O pop punk e a representação feminina: Hayley Williams entre barreiras e transformações

Make Fabico Weird Again #1 

por Maria Isabelle de Souza Camargo

O pop punk, um subgênero do rock, destaca-se por suas letras emotivas e
introspectivas, frequentemente associadas ao termo “emo”, que deriva de “emocore”
ou “emotional hardcore.” Esse estilo conquistou especialmente o público jovem,
criando um espaço de expressão para sentimentos de vulnerabilidade e rebeldia. No
entanto, a trajetória das mulheres no pop punk tem sido marcada por desafios e
exclusões. Este ensaio busca explorar como as mulheres são representadas no gênero, investigando dinâmicas de gênero e poder em um cenário predominantemente
masculino, com foco na cantora norte-americana Hayley Williams, da banda Paramore,
como estudo de caso.

As origens do pop punk
O pop punk emergiu como subgênero do rock a partir da fusão entre a energia
crua do punk e elementos mais melódicos e acessíveis da música pop. Ainda nos
primeiros anos do punk, já era possível perceber algumas aproximações entre o estilo e as estruturas da música pop, especialmente em bandas como Buzzcocks e, em
momentos pontuais, os Ramones — como no álbum End of the Century (1980), que
marcou uma fase mais pop da banda. No entanto, é importante destacar que o pop
punk, como gênero propriamente dito, só viria a se consolidar décadas depois,
especialmente nos anos 1990 e 2000, com o sucesso comercial de bandas como
Blink-182, Green Day e Sum 41, que dominaram as paradas e solidificaram essa estética emocional. Nesse período, o pop punk tornou-se um espaço “rebelde”, mas,
frequentemente, refém de normas masculinas, dificultando a inclusão de mulheres na
cena. Embora suas letras abordassem emoções pessoais e vulnerabilidades, o pop
punk muitas vezes perpetuou uma visão predominantemente masculina, seja em suas
narrativas ou em suas representações. Os palcos, bastidores e a indústria foram, em
grande parte, dominados por homens, enquanto as mulheres eram frequentemente
vistas como exceções ou relegadas a papéis secundários.

Representatividade feminina no pop punk
Uma das figuras mais influentes e emblemáticas desse cenário é Hayley
Williams, vocalista do Paramore. Desde o lançamento do álbum de estreia All We Know
Is Falling (2005), ela se destacou como uma das principais representantes femininas do gênero. Enquanto bandas masculinas como My Chemical Romance, Fall Out Boy e
Blink-182 lideravam as paradas, Hayley surgiu como uma voz distinta, enfrentando
desafios tanto da indústria musical quanto dos obstáculos impostos por ser mulher em
um ambiente dominado por homens.

A Trajetória de Hayley Williams e o Paramore
Com o crescimento do pop punk e o interesse das grandes gravadoras em
bandas do gênero, Hayley Williams, ainda aos 14 anos, recebeu uma proposta da
Atlantic Records para seguir carreira solo. No entanto, ela recusou, afirmando que
preferia permanecer na sua banda Paramore e não seguir o caminho individual. Essa
decisão foi bastante significativa, especialmente porque, no cenário do rock, o padrão
predominante era o de mulheres que optavam por carreiras solo, como Avril Lavigne.
Hayley desafiou essa lógica, mostrando que o espaço para mulheres em bandas
também era válido e importante, trazendo um contraponto significativo nesse contexto

“Quando Avril estourou, estimulou o apetite da indústria por alternativas punk para Britney Spears e Christina Aguilera. Eu acho que não teria conseguido um contrato com gravadora se Avril não tivesse acontecido antes” disse Hayley (Portal PopLine, 2020).

Foi Robert John Metzger, representante da Atlantic Records, que defendeu a
escolha de Hayley ao presidente da gravadora, explicando que ela não se via como uma futura pop star como Madonna, mas sim como parte de uma banda. A gravadora
aceitou, permitindo que o Paramore seguisse como grupo e consolidando Hayley como
uma figura pioneira no pop punk, desafiando os padrões desde o início.

Foi em 2004 que o Paramore, formado em Franklin, Tennessee (EUA), assinou contrato com a Atlantic Records e sua subsidiaria Fueled by Ramen, apresentando uma proposta musical que misturava pop punk e elementos de rock alternativo. A voz única de Hayley e sua presença de palco rapidamente ganharam destaque na indústria. Contudo, liderar uma banda em um gênero dominado por homens trouxe desafios. Hayley frequentemente relatava, em entrevistas, que era subestimada, muitas vezes reduzida à sua aparência ou tratada como “o rosto feminino” de uma banda composta na época por ela e mais cinco homens. Isso reflete o sexismo que estava presente na cena musical da época, reforçando a ideia de que as mulheres no pop punk estavam ali para representar estereótipos ou como figuras secundárias.

Esse cenário tem conexão com o movimento Riot Grrrl, que surgiu nos anos 1990 e
lutava contra a objetificação das mulheres no punk e na música em geral. Mulheres
como Hayley Williams, que começaram suas carreiras no pop punk e enfrentavam o
machismo da indústria, seguiram os princípios do Riot Grrrl: denunciar o sexismo,
fortalecer a sororidade e reivindicar espaço na música

“Caras que provavelmente eram uns bons dez anos mais velhos do que eu me assediavam. Lembro-me de tocar no North Star Bar [na Filadélfia] e esse homem gritou “tire a camisa!”, provavelmente 10 vezes. Já tinha acontecido algumas vezes, mas esse cara era super agressivo. Na quinta ou sexta vez, eu percebi que eu é que estava com o microfone. Que eu possuía o poder. Que eu não tinha que ficar quieta” (Williams, Hayley. Rolling Stone, 2020).

Um episódio emblemático ocorreu em 2005, durante a turnê do Paramore no festival
Warped Tour, um festival essencialmente composto pelo gênero pop punk. Enquanto
se apresentava no palco, uma camisinha foi jogada em Hayley, que na época tinha
apenas 16 anos. Esse gesto sexista é apenas mais um dos inúmeros que simboliza a
objetificação das mulheres no pop punk e o desrespeito generalizado que muitas
enfrentavam. Hayley, ao se deparar com essa atitude, denunciou publicamente,
questionando a cultura que permitia esse tipo de comportamento.

O segundo álbum da banda, nomeado Riot! (2007) marcou um ponto de virada na
carreira da banda e na trajetória de Hayley. Com músicas como “Misery Business” e
“Crushcrushcrush,” o disco consolidou o Paramore no mainstream e trouxe à tona
questões sobre a representação feminina no gênero. O título Riot! não foi escolhido
por acaso; ele carrega o espírito de resistência e questionamento que o movimento
Riot Grrrl defendia. Apesar do sucesso, “Misery Business” gerou críticas por versos
considerados problemáticos em relação ao gênero. Anos depois, Hayley decidiu retirar
a música do setlist do Paramore, reconhecendo que os tempos mudaram e como ela
mesma evoluiu em sua visão sobre feminismo e representação. Esse movimento de
autocrítica também reflete como o Paramore e Hayley continuaram desafiando
estereótipos de gênero e se posicionando contra o sexismo na música.

O Feminismo de Hayley Williams
Em meu ponto de vista, Hayley Williams se conecta com a quarta onda do
feminismo, que enfatiza a interseccionalidade e o uso das redes sociais como
ferramentas de conscientização e ativismo. Em seus perfis online (https://www.instagram.com/yelyahwilliams/ ) , ela compartilha reflexões sobre saúde
mental, igualdade de gênero e a importância de criar espaços seguros para mulheres
na música. Sua abordagem direta e autêntica ressoou com fãs ao redor do mundo,
tornando-a não apenas uma artista, mas também uma voz influente para questões
sociais. O podcast “Black People Loves Paramore” (https://open.spotify.com/show/0aNC945DJjS2GbgAqRc1v3) representa isso muito
bem, incluindo o prêmio de melhor podcast musical na UK Music Awards, um reconhecimento importante para a defesa da inclusão e representatividade no pop
punk. O programa busca dar voz a artistas negros que se identificam com o universo
Paramore e a experiência de mulheres na música, discutindo temas como racismo,
feminismo e a luta por maior diversidade no cenário musical. Esse espaço promove um
diálogo essencial sobre as barreiras enfrentadas por artistas negros, especialmente no
pop punk, e como Hayley, como líder da banda, desempenha um papel de destaque
em destacar essas questões.

Além disso, Hayley tem usado sua plataforma para falar sobre as dificuldades de ser
uma mulher no pop punk. Em entrevistas, como a concedida à Rolling Stone em 2020,
ela fala abertamente sobre a pressão para se conformar a padrões estabelecidos pela
indústria musical, além das críticas constantes recebidas por ser mulher em um papel
de liderança. Em um gênero frequentemente definido por sua energia masculina e por
letras que podem reforçar estereótipos de gênero, a presença de Hayley é um lembrete
poderoso de que as mulheres não são apenas espectadoras nesse cenário — elas
também são criadoras e agentes de mudança. “Não quero ser vista como apenas a
garota da banda”, já declarou em diversas ocasiões, reafirmando seu papel ativo e
consciente na construção de um espaço mais igualitário.

A artista destacou que quando sua banda estava surgindo, era alvo constante de comentários machistas e críticas sem fundamento. Uma delas veio de um ídolo dela, o Fat Mike, vocalista e baixista do NOFX

“Fat Mike costumava dizer às pessoas que eu praticava anilíngua (ato sexual que consiste em estimular o ânus do parceiro com a língua ou a boca) no palco quando eu tinha 19 anos. Não acho que isso seja algo punk. Não acho que essa seja a essência do punk. Sinto fortemente que sem mulheres jovens, pessoas de outras raças e a comunidade queer, acho que ainda estaríamos onde estávamos antes.”

 

Hayley Williams e a Evolução do Paramore
Ao longo dos anos, a música do Paramore evoluiu significativamente, incorporando elementos de synth-pop, new wave e influências experimentais. Essa transição é um reflexo da jornada pessoal e artística de Hayley. Em After Laughter (2017), por exemplo, a banda explorou temas como ansiedade, depressão e vulnerabilidade de uma forma mais aberta e sincera do que nunca. Para muitas mulheres, essas temáticas representam uma quebra de barreiras, pois contrastam com o ideal de “força” frequentemente associado a lideranças femininas em bandas de rock. Mais recentemente, Hayley lançou projetos solo, como os álbuns Petals for Armor (2020) e Flowers for Vases / Descansos (2021), que aprofundam ainda mais sua exploração de questões pessoais e emocionais. Esses trabalhos mostram uma artista em constante transformação, disposta a desafiar expectativas e a redefinir seu espaço na música.

A Sub-representação Feminina no Pop Punk
Desde o surgimento do gênero pop punk, a estética visual do “emo” sempre foi
algo muito forte, além das sonoridades. Havia, e ao meu ver, ainda persiste, um
preconceito em relação a esse estilo, marcado por piercings, tatuagens, cabelos
coloridos, franjas “lambidas”, calças justas e uma estética amplamente associada à
masculinidade. Além das questões temáticas, a estética do pop punk também reflete
uma dinâmica de gênero. As roupas largas, os tênis e o visual descontraído foram
historicamente vinculados à masculinidade no pop punk, o que dificultava a
apropriação desse estilo pelas mulheres. No entanto, Hayley Williams e outras
mulheres, como Brody Dalle do The Distillers e Brody Armstrong do The Bombpops,
romperam com esses códigos estéticos, criando uma estética mais autêntica e
diversificada que refletia identidades femininas, sem abrir mão da essência do pop
punk

“Às vezes nós damos entrevistas, passamos um tempão falando e pensamos que as perguntas vão se espalhando de forma uniforme, que o material vai se aprofundando… aí depois da edição aparece só uma pergunta sobre o meu cabelo… Esse é o tipo de coisa com a qual ainda me sinto muito desconfortável,” revelou a cantora no podcast Black People Loves Paramore em 2020  (https://open.spotify.com/show/0aNC945DJjS2GbgAqRc1v3#login ).

Apesar dos avanços, a sub-representação feminina no pop punk continua sendo um
problema. Muitas bandas lideradas por mulheres enfrentam dificuldades para serem
levadas a sério e ainda sofrem com a falta de reconhecimento igualitário em relação
aos homens. A experiência de Hayley Williams reflete tanto os desafios quanto as
conquistas de ser mulher em um gênero dominado por estereótipos

“Parte de crescer cercada por tantos homens significou que — certamente nos primeiros tempos do Paramore — eu estava praticamente com medo de ser uma garota. Eu usava as mesmas blusas que os rapazes usavam, ou o mesmo estilo de sapatos… eu estava desconfortável com a noção de poder me sobrepor. Eu sentia como se qualquer tentativa minha de parecer com uma garota iria resultar nas pessoas não me levando a sério, e isso foi uma perspectiva realmente falha e deformada — uma prática muito ruim para uma pessoa jovem”, disse Hayley para a revista Rock Sound, em 2016.

 

A trajetória de Hayley Williams no pop punk revela uma luta constante contra
as normas de gênero e estereótipos que predominam em um cenário musical
tradicionalmente dominado por homens. Desde os primeiros anos do Paramore,
Hayley enfrentou desafios tanto na indústria quanto na cena pop punk, marcada por
questões de sexismo e desvalorização das mulheres. Sua recusa em se conformar aos
papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres no gênero — como a “figura feminina”
ou o estereótipo da pop star — reflete uma tentativa genuína de redefinir o espaço
feminino no pop punk.

Hayley se destacou não apenas como uma cantora, mas como uma liderança que
buscou questionar e desconstruir essas barreiras. Suas experiências com comentários
machistas e atitudes sexistas, como os incidentes em que foi assediada ou reduzida,
são exemplos de como o pop punk historicamente marginalizou as mulheres. Contudo,
sua resposta a esses desafios, com atitudes como o reconhecimento dos problemas e a autocrítica, revela uma postura de resistência e empoderamento.

Ao longo de sua carreira, Hayley foi pioneira ao abordar temas como saúde mental e
vulnerabilidade, desconstruindo o mito de que mulheres no pop punk devem adotar
uma postura de força inabalável. Suas escolhas musicais e de apresentação também
foram importantes para quebrar estigmas relacionados à estética tradicionalmente
associada à masculinidade no gênero. Mulheres como Hayley ajudaram a construir um
espaço mais diversificado, onde a identidade feminina não é apenas aceita, mas celebrada.

Contudo, ainda existem desafios em relação à representatividade feminina no pop
punk. A sub-representação das mulheres continua a ser um problema, com poucas
bandas lideradas por mulheres recebendo o devido reconhecimento. A história de
Hayley serve como um marco para futuras gerações, mostrando que, apesar dos
obstáculos, é possível reivindicar e consolidar espaços para mulheres na música. Sua
luta é um lembrete de que a busca por igualdade no pop punk não terminou, e
continua a ser um campo fértil para transformações sociais e culturais.

Referências:

HOST. Paramore and Pop Punk Reinvented. Em: Sounds Like a Cult. [S.l.]: Spotify, 2024. Podcast . Disponível em: https://open.spotify.com/episode/5uTanlBqdAJphE6JRTkCGV.

PARAMORE BRASIL. Paramore Brasil. Disponível em: https://www.instagram.com/paramorebrasil/?hl=pt-br. Acesso em: 21 dez. 2024.

FERREIRA, Gabrielle Camille; MESSAGI JÚNIOR, Mário. Pop Punk: Quando o punk rock assumiu o mainstream. In: INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares da Comunicação. XVII Congresso de Ciências da Comunicação na
Região Sul – Curitiba, PR, 26 a 28 maio 2016. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, 2016.

YELLOW BRICK. The rise of 2000s pop punk: exploring the genre’s evolution. Disponível em: https://www.yellowbrick.co/blog/music/the-rise-of-2000s-pop-punk-exploring-the-genres-evolution. Acesso em: 21 dez. 2024.

PAULA, Fabiana de. Mulheres no rock: por que ainda somos tão poucas? Novembro de
2015. Trabalho de conclusão de curso (Mestrado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.

HOLMES, Sequoia. Black People Love Paramore Podcast. Disponível em:
https://open.spotify.com/show/0aNC945DJjS2GbgAqRc1v3. Acesso em: 21 dez. 2024.

Rolling Stone. (2020). Hayley Williams reflete sobre o feminismo, o pop punk e os desafios enfrentados como mulher na música.
Disponível em:[https://rollingstone.com.br/musica/o-grande-problema-da-atual-nostalgia-do-pop-punk-segundo-hayley-williams/]

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

O silêncio que existe entre corpos e a música

Make Fabico Weird Again #1

                                                                                                         Por Pietro Scopel

O objeto de análise é um evento realizado por alunos da UFRGS. Grande parte do público também é aluno, a maioria estão nos semestres iniciais e dos mais variados cursos. Devido a sua fama de alguns anos, o evento, que acontece semestralmente, geralmente um no início e outro mais para o final do ano, atrai a atenção de outros jovens da cidade de Porto Alegre. Não se pode partir do princípio que o público ou o evento faz parte de uma cena musical, mas também é uma mistura, e talvez essa seja uma das primeiras definições sobre fenômenos musicais contemporâneos: uma grande mistura. Quando pensamos as articulações entre música, comunicação e cultura, nesse contexto, exploramos conceitos da cartografia musical. O sujeito que circula pelos diversos núcleos ao longo do percurso é atravessado por infinitas sensações, como em uma sobreposição de camadas de sons e signos, que vão moldando e criando novas experiências, ressignificando, mesmo que apenas por algumas horas, as ruas e praças da cidade. 

O objeto a ser investigado é o evento Bar em Bar, realizado pelo diretório do curso de arquitetura da UFRGS em Porto Alegre em 22 de novembro de 2024. Esse objeto foi escolhido na intenção de documentar uma parte do momento presente, ou o quanto em uma simples noite diversas pessoas se reúnem como num ato de dominar a cidade. Pode-se notar a profundidade do objeto aqui estudado, devido sua análise que buscou referências no jornalismo gonzo. Onde o sujeito analisador se mistura ao evento e da mesma forma que o público, se permite vivenciar as conversas, cenários e atmosferas que só ali ganham vida, como uma corporeidade coletiva[1].

Como tudo na vida tem um início, aqui não seria diferente. Existem histórias que são contadas de geração em geração, ou simplesmente, você pode ter escutado a melhor história da sua vida no meio da madrugada, de uma pessoa que você acabou de conhecer, completamente bêbado, em uma área de fumantes lotada. Isso só reforça que certos fatos devem ser levados a sério. Bom, uma dessas fábulas nos diz que, quando temos uma festa que acontece na rua, de graça, que começa às oito horas da noite de uma sexta-feira e não tem hora para acabar, precisamos estar preparados fisicamente, mas principalmente, ter mantimentos que permitam altas doses de alegria por muitas horas (entende-se como mantimentos produtos a base de açúcares, gorduras, cafeína, taurina, nicotina, entre outros).

O ENCONTRO

 O momento antes da festa, comumente chamado de aquece, costuma ser na casa de alguém que mora perto do local onde será a festa ou estabelecimentos também próximos ao local como, supermercados, tabacarias ou até mesmo postos de gasolina. É o abrir das cortinas que já dá os primeiros sinais do que virá pela frente. Vale ressaltar que essa festa, por ter a característica de, como já dito antes, acontecer na rua, abre a possibilidade de não haver limites para convidados ou participantes, isso faz a maior parte do público estar em grupos de cinco a dez pessoas, o que também gera uma falsa sensação de segurança e proteção contra furtos e assaltos. 

O bairro Centro Histórico começa a ser tomado pelos jovens, mais especificamente em frente à Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Um detalhe muito crucial de toda essa festa é que o evento vende ingressos, chamado de passaporte, para quem quiser beber apenas cerveja. Sim, você leva seu copo e vai passando em bares selecionados, o que justifica o nome do evento, dentro de um trajeto, enchendo de cerveja quantas vezes quiser (esse trajeto deixou de ser divulgado). Muitas pessoas acham isso o maior diferencial dessa festa e levam copos especiais ou canecas dos seus cursos da faculdade com grandes tirantes, clássicos em cervejadas universitárias, e talvez essa seja uma das poucas semelhanças com outras festas universitárias. Mas isso não impede que muitas pessoas comprem suas próprias bebidas, geralmente vinho, whisky e vodka de marcas duvidosas, misturas com bebidas energéticas também de marcas duvidosas, acompanhada de um grande saco de gelo que mesmo dentro de várias sacolas, vai derretendo criando um rastro, em um ato político e até mesmo poético de demarcar os limites desse mapa se que cria, desaparece e se refaz pelas ruas e calçadas da cidade.

O MEIO

Com o passar das horas, é surpreendente a quantidade de pessoas que estão ali presentes. A passagem pelo final da Avenida João Pessoa em direção ao primeiro bar na Praça Conde de Porto Alegre, já é caótico, ninguém respeita as sinaleiras, irritando motoristas. Os jovens se instigam manifestando gritos políticos inundados pela euforia como  – “a cidade é nossa” […] “fora Melo”, entre outros palavrões, xingamentos e ofensas trocadas com os motorista em meio a assobios, buzinas e entregadores de moto que passam acelerando, cortando de giro, que em seu tom e cadência dita o ritmo da orquestra.

A cidade acorda. Moradores de prédios, pois dificilmente você encontra casas nesse bairro central, olham pelas janelas com expressões de espanto e alguns que contagiados, abrem suas janelas e abanam, conversam, a energia sobe e todos ali têm uma certeza, a festa, ou rolê como é comumente chamado, estava acontecendo. Os vendedores ambulantes entram na dança e vão suprindo aqueles que, por motivos diversos, precisam de algum líquido. Ainda seria muito cedo para esse fato, mas, os primeiros sinais de altas quantidades de substâncias no corpo, sim, no corpo, pois entre tudo isso os flertes já estavam acontecendo desde o início, já eram evidentes. 

Devido a motivos óbvios de orçamento do evento, não existe um paredão de som, ou estrutura que permita que todos ouçam a mesma música. É uma festa onde existem vários DJs com sua própria aparelhagem de som, normalmente caixas portáteis de médio a grande porte (como referência as caixas da marca JBL) que com playlists em seus aplicativos de música no celular, a todo volume, compartilham seu gosto pessoal que ali vai de encontro a outros gostos individuais de uma grande coletividade musical. Desde hits do pop internacional como Taylor Swift ao funk com Mc Rodrigo do CN, com o deslocamento da multidão, tudo se mistura. Todos querem ouvir algo animado para cantar alto junto com seus amigos, dançar ou chamar a atenção de flertes que já recebeu na noite. Isso se torna algo um tanto quanto complicado em ruas pequenas e apertadas do centro histórico de Porto Alegre, onde em determinados trechos da Rua Duque de Caxias era impossível sair do lugar e se mexer. Isso, de certa forma, facilitava a interação entre grupos que em geral eram carismáticos e compartilham afetos, mesmo que de cenas diferentes. 

É também o encontro dos gêneros musicais como o rock, pop, rap e funk, em suas mais diversas diferenças, mas que ali se uniam, mesmo que normalmente estariam em lugares bem distantes. A música é um ponto central nesse texto, pois, existe festa sem música? A música com um pano de fundo, é o coadjuvante, na sua mais sutil expressão, molda o ambiente. Quando é o ator principal, ela toma conta, e assim não falamos mais apenas de sonoridades, mas sim de algo mais profundo, como a frequência. É notável que durante o dia, aquele trajeto que se estende pela Rua Duque de Caxias e Jerônimo Coelho, é pacífico e calmo, mas naquele momento, a frequência era a mais alta possível, e era até possível escutar o silêncio que existe entre corpos e a música. 

O evento Bar em Bar é um grande encontro de diferentes jovens da cidade. Em determinados pontos do trajeto, era possível ver o quanto as pessoas estavam confortáveis de estarem ali.  Deve ser por isso que é uma festa tão diversa e querida pelo público. Muitos daqueles jovens em maior parte são brancos de classe média, que normalmente frequentam bairros como a Cidade Baixa, Bom Fim e 4o Distrito, uma área mais central de Porto Alegre. Buscam rolês mais baratos e bares movimentos. Um público que para a Polícia Militar e Guarda Municipal, não oferecem risco, então mesmo que uma viatura seja vista pelas redondezas, não é um sinal para correria, gás de pimenta ou balas de efeito moral, como normalmente essas corporações tendem a atuar em outros cenários.

Os bares que participam ou não do evento, contribuem com sua ambientação mais boêmia e simples, ou melhor, são engolidos pelo mar de pessoas, que buscam banheiros desesperadamente. Devido a grande quantidade de pessoas que vão em direção a ponte da Avenida Borges de Medeiros e a Praça da Matriz, containers de lixo, jardins de prédios, fachadas de lojas e até as portas dos carros estacionados se tornam o lugar perfeito para ser utilizado como um banheiro. São os rastros de dominação da cidade.

[…] não estamos tratando somente da existência de locais onde se partilha e se vive a música, como também da ideia de trajeto como possibilidades de deslocamento, de partida e de chegadas a certos lugares, assim como de impedimentos e confinamentos, apontando para questões que articulam, configuram e barram os entrelaçamentos entre tecido urbano e música (MONTEIRO, 2024, p. 2). 

O FINAL

Quando o mar de pessoas encontra o Monumento Julio de Castilhos no centro da Praça da Matriz, a primeira reação é escalar o mais alto possível. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        Fotos divulgadas pelo perfil no Instagram @barembardafa 

 

Como um ato de buscar mais do que pertencer, se juntar de fato a cidade e se tornar um só, os jovens sobem no monumento, decretando, com a chegada do estandarte do Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (DAFA) que guia a multidão desde o início, a vitória e a conquista, mesmo que apenas por algumas horas, daquele território. É o momento pós-caos, quando decisões já foram tomadas, pessoas se perderam e nunca mais voltaram, teve quem foi embora e teve quem ali curtiu as últimas horas desta peregrinação noturna. 

Conforme Monteiro (2024,p. 2): “imaginar a música a partir dos aglomerados urbanos é um fazer que permite pensar as cercanias da cidade, a transformação de espaços em lugares significativos e a coexistência, nem sempre apaziguadora, de diferentes cidades em uma só. Essa perspectiva pressupõe tessituras que articulam corporeidades, trajetos, espacialidades e artefatos tecnológicos em práticas musicais que materializam a cidade através de ambiências comunicacionais”. 

Ao vivenciar essa experiência se permitindo absorver pequenas nuances de cada olhar, sorriso ou conversas, percebe-se dinâmicas de novas gerações, levando em conta que a grande maioria tinha em torno de vinte e dois anos. Um público enérgico, ansioso, que com celulares nas mãos querem registrar tudo a todo momento. 

Depois da Praça da Matriz, o público se dispersa como um rio que se desvia por caminhos imprevisíveis, sem regras, sem destino certo. Da Praça dos Açorianos ao vibrante bairro Cidade Baixa, o corpo se move ao ritmo de uma festa que pulsa pela cidade. Quando o relógio marca mais de uma da manhã, as ruas ao redor já se entregam ao silêncio, e a música, antes potente, se dissolve no ar como uma lembrança efêmera. Era o fim, mas também o começo de algo mais: a música foi apenas o convite, o corpo, a verdadeira celebração.

 

Referências

MONTEIRO, Gabriel; CARNEIRO, Giovanna; BARREIRO, Heloise; JANOTTI JR., Jeder. Inimigos do fim: apontamento sobre o circuito de “afters” no Recife. Artigo apresentado no 33º Encontro Anual da Compós, Niterói, Rio de Janeiro: UFF, 2024.  

[1] A corporeidade é a consciência e a experiência do corpo humano, que envolve a relação entre o corpo e o ambiente, as sensações físicas, as emoções e o movimento. A corporeidade pode ser entendida como a relação entre um corpo e outro, ou entre um corpo e o meio em que vive. A partir dessa perspectiva, o corpo possui uma singularidade própria, que só se entende na convivência com outros corpos.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Guia de sobrevivência aos trilhos

Make Fabico Weird Again #1

por Rafaela Peretto

Caxias do Sul é uma cidade pacata apesar de seus 500 mil habitantes, caracterizada pela forte colonização italiana e orgulhosa cultura gaúcha. Seus cidadãos são trabalhadores e valorizam um estilo de vida quieto, muitas vezes imigrantes de outros países, estados e municípios. É um bom lugar para constituir uma família, ter um emprego estável e comprar um imóvel, com estrutura para que se possa nascer e morrer sem pensar em sair de lá.

A cidade grita aos quatro ventos suas raízes e bons costumes ítalo-gaúchos, escondendo seu filho rebelde no começo da rua Coronel Flores, no nobre bairro San Pelegrino. É o endereço da antiga estação férrea, inaugurada em 1910 e tombada em 2001, um verdadeiro símbolo da potência metalúrgica característica de Caxias. Durante o dia, a quietude é ocasionalmente interrompida por alguns estabelecimentos em prédios comerciais, estudantes da faculdade próxima e frequentadores experimentando os finos cafés e restaurantes. Carinhosamente apelidada de Trilhos, a esquina no centro da cidade é despretensiosa, mas a noite é o coração da cena noturna caxiense.

Em uma sexta-feira com condições ideais – tempo limpo, início de mês e um bom line-up de festas – os Trilhos começam a receber seu público a partir das 21h30. Grupos se reúnem ao redor de garrafas de vodka barata, energético e sacolas de gelo no chão, ocupando o espaço público nas fachadas dos locais que posteriormente entrarão. Aos poucos o movimento se intensifica, bem como a energia: conforme a bebida bate, aumentam-se as intersecções sociais entre diferentes tribos, mesmo que posteriormente venham a se separar pois frequentam casas de festa diferentes. 

A música, apesar de presente, é contida em cada reunião, tocando de carros estacionados no meio-fio. O cheiro de cigarro é forte. A fumaça dos pods e vapes emergem dos grupos, colaborando para criar uma atmosfera densa. O chão é sujo com garrafas, latas vazias e está constantemente úmido e grudento com alguma coisa que ninguém quer pensar sobre. Moradores de rua entorpecidos se misturam com os jovens bêbados, tornando-se quase uma atração de entretenimento – já presenciei desde a leitura de cartas de tarô eróticas até a imitação de cachorro em troca de um gole de corote de canela. 

Em uma época, a rua Dr. Augusto Pestana era totalmente ocupada por carros de som e jovens com o orçamento baixo. Essa rua é uma travessa paralela aos Trilhos, coberta por paralelepípedos e inútil para o trânsito caxiense. Com a música alta e porta malas aberto servindo de banco, esse rolê ultrapassava o aquece e se tornava a festa em si. Um dia no meio de 2023, alguém levou uma arma de fogo e atirou para o céu. Esse foi o início das tocaias da polícia civil que passaram a acompanhar todas as noites de festa de um ônibus oficial. Agora, a travessa é deserta. Com a presença dos policiais, se instauraram algumas regras num ambiente antes desgovernado. Se os Trilhos de hoje são caóticos, é porque um dia foram muito mais. 

A primeira vez que eu fui para os Trilhos foi em 2022. Havia sido convidada pela Duda, uma amiga mais velha já maior de idade, porque ela iria sair com seus amigos e eu estava na casa dela. Decidimos de última hora, comprei um ingresso revendido por R$50 e editei meu ano de nascimento no Canva, eu ainda tinha 17 anos. Fui para o rolê de coração na mão, com medo de ser barrada na entrada, vestindo uma roupa emprestada e acompanhada de pessoas que eram no máximo conhecidas. A festa era no Cafe de La Musique, filial de uma rede que nasce em São Paulo, “aos moldes dos clubes mais badalados do mundo”. É um espaço que se propõe a entregar sofisticação e elegância, recebendo também eventos fechados como formaturas, casamentos e aniversários. Como a casa era pequena, quem quisesse ir da pista para a área de fumantes precisava passar no meio da fila de entrada, resultando em um ambiente desorganizado e lotado. O interior tinha uma decoração elegante, com espelhos, vidros, luzes e tons de dourado. A pista era apertada e metade da área total era ocupada pelo espaço reservado ao VIP, em formato de “C” e elevado, conectando-se à cabine do DJ. No final das contas, consegui entrar com minha identidade falsa. Fiquei traumatizada pela música – eletrônica que se transformava em um funk modinha ou em um sertanejo universitário. Só voltei a frequentar o espaço em 2024, uma única vez.  

O dresscode feminino é saia ou vestido, poucas mulheres optam por calças. Brilhos, paetês e estampas nos tecidos, maquiagem mais pesada e sapatos de salto. Tons escuros e neutros. São roupas parecidas entre si, quase que padronizadas. Os homens também acatam um uniforme: camisetas neutras, com pouca ou nenhuma estampa, e calças jeans lisas. A maioria da massa representa um recorte de padrão estético da sociedade. Não havia fila, mas se mantinha o sistema de ter que cruzar o caixa para chegar na área de fumantes. Dessa vez, utilizei minha identidade real. A decoração era mais ou menos como eu lembrava, mas o espaço parecia ser menor. Estranhei o VIP, o Cafe é a única festa dos Trilhos que oferece essa opção.

Sou chata com música de festa: para mim, é o que vai definir se o rolê vai render ou não, considerando que eu passo a maior parte do tempo na pista. Por isso, eu sabia que não ia gostar assim que pisei dentro do Cafe e ouvi música eletrônica. Entramos na festa um pouco após a meia noite e quando saímos, em torno das 3h, a impressão que ficou é de que havia tocado a mesma coisa a madrugada inteira. Não consegui aguentar mais de dez minutos na pista. O que salvou a noite de ser uma completa falha foi o fumódromo – não pelo cigarro, mas pela conversa. O espaço é apertado, uma área coberta como se fosse uma sacada que dá de frente para a rua. Bancos espaçosos intermediados por plantas e mesas permitem um respiro da festa lotada, cujos sons são abafados pela parede que separa os dois ambientes. Apesar de ter muitos fumantes, a maioria dos que ocupam o recinto apenas procuram uma folga dos estímulos fortes da pista. A bebida serve de coragem líquida e afrouxa a língua, tanto para tagarelar quanto para beijar, e a área de fumantes é o palco de ambos. 

Em qualquer festa, o banheiro feminino é um local sagrado. O único espaço reservado somente a mulheres, onde a sororidade reina sob o acordo silencioso de paz e irmandade entre todas. Exceto no Cafe, aparentemente. Ali, o banheiro feminino não tem a aura característica, o clima é de seriedade e objetividade: entre, faça suas necessidades, use sua droga de preferência, e saia. Ao menos é o que testemunhava enquanto usava o espelho para conferir a maquiagem. 

Todo o role nos Trilhos acaba na pizza da Level, e esse não foi a exceção. Uma fatia estilo americano da melhor pizza da cidade, pois leva o melhor tempero: a larica. Eu pedi uma de chocolate branco com nozes, típica. Quase todas as mesas estavam cheias com grupos como nós, jovens com fome saindo da festa, mas sem querer ir para casa. A calçada já estava mais vazia, o gelo do aquece derretido e as garrafas sem nada dentro. Mesmo assim, algumas pessoas ainda se reúnem pela rua. 

Se o Cafe é uma festa padrão, a Level Cult é o completo oposto. A casa noturna fica no segundo andar e quintal da pizzaria de mesmo nome, de fachada preta por exceção do arco-íris pintado sobre a porta. A premissa do espaço é enaltecer a comunidade lgbtqia+, e isso transparece em cada escolha da produção. Característico do lugar, as noites são temáticas e criativas, com atrações como promoções de drink, rodada de shot, flash tattoo e drag queens. Naquela noite, a festa era dos signos do zodíaco. Os Trilhos estavam no seu auge às 23h com o calor da primavera. A fila é única, se desenrolando em um beco do lado da Level que permite a entrada com bebidas – estendendo o aquece na espera que toma pelo menos meia hora. A segurança confere a identidade e ingresso antes entregar uma comanda de papel. 

A entrada da festa é uma escada estreita e escura, iluminada por leds coloridos que constroem a atmosfera energizante até desembocar na pista de dança. O espaço é pequeno, representando ¼ do total. À direita, a DJ toca pop brasileiro e funk, ocasionalmente hits internacionais. À esquerda, uma saída leva ao bar e ao andar de baixo. O ponto alto da Level é a área aberta no final das escadas. Um dia foi um quintal, mas agora é cercada por arquibancadas cheias de pessoas, um coreto elevado que recebe as flash tattoos e outro bar que divide a demanda para evitar a espera. A música não é alta, mas se faz ouvir, sem atrapalhar as conversas que preenchem o ambiente. É acolhedor e confortável, diferenciando-se ao dar prioridade a um espaço além da pista.

É onde passo a maior parte da festa, caçando conversa com pessoas novas fora do meu círculo social – atividade que pode parecer simples, mas em Caxias é uma verdadeira olimpíada. Eu gosto da música que toca, sou apaixonada por pop, mas deixo para escutá-las durante o dia; a noite pede funk. Isso, combinado com a pista pequena e lotada de dançarinos performáticos, me faz optar pela arte da conversação.

Caxias do Sul recebia uma visita importada, uma amiga americana da Sophia vinha ao Brasil pela primeira vez – a Gringa. Os Trilhos e a Level foram os programas escolhidos para apresentar a ela a nata que nossa pequena cidade tinha a oferecer. Considerando a paixão pelo primeiro gole da Gringa de um Corote de canela, não foi surpreendente quando a encontrei abraçada em uma drag queen de quase dois metros de altura na área aberta. Ela, que só falava inglês, virou a grande atração da noite na festa dos signos. 

A Level é única em alguns conceitos. Oferece comida, e de qualidade! Salgados de festa de aniversário como coxinha, bolinha de queijo e batata frita feitos na hora. As bebidas não eram escandalosamente caras, e como sempre havia alguma promoção divertida rolando, se tornava mais acessível. Para agradar os fãs, eles traziam para Caxias festas temáticas de divas pop, eventos já famosos nas capitais. Taylor Swift, Luísa Sonza, Charli XCX e até Ana Castela. Há muita liberdade de expressão intrínseca na cultura da Level, abraçando estilos, tipos e escolhas que no dia a dia são malvistos pela sociedade. Isso culmina na maior junção de pessoas diferentes que a tradicional Caxias permite. É um lugar que une a performance à essência de quem se é. Para quem sente que não se encaixa na sociedade, a casa acolhe.

 Meu professor de dança define: “na Level, eu posso beijar todos os meus amigos e ninguém vai me julgar”. É verdade. Tanto que naquela festa dos signos, a promoção da noite era um shot de graça para a dupla composta por signos compatíveis. Como geminianos e sagitarianos, leoninos e aquarianos, virginianos e peixes. Lá, há o incentivo a absolutamente todas as formas, práticas e tipos de amor, mesmo que seja um que só vai existir por uma noite. 

Saímos da festa a convite dos seguranças, porque a Gringa tinha perdido a mão na bebida e estava dormindo nas arquibancadas. Por pouco que não me juntei a ela, tanta arte da conversação me deu sono, principalmente estando sentada em um lugar confortável. Ela acordou de forma lenta e, com a minha ajuda e a da Sophia, caminhamos juntas até o final de todo rolê nos Trilhos, a segunda Level da noite, dessa vez para comer. A americana aprovou a pizza estilo americano, enquanto contava como havia beijado cinco brasileiros. 

Religiosamente, ao longo de 2023, frequentei os Trilhos e o Zero54 às sextas-feiras. Era uma rotina: às 22h, a Isa chamava o Uber com uma parada na minha casa e juntas íamos até os Trilhos encontrar nossos amigos. Tínhamos um spot, ao lado direito da entrada do Station, a única conveniência da rua. É um estabelecimento pequeno, com apenas três cadeiras sempre ocupadas e uma geladeira preenchida por bebidas populares a preço de monopólio. Com seu kit montado em mãos, o Michael era a única presença obrigatória, fora ele as pessoas variavam. Conhecíamos todas, e caso contrário, era fácil fazer amigos. A sensação de familiaridade com aquele ambiente era do tipo que permite a expressão da personalidade no volume máximo, era muito confortável estar ali porque todos vibravam de forma sintonizada. Apesar de ser uma relação limitada ao ambiente, tornaram muitas festas mais divertidas. 

O Zero é a maior casa noturna em estrutura. Filas duplas, para ingresso e lista, em ambas entradas, e mesmo assim pode demorar até 40 minutos em festas específicas. Os ingressos comprados adiantados incluem um shot de vodka. A estética da festa agrega elementos da cultura hip-hop e é moderno, acatando trends e características da geração que frequenta o espaço. Também é restaurante, mas essa opção fecha quando a festa abre. 

As roupas são mais casuais, apesar de não fugirem do código de vestimenta que une os frequentadores. O estilo circula em torno da própria proposta do espaço, streetwear e num geral peças que estão em alta. Se fosse definir o look Zero54, seria uma calça cargo larga – com uma camiseta da High para os homens e um tube top para as mulheres. 

O espaço oferece duas pistas de dança, com DJs distintos. A pista principal recebe as atrações, tocando o estilo temático da noite. Na segunda, os DJs da casa constituem um set mais democrático. Cada uma tem uma área de fumantes acoplada, mas apenas a primeira tem bancos e cadeiras. Ainda, conta com um corredor entre elas, onde a música é mais fraca. É fácil de transitar entre elas, e esse funcionamento fornece mais de uma opção de música – dobrando as chances de gostar do que se está ouvindo. O gênero principal é funk, às vezes tem festas específicas para tocar variedades como hiperpop, rap e rock. Mesmo nesses casos, a segunda pista se encarrega de fazer o feijão com arroz para agradar ao público fiel. Artistas convidados sobem aos palcos como atrações, trazendo uma experiência única. 

Grande parte do meu tempo, passo na pista de dança. O principal motivo do meu apego com o Zero é justamente esse, a música é muito boa. É confortável para dançar e a energia do público é alta, apesar de algumas exceções: uma barreira de homens com os braços cruzados se apoia nas paredes como se elas fossem cair a qualquer instante. Aqui, falta a liberdade que sobra na Level. Havíamos entrado antes da meia noite, pois tínhamos nome da lista e esse é o horário limite. Já estava cheio, mas quando deu 1h, não havia espaço para respirar – muito menos caminhar livremente. Péssima (ou ótima) hora para estar colada na frente da cabine do DJ, sem poder sair porque seria impossível voltar. Nas duas horas que passamos no nosso lugar sagrado sem querer abrir mão, aproveitamos cada segundo. O set havia sido muito bom. Saímos para a área de fumantes. O problema de ter uma festa preferida é que ela é a preferida de todo mundo que você conhece, até de quem você não está em bons termos. A sensação de ir ao Zero em festas imperdíveis é a de caminhar entre ovos sem poder pisar em nenhum, é impossível relaxar. De alguma forma, todo mundo que eu não queria ver estava lá, e caminhar entre as pessoas exigia um planejamento enorme para não passar perto de alguém complicado. Não é um lugar tão grande, uma hora sua ex-melhor amiga vai passar a dois centímetros de distância do seu ombro e você vai precisar fingir que não viu nada. É um campo minado. 

O banheiro feminino é um portal para outra dimensão, uma na qual todas são formadas em psicologia, maquiadoras profissionais e o machismo foi erradicado da face da terra. Não há motivos para estresse. Acima de tudo, as cabines são consideravelmente limpas e a porta tranca. Minha memória mais especial lá foi descobrir que a Taylor Swift havia anunciado a regravação do seu álbum Speak Now porque uma menina anônima estava comemorando. Não nos conhecíamos e nem conheço ela hoje em dia, mas naquela noite nós choramos juntas. Em uma das muitas trocas de pista, demos de cara com uma batalha de dança no meio do corredor. Igual aos filmes, com jurados, panelinha de torcida e death drops como se fossem água. É sempre incrível presenciar pessoas talentosas, especialmente de um ramo que eu estou envolvida – como dançarina de jazz e contemporâneo – e justamente por isso, sei na pele a dificuldade das apresentações. Não foi uma situação à parte, já houveram batalhas de rima e open mic, incentivando pequenos artistas a mostrar seus trabalhos. 

Eram 4h54 quando fechamos a comanda, o sol já ameaçava nascer. A festa ainda estava movimentada, apesar de nem se comparar ao início. Terminamos a noite na pizza da Level, com um pedaço de chocolate branco com nozes, afinal, o café da manhã é a refeição mais importante do dia. A sensação de dever comprido só pode ser verdadeiramente experimentada ao estar nos Trilhos com a luz raiando após uma festa incrível, maquiagem borrada e pés cansados. Rindo com amigos e relembrando os momentos recém vividos na madrugada, mas que parecem ser de uma vida inteira. Tomando uma Coca-Cola para prevenir a ressaca e reclamando do preço do Uber. Em dias muito especiais, de alguma forma convencendo o grupo a ir a pé para casa, uma caminhada de vinte minutos. Nos comuns, entrando no carro e desejando boa noite ao motorista só para receber um “bom dia” como resposta. No dia seguinte, a ressaca é forte e todos juram nunca mais pisar em uma festa. No fundo, a gente sabe que é mentira, porque quando a mensagem “e hoje? ” chega, a resposta sempre é “Trilhos!”.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A Última Noite de Batalha do Raça

Make Fabico Weird Again #1

por Amanda Juliano Casartelli

E no final, talvez a coisa menos verossímil que eu poderia fazer é organizar as ideias para falar freestyle, eu enquanto MC, talvez só queira o tempo todo contar minhas histórias com um certo quê de improviso. Será que todos os nossos eventos, mesmo quando extremamente divulgados, ainda não exalam improviso? Preciso falar sobre uma praça lotada, sobre caixas de pizza, sobre rimas, crianças, regatas de basquete e um mar de bonés. Distantes do coração da cidade, que por si é distante daquilo que diriam ser o centro de qualquer coisa, mas que cada frequentador afirmaria com certeza ser o ponto central do hip hop numa tarde de domingo. 

Poucos lugares que eu fui enxerguei tanta paixão quanto na “Quadrinha do Raça”, o lar da batalha, que também é ponto de encontro de todos os jovens, crianças, atletas e artistas de fora e de dentro de um bairro. Ninguém pisa no chão daquela quadra de cimento sem paixão, gosto muito de alguns apaixonados pelas cestas de 3 pontos, usam camisas com o nome de Stephen Curry e arremessam naquelas linhas quase apagadas, o que divide eles talvez seja só um hemisfério de luxos, porque assim que a bola atravessa a rede, a glória é a mesma que a de um jogo da NBA. 

Hoje me detenho um pouco mais a falar sobre os apaixonados por rima, grupo que eu faço parte com orgulho. Esses, ligam um pouco menos para o chão da quadra e um pouco mais para aquilo que permeia o ar dela. A inspiração paira por todo o ambiente, os temas dos mais sociais aos mais divertidos se entrelaçam com os sentimentos daqueles que escolheram com os pés, cabeça e alma aquele caminho. 

“O rap é compromisso”, mesmo que improvisado. E nessa modalidade ele transcende a maioria das regras de convivência estabelecidas em quase todos os ambientes. As palavras falam sobre realidades, mas não necessariamente servem para perpetuar elas. Muitas vezes os versos “pedrada”, lançados com força um contra a têmpora dos outros, acabam com um aperto de mão e um abraço afetuoso: “caralho, mandou muito, minha mana!”. Provavelmente, segundos antes dessa informação eu estava no meio de uma roda, dizendo para 50 pessoas que a opinião dele não me importava, que seus argumentos são inválidos e que estava prestes a matar ele, mas adivinha, ali talvez ironicamente seja o lugar em que as opiniões importam, os argumentos são validados e as pessoas se sentem mais vivas. 

É assim que as batalhas funcionam quase sempre, quando a paz é quebrada não dura muito, mas normalmente quebra tudo. Algumas coisas capazes de tirar a paz dos frequentadores do Raça: aqueles que ficam falando durante as rimas dos outros, aqueles que chegam com versos contendo preconceitos de qualquer cunho, ou aqueles que desrespeitam “as mina”. Por esse último motivo em específico, já tivemos alguns dentes quebrados e olhos roxos.

Bom, talvez esse seja o relato sobre um dia específico, que não necessariamente represente o resto do ano, mas que carrega todos os personagens e emoções que estiveram presentes ao longo dele. Para a cultura das batalhas de sangue, a batalha de trio constituiu-se como um título muito nobre e só acontece em momentos muito importantes, os trios são extremamente bem pensados como equipes e visam construir uma estratégia imbatível, que une os atributos mais fortes de cada um dos participantes que desejam vencer o campeonato.

Em 2024, a Batalha do Raça, que acontece na cidade de Rio Grande, na Avenida Pelotas 886, decidiu realizar uma competição em trios para fechar seu ano, mas ao mesmo tempo a organização anunciou o fim das suas atividades de modo geral. Às vezes, é preciso pensar um pouco diferente, uma batalha é de fato uma organização? Ou é um ato? Será que se as pessoas continuarem a rimar no Raça, a organização importa tanto? Pois definitivamente a cultura não morreu depois do evento. 

No entanto, cabe falar sobre o evento em si, um dia bastante frio para dezembro, mas cheio de calor humano. Na praça deviam ter cerca de cem pessoas, que passaram no mínimo algumas horas no aguardo do começo do evento. Para variar, o horário marcado às 16 horas era só simbólico, todos tinham a certeza de que nada começaria muito antes das 19. Mas, nem por isso deixaram de chegar cedo. 

Enquanto a batalha não começava e alguns comiam pizza bancada pela vaquinha feita no grupo de whatsapp, eu me aventurava pelo basquete, mesmo tendo pouca ou nenhuma ideia do que estava fazendo. Marciano, um MC (e amigo) muito simpático, me chamava para um duelo 1×1. Quando eu parei, após um placar de 5×3 para ele, já estava ofegante e totalmente suada, confesso que experimentar a atividade depois de tanto tempo só observando foi extremamente divertido e libertador, agradeço muito àquela tarde por ter proporcionado o momento. 

Eu estava inscrita como competidora e meu trio era formado só por mulheres, eu (Jotacê), Anarima e Memy. Conheci essas meninas durante as batalhas da cidade, as similaridades dentro das vivências nas rodas aproximaram as vontades de fazermos algo juntas, a oportunidade caiu bem e o desejo de vencer o evento era grande. Era hora de aquecer para “o show”, a gente curtia a nossa própria rodinha e passava a palavra circularmente para que todas pudessem mostrar alguns versinhos previamente. Minha melhor rima surgiu descontraidamente neste momento, não sei descrever exatamente o contexto, mas eu rimei:

“Eles vem na roda falando de SBT

MC devendo rima eu mando pro SPC, 

nesse caminho eu saio do trilho,

programa do Ratinho, fiz o teste e cês são tudo meus filho!”

As gurias gostaram dessa especialmente, a ponto de pararmos um pouquinho para fazer um “uou, uou, uou”. Depois disso, rimamos por mais um tempo, até que as meninas decidiram parar para fumar um cigarro. 

Aí aconteceu algo digno de entrar no relato, quando o beat da música chamada “Set Ajc 2” começa a tocar, simplesmente todas nós paramos tudo e começamos a cantar a letra em coro:

“Vou cantar o que eu quero

Não vou entrar em gravadora

Vou montar a minha firma

Gângstas fazem assim

 

Tô na bala de eu ser

Tudo que um dia eles disseram

Que eu Júlia não seria

Como eles vão reagir”

 

A “vibe” foi estabelecida ali, a partir daquele momento talvez já não importasse tanto os resultados, pois a preparação havia sido um momento tão intenso, que a batalha em si já não estava ocupando os mesmos lugares nas nossas cabeças. 

Finalmente a batalha começou, a DJ Thaibrisa soltava os beats, DudaG e Cacau apresentavam o evento, mas antes era preciso de mais um único momento sério antes do sangue se instaurar. O GB interrompeu as festividades para fazer um pedido inusitado, ele contou a história de uma moradora do seu bairro (Vila dos Navegantes), que viveu como ele mesmo disse “uma vida de cão”. A personagem tratava-se de uma moradora de rua, travesti, que viveu sua vida sozinha pelas ruas do bairro e que ao longo dos anos teve contato com vários moradores, que a ajudaram ou não. Na noite anterior ela havia morrido e ali era o momento de dedicarmos um minuto de silêncio a ela. 

Depois do momento de concentração e reflexão, tudo podia prosseguir normalmente, as crianças, atletas, moradores, MCs e simpatizantes se reuniam em círculo, para escutar os confrontos musicais. O grito de guerra ecoava pela quadra: 

“Batalha do Raça, 

enxame de abelha, 

quero ver colar

os pitbull sem focinheira”

e era a hora de mostrar o talento 3, 2, 1… RIMA! Os confrontos foram passando, a noite foi caindo e o frio foi aumentando. Sinceramente, não consigo imaginar nada mais com capacidade de reunir tantas pessoas em um lugar tão esquecido pelo resto da cidade. Meu trio perdeu na primeira fase, mas participar do momento continuou sendo extremamente importante para nós, que ao longo dos anos nutrimos tanto carinho pelo movimento que ali acontecia. 

Um trio chamava atenção em especial, Bryan, Cheip e Menor CG. Bryan, também conhecido carinhosamente como “Rocklee” ou “Diógenes” nos dias em que usa seu chapéu. O astro da vila da quinta de 20 anos, “adotou” na competição nossos talentos mais jovens, de respectivamente 14 e 12 anos, suas rimas cheias de referências do mundo do hip hop e ao mesmo tempo de animes, contrastavam com os ataques enérgicos e descontraídos dos meninos que o acompanhavam. Falaremos de novo deles mais tarde. 

Eu já estava um pouco impaciente às 22 horas, ainda ali, depois de ter perdido. Eis que surge o convite mais inusitado e ao mesmo tempo alegre da minha noite. Gi, uma das cantoras que frequenta o movimento fala:

— Jota, vamo ali na padaria, a gente compra uma cerveja e faz xixi!
— Nossa, bora! Tava precisando muito…” — eu respondi
— Da cerveja ou do banheiro? — ela perguntou
A minha reposta foi óbvia —  dos dois.

E fomos assim, para nossa caminhada de mais ou menos 1km, rumo a padaria que ainda estava aberta naquele horário. Resultados extremamente satisfatórios: 1 lata de Amstel, 1 empada de frango e 1 ida ao banheiro. 

Voltei para a quadra revigorada e pronta para enfrentar o resto do tempo que faltava até o fim dos confrontos, a noite era longa, mas querendo ou não eu estava curtindo. Era hora, da final e o trio dos meninos ainda era o que mais brilhava. Era engraçado, pois o melhor lugar para pessoas jovens brilharem talvez fosse ali mesmo. Enquanto algumas crianças corriam atrás da bola nos cantos da quadra, duas viviam seu momento de glória no centro dela. Os guris de 20, 14 e 12 anos foram os grandes campeões da noite e em seus sorrisos era visível o quanto acreditavam naquilo. A batalha para eles significava muito mais do que uma vitória, aquela era a grande vitória, que coroava suas cabeças que muitas vezes foram atingidas com os milhões de argumentos sobre sua “infantilidade”. Talvez essa seja a parte mais importante de tudo, a leveza que eles carregavam junto com suas palavras e que tantos ali já haviam esquecido faz tempo. 

A Batalha do Raça não existe mais enquanto organização, mas segue existindo enquanto cultura e lugar onde os MCs se reúnem, normalmente às terças, para compartilhar seus talentos, pensamentos e angústias. E se um dia ela não existir mais, não importa tanto, pois aqueles que cresceram sendo impactados por todo aprendizado compartilhado ali, seguirão a levar a cultura daquelas noites em suas palavras, por toda a cidade e fora dela.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Notas de resistência: as múltiplas faces da música durante e após a ditadura militar brasileira

Make Fabico Weird Again #1

por Milena Resch de Oliveira

Nesse trabalho proponho a investigação das diversas facetas da música enquanto objeto de infinitas interpretações. Para isso, farei a análise de 4 músicas lançadas no período da ditadura militar brasileira, enquanto mecanismo de resistência, e os significados e símbolos que elas assumem hoje. Analiso o que as músicas se propunham, como foram aceitas na época que lançaram e os diferentes usos e significados que lhe são dadas atualmente. Para isso, irei analisar comentários na plataforma de streaming YouTube, buscando trazer o debate sobre os diferentes sentidos que a música enquanto objeto pode ter dependendo do sentido que o receptor dá para ele. 

Em 1968, o regime militar tomou a decisão de apertar ainda mais o controle sobre o país com o AI-5, um ato que basicamente rasgava a Constituição e dava aos militares a liberdade de censurar qualquer coisa que não gostassem. A partir daí, a mídia e os artistas passaram a ser vigiados de perto, e tudo o que fosse produzido no Brasil precisava da aprovação dos militares antes de ser exibido. Essa “liberdade de criação” imposta pela censura fez com que muitos artistas se vissem obrigados a recorrer à criatividade para continuar fazendo críticas ao regime. O resultado foi uma enorme quantidade de músicas recheadas de metáforas, duplo sentido e mensagens subliminares, tudo para driblar a censura e ainda assim passar suas mensagens sem ser pegos.

Porém, com as tecnologias de difusão e permanência desses registros sonoros, essas obras ainda existem e hoje assumem novos significados, dos mais variados, abrangendo visões que perpassam diversos ideais musicais e também políticos. Sobre essa questão, é necessário entender que devemos, sim, analisá-las conforme seu contexto de produção e a que se propunha na época, mas também compreender seu caráter dinâmico e mutável de acordo com a experiência e interpretação de cada um. A arte nunca foi nem será algo duro, imutável. Pelo contrário, sempre varia seu significado quando se fala de diferentes tempos, espaços e pessoas. Mas até onde vai a liberdade de interpretação de sua subjetividade?  

Gol com drible do poeta: entenda como cada música conseguiu escapar da censura e se tornar referência de resistência desde aquela época até os dias atuais 

A música “Apesar de Você”[1], produzida por Chico Buarque no finalzinho de 1970, foi seu primeiro lançamento após um ano e meio exilado na Itália. Quando ele mandou a letra para aprovação, justificou que a música era sobre uma discussão entre um casal e ela foi aprovada. Em pouco tempo, ele já tinha vendido mais de 100 mil cópias, quantidade impressionante para a época. Foi uma questão de meses até a sociedade mastigar a canção e ela ser retirada de circulação, mas a ideia já tinha se espalhado e continua firme e forte até hoje. 

Confira comentários da música:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro artista que infernizou a vida dos militares foi o grande Caetano Veloso tanto que ele acabou sendo preso e obrigado a se exilar em Londres por suas obras subversivas. A alfinetada mais emblemática do artista no regime militar é a música “É Proibido Proibir”[2]. O título veio de uma frase que ficou famosa nas manifestações estudantis de Paris e foi apresentada pela primeira vez em 1968 no 3° Festival Internacional da Canção. A performance, que teve até a presença d’Os Mutantes como banda de apoio, ficou marcada por ter sido talvez a mais vaiada da história. Caetano desistiu de continuar e trocou os versos por um discurso improvisado criticando a falta de visão da plateia “mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Cálice”[3], uma parceria entre Chico Buarque e Gilberto Gil, nasceu numa sexta-feira santa em 1973. O refrão pega emprestado a passagem bíblica “ele se retirou, pela segunda vez, e orou: ― Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça‑se a tua vontade.”, dita por ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jesus Cristo sobre todo o sofrimento que sentia na noite em que foi traído. Gil apontou o duplo sentido presente na fonética da palavra “cálice”, podendo também remeter a forma imperativa do verbo calado, ou seja, “cale-se”. A partir dessa ambiguidade surgiu uma das músicas mais poderosas em oposição à censura e violência do regime militar, mesmo que inicialmente ela nem viu a luz do dia, uma vez que o órgão de censura percebeu a verdadeira intenção por trás do jogo de palavras e vetou o lançamento dessa canção, que só foi liberado há cinco anos depois.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por último, não tem como fazer uma lista dessas sem citar a música “Pra não dizer que não falei das flores”[4], uma das mais emblemáticas da época e composta pelo Geraldo Vandré. A canção ficou no segundo lugar do festival internacional da canção de 1968 da Rede Globo (para revolta da plateia, já que ela era a favorita absoluta do pessoal). Anos depois, o então diretor geral da Rede Globo, Walter Clark, revelou que a emissora recebeu ordem dos militares para que essa música perdesse. Isso porque muita gente interpretou essa música como um chamado para a luta armada radical, colocando Geraldo Vandré nos radares dos militares. Ele começou a ser vigiado pelo departamento de ordem política e social e teve que se exilar no Chile assim como muitos dos seus colegas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para finalizar a análise, considero importante destacar a metodologia adotada. O processo de pesquisa envolveu uma abordagem qualitativa, focada na interpretação das diversas manifestações presentes nos comentários de usuários no YouTube, relacionados a músicas lançadas durante o período da ditadura militar brasileira. A partir dessa seleção, foi realizada uma leitura atenta e criteriosa dos comentários, priorizando aqueles que abordavam temas políticos, sociais e culturais. A escolha dos comentários foi pautada por uma postura neutra e moderada, buscando refletir a diversidade de pontos de vista. 

É relevante destacar algumas curiosidades observadas durante o processo, como o fato de as músicas publicadas nos perfis oficiais sempre apresentarem os comentários desativados, o que levou à necessidade de buscar os comentários em perfis públicos de usuários. Além disso, é importante notar que, entre 2018 e 2022, período do governo de Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL, muitos desses vídeos também tiveram os comentários desativados. Outro ponto interessante foi a constatação de que a maioria dos comentários abordava questões políticas, tanto relacionadas ao período de veiculação das músicas quanto à política atual. Percebi que as opiniões de direita geravam uma quantidade significativamente maior de respostas, fenômeno que pode ser explicado pelo fato de as músicas, com um viés esquerdista, serem associadas por esse público a uma identidade e representação política. Também foram considerados os comentários mais pessoais, nos quais os usuários expressavam suas experiências e sentimentos, sobretudo em relação a momentos difíceis como a pandemia de Covid-19.

Esse trabalho permitiu uma compreensão mais ampla das múltiplas interpretações e significados atribuídos às músicas, tanto no contexto histórico de sua criação quanto na atualidade, revelando a continuidade de seu papel enquanto objetos de resistência e reflexão social. Por fim, conclui-se que mesmo com o perfil polissêmico da música e da arte, ainda há questões que devem ser levadas em consideração quando analisada uma obra. Nesse sentido, as canções analisadas devem ser ouvidas levando-se em conta o contexto de sua produção, pois seu sentido conotativo, muitas vezes, carrega um peso interpretativo tão significativo quanto, ou até mais, que seu sentido denotativo.

Referências

EL KABONG. Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré (1968). Youtube, 06 de abr. de 2010. Disponível em: https://youtu.be/A_2Gtz-zAzM?si=6G72USIMLOVMQqAG. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

FRANCISCO, EL HOMBRE. Apesar de Você. Youtube, 24 de out. de 2022. Disponível em: https://youtu.be/TTfOt-B25cA?si=zB8qrkJj1h61MJlt. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

GABRIEL ESTEFFAN. Caetano Veloso – É proibido proibir. Youtube, 13 de ago. de 2008. Disponível em: https://youtu.be/hE1ULHlLdWo?si=-thVx21W4-KBkM9-. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

MARTHA ANDRADE. Caetano Veloso – é proibido proibir (LEGENDADO). Youtube, 18 de nov. de 2012. Disponível em: https://youtu.be/7hYxfP5q5og?si=Wo7CahWLER40Bw-H. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

PATRICIA PORTO. Cálice (cale-se) – Chico Buarque e Milton Nascimento. Youtube, 23 de set. de 2009. Disponível em: https://youtu.be/RzlniinsBeY?si=5ZWWVHhTqfuMyM8R. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

PIPOCANDO MÚSICA. 6 Músicas CENSURADAS na DITADURA! YouTube, 28 de jan. de 2019. Disponível em: https://youtu.be/–Dvl9yXHK4?si=lugbek1hS8-Icuza . Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

SCHWARCZ, Lilia Moritz; VAINFAS, Ronaldo. O Brasil Republicano: O regime militar e a resistência cultural. 2018

TAUIL. Apesar de você – Chico Buarque e MPB4. Youtube, 20 de março de 2010. Disponível em: https://youtu.be/xbH2E1XfscA?si=J7-5aHSV0IO4_Lbj. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

BUARQUE, Chico [intérprete]. Apesar de você. No álbum Chico Buarque de Hollanda – Volume 3. São Paulo: Philips, 1970.

GIL, Gilberto; BUARQUE, Chico [intérpretes]. Cálice. No álbum Construção. Rio de Janeiro: Philips, 1978.

VANDRÉ, Geraldo [intérprete]. Pra não dizer que não falei das flores. No álbum Geraldo Vandré. São Paulo: Philips, 1968.

VELOSO, Caetano [intérprete]. É proibido proibir. No álbum Tropicalia – ou Panis et Circensis. São Paulo: Philips, 1968.

[1] Comentários sobre a música “Apesar de Você” retirados dos seguintes vídeos do Youtube:  https://youtu.be/TTfOt-B25cA?si=zB8qrkJj1h61MJlt  e https://youtu.be/xbH2E1XfscA?si=J7-5aHSV0IO4_Lbj.

[2] Comentários sobre a música “É proibido proibir” retirados dos seguintes vídeos do Youtube: https://youtu.be/7hYxfP5q5og?si=Wo7CahWLER40Bw-H  e https://youtu.be/hE1ULHlLdWo?si=-thVx21W4-KBkM9-

[3] Comentários sobre a música “Cálice” retirados dos seguintes vídeos do Youtube: https://youtu.be/RzlniinsBeY?si=5ZWWVHhTqfuMyM8R e https://youtu.be/8CnSiaP-jL4?si=MK8PIow0p0mNXS5Y.

[4] Comentários sobre a música “Para não dizer que não falei das flores” retirados dos vídeos do Youtube: https://youtu.be/A_2Gtz-zAzM?si=6G72USIMLOVMQqAG e https://youtu.be/5HnVjI2Injo?si=acQtEYVfZTM5HTML. 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Uma análise do álbum “Blonde” de Frank Ocean e como a obra se tornou uma referência na música contemporânea

Make Fabico Weird Again #1 

por Gabriel Vieira da Silva

Frank Ocean é um renomado cantor, compositor e produtor norte-americano, que ao longo da década de 2010, se tornou uma das maiores referências quando falamos do gênero R&B e pop alternativo. Através das suas letras extremamente sensíveis e produções para outros grandes magos da indústria musical, Ocean se consolidou como um dos grandes e mais icônicos nomes dessa geração. Antes de se tornar um fenômeno, Ocean apenas compunha para outros gigantes da indústria como Justin Bieber e John Legend. Até que através de Tyler, the Creator, tornou-se membro do Odd Future, que o lançou como artista finalmente. No grupo, ele participou de diversos trabalhos do próprio Tyler, de Jay-Z, Kanye West e Beyoncé, além de lançar sua primeira mixtape, Nostalgia, Ultra. Em seguida, Ocean lança Channel Orange, seu primeiro álbum de estúdio que já obteve um sucesso estrondoso rendendo até mesmo Grammy. Músicas como Lost, Thinking About You e Pyramids já chamavam a atenção para o que trataremos neste trabalho posteriormente: a forma como o artista produz música e expõe seus sentimentos através das suas letras profundas e sensíveis.  Após 4 anos de fãs especulando o que viria a seguir, Ocean lança Blonde em 20 de agosto de 2016, que posteriormente foi elencado na lista de melhores álbuns de todos os tempos pela revista Rolling Stone[1]. Se o seu primeiro álbum de estúdio já foi um grande sucesso, Blonde conseguiu superar esse feito. Entre uma produção fora dos padrões e divergências com a sua gravadora, o álbum apresenta temáticas como amor, sexualidade, racismo, família e espiritualidade.

Foto: Ensaio fotográfico de Blonde, 2016

 

Originalidade e a produção fora do padrão

Blonde apresenta uma produção complexa e repleta de experimentações. O álbum é um trabalho muito mais experimental considerando os seus projetos anteriores, com várias mudanças na estrutura das canções e na composição das letras. A produção do álbum no geral é muito complexa, e por conta disso, conta também com o auxílio de outros gênios da indústria musical como co-compositores e co-produtores. Kendrick Lamar, Beyoncé, Kanye West, Pharrell Williams, Paul McCartney, Andre 3000 e Tyler, The Creator são exemplos. Com essa gama de opiniões e ideias que surgiram com esse conjunto de artistas e de anônimos que compõem a extensa lista de créditos, em Blonde, Ocean consegue construir canções das mais diferentes formas. A voz do cantor é utilizada para além de ser um instrumento, mas também como tradução de sentimentos e sensações. Ela é utilizada nas músicas de uma maneira diferente do que era padrão na indústria musical da época do pop e R&B. Mais do que nunca, Frank Ocean perdeu todos os rótulos que estavam sendo empregados a ele. 

“Às vezes eu sentia que você não estava ouvindo versões suficientes de mim dentro de uma música, porque havia muito pensamento hiperativo. Mesmo que o ritmo do álbum não seja frenético, o ritmo das ideias sendo lançadas é”, disse Ocean ao The New York Times, em 2016.

 

A primeira faixa do álbum, Nikes, foi lançada junto a um videoclipe um dia antes do lançamento oficial do disco. A música que inicia os trabalhos dessa nova era de Ocean já apresenta algumas mudanças na sua produção quando relacionamos com seu trabalho anterior. A mudança na estética musical está representada principalmente na forma como a voz é utilizada. Nos primeiros versos da canção, o cantor utiliza de um pitch mais alto do que o usual. Já na segunda parte da música, ele faz o uso de auto-tune. Nos últimos versos, Ocean declama a letra de uma forma mais falada e menos cantada, se assemelhando com o rap.  Em meios gerais, a faixa resume bem o que a produção musical apresentará nas demais músicas.

Frame do clipe de Nikes – Blonde, 2016

 

A segunda faixa, Ivy, uma das favoritas dos fãs, Ocean traz na sua composição uma história do seu passado e bem pessoal como já era de se esperar. A história de uma relação que falhou, muitos os questionamentos e os arrependimentos foram traduzidos na letra. Na produção, o cantor revelou em entrevista para o The New York Times que subiu um pouco o pitch da voz para aparentar ser mais novo, o que traria toda uma atmosfera junto a letra da canção. No instrumental chama a atenção a presença de riffs de guitarra durante toda a música, o que não é usual na estética do R&B. Na sequência, Pink+White, outra faixa que ganhou o coração dos fãs e com participação de Pharrell Williams na produção, repetindo o sucesso de Sweet Life, do álbum anterior. A canção apresenta uma energia de verão e fim de tarde, o que foi representado na letra e no nome da música. Essa é mais uma letra que trata sobre amor e seus sentimentos. Para encerrar, a faixa tem vocais de Beyoncé fechando o último refrão da faixa [2]. 

“Just the same way you showed me, showed me

You showed me love

Glory from above

Regard, my dear

It’s all downhill from here”

Refrão de Pink+White

 

A seguir, Ocean traz um interlúdio, uma produção que é mais falada, geralmente mais curta e sem foco na questão musical, mas sim na mensagem. Na época era muito raro álbuns de R&B e Rap terem essas pausas para transitar as músicas. O cantor, então, inova ao trazer mais uma novidade à indústria musical. Posteriormente se tornou cada vez mais usual álbuns terem interlúdios em diversos gêneros. Be Yourself é uma chamada telefônica com ensinamentos de uma mãe de um amigo do cantor que dá conselhos a seu filho. Ainda sobre a primeira metade do álbum, Solo trata de solitude e é uma das poucas faixas que tem um ritmo marcado, guitarra e com o cantor se aventurando fazendo rap. Self Control, sendo uma balada de respeito, toca no coração e faz os olhos marejarem, e ainda entrega uma performance vocal impecável de Ocean. 

“Be yourself and know that that’s good enough

Don’t try to be someone else

Don’t try to be like someone else, don’t try to act like someone else

Be yourself, be secure with yourself’

Trecho de Be Yourself 

 

A segunda metade do álbum segue com as mesmas temáticas, porém com uma pegada mais densa, profunda e escura. É possível perceber essa diferenciação graças a produção e a forma como as canções são construídas. Após a parte “escura” de Nights, vem a reprise de Solo, interpretada por Andre 3000 e um cover magnífico de Close To You de Stevie Wonder. A canção tem um auto-tune que multiplica voz em várias notas que formam um acorde e apresenta samples da versão original. Em seguida, o cantor apresenta a sua disposição para explorar os seus impulsos estranhos mais evidentes em Good Guy e Pretty Sweet, trazendo um lado mais experimental na produção. 

E ainda mais canções imersas nas paixões do cantor e no seu passado White Ferrari traz toda uma energia nostálgica. Entretanto, para chegar a esse resultado, foram necessárias 50 versões até que Ocean decretasse qual seria a melhor. Uma das mais longas do disco é Seigfried que fala sobre pensamentos, devaneios, decisões e indecisões. Ao analisarmos a estrutura da canção, ela se assemelha a uma peça teatral, principalmente pela forma que as harmonias são construídas. Ocean se despede com Godspeed e Future Me, canções que apresentam uma sonoridade mais gospel e com as letras sintetizadas em todos os pensamentos que Blonde trouxe. 

“Quando eu estava fazendo o disco, havia 50 versões de “White Ferrari”. Tenho um irmão mais novo de 15 anos, e ele ouviu uma das versões e disse: “Você tem que lançar essa, é essa”. E eu disse: “Não, essa não é a versão”, porque ela ainda não me deu paz”,  disse ao The New York Times. 

 

A produção do álbum ainda entrega a sensação de estar imerso em uma obra de arte por completo. Todas as canções harmonizam muito bem umas com as outras levando em consideração uma coerência geral. Entretanto, todas elas também funcionam muito bem separadamente, a produção de Frank e seus parceiros trouxe muita qualidade à escuta do público.

 

Dualidade e a semiótica por trás de Blonde

Dois aspectos que Frank Ocean trás em seu álbum são a dualidade das coisas e a forma como as informações são apresentadas de uma maneira indireta e por outros meios. A dualidade fica escancarada em Nights, a nona faixa do álbum e que Ocean utiliza para marcar o ponto de virada do trabalho. O tempo de duração do disco é de exatamente 1 hora, e bem no minuto 30, há um ponto de virada extraordinário [3], lembrando até da sua prima do disco anterior Pyramides. A partir dessa transição, o álbum que vinha trazendo temáticas mais românticas e um aspecto mais solar e diurno, começa a apresentar sua face mais noturna, escura e densa. A produção fica mais lenta e com batidas mais fortes, o rap fica mais presente e as músicas mais faladas. 

 

Foto: Capa de Blonde, 2016

 

Blonde, ou “Blond” , como também pode ser chamado, apresenta várias formas de dualidade do próprio artista. Sua bissexualidade, o dia e a noite, o feliz e o triste. Além disso, a semiótica apresentada na capa do álbum retrata extrema vulnerabilidade, portanto a imagem dele chorando ou não é outra representação dessa dualidade. O cenário que remete a um banheiro pode ser considerado intencional por retratar um momento de vulnerabilidade e intimidade, conectando com a mão ao rosto e a carga sentimental que as letras do disco carrega, pode-se compreender que as lágrimas que estariam caindo, se confundem com as gotas de água do chuveiro.

A análise semiótica de Blonde envolve a interpretação de diversos significados, símbolos e signos presentes não só na estética visual do álbum como também nas músicas. A capa pode representar o público e o privado, podendo ainda refletir a complexidade da jornada emocional de Ocean. A Partir da virada de Nights, por exemplo, é possível relacionarmos com uma transição do presente para o passado, sugerindo que experiências anteriores moldam a identidade de um artista. Em Self Control, podemos fazer uma reflexão sobre o tempo, que não podemos controlá-lo, mas que Ocean tenta capturá-lo em momento de introspecção. A semiótica do disco revela um trabalho profundo e introspectivo, além de multifacetado, em que o artista utiliza tanto o som quanto a imagem para explorar questões complexas de identidade, do amor e do tempo. As escolhas estéticas, as letras e a produção sonora estão imersas em uma rede de significados que questionam o papel da música e da arte na construção do eu e na compreensão das experiências humanas.

Liberdade criativa X Gravadoras 

Uma questão que permeia diversos artistas contemporâneos é a sua liberdade para criar sua música e a relação que estes têm com suas gravadoras. Tendo em vista que as grandes gravadoras visam estritamente o lucro, muitas músicas produzidas que saem do padrão comercial, são cortadas pela alta cúpula das empresas. Nesse sentido, uma massa de cantores acaba se tornando reféns e não produzindo o que quer de fato. Na maioria dos casos, os artistas entram nas gravadoras jovens e sem entendimento de contratos e por conta disso, acabam sendo prejudicados no futuro. Em alguns casos pode ocorrer o risco de até perder o direito de uso das suas próprias canções. Citando como exemplo, a cantora Taylor Swift perdeu o direito de utilizar suas músicas mais antigas [4], pois seu antigo escritório vendeu os direitos de suas produções contra a vontade da cantora e sem a possibilidade de compra da mesma. Por conta disso, a artista norte-americana começou a regravar seus álbuns antigos [5] com pequenas alterações, os “Taylor’s Version”, como uma forma de impedir a venda desses produtos e focar nas produções novas.

Além de Taylor, outros artistas como Kanye West, Rihanna e The Beatles passaram por situações semelhantes. No Brasil, Anitta também enfrentou dificuldades relacionadas ao controle de sua carreira com sua antiga gravadora, a Warner Music. Recentemente, ela conseguiu romper o contrato após uma longa negociação pública, alegando falta de liberdade criativa. Esses casos destacam a importância de contratos justos e da posse dos direitos autorais, incentivando artistas a se informarem melhor sobre as implicações de suas decisões no início de suas carreiras.

Nesse sentido, Frank Ocean passou por uma situação parecida com sua antiga gravadora. Seu contrato com a Def Jam previa o lançamento de dois álbuns de estúdio do cantor. Entretanto, mesmo após Channel Orange ser um sucesso, sua gravadora ainda assim mantia uma pressão sobre o que Ocean deveria produzir em seu próximo trabalho e os direitos dele. O cantor então, elaborou uma estratégia ousada e visionária para driblar as imposições contratuais e reconquistar sua autonomia. Ocean cumpriu seu contrato com a gravadora ao lançar o álbum visual Endless, disponível apenas na plataforma Apple Music, e no dia seguinte, lançou Blonde de forma independente, mantendo controle total sobre os direitos e a criação do segundo álbum. Essa manobra não apenas libertou Frank Ocean das limitações impostas por sua antiga gravadora, mas também se tornou um marco na indústria musical. Sua decisão atraiu outros artistas para reconsiderar suas relações com gravadoras tradicionais e buscar modelos de trabalho que priorizem sua autonomia criativa e financeira.

“Você sabe, o sucesso tem que ser como Frank Ocean. Agora, obviamente, você sabe, ele é super popular, mas eu não diria que ele está jogando conforme as regras da indústria. Ele está tocando de acordo com suas próprias regras — ele está fazendo a música que quer, e não se encaixa em um formato. […] Ele não tem músicas que se encaixem nas rádios pop ou que cheguem a um bilhão de streams”, argumentou Jay-Z à Rolling Stone em 2021 [6].

 

Blonde como referência a outros artistas

Como já citado anteriormente, Blonde é considerado um dos melhores álbuns de todos os tempos segundo a Revista Rolling Stone [7]. Isso só se deu graças a qualidade do trabalho de Ocean e o apelo que a obra recebeu do público e da crítica. Tendo em vista disso, o trabalho do artista se tornou referência a quem produz música em diferentes aspectos. 

Através do seu lirismo pessoal, da narrativa íntima e a forma como Ocean se despe sobre as letras que, cantadas ou faladas, podem traduzir sentimentos que não são individuais, o cantor mostra que é possível se apresentar dessa forma. A vulnerabilidade presente do disco promove uma série de identificações entre o público, o que para outros artistas como Lil Nas X pôde influenciar no processo de produção e composição de suas próprias músicas. O cantor já relatou que Ocean influenciou diretamente sobre as questões envolvendo sua sexualidade e a comunidade LGBTQIAPN+. 

“Acho que artistas como Frank em geral e, como Tyler e outros, eles tornaram mais fácil para mim estar onde estou, confortavelmente”, disse Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe em 2020 [8]. 

 

Através da sua autonomia criativa, Frank Ocean influenciou outros vários artistas a repensarem seus contratos e acordos relacionados aos direitos das suas produções. A liberdade criativa é um dos pontos primordiais para que a arte seja mais autêntica, e para além disso, é possível obter sucesso comercial e criativo sem ter um vínculo com grandes empresas por trás. Tornar-se um artista independente é um desafio enorme, mesmo assim, Ocean influenciou outros colegas da indústria musical como Tyler, The Creator. 

“[…] É minha coisa favorita dele. É estranho porque eu sou amigo dele e esse álbum me fez um fã muito, muito, muito fã”, Tyler The Creator, sobre Blonde a Revistas QG em 2016 [9].

 

Pela visão da produção do disco, é possível compreender que a mistura de diversos elementos do R&B, soul, indie e pop proporcionou novas percepções a uma nova geração de músicos que viria a seguir. Isso demonstra a forma como em Blonde os instrumentos e as camadas de voz empregados tiveram influência em álbuns lançados anos depois. Essa estética teve uma influência notável em álbuns como Melodrama de Lorde, onde a narrativa emocional e a produção orquestral se unem de maneira íntima, e When We All Fall Asleep, Where Do We Go? de Billie Eilish, que explora o minimalismo e o uso criativo de camadas vocais para criar um ambiente sonoro único. Ambos os artistas foram impactados pela capacidade de Blonde de combinar introspecção com inovação sonora, reinventando a maneira de abordar gêneros e emoções na música pop contemporânea.

“É sobre essa grande estúpida felicidade e é intenso – eu sinto como se o instrumental nesta canção meio que ajudou a chegar lá […] Neste tipo de paisagem pós-‘Blonde’, nós meio que podemos fazer o que quisermos em termos de instrumental. É animador. Eu posso usar guitarras e ter uma batida deformada de Flume e jogar isso debaixo d’água”, Lorde disse à NME em 2017 [10].

 

Para finalizar, é possível notar o quão importante Blonde foi e continua sendo para a indústria musical contemporânea. O disco atravessa a ideia de ser apenas uma coletânea de músicas e se apresenta como um manifesto profundo e autêntico, além de independente e experimental pela visão do artista. Frank Ocean não apenas rompeu barreiras estilísticas, mas também redefiniu a maneira como os artistas podem expressar sua vulnerabilidade e explorar temas pessoais em suas produções. 

A produção de Blonde influenciou a criação de novos sons, e ainda, inspirou novos artistas a abordarem suas próprias narrativas. Ocean mostra que a música pode ser extremamente íntima, explorando nuances das emoções e dilemas existenciais, sem perder sua capacidade de agradar o grande público que consome música. Além de impactar a sonoridade da indústria musical, o álbum também influencia na liberdade criativa de uma geração inteira de músicos que o encontraram como inspiração para romper paradigmas e mergulhar na sua singularidade.  

Tudo isso demonstra que a música, quando produzida com dedicação e autenticidade, sem se preocupar com métricas e opiniões, pode ultrapassar diversas barreiras, tocando corações e mexendo com a vida de milhões de pessoas por todo o mundo. Blonde é um ótimo exemplo de como a arte e a emoção podem caminhar juntas e criar algo atemporal e universal, reafirmando o papel transformador que a música pode desempenhar em nossa sociedade.

 

Notas:

[1] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79

[2] Beyoncé em Pink+White: https://www.tiktok.com/@onelastlyric/video/7288436470476541189 

[3] Nights, no minuto 3:30. 

[4] Rolling Stone: Taylor Swift perde os direitos de suas músicas: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-esta-enfurecida-com-venda-da-suas-gravacoes-o-pior-cenario-possivel/

[5] Rolling Stone: Taylor Swift regrava seus discos antigos: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-vai-regravar-os-6-primeiros-discos-depois-de-perder-os-direitos-autorais/#google_vignette

[6] Jay-Z em entrevista à Rolling Stone: https://rollingstone.com.br/musica/jay-z-elogia-frank-ocean-tem-algumas-das-melhores-musicas/#google_vignette

[7] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79 

[8] Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe: https://youtu.be/EVYGTPg5BMY?si=NMXXTBU5uCotl7V0 

[9] Tyler, The Creator em entrevista a Revista QG: https://www.gq.com/story/tyler-the-creator-frank-ocean-interview 

[10] Lorde em entrevista à NME: https://www.nme.com/news/music/lorde-frank-ocean-influence-melodrama-2090372

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Jogando como música: Uma análise sobre a experiência de torcer na Geral do Grêmio

Make Fabico Weird Again #1

por Augusto de Souza Both, Caio Paiva de Mattos e Dimas Gabriel Ely Coutinho

Vivenciar e estar junto à Geral do Grêmio, e de certa forma as torcidas organizadas de um clube esportivo como um todo, é uma experiência muito única. Apesar de, em shows de músicas, haver uma certa semelhança entre o comportamento dos indivíduos presentes em um evento determinado (cantar músicas com um sentimento de pertencimento por um tempo que, em média, passa de horas), se trata de duas situações completamente diferentes.

Enquanto, em um concerto, você consome um produto e, de certa forma, pode exigir um certo nível de qualidade que vai estar atrelada a expectativa quanto aos músicos e ao valor desembolsado para estar presente no evento, em uma partida de futebol, porém, uma torcida organizada é a própria fonte musical, e cabe ao público, que também está pagando e consumindo um produto (o jogo de futebol), sem receber um pagamento por isso, o dever de cantar e envolver o resto do público.

Este senso de apoio incondicional sem fins lucrativos, entretanto, consegue estabelecer laços para com o restante da torcida e com o clube que são fundamentais para o desenvolvimento de uma união entre os três. É incontável o número de casos em que, no meio musical, disputas por dinheiro e créditos foi o estopim para brigas, discussões e até encerramentos de projetos.

Na Geral do Grêmio, entretanto, a motivação dos participantes é o amor ao clube, e isso proporciona um comportamento diferente de seus integrantes. Por suposto que, dentro da organização, existem também disputas por poder e influência, mas suas maiores preocupações estão ligadas ao bom funcionamento do clube, e não às rendas e alcance midiático, fato que, na maior parte das vezes, coloca as motivações coletivas muito acima das individuais, e facilita o convívio.

Um dia na Geral do Grêmio

Um jogo do Grêmio começa muito antes do apito inicial. É possível ver a concentração da torcida nos arredores da Arena do Grêmio várias horas antes da partida.

A configuração do estádio do “imortal tricolor” é diferente da maioria dos estádios do Brasil. A Arena do Grêmio foi construída no bairro Humaitá, que é uma área de menor poder aquisitivo em Porto Alegre. A região hoje concentra um grande número de bares que conseguem se sustentar pelo movimento gerado nos jogos do clube.

Como não é permitida a venda de bebidas alcoólicas dentro do estádio, os torcedores costumam chegar bem antes da partida para beber e fazer o tradicional “churrasquinho” pré-jogo.

Para garantir que o estádio esteja decorado, um grupo de torcedores vai ao estádio horas antes para colocar os “trapos” (como são chamadas as faixas que são colocados no estádio). Tem torcedores que são responsáveis por levar os instrumentos para o estádio.

A Geral do Grêmio costuma fazer a tradicional caminhada antes de entrar no estádio. A torcida se encontra no Bar da Geral e vai junta ao estádio até chegar na arquibancada norte. Esse setor é o mais barato, e o único que não possui cadeiras, local onde os torcedores podem pular e fazer sua festa.

Quando conversamos para realizar esse trabalho, percebemos que as nossas experiências e vivências de estádio eram muito diferentes por sermos de diferentes regiões do estádio e termos começado a frequentar o estádio em momentos diferentes, por isso decidimos cada um apresentar sua visão e contar a sua história com a banda tricolor.

Augusto

Vou aos jogos do Grêmio na Arena do Grêmio desde 2013, mas meu primeiro jogo no setor norte do estádio, onde se encontra a Geral do Grêmio, foi em junho de 2024. A demora se deve a algumas prevenções tomadas no sentido de segurança. Sou de Passo Fundo e morei lá por toda minha vida antes de entrar na UFRGS, então vinha poucas vezes frequentar o estádio para assistir aos jogos, e por consequência não sabia as coisas que poderiam acontecer dentro de uma torcida organizada. Ademais, era uma criança.

Todas as vezes que tinha ido e assistido o jogo de diferentes setores, eu já cantava as músicas, pois todas estão disponíveis no Spotify, mas nunca sentia que os torcedores ao meu redor estavam em sintonia e, em certos momentos, até me sentia deslocado, visto que era o único que sabia muitas letras de cor.

Neste ano, já adulto, maduro e acompanhado de amigos que já frequentavam o espaço, decidi me aventurar e assistir jogos de dentro desta torcida que está no imaginário de todo bom gremista desde sempre. A primeira vez foi no jogo Grêmio x Flamengo pela 27ª rodada do Brasileirão de 2024. Lá, a sensação foi completamente diferente. Uma energia de apoio incondicional que se traduz em uma cantoria motivante do primeiro ao último minuto do jogo. Durante momentos complicados de partidas, depois de gols do adversário e até no final de jogos em que o resultado positivo já é praticamente impossível de ser alcançado, o ambiente destinado a Geral do Grêmio gira em outra atmosfera.

Ali, consegui sentir de perto o quanto a bateria e os instrumentos de sopro utilizados pela Geral são de fato um pulmão para o resto da Geral, e, consequentemente, para o estádio inteiro. Um sentimento de que, se a canção não for entregue com a alma, o time não vai render o suficiente. Uma conexão que jamais havia sentido antes.

Costumo dizer que, quando vou em um jogo para analisar tecnicamente e sentir as nuances de jogadas altamente complexas e treinadas que envolvem uma partida de futebol, fico em outros setores do estádio. Mas, quando sinto que o jogo em que vou assistir requer uma vibração maior da arquibancada e uma declaração de amor da torcida para que os jogadores sintam a grandeza do time que representam, eu vou na Geral. Ali, consigo me declarar ao time que escolhi torcer desde antes de aprender a falar.

O setor da Geral, também, é um lugar com legislação própria. Lembro-me bem de assistir a várias pessoas serem expulsas do espaço por não cantarem, e, por este único e simples fato, serem consideradas torcedores de outros times infiltrados, o que mostra a importância dos cânticos na construção da identidade daqueles torcedores. Ao serem levados para fora dali por integrantes da Geral, eram retirados por funcionários oficiais do estádio sem qualquer consideração, mostrando que as regras ali, apesar de não escritas, são claras e respeitadas.

Pessoalmente, sinto que a Geral do Grêmio é o coração do clube. Sem ela, nada mais no clube pulsaria com a mesma intensidade. O apoio nos momentos difíceis, a crítica nos momentos necessários, as celebrações históricas nos momentos em que um título viraria apenas mais um simples objeto em uma sala de troféus. Ali, vive-se Grêmio, e o Grêmio vive ali.

Caio

Fui em doze jogos esse ano, em variados setores do estádio, e as experiências foram bem diferentes. Em todos os setores, em algum momento, as músicas influenciaram e incendiaram a torcida, porém na Cadeira Gold senti que o pessoal não cantava tanto. Acredito que isso ocorra, pois, esse setor possui o ticket elevado, levando um público que enxerga o jogo de outra maneira. Fui lá com carteirinha de sócio emprestada e me senti deslocado, pois eu cantava, gritava e xingava e às vezes até me olhavam torto por isso. Inclusive em 2022, o agora ex-presidente estava presente nos Camarotes e a diferença de reação dos presentes foi marcante, enquanto na Cadeira Gold os torcedores aplaudiram e tiveram com aplausos e gritos apoio, os torcedores da Arquibancada Norte reagiram com vaias e xingamentos. O momento do clube não era bom, o que mostra que a Geral é um reflexo do povo, com real consciência social, diferente de quem frequenta a Gold.

Nas superiores, a torcida canta e apoia muito mais. Inclusive, no jogo contra o Juventude, no fim de novembro, foi surreal o que vi acontecer no estádio. Empatamos depois dos 40 do segundo tempo e a Geral fez o estádio inflamar de uma forma que nunca tinha visto, a Arena virou um caldeirão e o time ganhou um gás absurdo no final do jogo, esse jogo eu senti que o Grêmio só conseguiu o empate pela força da torcida. Arrisco dizer que se o jogo tivesse mais 10 minutos, teríamos virado o jogo.

Já na Geral, fui pela primeira vez num jogo contra o Fortaleza em uma sexta-feira, início de noite. É de fato uma experiência única. O povo canta, fuma, pula, grita e apoia o tempo todo. Obviamente por conta das faixas não é o jogo todo que tu vai conseguir ver, mas a festa é algo que todo torcedor do Grêmio deveria viver uma vez na vida. Não é lugar para qualquer um, mas vale a experiência. A outra foi contra o São Paulo no fim do Campeonato Brasileiro num domingo às 16h. O setor tava lotado e pulsando, se alguém não cantasse em algum momento seria cobrado (como aconteceu comigo que, ao faltar ar de tanto cantar parei um pouco, fui empurrado por um membro da organizada me gritando pra cantar com cara de brabo) e também se alguém pegasse o celular imediatamente seria cobrado. Estava muito quente e muito apertado, mas pelo menos o Grêmio ganhou e no fim todos saíram satisfeitos.

Além disso, as experiências com a organizada foram bem legais nos arredores da Arena. Com cantorias, roda punk e bebida voando pro alto, foi algo que eu não esperava viver, mas achei bem legal. Esse ano acabei me aproximando mais das vivências com a Geral e foi muito interessante, acredito que valeu bastante a pena e ano que vem estarei lá de novo.

Dimas

Acredito que do nosso grupo, eu seja o cara com maior relação com estádios de futebol e vivência em arquibancadas. Por ninguém da minha família ter relação com estádio e eu morar em Cruzeiro do Sul até o começo desse ano. Conheci a Arena do Grêmio em 2022, ano que o clube estava na série B. De cara me encontrei, apesar da fase terrível que o clube estava, eu me encontrava em um lugar com pessoas que compartilhavam o mesmo que eu pelo meu clube de coração, me senti em casa.

Como por condições financeiras eu não conseguia ir com a frequência que eu queria para Porto Alegre. Comecei a frequentar estádios mais perto da minha cidade. Assisti jogos da terceira divisão do campeonato gaúcho, jogos do Lajeadense contra times horríveis, campeonatos amadores. Todas essas experiências foram muito legais, ver outras torcidas, conhecer outras realidades, mas nada se comparava com estar no meio da Geral do Grêmio.

Enquanto morava em Cruzeiro, eu ia de barca (como a torcida chama o ônibus de excursão) com o pessoal da Geral de Lajeado. Nas viagens era comum ver o pessoal levando os seus coolers e bebendo durante o caminho. Muitos, quando chegavam em Porto Alegre, já estavam totalmente alucinados. No fundo do ônibus, ficava o setor que carinhosamente era chamado de “cracolândia tricolor”, era possível ver pessoas fumando maconha e até cheirando pó. Essas questões com bebidas e drogas é algo bem visível na cultura das torcidas organizadas. O caminho inteiro cantando as músicas da Geral. Inclusive na volta, era comum a parada no “Paradouro 22”. Uma parada, que teoricamente era pra comer, virava uma desculpa para fazer festa. Os torcedores se reuniam, cantavam e tocavam os instrumentos como se ainda estivessem no jogo.

Esse ano, por causa da enchente, o Grêmio ficou impossibilitado de jogar em Porto Alegre. Fui em alguns jogos em Caxias do Sul e cheguei a ir para Curitiba acompanhar um jogo da Libertadores contra Estudiantes de La Plata. A experiência de viajar mais de 600 quilômetros para acompanhar meu time foi fantástica. O Grêmio já estava classificado, o jogo não valia nada. Mesmo assim, mais de trinta mil torcedores lotaram o estádio e fizeram a festa mais linda que eu já vi. A atmosfera no estádio era absurda, foi uma das maiores provas de amor que eu já vi uma torcida fazer por seu clube. Ver que tanta gente saiu do Rio Grande do Sul, com toda situação que o estado vivia, para acompanhar o Grêmio era algo quase que inimaginável. Eu fui com o pessoal de Lajeado, uma das cidades mais atingidas pelas cheias de maio. Mesmo assim, a torcida da região lotou dois ônibus (que não tinham nenhuma condição para uma viagem tão longa) e enfrentou mais de quatorze horas de viagem para chegar ao Paraná. Toda essa experiência foi algo imensurável e que eu guardarei com muito carinho pelo resto da vida.

Estar na Geral sempre pra mim é sempre bom. Estar no meio da loucura, abraçar desconhecidos, é um sentimento muito louco. O estádio talvez seja o único lugar que as divergências ideológicas, de classe e de gênero, fiquem por algum tempo de lado, por um bem maior chamado Grêmio.

Análise das letras da Geral

Resolvemos fazer uma análise das músicas da Geral do Grêmio. Como critério usamos as músicas que mais escutamos no ano de 2024 nos jogos que assistimos do Grêmio na arena. Traremos percepções mais gerais e trechos das músicas que apresentam essas visões.

O primeiro fator que chama a atenção é a quantidade de músicas que a torcida do Grêmio canta nos jogos, diferente de muitas outras torcidas que têm poucas músicas, elencamos de cabeça que pelo menos quinze músicas diferentes foram cantadas nesse período.

Algumas letras incluem referências explícitas ao uso de álcool e, em menor medida, drogas, refletindo um estereótipo de vida boêmia que é, de certa forma, romantizado nesse contexto cultural. Esse “culto” ao álcool e às drogas aparece como uma representação de um estilo de vida despreocupado e intenso, que se conecta ao futebol como um espaço de liberdade e emoção. Dentre os exemplos seguem os trechos das músicas a seguir:

  • “Eu sou borracho sim senhor, e bebo todas que vier.” – Música: Borracho sim senhor
  • “No meio da alegria, não teve aquele que não bebeu.” – Música: Fui Numa festa na geral do Grêmio
  • “Quiero que legalice la marihuana, para fumar un porro por la mañana. Quiero beber un vino y una cerveza, para tener el Grêmio en la cabeza.” – Música: Quiero Que Legalice
  • “Vou torcer pro Grêmio bebendo vinho e o Mundial é o meu caminho.” – Música: Bebendo vinho

Torcer vai além de estar presente nos jogos; é uma expressão de amor incondicional pelo clube. Percebemos que as letras fazem muitas referências para mostrar o quanto a torcida se doa para estar no jogo e o quanto o Grêmio é o seu motivo de viver, inclusive que a torcida daria a vida pelo clube. Dentre os exemplos seguem os trechos das músicas a seguir:

  • “Pelo Grêmio decidi viver, faça tudo que puder, hoje temos que vencer.” – Música: Pelo Grêmio eu decidi viver
  • “Eu daria minha vida, só para poder te ver sair campeão.” – Música: Renato outra vez nos fez campeão
  • “Amor descontrolado, nunca vou deixar de lado. Sempre junto ao tricolor, eu te sigo aonde for” – Música: Amor descontrolado
  • “Quero que saiba pelo Grêmio eu dou a vida, pra quem não entende o tricolor é minha alegria” – Música: Te sigo a vida inteira

Outra coisa que percebemos é a forte relação da torcida do Grêmio com as torcidas da Argentina e do Uruguai, o que se reflete diretamente nas músicas cantadas pela Geral. A torcida do Grêmio se considera uma “barra brava”, sendo o seu jeito de torcer muito inspirado pelas torcidas dos países vizinhos. Muitas das canções mais populares da torcida gremista são versões adaptadas de músicas tradicionais dessas regiões, especialmente da Argentina. A influência da cultura de arquibancada desses países é visível na maneira como as melodias e ritmos das torcidas argentinas e uruguaias são incorporadas ao repertório da Geral do Grêmio. Dentre os exemplos pode-se citar:

  • Música: Somos do bairro da Azenha – Música da torcida do Boca: River decime qué siente
  • Música: Pelo Grêmio eu decidi viver – Música da torcida do River: Borracho
  • Música: Quiero que legalice – Música é cantada por vários clubes argentinos
  • Música: Banda louca do imortal – Música da torcida do Independiente: Quiero ganar la Copa Libertadores

Importância das músicas para formação de novos torcedores

Para entender a relação das músicas para formação de novos torcedores, conversamos com o torcedor do Grêmio e influenciador digital Jeferson Lisboa.  Conhecido na Internet como FBI Tricolor, o jovem de 21 anos dedica-se a produzir conteúdos indo a todos os jogos do Grêmio e mostrando a torcida.

AUGUSTO: Qual você considera o papel da Geral do Grêmio e das músicas na formação de novos torcedores, principalmente das crianças?

JEFERSON: Fundamental, as crianças gostam muito da geral. A caminhada da geral sempre tem crianças junto, nos vídeos eu tento sempre mostrar as crianças. As músicas da Geral formam os torcedores.

CAIO: Alguma criança já te falou que virou torcedor por causa de ti? Ou que já assistiu o seu conteúdo?

JEFERSON: Que virou torcedor por causa de mim não. Mas muitas crianças me param para tirar fotos. Muitos pais me marcam nos stories com os filhos assistindo os vídeos e cantando junto. Eu acho meu trabalho importante nesse sentido, sempre tento cuidar do meu conteúdo pensando nesse público.

DIMAS: Você acha que se não tivesse a Geral, o Grêmio teria o apoio que tem hoje?

JEFERSON: Acho que não. A Geral é o coração do Grêmio, reergueu o clube em 2005 numa época complicada. Todos os jogos fora de casa, a caravana leva faixa, instrumento. Se o Grêmio tem a Arena forte é muito por causa disso. Nosso lema é muito diferente, apoiar o clube a todo custo. Motivar o clube, motivar os jogadores.

Concluindo

Para nós, a experiência de estar na Geral do Grêmio transcende o ato de torcer; é um fenômeno cultural que mescla paixão, música, união e identidade. A conexão entre a torcida e o clube é visceral, construída por meio de cânticos, rituais e uma atmosfera que não apenas embala os jogos, mas também molda a vivência de cada torcedor.

Ao analisar a Geral sob diferentes perspectivas, percebe-se a força coletiva que mantém viva essa cena única. A Geral do Grêmio vai além do futebol: cria laços, desperta emoções e reforça valores de comunidade. A Geral não é apenas uma simples banda. É o coração pulsante que simboliza a alma do Grêmio e de seus torcedores.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo.” — Uma análise do álbum “As Quatro Estações”, Legião Urbana 

 

Make Fabico Weird Again #1

por Julia Hoppe, Jornalismo UFRGS

Aos nove anos, os graves versos de Renato Russo me soavam lentos, quase deprimentes, mas eu ouvia porque meu pai curtia e eu queria dividir isso com ele. Dez anos depois, apesar de agora apertar o play por gosto, ainda escuto porque meu pai curte e eu quero poder dividir isso com ele. 2.114,7 km separam Porto Alegre de Brasília, cidade onde a Legião Urbana nasceu, em meados de 1982. Meu pai, por coincidência, também mora na capital acinzentada, e essa mesma distância às vezes parece dobrar. Triplicar. Transcender tempo e espaço. 

Para construir esse relato, pedi ajuda a ele, que encaminhou meu pedido para o grupo dos amigos de colégio com quem dividiu adolescência, fitas, discos e escutas. O que os filhos da década de 80 têm a dizer aos pais de 2024? As respostas foram diferentes entre si, mas se entrelaçaram em um mosaico que levava certas palavras em comum: rebeldia, jovem, atemporal, permanente. 

O quarto álbum de estúdio da Legião Urbana, As Quatro Estações, foi lançado em outubro de 1989 e vendeu mais de dois milhões de exemplares. Com a expulsão do baixista Renato Rocha, consolidou-se a formação da banda que perdurou até seu fim, integrando Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Produzida logo após o incidente traumático no Estádio Mané Garrincha que resultou em 70 pessoas detidas e quase 400 feridos, a obra marca uma era mais introspectiva do grupo, que preferiu se resguardar aos estúdios de gravação. Essa foi a última vez que a Legião Urbana se apresentou em sua cidade natal.

No verso do disco, o vocalista adiciona uma curiosa nota de rodapé que conta a história de um livro chamado ‘A Doutrina de Buda’, encontrado por ele em uma gaveta qualquer de um quarto de hotel em São Paulo. No livro está escrito que todas as partes dele podem ser citadas livremente, desde que respeitadas as condições de 1. creditar a fonte e 2. enviar uma cópia da obra que cita o livro para a sede da tal sociedade budista, no Japão. Apesar de não ter feito nenhuma citação literal ao longo do LP, alguns versos do livro serviram de inspiração para sua quarta faixa, Quando o sol bater na janela do teu quarto, o que fez com que Renato seguisse o protocolo, creditando a obra e mandando uma cópia de As Quatro Estações diretamente para o Japão. Até hoje, não se sabe se o disco realmente chegou ao seu destino ou se os budistas gostaram do som, mas o relato diverte os desavisados que passeiam os olhos pela tracklist da contracapa prateada.

 

Vitrola regulável meio enferrujada e disco As Quatro Estações

 Foto: Julia Hoppe, arquivo pessoal

 

Sendo assim, de budismo a Luís de Camões, passando por versos de Cordeiro de Deus, uma emblemática declaração de bissexualidade e uma homenagem aos amigos perdidos em razão do surto de AIDS que se intensificava por volta de 1980, o álbum é uma melancólica viagem para dentro do ser. Escutando nos formatos analógico (disco e vitrola) e digital (via Spotify), é possível perceber diferenças que vão muito além do frio na barriga que o barulho da agulha deslizando pelo vinil arranhado proporciona. O aparelho utilizado por mim para rodar o disco possibilitava regular os graves e agudos do que ele transmitia com o toque de um botão, me permitindo novas interpretações sonoras a cada volta do bolachão. As transições eram mais claras e o fade out do final poderia ter sido mais bem traduzido para a plataforma de streaming, mas a essência é mantida.

 

Neste álbum estão algumas das canções mais lembradas de toda a carreira da banda. Entre eles, logo na segunda faixa, está Pais E Filhos. A escolha perfeita do jovem (não necessariamente atual) semi-alternativo que está no processo de aprender a lidar com o divórcio dos pais. Clássica. O ritmo lento do início que simula uma canção de ninar contrasta perfeitamente com o vocal rasgado e crescente dos últimos refrões. 

Os versos finais sussurrados vêm como um soco despreparado na boca do estômago. Como pode uma estrofe, 35 anos depois de lançada, continuar assombrando a insônia de tantos filhos do Brasil? Renato Russo também foi pai, de um filho que nasceu cerca de seis meses antes desse álbum. À parte das polêmicas, biológico ou não, alguém que compõe:

“Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser quando você crescer?” 

Não está imune de experienciar a paternidade como um acontecimento que transforma e transcende. 

Em Feedback Song For A Dying Friend, uma carta de amor ao fotógrafo americano Robert Mapplethorpe se torna uma ode a tantas histórias, incluindo a do próprio Renato, mastigadas pela epidemia do vírus HIV. A peculiar mistura do rock puro e gritado com o instrumental de inspirações árabes distrai da angústia lírica de um intérprete que abre o coração para cantar sangrando. Ainda, a canção abre com um solo de guitarra colocado para tocar ao contrário, a la disco da Xuxa, que deixa tudo propositalmente mais cru e desconfortável. 

Apesar das linhas conformadas escolhidas para intitular este ensaio, a quarta faixa, Quando O Sol Bater Na Janela Do Seu Quarto, é realmente um respiro budista de positividade. Sempre tive o pensamento de que, se pudéssemos organizar as músicas em caixinhas, essa estaria na mesma prateleira de Here comes the sun, dos Beatles. Já a sua vizinha, Eu Era Um Lobisomem Juvenil, não me causava pensamento algum. Ela seria aquela caixa de papelão que a gente esquece lá no alto do armário e reencontra dez anos mais tarde em uma terça-feira aleatória só para descobrir que dentro estava justamente aquele vestido que estava procurando com tanta vontade. Revisitar esse álbum me deu de presente uma nova-velha música preferida.

“Não falo como você fala, mas vejo bem o que você me diz / Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo / Prefiro acreditar no mundo do meu jeito.” 

Mais sucinto e intimista, quase como uma conversa (ou talvez uma sessão de terapia), As Quatro Estações tem seu momento de gritaria rebelde e revolucionária tão característica da banda com 1965 (Duas Tribos). Ironizando o período da ditadura militar desde o título, a música referencia produtos infantis americanizados como Hanna-Barbera (estúdio americano de desenhos animados) e modelos Revell (réplicas em miniatura colecionáveis de veículos militares) como metáforas capitalistas, seguidas pela antagônica frase “O Brasil é o país do futuro”.  Para os fãs de Índios e Geração Coca-Cola, a acidez punk da faixa é bem mais familiar.

Muitas coisas mudam de significado com o tempo. Expressões, músicas, siglas, pessoas. Confesso que os versos emprestados e melosos de Camões nunca me convenceram, mas com o vozeirão a plenos pulmões de Renato Russo em Monte Castelo no volume máximo do fone de ouvido mais barato, é impossível não se arrepiar. O mesmo vale para Meninos E Meninas, uma desafiadora, orgulhosa e pessoal declaração pública do vocalista de uma das maiores bandas brasileiras da história. Interpretada como um hino plural e muitas vezes platônico, a música, anos depois dos primeiros contatos, mudou de significado para mim e serviu como trilha sonora da descoberta da minha própria bissexualidade, da minha própria identidade.

“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre / Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente”

Para o meu pai, escutar essas canções, compartilhar essa juventude com os amigos e então o que sobrou dela comigo era o jeito de sentir que estava preservando a memória de um passado. Em uma realidade tão efêmera, comunicar e construir laços baseados em situações de nostalgia que não podem ser replicadas é natural do ser social. É assim que criamos e mantemos redes de identificação que, quando agrupadas, formam culturas. 

Rebeldia, jovem, atemporal, permanente. São as palavras que meu pai e sua legião urbana de amigos utilizaram para descrever a sensação de escutar as músicas na época de seus lançamentos. Identidade, pertencimento, permanência, saudade. São as palavras que eu, Julia, encontro para descrever a sensação de fazer parte disso no presente.

Clique aqui para acessar o álbum As Quatro Estações na íntegra no Spotify

REFERÊNCIAS:

(DISCLAIMER: As referências foram utilizadas como fonte de consulta dos fatos citados, o texto é de autoria total de Julia Lima Hoppe)

ALMEIDA, Marcello – “Parece cocaína, mas é só tristeza” em: https://www.teoriacultural.com.br/post/especial-legi%C3%A3o-urbana-as-quatro-esta%C3%A7%C3%B5es-1989-parece-coca%C3%ADna-mas-%C3%A9-s%C3%B3-tristeza – Acesso em 20 de dezembro

LIMA, Irlam – “Há 30 anos, fãs da Legião Urbana provocaram um badernaço no Mané Garrincha” em:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/06/17/interna_diversao_arte,689065/ha-30-anos-fas-da-legiao-urbana-provocaram-um-badernaco-no-mane-garri.shtml – acesso em 20 de dezembro

MAIATO, Gustavo – “O clássico da Legião Urbana que precisou de autorização de budistas no Japão para sair” em: https://whiplash.net/materias/news_720/340982-legiaourbana.html – acesso em 20 de dezembro

FUSCALDO, Chris (2016). Discobiografia Legionária.

Com o uso autorizado dos relatos pessoais de Rodrigo Hoppe, Tiago Godoy da Rosa e Dartagnan Faller

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Samba às Avessas: Até quem não gosta vai se embalar

Make Fabico Weird Again #1

por Izadora Hypólito Alves

Disco: Samba às Avessas
Compositora: Pâmela Amaro, 2022
Gênero: Samba

“Samba às Avessas”, lançado em 2022, marca a estreia de Pâmela Amaro como uma das vozes mais potentes e originais do samba contemporâneo. Nascida em Porto Alegre, a artista desafia não apenas os limites geográficos do gênero, frequentemente associado à região Rio-São Paulo, mas também abala estereótipos, apresentando uma obra que pulsa com ancestralidade, resistência e uma forte carga poética.

 Pâmela faz mais do que lançar um álbum: ela ergue uma bandeira. Em cada acorde, em cada linha cantada, há uma declaração de resistência, uma afirmação de identidade e uma celebração do samba como espaço de luta, corpo e memória. Não é apenas um álbum de samba, é um tratado sobre ancestralidade, feminilidade e o que significa existir e resistir dentro de um gênero historicamente moldado por vozes masculinas.

Fonte: https://open.spotify.com/intl-pt/album/4kJsXfphmpU55c3SoylBdI

  1. Pedido a Osun
  2. Colo de Mãe
  3. Negro Amar
  4. Já Ganhou Meu Coração
  5. Saudação a Tupan
  6. Deixa Que Eu Vou Te Contar
  7. Samba às Avessas
  8. Não Posso Chamar de Me Rei
  9. Oferenda/Canoa de Velho/Bença
  10. Vadeia/O Sol Chorou
  11. Antes de Nós
  12. Samba Arte Popular

O título, Samba às Avessas, já sugere um movimento de subversão. O avesso, como conceito, implica em uma revelação — a parte oculta que, quando virada para fora, revela suas costuras, suas falhas e suas histórias. Pâmela Amaro não está interessada em reproduzir fórmulas consagradas, ao contrário, ela desfia cada linha do samba tradicional. Cada faixa é diferente da outra, seja em tom, ritmo ou densidade lírica. Apesar de todas trazerem uma letra que traz força, em alguns momentos pode ser sentido que a única coisa que liga uma música na outra é o gênero do samba.

A Voz que ecoa

Se há algo que realmente se destaca no álbum é a força poética de Pâmela Amaro. Suas letras são profundas, carregadas de simbolismo e têm o poder de provocar reflexões enquanto encantam com a beleza melódica. Faixas como “Samba às Avessas” (que dá título ao álbum) mergulham em questões identitárias, raciais e de gênero, sem perder o lirismo.

Sua voz, por sua vez, é um instrumento por si só. Pâmela canta com firmeza e sensibilidade, alternando entre momentos de doçura e outros de força incontestável. Sua interpretação carrega a urgência das mensagens que deseja transmitir, mas também sabe dar espaço para que os arranjos respirem e os instrumentos brilhem. Até mesmo nos momentos em que ela nem está cantando, ainda soa como melodia.

Religião e Ancestralidade

No álbum “Samba às Avessas”, Pâmela Amaro apresenta uma obra profundamente pessoal, que desafia expectativas comuns para um disco de estreia. Em vez de optar por um projeto mais genérico ou comercial, a artista gaúcha entrega um trabalho que exige ser apreciado em seus próprios termos, revelando suas raízes, crenças e identidade com firmeza e transparência.

 Uma das marcas mais evidentes do álbum é a forte presença da espiritualidade afro-brasileira, que se manifesta tanto nas letras quanto nos arranjos musicais. Em “Pedido a Osun”, por exemplo, Pâmela entoa versos carregados de reverência à divindade: “Yeye, graciosa mãe / Pandá Guerreira / Venha em minha defesa / Yalodê, dona da beleza”. Esses versos revelam não apenas a relação íntima da artista com sua fé, mas também sua habilidade em transformar espiritualidade em poesia. Mesmo em músicas onde a espiritualidade não é o tema central, como em “Negro Amar”, as referências à ancestralidade negra se fazem presentes: “O destino jogou capoeira / Deu rasteira no meu penar”. A imagem da capoeira, tão ligada à resistência negra, é usada aqui como uma metáfora poderosa, mostrando como Pâmela entrelaça suas origens culturais em suas narrativas musicais.

Essa abordagem não se limita às palavras, mas se estende à própria construção sonora do álbum. O uso de instrumentos como o sopapo — tambor de grandes dimensões, de origem africana, que é um dos principais representantes da cultura afro diaspórica do Rio Grande do Sul. — e ritmos como o batuque e o maçambique não são meros adornos musicais, mas vozes ancestrais que ecoam através de cada faixa. Em “Vadeia / O Sol Chorou”, essa conexão entre música, espiritualidade e identidade cultural fica ainda mais evidente, mostrando como o samba pode ser, simultaneamente, celebração, cura e resistência.

Na faixa “Saudação a Tupan”, Pâmela Amaro amplia o diálogo de Samba às Avessas ao incluir uma homenagem explícita aos povos originários, evidenciando a conexão entre a luta negra e indígena no Brasil. Essa canção transcende os limites do samba como gênero musical e se torna um espaço de respeito, reverência e reconhecimento das raízes culturais que sustentam a identidade brasileira.

O título da faixa faz referência direta a Tupan, uma entidade sagrada para várias culturas indígenas brasileiras, frequentemente associada ao trovão e à força divina da natureza. Ao trazer essa figura para o centro da música, Pâmela não apenas homenageia a espiritualidade indígena, mas também ressalta a importância do diálogo entre diferentes matrizes culturais que formam a identidade do país.

A presença indígena na obra de Pâmela não é meramente simbólica; é um ato político. Em um país onde os povos originários ainda enfrentam apagamento histórico e violência sistemática, dedicar uma faixa inteira a essa saudação é um gesto de resistência. A música cria uma ponte entre a espiritualidade afro-brasileira, tão presente em outras faixas do álbum, e a espiritualidade indígena, mostrando que ambas compartilham raízes de conexão.

Além da letra, os arranjos de “Saudação a Tupan” refletem essa reverência. A percussão tem um tom ritualístico, quase xamânico, criando uma atmosfera quase que sagrada. Pâmela constrói um espaço sonoro onde vozes, tambores e silêncio se entrelaçam para dar vida a uma prece musical.

Dessa forma, Pâmela Amaro não apenas canta sobre ancestralidade negra, mas também se solidariza com a causa indígena, reconhecendo que ambas as lutas estão entrelaçadas.

Entre tradição e inovação

Logo ao apertar o play, percebe-se que Pâmela Amaro não está aqui para apenas seguir fórmulas pré-estabelecidas do samba. Ela se apropria da tradição com respeito e reverência, mas não teme experimentar, expandir e desafiar o formato clássico. O álbum, composto por 12 faixas, revela um equilíbrio entre o velho e o novo, em algumas faixas como “Samba às Avessas” com Nilze Carvalho, podemos arriscar em dizer que foram utilizados elementos percussivos tradicionais como o sopapo e ritmos como o batuque e o moçambique, que dialogam perfeitamente com letras contemporâneas e interpretações vibrantes.

 Faixas como “Deixa que Eu Vou Te Contar”, que conta com as participações de Maíra Freitas e Yzalú, são exemplares desse espírito. A música é uma ode à mulher negra multifacetada, que se recusa a ser aprisionada em estereótipos sociais. Aqui, samba e rap se entrelaçam sem perder a fluidez, criando um diálogo potente entre gerações e estilos.

Gaúcha do Samba

A obra não apenas homenageia o samba, mas também o reconfigura, trazendo uma perspectiva afro-gaúcha raramente ouvida no cenário nacional.  O uso do sopapo, já mencionado no texto, não é apenas uma escolha estética, mas uma afirmação identitária. Ele ressoa como um símbolo ancestral, ecoando memórias das comunidades negras do sul do Brasil. Esse diálogo entre a sonoridade afro-gaúcha e o samba carioca é habilmente costurado ao longo das faixas, trazendo frescor ao gênero sem perder a tradição.

O verso “Esse é o samba de roda do Pampa”, presente na faixa-título, encapsula a essência do álbum: uma exposição de que o samba gaúcho não é periférico, mas parte vital da narrativa do gênero no Brasil. O mais comum ao pensar no termo “gaúcho” é pensar no extremo oposto do samba. É pensar em CTG, meninas com vestidos longos de prendas e penteados altos e meninos com sua tradicional pilcha sapateando, afinal, o Rio Grande do Sul é muito marcado por cultivar suas raízes tradicionalistas. Pâmela consegue nos lembrar que o Sul do país tem mais história além disso, assim como, nos lembra que quem está cantando não é uma carioca ou paulista, é uma mulher gaúcha.

Arranjos que contam histórias

A produção musical de “Samba às Avessas” também merece destaque. Cada faixa é cuidadosamente arranjada para valorizar não apenas a voz de Pâmela, mas também os instrumentos que carregam a identidade cultural afro-gaúcha.  Há também um cuidado em como os diferentes elementos sonoros dialogam entre si: cavaquinho, violão, percussão e vozes de apoio se unem de maneira harmônica, criando texturas que enriquecem as canções.

O curta-metragem: a extensão visual do álbum

Como se a experiência sonora não fosse suficiente, Pâmela Amaro lançou também um curta-metragem homônimo, que expande o universo narrativo do álbum. No filme, oito das doze canções ganham vida visual, aprofundando ainda mais as mensagens abordadas. Essa iniciativa revela a amplitude do projeto, que não se limita apenas ao formato tradicional de um álbum musical, mas que busca ser uma experiência cultural completa. São mais do que apenas músicas ou apenas um curta-metragem. É uma história, Pâmela Amaro conta histórias. A dela e a de quem veio antes dela.

Durante a inserção da faixa “Antes de nós” no curta-metragem, há exibições de cenas que aparentam ser de uma família reunida em um samba. Há também, na própria música, áudios falados de alguém que se supõe ser a avó de Pâmela. Tudo isso dá uma sensação de familiaridade com as histórias, como se nossos familiares estivessem sendo citados também.

Samba como resistência e afirmação

“Samba às Avessas” não é apenas um álbum de samba – é um manifesto. Não é um disco que pode ser ouvido de forma passiva. Pâmela Amaro reivindica o espaço das mulheres negras no gênero, resgata tradições afro-gaúchas muitas vezes marginalizadas e sem muito protagonismo e apresenta sua arte como ferramenta de resistência. O título do álbum não é por acaso: é um samba que desafia expectativas, que caminha por vias menos óbvias, mas que, ainda assim, honra profundamente suas raízes. Ele exige atenção, exige escuta. Não há faixas descartáveis, não há momentos de preenchimento. Cada verso parece ter sido lapidado com cuidado, cada escolha instrumental carrega significado.

Pâmela Amaro entrega um trabalho que contribui para um movimento maior de resgate e valorização do samba como ferramenta de expressão cultural e política. Pâmela Amaro utiliza o samba para resgatar e preservar memórias coletivas, tradições e espiritualidades marginalizadas. Suas letras e melodias revelam que sua música não é apenas entretenimento; é um espaço sagrado, um lugar de fala e de cura.

“Samba às Avessas” não é apenas um álbum de estreia — é um manifesto artístico, cultural e espiritual, que reafirma o poder do samba como uma expressão autêntica de fé, identidade e pertencimento. Este álbum é para ser ouvido com atenção, refletido com o coração aberto e celebrado como uma contribuição essencial para a música brasileira contemporânea. 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

In memoriam: Dimas Gabriel Ely Coutinho

Make Fabico Weird Again #1

Por Augusto de Souza Both, Caio Paiva de Mattos e Diego Zapata de Oliveira

Uma das expressões mais antigas e universais da humanidade diz que quando uma pessoa falece, acaba virando uma estrelinha no céu. Talvez seja uma forma de conforto para si e para os outros, um eufemismo que ajuda a suportar a dor mais cruel e a saudade mais insanável que um ser humano pode ter. Ainda assim, a mais humana. Ninguém pode brigar com a natureza e sua grande e impiedosa imposição: tudo que é vivo, vai morrer um dia. Por isso mesmo, nos aliamos a ela e fazemos de um de seus astros mais graciosos e admirável – a estrela – a moradia acolhedora de entes queridos que acabam partindo deste plano.

Nessas férias, o céu da Fabico ganhou uma estrela. Uma estrela não, uma constelação. Dimas, o menino da risada fácil e do abraço para todas as horas, que amava o futebol e o jornalismo acima de tudo, agora entra para o mapa celeste fabicano na imagem da constelação que carrega o mesmo nome da pequena cidade em que nasceu e viveu a maior parte de sua vida: Cruzeiro do Sul. A constelação Crux – como também é conhecida – é importante, famosa e deslumbrante. Dentre as 88 existentes, é a única que se encontra destacada na bandeira do Brasil, e, por tamanho prestígio, não há morador mais digno de tal privilégio que Dimas Gabriel Ely Coutinho.

Um rapaz simples, que nunca desrespeitou ninguém à sua volta, Dimas era uma pessoa ímpar, daquelas que a pureza e o amor que exalam se encontram poucas vezes na vida. Contava piada como poucos e tinha amigos em todos os lugares em que seus pés podiam chegar, sempre levando alegria por onde passou. Sua casa, ponto de encontro de muitos fabicanos, sempre esteve aberta e pronta para uma janta e para uma risada. Ali ele cuidava de todos como se fossem da família. Jornalista nato, era curioso, cuidadoso com as palavras e ético, sempre preocupado em ajudar os mais necessitados. Dimas era único.

Hoje, um vazio. Um vazio no eterno apartamento da rua Domingos Crescêncio, que guarda memórias de encontros e reuniões inesquecíveis. Um vazio na Fabico, onde ele deixou marcas em colegas e professores que se depararam com um talento fora do comum. Um vazio na Arena do Grêmio e na Arena Alviazul, lugares nos quais para sempre faltarão alento, apoio e gritos de um torcedor fanático. Um vazio em Cruzeiro do Sul, em Lajeado, em Porto Alegre, em todo lugar. Mas no céu, jamais. Pelo contrário, está maior, mais completo e mais alegre. Agora, ele tem em 5 estrelinhas do Hemisfério Sul um motivo a mais para se orgulhar. Descanse em paz, nosso querido e eterno amigo Dimas, e se possível, cuide bem da Fabico aí de cima.

Com carinho, Augusto, Caio e Diego.

Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.