imaterial. Pedra, cartão, caneta, escova, todos esses materiais somem quando fecham os olhos, viram
imaterialidade. Mexendo as orelhas, dependendo do ângulo o som entrava dentro de mim. Cada som tinha uma cor. Parecia que tava caminhando para algo, e quando começou o beat, chegamos em casa, todo mundo no circuluzinho. Eu também senti um ambiente urbano, mas era tudo deserto, tinha só a minha personagem principal. Eu fui pra dentro de mim mesma. e me deparei com meus desconfortos. Acompanhar a mosca com os olhos, tava meio em trase, desfoquei de tudo e fiquei acompanhando ela. Senti estar em outro plano. Escrevi barulho, sóbrio. Senti que tipo no inicio tudo tava do lado
esquerdo, mas arrepiou só o braço direito. Da metade pro fim, veio mais pra cá, até que não sei veio para esse lado. As cores de tudo era verde-limão, mas era laranja, doi o
olho, e perola. Eu quando começou, fechei o olho, parece que tudo fica mais intenso. De alguma forma isso me preenche, transborda, sussurra arranca, zumbido chuva couro, macabro. Depois o beat começou parecendo rap, e escrevi casa. Eu acho que essa questão quando tu fecha os olhos parece que tem uma unidade assim, uma coisa…
Eu adorei que a linda tossiu. Eu não conseguia parar de tossir. Foi muito porque não sabia quando ia acontecer, mas ao mesmo tempo era o único som constante. Atmosférico. E mais pro final quando começaram a testar algumas coisas, escrevi que o som me engole. Coloquei algumas do ambiente, começou aqui no claro, depois fui pro escuro, senti o ar condicionado, escuro, fiquei estranhando a luz fria que é branco, mas ao mesmo que é
calor, senti essas coisas mistas assim. Eu coloquei uma frase, uma hora parecia que eu tava dentro da caixa de som. Senti eu to me sentindo muito mal, eu não consegui
sentir nada, me senti muito mal e desconfortável, fiquei presa na cadeira. Gente eu preciso compartilhar. Zonza, dor e a escova de dente. Eu me prendi a voz pra
conseguir sair desse ciclo. Em várias momentos eu me senti numa trilha sonora de filme de suspense, filme de terror. Em alguns momentos, me senti na natureza, ondas, passáros. Eu tava tentando entender muito o que tava acontecendo, mas quando começou o beat familiar, pareceu chegar em casa, é como se eu tivesse tentando
entender uma língua e agora eu finalmente to fluente. Eu acho que pra mim foi ao contrário, eu foquei mais no abstrato, quando chegou no ttututu, eu fiquei ah..
Quando eu grudei o ouvido na mesa foi algo diferente. Dá uma vontade absurda de perceber todas as coisas e tem que escolher sempre, ou dá pra perceber de olhos
abertos, fechados, desfocado, focado, sentindo numa superfície, é meio chato ter que escolher. A coisa dos olhos fechados eu senti mais, eu queria só escutar, e daí
virava de costas. Eu queria que tivesse tudo escuro, queria dançar um pouco.
O texto acima é uma produção coletiva da turma do Seminário de Cultura e Comunicação 2025/2. No dia 19/11, fizemos, em parceria com Isabel Nogueira (@belmedula), professora do curso de Música Popular da UFRGS, a oficina “Cartografando pela Escuta”. A proposta era que os alunos escutassem uma jam session que misturava uma bateria eletrônica, uma Loop Station (máquina que produz loops de áudio) e uma guitarra sendo distorcida através de pedais, e assim produzissem uma cartografia da sua escuta. Das sensações e relatos individuais, retiramos trechos e compomos uma trama coletiva de traduções de escuta.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Mais uma vez, a disciplina eletiva Seminário de Cultura e Comunicação, oferecida no âmbito da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, foi ocupada por uma Zona Autônoma Temporária (cf. Hakim Bey) em que os alunos foram provocados a produzir textos muito pouco formais sobre experiências musicais e sonoras que ocorrem na urbe metropolitana. A discussão sobre a ocupação do espaço público, do viver e ser feliz no meio dos prédios, das caçambas de lixo, de caminhar por onde deveriam passar os carros, de beber à noite pelas calçadas onde, de dia, passaram trabalhadores de cabeça baixa, foi uma das tônicas dos nossos encontros, que ocorriam nas noites de quarta-feira.
Provocar os alunos a viver uma experiência concreta, ao invés de produzir materiais para as redes socais foi um imperativo que insistimos, pois cada vez mais a experiência da web tem se tornado “bege”, um espaço para se sentir apático, o lugar por excelência da “enshitificação” provocado por algoritmos e LLMs que oferecem nada mais do que slop.
Enquanto as imperfeições da produção eletrônica humana são varridas para fora da web pelas supostas inteligências artificiais, propomos voltar-mo-nos às experiências mundanas, a enfrentar a frustração, o desapontamento, mas também a euforia e a alegria de celebrar coletivamente.
Nem sempre a festa que a gente vai é um rolê bacana. Quase sempre pegar um trem é uma experiência cansativa. Mas ser capaz de falar sobre estas experiências de forma afetiva, sensível, poética até, devolve a potência política da experiência coletiva. Algo muito necessário no mundo em que vivemos, ou deixamos de viver.
Nesta edição, temos sete textos, todos redigidos por grupos de alunos. Organizamos como se fosse uma longa jornada estendida: Começamos com Andar na linha, de Arthur Mezzacasa, Augusto Schu e Manu Couto, que nos oferecem um relato sobre a experiência sonora de viajar em trem metropolitano. Seguimos com Beira-Rio Eu Sou, E o Som Também, que ausculta as atividades sônicas da torcida do Sport Club Internacional de Porto Alegre nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino 2025, escrito por Ana Paula Mendonça, Laura Copelli, Lívia Dinnebier e Martina Kipper. Anoitece e é hora de partir paraEncontros e Desencontros de Bar em Bar, texto de Bruna Bösing Minho, Ignácio Cordeiro, João Vítor Debiasi e Mariana Reyes: o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS leva milhares de estudantes às ruas de Porto Alegre para perambular pela região boêmia da cidade, após ter sido proibido de realizar o evento há pouco tempo.
Já na noite, é hora de ir para a festa, ou melhor, para seis festas diferentes. Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes nos contam Como não ficar até o final de uma BatukBaile, ficando quase até o fim da festa e lidando com as decepções da fotógrafa oficial não tirar fotos suas, mas também atentando sobre a importância de espaços afirmativos para pessoas pretas dentro do rol de festa dedicada à música afro; Amanda Schultz, Cecília Filappi, Giovanna Depentor e Rafaela Bobsin nos levam a uma festa onde é Proibida a entrada de homens (só acompanhados de mulheres), e nos mostram como é significativo que ainda há a necessidade de espaços seguros para que mulheres consigam curtir as festas em paz; Guilherme Vivan, Linda Schwarz, Luiza Weiler, Nicoly Ramão e Raquel Bruhn, interessados em pensar como músicas e ritmos estrangeiros são consumidos no Brasil, comparam uma festa de latinidades com outra de K-Pop no texto Entre o rebolado e a coreografia; e Clarissa Chaves, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes dão o famoso virote, saindo de uma festa noturna de música eletrônica noturna para iniciar a manhã do dia seguinte em uma cafeteria que toma música eletrônica, experiência descrita emClubbing Sessions: Do acid techno ao iced coffee.
De forma geral, quisemos fornecer aos alunos um ambiente onde a principal discussão fosse em torno das sonoridades. Os textos que trabalhamos ao longo da cadeira abordavam a forma como cultura, música e som se imbricam produzindo territórios políticos e de significação. Tentando produzir uma escuta diferente nos estudos em comunicação, usualmente dominados pelo ocularcentrismo, nesse semestre procuramos apresentar para a turma perspectivas alternativas de investigação dos fenômenos, principalmente aquelas que dão conta do som e da música como agenciadores de comunicação, destoando dos estudos usuais pautados pela investigação da imagem como principal fenômeno de análise.
Agradecemos em especial à Profª Drª Isabel Nogueira (@belmedula) pela sua parceria na Oficina de Cartografias da Escuta que oferecemos no dia 19/11, e que gerou diversas reverberações não só entre os alunos, como entre nós também! Muito obrigado Bel!
Também agradecemos aos estudantes Manu Couto, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes por terem realizado a capa desta edição.
Boa leitura!
Texto publicado na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
por Clarissa Chaves, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes
Por volta de setembro ou outubro deste ano, enquanto scrollava a aba de Reels do Instagram, me deparei com um vídeo que me apresentou algo que ainda não conhecia: o soft clubbing. Eugene Healy, mestre em Comunicação e criador de conteúdo, descasca a prática de maneira sagaz, amparado por autores como Mark Fisher, e já na sua fala de abertura, ele descreve o soft clubbing como mais um produto de controle da psique no capitalismo tardio. Sem que pulemos precipitadamente para às conclusões e deixando o aparato acadêmico em segundo plano por um momento, o soft clubbing foi uma descoberta que instigou a curiosidade, porque seu próprio conceito era para mim inexistente antes do momento em que vi aquele vídeo. O que será que toca em uma festa assim? As pessoas bebem? As pessoas dançam como em uma pista de dança mais usual? Que tipo de pessoa que vai ouvir um set de DJ pela manhã?
Já sabia que existiam pessoas que não gostam muito de sair e preferem ficar em casa assistindo a uma série em algum streaming, em vez de dividir o ambiente com centenas de pessoas entorpecidas ouvindo música. Porém, propostas como o soft clubbing nos levaram a pensar qual seria o motivo pelo qual este movimento existe. Pois, se existe o soft, fica subentendido que também existe o hard. Se o soft é ouvir house em um café, o hard é ouvir um acid em um galpão abandonado.
O soft clubbing se propõe como uma balada diurna; consiste em festas acompanhadas de DJ sets que ocorrem majoritariamente em cafeterias durante o final da manhã e início da tarde. A bebida alcoólica, o combustível mais comum e mais fortemente consumido na vida noturna, pode estar presente ou não, à depender da demanda. A partir dos dados de pesquisa de comportamento da geração Z consultados pela Eventbrite — que corresponde, creio eu, sobre os hábitos do norte global, não é especificado —, site estadunidense de marketplace de eventos, a VICE bate o martelo sobre soft clubbing: é literalmente a nova rave. Seu caráter de novidade mostrou que o cenário porto alegrense ainda não dispõe de uma grande variedade de eventos soft, mas a demanda é preenchida principalmente pelo projeto Torra Sessions, promovido pela empresa de comunicação FeedMe, além de ter se tornado uma estratégia ligada à identidade de marca dos estabelecimentos, como no caso da XOX Coffeeclub, cafeteria localizada no bairro Floresta.
Em contrapartida, a cena musical de Porto Alegre, em especial a cena de música eletrônica tem buscado conectar o público com as experiências sonoras que atravessam a cidade de forma cada vez mais frequente. Considerando como a pandemia de coronavírus afetou diretamente as práticas e eventos que aconteciam antes de 2020, o ano de 2025 prova que o fazer coletivo da cultura pôde se reestruturar com o decorrer do tempo e agora expande, com novos coletivos artísticos conquistando seu espaço e diversificando ainda mais as sonoridades das pistas. Por exemplo, Batukbaile e Afrojams, estabelecidos respectivamente em 2024 e 2025, são coletivos que vão colocar diversos ritmos negros no centro do seu som; Boiler Baile, de 2023, vai borrar ainda mais a barreira imaginária entre a eletrônica e o funk. Já Sensi, de 2025, nos convida a explorar as pontes entre o Brasil e a Jamaica através do ragga. É claro, estamos falando de um nicho específico dentro da música local e que apesar da sensação de uma virada cultural protagonizada pelas CDJs e DDJs, seus sons plurais e muitas vezes ruidosos, Gabriel Bernardo (Marginália Metropolitana, 2025) não é tão otimista quando aponta que a relevância desta cena apesar de indiscutível pelo viés da cultura, ainda não atingiu o rompimento da barreira do mainstream que permitiria um alcance em escalas maiores do que a regional e maior retorno financeiro por parte dos artistas, que até o momento, não é expressivo. Na plataforma Substack, o ensaio de título infame everyone wants to be a DJ, no one wants to dance ganhou grande repercussão nas esferas musicais ao tratar sobre o aumento da cena não somente como um fortalecimento da expressão artística difuso como no conceito de contágio que Eduarda Fernandes trabalha no seu capítulo na Marginália Metropolitana, mas como este processo de expansão também acontece em razão da necessidade de comodificação da própria produção artística. Se vivemos em um momento da hipervalorização da produtividade, da otimização do tempo, da busca por capitalização do lazer, o criador (neste caso, o DJ) é um empreendedor e ocupa uma posição hierárquica maior do que o contemplador (a pista), porque dentro desta lógica neoliberal, sua habilidade se converte em produto com valor social e financeiro agregado, enquanto o ato participativo de estar em contato com a música como atividade de lazer, por sua vez, torna-se um ato de consumo. E adivinha? Isso por si só não é produtivo, a não ser que se converta em em um novo produto (como conteúdo para redes sociais). A autora Dani Offline coloca, “As creation gets conflated with entrepreneurship, making art becomes an experience, a lifestyle, to be bought and sold.” De modo geral, a classe artística — que vale ressaltar, é historicamente e sistematicamente desvalorizada — estar em uma efervescente proliferação não é apontada por ela como um problema, mas como uma consequência do modelo econômico.
Coletivos de arte e música fazem parte de uma economia participativa e que, ao analisarmos os exemplos citados anteriormente, são compostos por corpos plurais que realizam o trabalho de potencialização e protagonismo de vozes advindas de grupos sociais marginalizados através das atividades por eles propostas. Um dos diferenciais de eventos promovidos por coletivos é a lista afirmativa que funciona de maneira a facilitar a participação de pessoas sistematicamente oprimidas, como pessoas trans e dissidentes de gênero e pessoas pretas e pardas, iniciativa que se mantém incomum para casas de festas mais tradicionais e populares. Outro diferencial é a ocupação de espaços não convencionais, como praças e prédios históricos negligenciados pelo órgão público. Através da música, da pista, da dança, esses espaços são ressignificados e adquirem novos propósitos antes sequer considerados. Festas em espaços públicos propõem uma inclusão ainda mais abrangente de pessoas com maiores dificuldades de exercer o seu direito ao lazer, como pessoas em situação de rua, por exemplo. Essas estratégias de democratização cumprem o papel de dissolução da hierarquia DJ e pista promovida pelos ideais neoliberais e de hierarquias sociais; a pista não é uma simples consumidora com poder aquisitivo para o acesso àquele espaço, sua identidade é valorizada e assim torna-se participante ativa das experiências sônicas em conjunto com quem está do outro lado da controladora. Em uma passagem do livro, Fernandes explica: “Para além de uma mera “importação” das referências globais, a música eletrônica — ou melhor, as festas de música eletrônica — também podem ser pensadas como transgressoras de muitas dinâmicas e hierarquias. Não é que não existam sacralizações ou diferenciações; mas, nesses momentos específicos de comunhão de pista, as fronteiras ficam nebulosas, e as práticas que são convencionalmente estigmatizadas e impuras ganham um quê subversivo.”
Assim, este ensaio busca compreender onde estas duas maneiras de experienciar a música num ambiente social convergem e divergem uma da outra, em outras palavras, o que faz o soft ser soft e o hard ser hard. Tomando como inspiração a trajetória metodológica que os pesquisadores por trás do artigo acadêmico Inimigos do fim: apontamento sobre o circuito de “afters” no Recife (MONTEIRO, Gabriel et al. Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no
Recife. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. UFF. Niterói – RJ. 23 a 26 de julho de 2024) nossa proposta seria que essas experiências fossem o mais contínuas possível, considerando o bem provável desgaste físico como parte da experiência empírica. Para arquitetar nosso roteiro, foi realizado um mapeamento de eventos de hard e soft clubbing que houvessem datas compatíveis com os membros do grupo, se possível com a proposta de continuidade, e sobretudo, que o valor dos ingressos dos eventos coubessem em nossos bolsos. Tendo em mente o último critério, o primeiro evento soft a ser considerado foi rapidamente descartado de forma cômica, devido ao valor de R$350,00 por ingresso. Um cálculo de porcentagem simples evidencia que esse preço corresponde à 23% do salário mínimo atual. No mais, a estratégia de comunicação da produção do evento não foi transparente — o post no Instagram informava que o evento era aberto ao público e referenciava um link de compra na bio que não encontramos lá. Somente um dia antes do evento, através de um conteúdo de influenciador publicado como stories, conseguimos nos informar onde esses ingressos estavam sendo vendidos e qual era o valor. De forma alguma esse acontecimento foi considerado um obstáculo para nossa exploração, na verdade, tornou-se um próprio objeto sujeito à observação: um delimitador de público bem estabelecido e difícil de ignorar. Por fim, a proposta se concretizou na festa do “Na boca do sol” do Coletivo Plano e na coffee party da XOX Coffeeclub nos dias 15 (sábado) e 16 (domingo) de novembro, o que totalizou em por volta de 12 horas de pista. Dois autores do presente texto estavam presentes na etapa de rua da festa durante o período da tarde, seguindo para o grupo completo navegando a etapa de after e soft clubbing nas horas subsequentes.
Na boca do sol, literalmente
Coletanêa de momentos da Plano de rua.
Vídeo por Clarissa Chaves.
Clarissa – relato da Plano de rua
A ansiedade para conhecer o Coletivo Plano já começou na semana que antecedeu o evento. Como a minha única experiência com festas eletrônicas não tinha sido das melhores, e esse seria o primeiro contato com um lugar novo, estava pensando em tudo: o que vou vestir? Que bolsa eu levo? Será que eu vou beber? E se me der mal-estar? Mas então nós chegamos à nossa primeira parada: Plano de Rua. Ela aconteceu no meio do Parque Marinha, o que me chocou. Sabia que seria ao ar livre, não que seria ao lado de uma pracinha com crianças brincando. Logo de cara vi a mesa dos dj’s, o telão com imagens passando, as luzes coloridas se espalhando com o gelo seco. As pessoas, cada uma no seu mundo, curtindo como bem entendiam. Acho que o que mais me encantou foram as diversas particularidades presentes em um só espaço. Tinham famílias, grupos de amigos que estavam aproveitando o dia na volta e, ao ouvir o som, resolveram se aproximar, além, claro, das pessoas que se organizaram para atender o evento.
Logo de cara avisei o João Guilherme, meu amigo, também autor desse texto, que sou uma pessoa que ama observar o ambiente, gosto de ficar “viajando”, o que se provou ao longo da noite quando nos desencontrávamos no espaço porque eu havia parado para tirar alguma foto, ou o abandonado para fazer carinho em uma cachorra, chamada KUSH ( KUSH é um subtipo da Cannabis), que, segundo o dono, foi levada para ser ponto de reabastecimento de serotonina, algo que eu posso confirmar a eficácia.
Eu, Clarissa, e minha mais nova amiga, Kush
Vídeo por: João Guilherme Gomes.
Eu queria me sentir livre para aproveitar do meu jeito, mas como uma fiel overthinker fiquei pensando sem parar “será que é óbvio que é a minha primeira festa assim? Como que dança? Acho que eu estou meio esquisita dançando assim”. Entretanto, quando o álcool entrou no meu corpo, tudo isso sumiu da minha cabeça, e eu percebi que ninguém estaria prestando atenção em mim, porque cada um está aproveitando o próprio rolê, assim como eu. Eu estava em um lugar com uma música incrível, luzes lindas, pessoas tão unicamente peculiares, me preocupando com o que os outros vão pensar de mim? Acho que não!
Acredito que, se a Plano de Rua acontecesse pelo resto da noite, eu gostaria de ficar noite adentro. Como chegamos às 18h, e a festa — teoricamente — acabava às 22h, me arrependi de não ter ido antes, assistir o pôr do sol e aproveitar mais aquele ambiente. Mesmo assim, consegui curtir bastante cada segundo. Acho que a música “libertou” a minha inner clubber.
Em certo momento fomos ao Front, grudados ao DJ, sentindo a música até a última célula do corpo, parecia que tudo ficava mais leve, o que é um tanto contraditório, visto que a música é mais “pesada”, por assim dizer. É um conjunto de barulhos que separados são caóticos e até “bagunçados”, mas juntos formam algo harmônico e energizante, como se fosse uma tela de arte abstrata. Durante a troca de artista, houve uma curta fala, na qual ele disse “Isso é de nós para nós”, o que ficou na minha cabeça a noite toda, porque isso é Coletivo, coletivo de pessoas, sons, vidas.
João Guilherme – relato da Plano de rua
A expectativa já se instalou no sábado de manhã, logo ao acordar. A empolgação em levar uma pessoa nova para conhecer algo que eu admiro, e depois ela poder me devolver a mesma experiência, parecia ser algo incrível. Parecia que estávamos montando um briefing, pois a Clarissa tinha muitas perguntas a fazer e eu, como amigo e guia particular dela nessa missão, respondia a tudo com muita empolgação.
É normal que haja uma curiosidade ao estar prestes a conhecer algo inédito. Eu não poderia ficar mais feliz pelo fato da Clarissa ter tantas dúvidas, afinal isso mostra que ela estava interessada em realmente viver a nova experiência.
Assim com ela eu também tinha as minhas dúvidas, e elas eram muitas como: “Será que ela vai gostar?”, “Será que ela vai aguentar até o final?”, “Será que ela vai gostar das pessoas que vão estar lá?”. Só que, diferentemente das dúvidas dela, eu não tinha ninguém para me respondê-las de prontidão; o que eu podia fazer era apenas esperar.
Depois de tudo estar devidamente alinhado, partimos então para o local onde tudo aconteceria. Quando chegamos ao local, já era por volta das 19h, então já havia bastante gente, tendo em vista que o evento começava às 16h. Nossa primeira preocupação ao chegar foi procurar algo para beber, pois é humanamente impossível ir a uma festa que toque só música eletrônica e não estar ao menos um pouco bêbado.
Com isso resolvido, eu quis levar a Clarissa para o front, logo de cara, para ela ver de perto como a qualidade do som era boa — e eu nem digo do gênero, mas sim das caixas mesmo. Queria que ela visse o pessoal tocando e a performance que estava tendo também. Quanto mais detalhes eu conseguisse mostrar para ela, melhor.
After
Globo em formato de Mickey acima da mesa do DJ no after da Plano
Foto: Clarissa Chaves.
Clarissa – relato do after da Plano
Após um primeiro contato incrível com a Plano de Rua, estava com as expectativas lá no alto – algo que eu não costumo fazer para evitar decepções. O álcool já havia evaporado do corpo no intervalo de quase duas horas que se deu entre a parte inicial da noite e o After, o que eu considero o principal culpado pela percepção que tive do evento. Chegamos lá e ficamos um tempo no fumódromo, iluminado com luzes verdes e decorado com bancos, cadeiras e plantas. Podíamos escutar a música, o tuts tuts vindo do lado de dentro, misturado com o burburinho das diversas vozes do lado aberto. O ar estava quente, abafado, meio pesado, mas, do lado de dentro, a energia era um tanto diferente, mesmo que não muito. As luzes coloridas refletindo em um globo de espelhos acima do dj era o charme, mudando de acordo com a música – que, por sinal, estava meio morta ao meu ver. O público também era completamente diferente: não tinham famílias ou pessoas que estavam passando e se interessaram pela cena, mas haviam jovens elétricos, que planejaram a ida à festa, que se programaram. O máximo que se via eram pessoas que, após a Plano de Rua, resolveram atender o after, mas seguiam o certo padrão do pessoal.
Acredito que em lugares cuja cena é conhecida por ser mais alternativa, espera-se que as pessoas sejam muito diferentes entre si, mas eu não percebi tanta diferença assim. Obviamente, não existe um padrão imediatamente identificável, mas, ao prestar atenção de verdade, todos – ou quase todos – têm várias características em comum: o jeito de dançar e balançar a cabeça, o óculos escuro, os olhos fechados que passam a impressão de que o indivíduo estava prestes a atingir o seu buddha.
Observar essas novas perspectivas foi interessante, e, mesmo querendo ficar mais tempo, não consegui. Não sei dizer se o problema era eu, mas realmente não me senti confortável naquele lugar. A energia estava pesada, o cheiro, inexplicavelmente, era esquisito, vazio. Tinham várias pessoas, mas, ao mesmo tempo, parecia não ter ninguém.
Com certeza daria uma segunda chance, mas, como primeira impressão, não foi a melhor.
João Guilherme – relato do after da Plano
Chegamos ao after relativamente cedo, por volta das 23h, depois que a etapa da rua havia se encerrado. Dirigimo-nos a um lugar para comer, a fim de nos preparar para o que estava por vir. Ao chegarmos, repliquei o mesmo esquema com a Clarissa: mostrei-lhe todo o ambiente, falei sobre os DJs e apresentei-a a pessoas que conheço e são assíduas na cena.
Por conta de o ambiente ser fechado e as chances de desencontro serem menores, fiquei mais tranquilo em não estar a todo momento ao lado dela, afinal Gezebel também estava lá, junto a pessoas que são da FABICO. Contudo, diferentemente da rua, o after estava estranho; não era a mesma energia do pessoal que estava antes. Eu já havia alertado Clarissa para prestar atenção na diferença entre o público da rua e o do after, pois ela é notável. O pessoal que frequenta a rua nem sempre vai ao after, pelo simples fato de o evento ser gratuito, o que atrai muita gente que deseja apenas ouvir um som legal em um lugar público.
Já o público do after tinha uma energia mais forte, mais presente, como é de se esperar de um ambiente que toca hard e acid techno a noite toda. Algo que considerei uma atitude legal por parte do coletivo: na semana do evento, eles enviaram mensagens na comunidade do Instagram chamando a galera para ir, mesmo quem não estava com dinheiro para o after (provavelmente oferecendo ingressos cortesia), para que pudessem curtir o evento com eles, pois faziam questão de que todos pudessem fazer parte desse coletivo.
Mesmo já conhecendo o evento, os DJs, o espaço e as pessoas, fazia um certo tempo que eu não frequentava; então, desta vez, eu também estava ali com uma sensação de primeira vez, ainda que momentânea. O espaço, de fato, estava com uma disposição diferente, e as pessoas também eram outras. Creio que a Plano vem se popularizando tanto que está atingindo novos públicos; era notável que era a primeira vez de muita gente ali. Isso é bom, pois Porto Alegre quase nunca apresenta algo novo e, quando apresenta, muitas vezes dura pouco tempo, já que não existe demanda suficiente para manter aquilo vivo.
Foi bom poder levar meus amigos para conhecer algo novo dentro de uma cidade tão limitada, onde tudo é o mais do mesmo e nada mais proporciona aquele frio na barriga de antecipação e ansiedade pelo que pode acontecer.
Gezebel – relato do after da Plano
Ir para festas de eletrônica é uma prática de encontrar conhecidos. Seja na entrada, na pista ou no fumódromo — mas especialmente no fumódromo — encontros e desencontros são mais recorrentes do que parecem. A primeira pessoa que vi ao chegar lá foi um familiar meu que trabalha com segurança de eventos, quase sempre presente nos fritos da cidade. Quando encontro outras pessoas conhecidas nestes espaços, compreendo que o motivo de nós estarmos ali é, sobretudo, a música. Mas por encontrá-lo com mais frequência em casarões aleatórios do que em festas de família, me pergunto se a música eletrônica é um fator diferencial ou não, se é do agrado dele e se, talvez se não estivesse à trabalho, fosse estar na pista dançando com todo mundo. Será que existe um appeal?
O after da festa Plano aconteceu no Garden, casa noturna no bairro Navegantes. Dada a distância de 9km entre os locais que aconteceram as duas etapas da festa, o próprio coletivo apresentou uma solução para os clubbers diurnos, oferecendo três viagens gratuitas em uma van fretada para facilitar o deslocamento.
A pista estava cheia e se manteve cheia até o momento que parti. Os corpos lá presente se moviam e dançavam com a batida do som alto, cada um da sua forma, e quando me permiti apenas sentir essas vibrações, fui engolida pela batida. Por um momento, meu corpo também fez parte daqueles tantos outros, e a pista deixou de ser uma aglomeração de pessoas para se tornar um único corpo vivo, conduzido pelo DJ e em sintonia com o ritmo. O calor escaldante é comum em espaços de pista, já que corpos grudados e suados estão em movimento; quando ocupo o front, o ar pesado dificulta minha respiração, mas vejo isso como uma das consequências desse espaço de disputa. Diferente de outras experiências prévias de pista, o ar condicionado gelado que refrescava o espaço garantiu um conforto maior para a atividade de dança. Naquela noite, com o volume de pessoas que preenchiam a pista, não investiguei o front, assim, não posso concluir se a experiência agradável de quem estava mais ao fundo era a mesma de quem estava coladinho no DJ.
Por fim, percebi que apesar do trabalho visual lindo para compor o espaço — um “globo” espelhado no formato da cabeça do Mickey Mouse refletia a luz dos fortes e coloridos holofotes — as pessoas à minha volta não estavam tirando fotos. Me senti até um pouco constrangido com essa observação, agora ciente de que era o único ali com uma câmera erguida enquanto todo mundo dançava. Esse reality check me pôs no lugar e me disse: vai curtir à noite.
Do acid ao açúcar, XOX Coffeeclub
Fotos do ambiente interno da coffe club
Fotos: Clarissa Chaves
Gezebel – relato do XOX Coffeeclub
Saída diretamente do Pinterest, a cafeteria XOX Coffeeclub nos recebeu com um ambiente aconchegante e pronto para ser fotografado. Jogo de luzes interessante e coloridas, as paredes azuis, letreiros legais. O espaço era preenchido por um DJ set leve de ambient house enlaçado à músicas pop, muitos decibéis mais baixo do que na noite anterior; com cadeiras, mesas e sofás à disposição e um cardápio repleto de opções de cafés, bebidas alcoólicas e comidas. Aquela manhã em específico não contava com um público total maior do que 20 pessoas. Com o movimento reduzido, as mesas que ficam em frente a pista não foram retiradas como em outras vezes em que houveram coffee parties, visto em registros presentes no Instagram da cafeteria. Dentre o público, a observação curiosa foi de que o espaço não era muito diversificado. Por exceção de um, todos os clientes eram pessoas brancas. A relação das pessoas com o espaço e com a música também aconteceu de um modo diferente — captações de vídeos e fotos através dos smartphones eram mais frequentes e usuais. Fosse um curto story do set, fosse uma selfie no belíssimo espelho do banheiro, fosse um click da comida disposta de uma maneira harmônica pro dump, estar neste espaço ia além da experiência material e sensorial, ela clamava por registros que pudessem a confirmar. E eu também não agi diferente; captei imagens para compor este ensaio como também postei algo quando adentrei no espaço. Me parece sua funcionalidade primária.
Eu não concordo com a frase “Come for the coffee, stay for the vibe” presente em um dos letreiros, mas ela possui, sim, um fundo de verdade. Por um lado, visitar a XOX foi revigorante. O café que pedi estava uma delícia, a música era ok, com algumas decisões do DJ sendo melhores do que outras, no geral, uma atividade tranquila e agradável para começar o dia de domingo tentando se livrar da ressaca. Por outro lado, um dos maiores pontos negativos da cafeteria é a sua localização, que fica há 10km de distância de mim, somado ao difícil acesso via transporte público. Mas talvez isso não seja um dos pontos considerados por empreendedores que abrem novos comércios na região do 4º Distrito. No entanto, as ruas compridas e vazias repletas de galpões fechados, terrenos à venda e, vez que outra, um outro comércio são o oposto de um ambiente convidativo. Cafés, restaurantes e minimercados são estabelecimentos que desempenham funções pra além do consumo, funcionando como uma expressão da comunidade do bairro e como ela socializa. Se eu pudesse cruzar com a XOX Coffeeclub no meu caminho, com certeza ela desempenharia o trabalho de me cativar à adentrar o seu espaço para consumir, mas ela acaba sendo um pontinho azul no mapa, o perfil que eu vejo no meu Instagram e o “Local de destino” do meu Uber.
Acredito que soft e hard clubbing são experiências sonoras consideravelmente diferentes, em suas propostas, seus aspectos de execução, nos gêneros musicais que abrangem e seus públicos-alvo. De tudo, posso dizer que a VICE me fez superestimar o que tal tipo de evento poderia ser — se o público frequentador de festas de eletrônica já existe dentro de um nicho que não corresponde necessariamente com a totalidade de pessoas que saem de casa buscando o lazer em ouvir música, o soft clubbing propõe não uma segmentação financeira pra este nicho, mas um novo nicho completamente novo, produzido por e para um público de maior poder aquisitivo, e assim, higieniza a potencialidade subversiva, ruidosa e suja do clubbing.
Clarissa – relato do XOX Coffeeclub
Logo de cara o XOX Coffee Club dá um sentimento de “uou”. É um ambiente meio futurista, com uma proposta contrária aos lugares que visitamos na noite anterior. Como cafeteria, é um espaço incrível, bonito, superinteressante. Agora no quesito coffee party deixou a desejar. Eu já fui em outras coffee parties, então imaginava que seria minimamente parecido, mas não.
O único fator em comum à experiência que já tive era a música, fora isso, nada. O Torra Sessions apresenta a proposta de um ambiente para networking entre criativos, um lugar com comidas, música, café e criatividade. Enquanto isso, o XOX tem uma proposta mais simples: aproveitar um café com amigos escutando um house. Acredito eu que, por ser mais novo e menos consolidado, a coffee party que atendemos não tinha muitas pessoas, era meio morta, meio sem energia. Parecia que as pessoas iam lá apenas para fazer a mídia do instagram e pronto. Ninguém conversava com outras mesas (outra coisa que difere do Torra, no qual todos ficam em pé, rodando e conversando), apenas permanecia na própria bolha.
Inclusive, que bolha! Enquanto a Plano apresentava uma diversidade enorme entre os indivíduos, a XOX não tinha nenhuma. Ninguém parecia estar lá para compartilhar experiências e ver pessoas diferentes.
Acredito que a intenção faça toda a diferença nessa experiência. Ao visitar um café cuja proposta é “come for the coffee, stay for the vibe”, eu espero que a tal vibe seja inexplicável, que tenham várias pessoas e seja um evento! Provavelmente foi inesperado estar com um público tão pequeno nesta edição, visto que em registros de outras vezes havia mais audiência, por isso estranhei tanto esse quesito.
Com certeza frequentaria novamente o café, com um grupo maior, de repente, com uma intenção diferente. Inclusive, já vi no instagram que haverá uma outra coffee party com uma doceria que amo, então estou pensando em ir.
João Guilherme – relato do XOX Coffeeclub
Diferente das minhas duas colegas, que foram para casa e descansaram pós-Plano, eu fui para a casa de outras amigas e fiquei o resto da noite/manhã lá. Ou seja, fui virado para o café. Realmente, fui o inimigo do fim. Quando cheguei no XOX, a música estava alta. Logo ao lado da porta, havia uma mesa com quatro pessoas, e elas estavam bem animadas. De começo, prestei atenção na música: eram remixes house de músicas pop. Lembro que todas as pessoas que estavam lá estavam em grupos de, no mínimo, três. Todos estavam muito animados. Mesmo com a música alta, ainda era possível ouvir as vozes das pessoas, que precisavam falar mais alto do que o som presente no ambiente.
Fiquei com uma sensação de vergonha, pois eu estava com cara de quem ainda não tinha dormido e, por conta disso, fui obrigado a usar óculos em um ambiente fechado, onde as pessoas vão para tomar café. Mas percebi que ali havia outras pessoas usando óculos também, então logo desapeguei da vergonha. O espaço era muito bonito; seguia uma estética cool, com várias placas iluminadas com frases que, com certeza, alguém iria fotografar para postar nos stories. Dentro das cabines dos banheiros, era tudo vermelho — desde o vaso até os azulejos da parede. O corredor tinha espelhos que iam do chão até o teto. O ambiente parecia todo planejado com um objetivo: entre aqui, faça sua foto e nos marque no Instagram.
O instagramável se estendia às comidas e aos cafés também; todos tinham apresentações muito bonitas. Ao contrário do que pensei, não havia ninguém na “pista de dança”. Mesmo o ambiente contendo cadeiras, ainda havia um espaço grande para que as pessoas pudessem ficar em pé e dançar, caso quisessem, o que me fez pensar por qual motivo as pessoas iriam a um lugar onde toca música se estavam apenas sentadas, bebendo e comendo. Ainda assim, gostei de ir lá, mas acho que não seja o tipo de ambiente em que as pessoas vão para dançar e conversar, pois elas estão em suas “bolhas coletivas”, e, mesmo em um espaço social, preferem se manter dentro do próprio mundo.
Em contraste com a Plano, onde todo mundo performa intensidade e suor, o XOX parece funcionar como o avesso dessa experiência: um lugar pensado milimetricamente para ser visto, mas não necessariamente vivido. No fim, a diferença mais gritante entre os dois espaços não é a música nem o cansaço; é a maneira como cada ambiente revela como a gente consome o social hoje. Na Plano, a gente vive o momento; no XOX, a gente fabrica o momento para postar depois.
E talvez a verdadeira reflexão esteja aí: no fato de que estamos cada vez mais cercados de gente, mas nem sempre de presença.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e Estagiário docente Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas, zumbidos e um zilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Por Ana Paula Mendonça, Laura Copelli, Lívia Dinnebier e Martina Kipper
45′ antes
Sábado à tarde, sol entre entre nuvens, enquanto vozes, passos e o barulho do trânsito ecoam no ar e nos guiam pela orla morna do Guaíba até um dos cartões-postais da capital gaúcha, o Beira-Rio. Ao se locomover na sua direção, os pontos vermelhos que vão se acumulando como um rastro de formigas retornando ao ninho não escondem que hoje é dia de jogo do Inter.
A tarde começa serena. O trajeto, seja ele de carro, ônibus ou a pé, até o ponto de encontro que são os lugares já tradicionais para os colorados, como a Padre Cacique e o Parque Marinha, vai ganhando vida aos poucos. A partida, pela 33ª rodada do Brasileirão, entre o Inter e o Bahia é vista como uma corda bamba para os colorados, que estão em risco de rebaixamento para série B, enquanto o Bahia vive um momento mais estável, mas ainda busca melhores resultados fora de casa. Nos bares em frente ao estádio grupos de amigos que se reencontram e conversas se misturam ao burburinho. Nesse som todo, percebem-se as especulações ansiosas, a tensão, a esperança por uma vitória e até o pragmático “se a gente empatar, já tá bom”, que circula entre os torcedores.
À medida que nos aproximamos, as vozes se unem em um chamado, um clamor que vibra no ar, criando a sensação de que estamos prestes a entrar em um show que já iniciou. Não deixa de ser um show, mas é na verdade o aquecimento da “Guarda Popular”, uma das torcidas organizadas do Sport Club Internacional, que se reúne para ir ao encontro do ônibus do Internacional chegando para a partida. Os integrantes tocam os instrumentos de percussão como se acendessem o coração da torcida, cada acorde tocado cria um som pulsante e junto com os clamores, entoam o canto que demonstra amor ao clube. A música cantada durante o percurso afirma que a derrota não é uma opção, além referenciar e homenagear Fernandão, ídolo do time campeão da Libertadores e do Mundial em 2006, que faleceu em 2014.
“Colorado, hoje eu vim te ver
Ponha raça, não podemos perder
Te levamos dentro do coração
Essa barra que honra o Fernandão.”
Em meio à vibração das canções tem-se a sensação de que o jogo já começou antes do apito inicial. As músicas ocupam o espaço público, neste caso o estádio, e transformam em um território afetivo, onde diferentes torcidas organizadas, cada uma com suas próprias sonoridades, se unem em uma harmonia sonora.
Além disso, há uma convergência de estilos musicais em cada área das proximidades do Beira-Rio, cada grupo com seus próprios gostos musicais, mas com um único propósito de estar ali em um sábado de sol. A disputa do espaço público e suas diferentes sonoridades, ali, enfrentam poucos desafios. Além da simpatia dos torcedores entre si pelo amor em comum pelo time, o Beira-Rio possui arredores amplos e organizados, possibilitando que cada um dos grupos aproveite o momento com suas próprias expressões sonoras. A entrada e os arredores do estádio são de uma serenidade imensa, talvez o último suspiro dos torcedores frustrados com a situação atual de seu clube.
10′ antes
Ao entrar no estádio pelo Portão 9, que leva à cadeira superior ao lado da torcida adversária, aquela alegria elétrica transcorre no corpo. O gramado surge como um enorme tapete verde, e a expectativa pelo que está prestes a começar se intensifica. Dali, observamos as diferentes torcidas quase como espectadores de um teatro: estamos acima da organizada do Inter, a Camisa 12, e no lado oposto da Popular. Nessa seção do estádio, o ambiente é mais calmo. Na sua maioria, são famílias e torcedores mais velhos, que acompanham o jogo de forma mais contida, sentados, em contraste com a energia mais vibrante das arquibancadas do outro lado.
Pelas caixas de som, toca o hino do Internacional, anunciando que a partida se aproxima, enquanto o público vai ocupando seus lugares. Quando começa o anúncio da escalação, o estádio se transforma em um espaço onde a opinião coletiva se manifesta. Cada nome provoca uma resposta: vaias secas para alguns, aplausos calorosos para outros, criando um mosaico sonoro que revela o humor da torcida antes mesmo da bola rolar. Com o início do Hino Nacional, alguns se levantam, poucos cantam, e logo em seguida o foco se torna definitivamente coletivo, fixando-se nos jogadores que entram em campo.
(Áudio com a apresentação dos jogadores do Internacional no início da partida)
Quando a bola começa a rolar a sensação no Portão 9 é que estamos em um jogo de tênis, visto que os sons que mais ressoam no setor são as palmas quando um jogador realiza uma jogada boa ou o goleiro defende os chutes a gol do Bahia. Mesmo estando próximo da Camisa 12 não é possível reconhecer as músicas cantadas pelo grupo, uma vez que o som se dispersa e as canções da Guarda Popular ressoam mais alto.
A entrada pelo portão 7 é menos amigável, torcedores com pressa buscam passar rápido pelas catracas e se integrarem a torcida no setor mais democrático do estádio. Sem assentos, apenas amparado pelas barras clássicas de um estádio de futebol, é ali que a banda da Popular se estabelece. Entre faixas, bandeirões e bateria, a sensação é de euforia. Neste jogo em específico, grandes hastes com a bandeiras nas cores do Rio Grande do Sul estão espalhadas pelo setor.
Torcida colorada leva bandeiras do RS para estádio
0′ – 25′
Antes mesmo de o apito soar, a banda da Guarda Popular já inicia a torcida. O som do tambor reverbera pelo estádio e é o coração, não apenas daquele setor, mas de todo o Beira-Rio. O canto da torcida demora a esquentar e a tensão presente no ar é palpável na falta de disposição dos torcedores de se envolver com o alento. Até o primeiro gol, o canto e as reações tem gosto de uma expectativa frustrada que o torcedor não deseja experimentar de novo em uma nova partida.
É gol de Carbonero, e a torcida vibra: será que hoje sai os três pontos? O alívio foi passageiro, o VAR anulou o gol. Aqui, a torcida fica – se é que era possível – ainda mais tensa. Aquele gostinho de esperança frustra um torcedor já exausto e isso reflete nas reclamações e gritos da torcida.
25′ – 52′
Logo, essa linha tênue, tensionada ao máximo que é a insatisfação da torcida, relaxa quando Inter garante um gol ainda no primeiro tempo. O torcedor se permite comemorar, mas com cautela, e os cantos vibram ainda mais através do Beira-Rio.
Ao se aproximar da área superior próxima à Popular, instantes antes do gol marcado pelo Vitinho, parece que entramos em outro estádio. Agora não mais de uma partida de tênis e sim do verdadeiro futebol. Uma vez que as sonoridades emitidas pelos torcedores tornam-se mais nítidas, pois os colorados deste setor entram em um ritmo, aumentam o volume do canto e deixam que as mãos subam e desçam ou batam as palmas, criando uma coreografia coletiva. Gritos de “vaiii” “vamo inter” “chuta” “uuuuuh” se misturam aos cantos e tambores. E cada gesto e som parece incentivar o time a buscar mais gols ao mesmo tempo em que transforma o ambiente em uma atmosfera vibrante e descontraída.
Felipe Trotta afirma que “as músicas têm um papel importante de compartilhar pensamentos morais e desafiá-los” (Trotta, 2023, p. 29) e entendemos que seus significados são resultados de avaliação e expectativas morais do ouvinte e a forma que ele interpreta as mensagens presentes. No contexto das torcidas do Internacional, os cantos vão além dos ritmos, eles reforçam identidades coletivas e compartilham crenças.
(Áudio com os cantos da torcida)
E falando em cantos de torcida, não tem como ir a um jogo do Inter e não se deparar com as provocações dirigidas ao rival (mesmo quando ele não está presente). Um dos cantos mais icônicos da torcida se espalha atrás do gol, com um ritmo pulsante, carregado com um sorriso debochado de quem o canta. Ouvimos:
“Sempre louco atrás do gol Acendendo um do bom Eu voou Matar um puto tricolor
E depois de me chapar A cerveja acabar Eu voou Matar um puto tricolor
Vaamo Inter Hoje temos que vencer Vaamo Inter Hoje temos que vencer
Dale dale dale ôôô”
Essa relação simbiótica entre os times chama a atenção, e chega a ser engraçada. Afinal, muitos podem admitir que a graça de ser do Inter está em zoar o Grêmio, e que ser do Grêmio só faz sentido porque existe o Inter para provocar. A rivalidade é, assim, parte essencial da identidade gaúcha e do espetáculo do futebol local.
Intervalo
Com o primeiro gol garantido, o clima melhorou entre os colorados. Após o apito e o início do intervalo, é possível escutar uma coisa quando a banda da Popular para por um instante: tem mais bandas no estádio. Isso adiciona mais uma perspectiva a análise dessa tal linha tensionada que relaxa e estressa conforme o torcedor reage ao jogo, em momentos de insatisfação ou vibração coletiva e momentos de canto motivados pela banda da Popular.
Acionando os conceitos do artigo de Marra e do Vale (2020), uníssono refere-se aos momentos em que uma coletividade se expressa como uma só voz, uma sonoridade homogênea, sincronizada, que simboliza coesão e alinhamento entre os participantes. Já balbúrdia diz respeito ao oposto: à multiplicidade sonora, à desordem produtiva formada por diferentes vozes, ritmos e intenções que coexistem no mesmo espaço, gerando um ambiente complexo, heterogêneo e nem sempre harmônico.
Idealmente, os momentos de uníssono em um estádio seriam aqueles em que toda a torcida se reúne a cantar em uma só voz uma música durante o jogo, mostrando sua força em volume sonoro. Entre os colorados, no entanto e inclusive neste dia, existe mais de uma torcida organizada, e portanto mais de uma música sendo cantada e mais de uma banda tocando durante o jogo. Os momentos de união nos cantos costuma acontecer em grandes partidas, decisivas ou finais, o que não vemos neste dia.
A reflexão que cabe ser feita é que talvez os verdadeiros momentos de uníssono, frente a esse cenário, foram aqueles em que a torcida reagiu como uma só durante o jogo, vibrando com o gol ou xingando e resmungando durante a análise do VAR. Esses foram os momentos que verdadeiramente a torcida mostrou sua força como uma só. Existe uma inversão, então, do que a balbúrdia representa nesse caso. Aqui, a balbúrdia existe nas manifestações múltiplas das torcidas, que geram menos impacto como um todo comparado com os momentos de comemoração e reclamação.
(Áudio com um dos famosos cânticos da torcida do Internacional)
52′ – 60’
O segundo tempo iniciou com a dominância do colorado e um gol aos 49’, e é possível ouvir um suspiro de alívio ecoar pelo estádio. O nó que estava bloqueando o fôlego do colorado ao cantar as músicas é retirado. Nesse momento, a banda toca as músicas mais conhecidas pelo público e a manifestação sonora fica ainda mais forte. O time brilha com a vibração do público e também parece espelhar o ânimo das arquibancadas. Parece que é a pressão do canto vibrando e impactando os corpos, que por vezes submete os jogadores do time adversário a falha em frente a goleira. Com o canto ecoando e a sensação de ter todos os olhos em seus movimentos, o Bahia perdeu inúmeras oportunidades de gol neste meio tempo.
60’ – 106′
O futebol como qualquer outro esporte é uma caixa de surpresa e a qualquer momento pode ter uma reviravolta.
No portão 7, ao lado da Popular, o clima é tenso, diferente de outras partidas, não há crianças correndo pelos níveis da arquibancada ou sobre as barras para balançar as faixas no ritmo do canto. O momento de revolta com o desempenho do time dispersa os presentes e diminui a presença de muitos frequentadores ao estádio. Com a baixa densidade, o clima é tenso e o odor de cigarro toma conta do espaço, o tempo chuvoso colabora com pingos eventuais sobre nossas cabeças, que estão descobertas por conta do setor escolhido.
É neste clima, com o sabor da vitória na boca da torcida colorada que, nos seis minutos de acréscimos finais do jogo, aos 94’ o Bahia conquista a bola e faz o gol final da partida, transformando o sabor alegre em tristeza e nervosismo pela fase do time que piora a cada derrota e empate no campeonato.
Com o placar 2 x 2 o Internacional e os colorados que pensavam que os 3 pontos na tabela do Campeonato Brasileiro estavam garantidos. O que, minutos antes era festa, se transforma e se apaga como uma vela, as palmas param e o coro se transforma em gritos de revolta. O que demonstra a capacidade de reconfigurar coletivamente os discursos musicais conforme o decorrer da partida, reafirmando expectativas e julgamentos sobre o time e o desempenho em campo.
Apito final
O som do apito final explode em todos os cantos do estádio quebrando a expectativa de mais um gol dos colorados. Aos poucos, em meio ao silêncio e passos lentos surgem murmurinhos que expressam descontentamento com o desempenho do time. Sair de um jogo em que a vitória parecia tão perto e empatar tão próximo do fim deixa um gosto amargo difícil de engolir. Deixar o estádio vira quase uma caminhada da vergonha, como pegar o trem de manhã, ainda com roupa de festa, enquanto todo mundo ao redor está a caminho do trabalho.
Para a despedida do time, não ouvimos aplausos ou felicitações. Na verdade, é entoado o hino “Vergonha, vergonha; Time sem vergonha”, um dos cantos de protesto mais genéricos do país, visto que é usado por todos os torcedores insatisfeitos.
No setor 7 o clima de insatisfação esvazia a arquibancada em minutos, as faixas são retiradas com rapidez e os corredores internos são reflexo do resultado insatisfatório. Ao passarmos pela parte externa do estádio, onde dirigentes estão presentes, parte da torcida protesta contra a administração do clube, com palavras de ódio e xingamentos, e o presidente, Alexandre Barcellos, é cobrado pelo desempenho e baixa nas vitórias do time, que começou a temporada de 2025 como nunca antes. Assim como afirma Marra e Do Vale (2020, p. 320)
” A rua emerge como o espaço no qual agentes vivenciam, enfrentam e questionam os fluxos de informação, imagens, sons e slogans políticos que circulam nas mídias tradicionais e novas, bem como onde aparecem e disputam a visibilidade pública que dissemina suas pautas e garante a legitimidade de suas reivindicações.”
(Áudio com protesto dos torcedores contra os dirigentes do Sport Club Internacional)
Nos arredores, nada convida para que a festa continue. As ruas esvaziam rápido e os sons da torcida viraram lembrança, os bares não enchem e o torcedor quer ir para casa. Tal qual a noite termina silenciosa nos arredores do Beira-Rio, assim como começou, também se recolhem os sons que, por algumas horas, deram forma a um território vivo. Ao longo do jogo, a torcida desenhou no espaço aquilo que podemos associar com o texto de Proto (2019), que apresenta o conceito de um território resistente: um lugar criado e sustentado pelo som, onde corpos, vozes e relações humanas constroem uma comunidade em movimento, “O som parece existir, desta forma, como vetor político, agenciador abstrato de uma micropolítica da escuta e da fala, produtor de lugares-a-ser.” (Proto, 2019, p. 112). No estádio, essa paisagem sonora é a expressão da identidade de quem é colorado, da mística de um dia de jogo, formada desde os clássicos cantos, os gritos, risadas, e brigas, do batuque que marca o passo da massa, até do silêncio atento que antecede um gol.
Entendemos assim, que os sons que atravessam o Beira-Rio não são apenas ruídos do futebol: são símbolos culturais. A camisa vermelha, o copo na mão, o ódio ritualizado ao rival e o próprio Gigante que hospeda a festa se tornam parte de um mesmo repertório sonoro-afetivo. É uma cartografia sonora que desenha o que significa ser colorado.
De tal forma, essas sonoridades se traduzem como gostos, origens, histórias, valores e incômodos. Se condensam em corpos e vozes que afirmam pertencimento, mas também marcam fronteiras: quem canta, de onde canta e para quem canta. E quando o estádio se esvazia e o barulho se desfaz no ar, o território permanece na identidade coletiva. A paixão colorada tem como parte de si o som como forma de existência compartilhada, como gesto de resistência e celebração, como uma festa que o Gigante abriga e que renasce, inteira, a cada novo jogo.
REFERÊNCIAS
PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.
TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v17i2p25-48.
MARRA, P. S.; DO VALE, A. B. M. Uníssono e Balbúrdia: Sonoridades de protestos e manifestações políticas de rua no Brasil. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, p. 317–339, 2020. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/27445. Acesso em: 26 nov. 2025.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de coisas.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Foto 1: Janela do Trensurb. No fundo, uma rua em movimento.
(Áudio criado a partir de viagens dos integrantes no Trensurb entre 25 de outubro e 09 de novembro de 2025. Recomendamos que escutem o áudio enquanto leem o texto, utilizando de fones de ouvido para melhor experiência com os efeitos que buscamos criar na equalização do som.)
Existe uma convenção de regras em torno do Trensurb, um ethos. Boa parte delas é aprendida por osmose. Perguntar “o que fazer” é uma quebra dessa estrutura, um conjunto de normas não-ditas que criam um curioso uníssono. O ethos é um conjunto de crenças e princípios que guiam as ações de alguém ou um grupo. Não se fala sobre como agir no trem, é como se você tivesse que nascer sabendo. Talvez por isso seja tão potente. É um cenário onde todas as relações estão tão bem estabelecidas que o verbo não é mais necessário.
Nenhum de nós frequenta o Trensurb. Pode ser essa justamente a razão pela qual a viagem possa ser vista como um passeio, com um certo deslumbramento pelo o que se passa dentro dos vagões. Para quem mora na região metropolitana, o Trensurb pode ser, além de cotidiano, um fardo – assim como o ônibus que pegamos todo dia pra ir e voltar do centro, que também demora uma hora até chegar em casa. Então, para quem não tem costume de frequentar as estações ou trafegar pela linha, a presença pedagógica de outras pessoas acaba sendo um salvamento.
Foto 02: Foto tirada logo após passageiros saírem do trem na Estação Canoas durante horário de pico.
Em nossa viagem, nos apoiamos no conhecimento fragmentado de cada um sobre o que é o ethos Trensurb. Afinal, não queríamos parecer estrangeiros – por mais que fossemos – para poder circular de forma não disruptiva, sem dar a pinta de peixe fora d’água. Chegamos no trem com um objetivo principal: entreouvir conversas de passageiros, para enfim criar uma colagem cacofônica que não separa indivíduo do coletivo. Parecia uma boa ideia, até nos depararmos com a realidade. Não era possível escutar ninguém, não havia como deixar de ouvir as máquinas falarem. Passamos o tempo nessa espécie de vale da estranheza sônico, em que a imposição sonora do trem exercia um domínio em nossos corpos, a voz dos outros roubada por essa entidade maquínica.
Curioso que até em alguns momentos conversar parecia já ser uma quebra do uníssono, mesmo que o silêncio de vozes não configurasse silêncio algum. A máquina, mais uma vez com seu caráter impositivo, submetia a nós todos ao seu som estridente e ao seu “plec-plec” de aço. O fascínio pelo o que se passa dentro dos vagões não foi suficiente para evitar a dor de cabeça que o barulho constante do trem causava.
Sons como esse, mesmo que não decodificáveis por nós, geram uma paisagem sonora uníssona dos trens. A sonoridade aponta para o som como elemento fundamental – e não só como veículo – para o funcionamento de sistemas culturais e sociais ao ligar práticas de escuta e de soar (Marra, Vale, 2020). Ou seja, as sonoridades compõem parte da atmosfera que a modernidade busca construir.
TRILHAR CAMINHOS PELO TRENSURB
Foto 03: Foto tirada durante a chegada do trem na Estação Canoas.
O Trensurb é elemento da paisagem física e sonora da Região Metropolitana de Porto Alegre desde 1985. Foi criado para conectar alguns dos municípios mais populosos do Rio Grande do Sul de forma eficiente e desafogar o trânsito de veículos rodoviários, que já naquele tempo configurava um problema para as grandes cidades do Brasil. Em 2025, o sistema conta com 43 quilômetros de extensão e 22 estações em linha única, ligando cinco cidades: Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Esteio, Canoas e Porto Alegre.
Existem dois tipos de trem que viajam pelos trilhos do Trensurb: o trem velho, fabricado no Japão em 1984, com 25 veículos em ativa, e o trem novo, fabricado no Brasil em 2014, com 15 veículos em ativa. Saber em qual você vai entrar é uma roleta russa. Como é de se esperar, as sonoridades presentes em cada modelo são radicalmente diferentes.
É até mesmo engraçado ir no trem velho – é como entrar em uma máquina do tempo, onde nem tudo tinha uma cor branca chapada e a arquitetura dos lugares ainda podia sonhar em se diferenciar uma das outras. Existe também um quê de falha mecânica iminente. A cada curva, nossos ouvidos são agraciados com um som agudo estridente, que toda vez causa o susto de imaginar que o trem vai se desintegrar. O vento que entra pelas pequenas frestas das janelas, os carros que correm nas avenidas ou rodovias adjacentes, acompanhados do som metálico dos trilhos e das articulações entre os vagões, formam a experiência do Trensurb.
No trem antigo, a parada às vezes é anunciada pelo microfone do motorista. Já em outras, é uma gravação. As duas são, contudo, sempre inaudíveis. No trem novo, no entanto, não existe contato algum com o motorista, sendo uma voz feminina, dessa vez límpida e robótica, que informa a chegada nas estações. Também se produz um outro som, dessa vez grave, que acompanha todo o trajeto, como um companheiro de viagem. De certa forma, essa imagem consegue acalmar o coração de uma primeira vez no Trensurb, como foi o caso da maioria do grupo.
Talvez esses sons nem apareçam mais para quem já está acostumado. É aí que entra a peculiaridade desta movimentação. Entrar no Trensurb enquanto estranho, aquele que não se encontra dentro da mecânica cotidiana do fluxo de transporte das pessoas que tem sua vida atravessada pela capital gaúcha e sua região metropolitana, provoca também uma outra relação com esse espaço urbano, transformando-o em uma paisagem sem limites.
Foto 04: Foto tirada no interior da Estação Novo Hamburgo.
Nos inserimos como andarilhos de Michel de Certeau, “interagindo na proximidade, buscando fazer emergir certas singularidades, para dar à cidade e ao Trensurb uma visão a partir do chão. Emprestamos nosso anonimato, nosso lado transitório, ou seja, trabalhamos no nível de mobilidade que somos proporcionados” (Fraser, 2010, p. 229). Nos apropriamos do dia-a-dia comum de alguém, tornando esse deslocamento, para nós, uma coisa vivida.
DESLOCAR PARA OUTRO LUGAR
Certeau, assim como os desdobramentos de seu trabalho por Marc Augé, partem da geografia humanista e da antropologia para definir o que é lugar. Esse espaço vivido, do cotidiano, e que carrega consigo a afetividade e a memória, quando mesclado com o conceito de espaço antropológico, gera fortes vínculos sociais e culturais, de profunda relação do indivíduo com o mundo que o cerca; apresentando características identitárias, relacionais e históricas. O espaço também supõe por si mesmo um lugar animado por um deslocamento (Fraser, 2010, p. 229), um lugar praticado. Sem essa mobilidade nos restariam apenas lugares fixos e imutáveis. O andarilho transforma a rua, lugar para o urbanismo, em espaço.
Foto 05: Foto tirada na estação Canoas. Um muro vazado na frente e uma parada grande de ônibus com pessoas atrás.
Para Augé, porém, esse mesmo tensionamento trazido pela mobilidade transforma lugares em não-lugares, paradigma da supermodernidade, caracterizado pela superabundância factual, espacial e individualização das referências. Não-lugares são construídos com determinadas finalidades objetivas (como o comércio, transporte ou lazer); transitórios, supérfluos; criados e esvaziados do princípio de sentido para aqueles que o ocupam ou habitam. Quando assimilados pela sociedade moderna, não promovem relações sociais autênticas e genuínas, homogeneizando as experiências sociais e fazendo com que as forças e a significância própria dos lugares sejam desconsideradas. As sonoridades que temos contato diário expressam enquanto opressão e coerção também. As pessoas lidam de maneiras diferentes com essa agressividade sonora do dia-a-dia na cidade grande – as ilhas de sanidade (sônica) e, ao mesmo, no mar de violência corpórea, sônica e simbólica. Como Felipe Trotta traz no artigo Gosto musical, moral e incômodos:
Os deslocamentos populacionais nas cidades são marcados por sentimentos de solidão, tédio, irritação e desalento, ao mesmo tempo em que são atravessados por pequenos conflitos latentes, provocados pelo cansaço de corpos e mentes, pelo ritmo intenso do ir e vir do trabalho, pelas agressividades do trânsito e dos veículos e pelos tempos mortos da espera por ônibus, vans e trens (Trotta, 2023, p. 03)
Um sistema com estas características acaba se tornando um pequeno recorte dos tensionamentos e fenômenos políticos e sociais de nosso tempo. Henri Lefebvre, em O Direito à Cidade, categorizava o urbano como um “um horizonte de possibilidades, um objetivo do ser humano, que é, por sua vez, freado ou delimitado pelo urbanismo, entendido aqui como uma série de representações institucionais e ideológicas que norteiam as ações em direção ao urbano” (Lefebvre, 1968). O Trensurb, portanto, configura um ambiente que ao mesmo tempo possibilita a pluralidade, mas também a cerceia.
Nos espaços do Trensurb, o próprio ato de circular é posto em tensionamento. O movimento dos passageiros é delimitado por catracas, portas, linhas, muros, cercas, configurando um espaço de controle que é povoado pela superposição de discursos dominantes e subversivos.
Pedro Marra e Ana Beatriz Moreto do Vale discorrem sobre unidade sonora, um espaço de uníssono e balbúrdia – um uníssono que é substituído pela balbúrdia nos poucos segundos que o trem fica parado na estação, e vice-versa quando o trem começa a andar. Uma massa de pessoas num entra-sai, novos passageiros, vendedores, pedintes:
A balbúrdia é uma técnica sônica de transição entre uníssonos e por isso apresenta-se de forma muito instável e, por vezes, efêmera. Ela se caracteriza por um alto grau de abertura à disputa, e, se por um lado não apaga hierarquias entre agentes que a compõem, por outro abre brechas para que agentes menores e com menos poder sonoro – seja porque em menor número, seja pela menor capacidade de produzir grandes intensidades sonoras – se imponham e façam alastrar, entre um grande número de pessoas, suas próprias sonoridades. (Marra, Vale, Op. cit, p. 335)
A balbúrdia é produção de diferença. O jogo de som unificado ou cacofônico no Trensurb não pode ser reduzido a dois polos completamente dominantes e que monopolizam a experiência. Existe um revezamento, quase uma dança, onde ora a máquina se impõe, ora o som é orgânico. Ora é monótono, ora é pontual.
EMBARCAR NOS GESTOS POLÍTICOS
Foto 06: Trem chegando em uma das estações.
O nosso percurso iniciou-se em uma Estação Mercado movimentada. Algumas das entradas para a parte subterrânea, onde ficam os guichês de passagens e o acesso às plataformas, estão fechadas – cicatrizes da enchente de maio de 2024, que paralisou o sistema completamente por várias semanas. Assim que pusemos os pés na plataforma, logo chegou o trem.
A pressa era o espírito geral da massa de pessoas. Mesmo no subterrâneo, é possível ouvir o pesado veículo se aproximando da área de embarque. A vibração faz pressão sobre o concreto do túnel de acesso às plataformas e este ruído, por sua vez, pressiona os passageiros, como se dissesse “venha, estou te esperando”. Já neste início de viagem era possível presenciar alguns tensionamentos.
Onde nos sentávamos? Dentro dos vagões do trem mais novo, assentos com cor azul são preferenciais – para idosos, gestantes, PCD’s – estando os demais, em cor laranja, livres para todos. As placas avisam: na ausência de pessoas com preferência, está liberado o uso para todos. Claro, a ideia da regra é criar um espaço de convivência pacífico e permitir o quanto seja possível uma experiência isonômica de viagem a todos os passageiros. Entramos e sentamos ocupando um dos assentos regulares e dois preferenciais.
O desconforto com o policiamento constante da placa foi sentido. Mas não percebemos outros usuários com preferência para que precisássemos ceder lugar. Além disso, o conforto vinha em perceber que outros assentos preferenciais, em outros pontos do vagão, também estavam ocupados por pessoas aparentemente tão regulares quanto nós três.
No acesso às plataformas, mais um desses pequenos incômodos. Precisávamos deixar um dos lados da escada-rolante livre para aqueles que desejarem percorrê-la caminhando? Apesar do horário movimentado, a densidade de pessoas não era o suficiente para ocupar totalmente os degraus móveis. Permanecemos parados no meio do equipamento, subindo conforme seu movimento. Ali não havia placas para indicar o “correto”. Que nem o som, esse parece ser também o modus operandi do Trensurb. As regras são feitas através do que não é dito.
Foto 07: Parte da estação Canoas. Na frente, temos uma placa de sinalização com a escrita “Nunca ultrapassar. Área Restrita”. No fundo, temos um espelho, um semáforo e outra placa, com o aviso de “Homens Trabalhando”. Um muro vazado de concreto e a paisagem da cidade com árvores e prédios ao fundo.
O trem se impõe sobre os passageiros. O veículo, as estações, os pantógrafos que distribuem a eletricidade que faz o comboio andar, se unem para formar uma entidade que nos domina enquanto passageiros. É um sistema tecnocrático que delimita as nossas possibilidades. Se, para Lefebvre, “o urbanismo transforma nosso espaço de vida em um habitat, uma máquina de viver” (LEFEBVRE, 1999 apud ABREU, 2018), o Trensurb transforma as cidades por ele ligadas em uma linha. O seu percurso é um grande traçado que vai se dobrando por entre bairros, vias, corpos d’água… O seu som é monótono e remete ao tinnitus, o zumbido chato e incessante no ouvido.
Ainda assim, é possível perceber essas pequenas “quebras” nos tratos não codificados. Nos trechos de trens lotados, passageiros se escoram nas portas, uma prática desencorajada oficialmente pela operadora do sistema em cartazes e adesivos, mas que, de forma geral, não apresenta maiores riscos ou disrupções na experiência daqueles à sua volta. A maior parte das estações tem desembarque por um mesmo lado do veículo, ajudando na disseminação da prática.
Nesses pequenos gestos, que não influenciam fortemente o fluxo unidirecional e impositivo das regras e infraestruturas estabelecidas, os passageiros configuram aquilo que Certeau chama de lendas (legendas). São as oportunidades de criar a própria narrativa numa realidade que as suprime. O autor indica que “pela possibilidade que oferecem de esconder ricos silêncios e desafiar histórias sem palavras (…) as legendas locais permitem saídas, meios de sair e de entrar e, portanto, espaços de habitabilidade”, e posteriormente que “a viagem substitui as legendas que abriam o espaço para o outro”. Mesmo no Trensurb, é possível ignorar o barulho. Seja por ouvir uma música, assistir a vídeos curtos de rede social ou televisão em streaming, a subjetividade individual do som se configura como resistência a obstinação tecnocrática do ruído e das regras.
Foto 08: Estação Novo Hamburgo, final da linha do Trensurb, durante a noite.
É bom admitir que um dos colegas, ao final da viagem de volta, recusou-se a continuar o trabalho e colocou seus fones de ouvido, a fim de distrair-se da dor de cabeça que começava a incomodar. Do mesmo modo que Marra e Vale (2020) apontam, a balbúrdia “é uma transição entre uníssonos” e que ela “abre brechas para que agentes menores se imponham”, fazendo com que esses pequenos gestos sejam tentativas dos passageiros de fazerem valer a sua vontade sobre o barulho dos trilhos.
Não estamos falando de ações politizadas por si só, mas sim do espaço politizante que é o Trensurb, suas estações e consequentes mobilidades. Assim como Certeau declara, podemos fazer essas práticas microbianas. Ações singulares, plurais, ilegíveis, impossíveis de serem controladas. Lutar contra essa racionalidade imposta pela modernidade, seja pela transgressão ou driblando e reinventando o cotidiano.
Quem sabe seja essa a potência de escrever sobre um espaço do qual não sabemos muito sobre, no qual a rotina é coisa nova. Perceber a agitação da estação como fenômeno, deixar-se seduzir pelo mar de pessoas, pelas cacofonia de barulhos que se mesclam, espantar-se com a velocidade do trem. Entramos no Trensurb com o intuito de ocupar esse cotidiano, que costumamos frequentar de maneira passiva, e o deslocar para uma vivência atenta, atraída pelo charme do banal.
Vídeo 01: Pequeno trecho de nossa viagem no Trensurb.
Aparece uma parte da janela do trem, e o vídeo treme
conforme o vagão passa pelos trilhos. Ao fundo, uma
paisagem de cidade.
Referências Bibliográficas:
ABREU, Miriam Santini. Crítica da cobertura jornalística sobre a luta por moradia na perspectiva do urbanismo. Joinville, SC: Intercom 2018. Disponível em: https://www.portalintercom.org.br/anais/nacional2018/indiceautor.htm#M. Acesso em 15 nov. 2025.
AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v17i2p25-48.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e mestrando Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de Coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.