Make Fabico Weird Again #1
por Milena Resch de Oliveira
Nesse trabalho proponho a investigação das diversas facetas da música enquanto objeto de infinitas interpretações. Para isso, farei a análise de 4 músicas lançadas no período da ditadura militar brasileira, enquanto mecanismo de resistência, e os significados e símbolos que elas assumem hoje. Analiso o que as músicas se propunham, como foram aceitas na época que lançaram e os diferentes usos e significados que lhe são dadas atualmente. Para isso, irei analisar comentários na plataforma de streaming YouTube, buscando trazer o debate sobre os diferentes sentidos que a música enquanto objeto pode ter dependendo do sentido que o receptor dá para ele.
Em 1968, o regime militar tomou a decisão de apertar ainda mais o controle sobre o país com o AI-5, um ato que basicamente rasgava a Constituição e dava aos militares a liberdade de censurar qualquer coisa que não gostassem. A partir daí, a mídia e os artistas passaram a ser vigiados de perto, e tudo o que fosse produzido no Brasil precisava da aprovação dos militares antes de ser exibido. Essa “liberdade de criação” imposta pela censura fez com que muitos artistas se vissem obrigados a recorrer à criatividade para continuar fazendo críticas ao regime. O resultado foi uma enorme quantidade de músicas recheadas de metáforas, duplo sentido e mensagens subliminares, tudo para driblar a censura e ainda assim passar suas mensagens sem ser pegos.
Porém, com as tecnologias de difusão e permanência desses registros sonoros, essas obras ainda existem e hoje assumem novos significados, dos mais variados, abrangendo visões que perpassam diversos ideais musicais e também políticos. Sobre essa questão, é necessário entender que devemos, sim, analisá-las conforme seu contexto de produção e a que se propunha na época, mas também compreender seu caráter dinâmico e mutável de acordo com a experiência e interpretação de cada um. A arte nunca foi nem será algo duro, imutável. Pelo contrário, sempre varia seu significado quando se fala de diferentes tempos, espaços e pessoas. Mas até onde vai a liberdade de interpretação de sua subjetividade?
Gol com drible do poeta: entenda como cada música conseguiu escapar da censura e se tornar referência de resistência desde aquela época até os dias atuais
A música “Apesar de Você”[1], produzida por Chico Buarque no finalzinho de 1970, foi seu primeiro lançamento após um ano e meio exilado na Itália. Quando ele mandou a letra para aprovação, justificou que a música era sobre uma discussão entre um casal e ela foi aprovada. Em pouco tempo, ele já tinha vendido mais de 100 mil cópias, quantidade impressionante para a época. Foi uma questão de meses até a sociedade mastigar a canção e ela ser retirada de circulação, mas a ideia já tinha se espalhado e continua firme e forte até hoje.
Confira comentários da música:


Outro artista que infernizou a vida dos militares foi o grande Caetano Veloso tanto que ele acabou sendo preso e obrigado a se exilar em Londres por suas obras subversivas. A alfinetada mais emblemática do artista no regime militar é a música “É Proibido Proibir”[2]. O título veio de uma frase que ficou famosa nas manifestações estudantis de Paris e foi apresentada pela primeira vez em 1968 no 3° Festival Internacional da Canção. A performance, que teve até a presença d’Os Mutantes como banda de apoio, ficou marcada por ter sido talvez a mais vaiada da história. Caetano desistiu de continuar e trocou os versos por um discurso improvisado criticando a falta de visão da plateia “mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”


“Cálice”[3], uma parceria entre Chico Buarque e Gilberto Gil, nasceu numa sexta-feira santa em 1973. O refrão pega emprestado a passagem bíblica “ele se retirou, pela segunda vez, e orou: ― Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça‑se a tua vontade.”, dita por ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jesus Cristo sobre todo o sofrimento que sentia na noite em que foi traído. Gil apontou o duplo sentido presente na fonética da palavra “cálice”, podendo também remeter a forma imperativa do verbo calado, ou seja, “cale-se”. A partir dessa ambiguidade surgiu uma das músicas mais poderosas em oposição à censura e violência do regime militar, mesmo que inicialmente ela nem viu a luz do dia, uma vez que o órgão de censura percebeu a verdadeira intenção por trás do jogo de palavras e vetou o lançamento dessa canção, que só foi liberado há cinco anos depois.


Por último, não tem como fazer uma lista dessas sem citar a música “Pra não dizer que não falei das flores”[4], uma das mais emblemáticas da época e composta pelo Geraldo Vandré. A canção ficou no segundo lugar do festival internacional da canção de 1968 da Rede Globo (para revolta da plateia, já que ela era a favorita absoluta do pessoal). Anos depois, o então diretor geral da Rede Globo, Walter Clark, revelou que a emissora recebeu ordem dos militares para que essa música perdesse. Isso porque muita gente interpretou essa música como um chamado para a luta armada radical, colocando Geraldo Vandré nos radares dos militares. Ele começou a ser vigiado pelo departamento de ordem política e social e teve que se exilar no Chile assim como muitos dos seus colegas.


Para finalizar a análise, considero importante destacar a metodologia adotada. O processo de pesquisa envolveu uma abordagem qualitativa, focada na interpretação das diversas manifestações presentes nos comentários de usuários no YouTube, relacionados a músicas lançadas durante o período da ditadura militar brasileira. A partir dessa seleção, foi realizada uma leitura atenta e criteriosa dos comentários, priorizando aqueles que abordavam temas políticos, sociais e culturais. A escolha dos comentários foi pautada por uma postura neutra e moderada, buscando refletir a diversidade de pontos de vista.
É relevante destacar algumas curiosidades observadas durante o processo, como o fato de as músicas publicadas nos perfis oficiais sempre apresentarem os comentários desativados, o que levou à necessidade de buscar os comentários em perfis públicos de usuários. Além disso, é importante notar que, entre 2018 e 2022, período do governo de Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL, muitos desses vídeos também tiveram os comentários desativados. Outro ponto interessante foi a constatação de que a maioria dos comentários abordava questões políticas, tanto relacionadas ao período de veiculação das músicas quanto à política atual. Percebi que as opiniões de direita geravam uma quantidade significativamente maior de respostas, fenômeno que pode ser explicado pelo fato de as músicas, com um viés esquerdista, serem associadas por esse público a uma identidade e representação política. Também foram considerados os comentários mais pessoais, nos quais os usuários expressavam suas experiências e sentimentos, sobretudo em relação a momentos difíceis como a pandemia de Covid-19.
Esse trabalho permitiu uma compreensão mais ampla das múltiplas interpretações e significados atribuídos às músicas, tanto no contexto histórico de sua criação quanto na atualidade, revelando a continuidade de seu papel enquanto objetos de resistência e reflexão social. Por fim, conclui-se que mesmo com o perfil polissêmico da música e da arte, ainda há questões que devem ser levadas em consideração quando analisada uma obra. Nesse sentido, as canções analisadas devem ser ouvidas levando-se em conta o contexto de sua produção, pois seu sentido conotativo, muitas vezes, carrega um peso interpretativo tão significativo quanto, ou até mais, que seu sentido denotativo.
Referências
EL KABONG. Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré (1968). Youtube, 06 de abr. de 2010. Disponível em: https://youtu.be/A_2Gtz-zAzM?si=6G72USIMLOVMQqAG. Acesso em: 21 de dez. de 2024.
FRANCISCO, EL HOMBRE. Apesar de Você. Youtube, 24 de out. de 2022. Disponível em: https://youtu.be/TTfOt-B25cA?si=zB8qrkJj1h61MJlt. Acesso em: 21 de dez. de 2024.
GABRIEL ESTEFFAN. Caetano Veloso – É proibido proibir. Youtube, 13 de ago. de 2008. Disponível em: https://youtu.be/hE1ULHlLdWo?si=-thVx21W4-KBkM9-. Acesso em: 21 de dez. de 2024.
MARTHA ANDRADE. Caetano Veloso – é proibido proibir (LEGENDADO). Youtube, 18 de nov. de 2012. Disponível em: https://youtu.be/7hYxfP5q5og?si=Wo7CahWLER40Bw-H. Acesso em: 21 de dez. de 2024.
PATRICIA PORTO. Cálice (cale-se) – Chico Buarque e Milton Nascimento. Youtube, 23 de set. de 2009. Disponível em: https://youtu.be/RzlniinsBeY?si=5ZWWVHhTqfuMyM8R. Acesso em: 21 de dez. de 2024.
PIPOCANDO MÚSICA. 6 Músicas CENSURADAS na DITADURA! YouTube, 28 de jan. de 2019. Disponível em: https://youtu.be/–Dvl9yXHK4?si=lugbek1hS8-Icuza . Acesso em: 21 de dez. de 2024.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; VAINFAS, Ronaldo. O Brasil Republicano: O regime militar e a resistência cultural. 2018
TAUIL. Apesar de você – Chico Buarque e MPB4. Youtube, 20 de março de 2010. Disponível em: https://youtu.be/xbH2E1XfscA?si=J7-5aHSV0IO4_Lbj. Acesso em: 21 de dez. de 2024.
BUARQUE, Chico [intérprete]. Apesar de você. No álbum Chico Buarque de Hollanda – Volume 3. São Paulo: Philips, 1970.
GIL, Gilberto; BUARQUE, Chico [intérpretes]. Cálice. No álbum Construção. Rio de Janeiro: Philips, 1978.
VANDRÉ, Geraldo [intérprete]. Pra não dizer que não falei das flores. No álbum Geraldo Vandré. São Paulo: Philips, 1968.
VELOSO, Caetano [intérprete]. É proibido proibir. No álbum Tropicalia – ou Panis et Circensis. São Paulo: Philips, 1968.
[1] Comentários sobre a música “Apesar de Você” retirados dos seguintes vídeos do Youtube: https://youtu.be/TTfOt-B25cA?si=zB8qrkJj1h61MJlt e https://youtu.be/xbH2E1XfscA?si=J7-5aHSV0IO4_Lbj.
[2] Comentários sobre a música “É proibido proibir” retirados dos seguintes vídeos do Youtube: https://youtu.be/7hYxfP5q5og?si=Wo7CahWLER40Bw-H e https://youtu.be/hE1ULHlLdWo?si=-thVx21W4-KBkM9-
[3] Comentários sobre a música “Cálice” retirados dos seguintes vídeos do Youtube: https://youtu.be/RzlniinsBeY?si=5ZWWVHhTqfuMyM8R e https://youtu.be/8CnSiaP-jL4?si=MK8PIow0p0mNXS5Y.
[4] Comentários sobre a música “Para não dizer que não falei das flores” retirados dos vídeos do Youtube: https://youtu.be/A_2Gtz-zAzM?si=6G72USIMLOVMQqAG e https://youtu.be/5HnVjI2Injo?si=acQtEYVfZTM5HTML.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.