O silêncio que existe entre corpos e a música

Make Fabico Weird Again #1

                                                                                                         Por Pietro Scopel

O objeto de análise é um evento realizado por alunos da UFRGS. Grande parte do público também é aluno, a maioria estão nos semestres iniciais e dos mais variados cursos. Devido a sua fama de alguns anos, o evento, que acontece semestralmente, geralmente um no início e outro mais para o final do ano, atrai a atenção de outros jovens da cidade de Porto Alegre. Não se pode partir do princípio que o público ou o evento faz parte de uma cena musical, mas também é uma mistura, e talvez essa seja uma das primeiras definições sobre fenômenos musicais contemporâneos: uma grande mistura. Quando pensamos as articulações entre música, comunicação e cultura, nesse contexto, exploramos conceitos da cartografia musical. O sujeito que circula pelos diversos núcleos ao longo do percurso é atravessado por infinitas sensações, como em uma sobreposição de camadas de sons e signos, que vão moldando e criando novas experiências, ressignificando, mesmo que apenas por algumas horas, as ruas e praças da cidade. 

O objeto a ser investigado é o evento Bar em Bar, realizado pelo diretório do curso de arquitetura da UFRGS em Porto Alegre em 22 de novembro de 2024. Esse objeto foi escolhido na intenção de documentar uma parte do momento presente, ou o quanto em uma simples noite diversas pessoas se reúnem como num ato de dominar a cidade. Pode-se notar a profundidade do objeto aqui estudado, devido sua análise que buscou referências no jornalismo gonzo. Onde o sujeito analisador se mistura ao evento e da mesma forma que o público, se permite vivenciar as conversas, cenários e atmosferas que só ali ganham vida, como uma corporeidade coletiva[1].

Como tudo na vida tem um início, aqui não seria diferente. Existem histórias que são contadas de geração em geração, ou simplesmente, você pode ter escutado a melhor história da sua vida no meio da madrugada, de uma pessoa que você acabou de conhecer, completamente bêbado, em uma área de fumantes lotada. Isso só reforça que certos fatos devem ser levados a sério. Bom, uma dessas fábulas nos diz que, quando temos uma festa que acontece na rua, de graça, que começa às oito horas da noite de uma sexta-feira e não tem hora para acabar, precisamos estar preparados fisicamente, mas principalmente, ter mantimentos que permitam altas doses de alegria por muitas horas (entende-se como mantimentos produtos a base de açúcares, gorduras, cafeína, taurina, nicotina, entre outros).

O ENCONTRO

 O momento antes da festa, comumente chamado de aquece, costuma ser na casa de alguém que mora perto do local onde será a festa ou estabelecimentos também próximos ao local como, supermercados, tabacarias ou até mesmo postos de gasolina. É o abrir das cortinas que já dá os primeiros sinais do que virá pela frente. Vale ressaltar que essa festa, por ter a característica de, como já dito antes, acontecer na rua, abre a possibilidade de não haver limites para convidados ou participantes, isso faz a maior parte do público estar em grupos de cinco a dez pessoas, o que também gera uma falsa sensação de segurança e proteção contra furtos e assaltos. 

O bairro Centro Histórico começa a ser tomado pelos jovens, mais especificamente em frente à Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Um detalhe muito crucial de toda essa festa é que o evento vende ingressos, chamado de passaporte, para quem quiser beber apenas cerveja. Sim, você leva seu copo e vai passando em bares selecionados, o que justifica o nome do evento, dentro de um trajeto, enchendo de cerveja quantas vezes quiser (esse trajeto deixou de ser divulgado). Muitas pessoas acham isso o maior diferencial dessa festa e levam copos especiais ou canecas dos seus cursos da faculdade com grandes tirantes, clássicos em cervejadas universitárias, e talvez essa seja uma das poucas semelhanças com outras festas universitárias. Mas isso não impede que muitas pessoas comprem suas próprias bebidas, geralmente vinho, whisky e vodka de marcas duvidosas, misturas com bebidas energéticas também de marcas duvidosas, acompanhada de um grande saco de gelo que mesmo dentro de várias sacolas, vai derretendo criando um rastro, em um ato político e até mesmo poético de demarcar os limites desse mapa se que cria, desaparece e se refaz pelas ruas e calçadas da cidade.

O MEIO

Com o passar das horas, é surpreendente a quantidade de pessoas que estão ali presentes. A passagem pelo final da Avenida João Pessoa em direção ao primeiro bar na Praça Conde de Porto Alegre, já é caótico, ninguém respeita as sinaleiras, irritando motoristas. Os jovens se instigam manifestando gritos políticos inundados pela euforia como  – “a cidade é nossa” […] “fora Melo”, entre outros palavrões, xingamentos e ofensas trocadas com os motorista em meio a assobios, buzinas e entregadores de moto que passam acelerando, cortando de giro, que em seu tom e cadência dita o ritmo da orquestra.

A cidade acorda. Moradores de prédios, pois dificilmente você encontra casas nesse bairro central, olham pelas janelas com expressões de espanto e alguns que contagiados, abrem suas janelas e abanam, conversam, a energia sobe e todos ali têm uma certeza, a festa, ou rolê como é comumente chamado, estava acontecendo. Os vendedores ambulantes entram na dança e vão suprindo aqueles que, por motivos diversos, precisam de algum líquido. Ainda seria muito cedo para esse fato, mas, os primeiros sinais de altas quantidades de substâncias no corpo, sim, no corpo, pois entre tudo isso os flertes já estavam acontecendo desde o início, já eram evidentes. 

Devido a motivos óbvios de orçamento do evento, não existe um paredão de som, ou estrutura que permita que todos ouçam a mesma música. É uma festa onde existem vários DJs com sua própria aparelhagem de som, normalmente caixas portáteis de médio a grande porte (como referência as caixas da marca JBL) que com playlists em seus aplicativos de música no celular, a todo volume, compartilham seu gosto pessoal que ali vai de encontro a outros gostos individuais de uma grande coletividade musical. Desde hits do pop internacional como Taylor Swift ao funk com Mc Rodrigo do CN, com o deslocamento da multidão, tudo se mistura. Todos querem ouvir algo animado para cantar alto junto com seus amigos, dançar ou chamar a atenção de flertes que já recebeu na noite. Isso se torna algo um tanto quanto complicado em ruas pequenas e apertadas do centro histórico de Porto Alegre, onde em determinados trechos da Rua Duque de Caxias era impossível sair do lugar e se mexer. Isso, de certa forma, facilitava a interação entre grupos que em geral eram carismáticos e compartilham afetos, mesmo que de cenas diferentes. 

É também o encontro dos gêneros musicais como o rock, pop, rap e funk, em suas mais diversas diferenças, mas que ali se uniam, mesmo que normalmente estariam em lugares bem distantes. A música é um ponto central nesse texto, pois, existe festa sem música? A música com um pano de fundo, é o coadjuvante, na sua mais sutil expressão, molda o ambiente. Quando é o ator principal, ela toma conta, e assim não falamos mais apenas de sonoridades, mas sim de algo mais profundo, como a frequência. É notável que durante o dia, aquele trajeto que se estende pela Rua Duque de Caxias e Jerônimo Coelho, é pacífico e calmo, mas naquele momento, a frequência era a mais alta possível, e era até possível escutar o silêncio que existe entre corpos e a música. 

O evento Bar em Bar é um grande encontro de diferentes jovens da cidade. Em determinados pontos do trajeto, era possível ver o quanto as pessoas estavam confortáveis de estarem ali.  Deve ser por isso que é uma festa tão diversa e querida pelo público. Muitos daqueles jovens em maior parte são brancos de classe média, que normalmente frequentam bairros como a Cidade Baixa, Bom Fim e 4o Distrito, uma área mais central de Porto Alegre. Buscam rolês mais baratos e bares movimentos. Um público que para a Polícia Militar e Guarda Municipal, não oferecem risco, então mesmo que uma viatura seja vista pelas redondezas, não é um sinal para correria, gás de pimenta ou balas de efeito moral, como normalmente essas corporações tendem a atuar em outros cenários.

Os bares que participam ou não do evento, contribuem com sua ambientação mais boêmia e simples, ou melhor, são engolidos pelo mar de pessoas, que buscam banheiros desesperadamente. Devido a grande quantidade de pessoas que vão em direção a ponte da Avenida Borges de Medeiros e a Praça da Matriz, containers de lixo, jardins de prédios, fachadas de lojas e até as portas dos carros estacionados se tornam o lugar perfeito para ser utilizado como um banheiro. São os rastros de dominação da cidade.

[…] não estamos tratando somente da existência de locais onde se partilha e se vive a música, como também da ideia de trajeto como possibilidades de deslocamento, de partida e de chegadas a certos lugares, assim como de impedimentos e confinamentos, apontando para questões que articulam, configuram e barram os entrelaçamentos entre tecido urbano e música (MONTEIRO, 2024, p. 2). 

O FINAL

Quando o mar de pessoas encontra o Monumento Julio de Castilhos no centro da Praça da Matriz, a primeira reação é escalar o mais alto possível. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        Fotos divulgadas pelo perfil no Instagram @barembardafa 

 

Como um ato de buscar mais do que pertencer, se juntar de fato a cidade e se tornar um só, os jovens sobem no monumento, decretando, com a chegada do estandarte do Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (DAFA) que guia a multidão desde o início, a vitória e a conquista, mesmo que apenas por algumas horas, daquele território. É o momento pós-caos, quando decisões já foram tomadas, pessoas se perderam e nunca mais voltaram, teve quem foi embora e teve quem ali curtiu as últimas horas desta peregrinação noturna. 

Conforme Monteiro (2024,p. 2): “imaginar a música a partir dos aglomerados urbanos é um fazer que permite pensar as cercanias da cidade, a transformação de espaços em lugares significativos e a coexistência, nem sempre apaziguadora, de diferentes cidades em uma só. Essa perspectiva pressupõe tessituras que articulam corporeidades, trajetos, espacialidades e artefatos tecnológicos em práticas musicais que materializam a cidade através de ambiências comunicacionais”. 

Ao vivenciar essa experiência se permitindo absorver pequenas nuances de cada olhar, sorriso ou conversas, percebe-se dinâmicas de novas gerações, levando em conta que a grande maioria tinha em torno de vinte e dois anos. Um público enérgico, ansioso, que com celulares nas mãos querem registrar tudo a todo momento. 

Depois da Praça da Matriz, o público se dispersa como um rio que se desvia por caminhos imprevisíveis, sem regras, sem destino certo. Da Praça dos Açorianos ao vibrante bairro Cidade Baixa, o corpo se move ao ritmo de uma festa que pulsa pela cidade. Quando o relógio marca mais de uma da manhã, as ruas ao redor já se entregam ao silêncio, e a música, antes potente, se dissolve no ar como uma lembrança efêmera. Era o fim, mas também o começo de algo mais: a música foi apenas o convite, o corpo, a verdadeira celebração.

 

Referências

MONTEIRO, Gabriel; CARNEIRO, Giovanna; BARREIRO, Heloise; JANOTTI JR., Jeder. Inimigos do fim: apontamento sobre o circuito de “afters” no Recife. Artigo apresentado no 33º Encontro Anual da Compós, Niterói, Rio de Janeiro: UFF, 2024.  

[1] A corporeidade é a consciência e a experiência do corpo humano, que envolve a relação entre o corpo e o ambiente, as sensações físicas, as emoções e o movimento. A corporeidade pode ser entendida como a relação entre um corpo e outro, ou entre um corpo e o meio em que vive. A partir dessa perspectiva, o corpo possui uma singularidade própria, que só se entende na convivência com outros corpos.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Guia de sobrevivência aos trilhos

Make Fabico Weird Again #1

por Rafaela Peretto

Caxias do Sul é uma cidade pacata apesar de seus 500 mil habitantes, caracterizada pela forte colonização italiana e orgulhosa cultura gaúcha. Seus cidadãos são trabalhadores e valorizam um estilo de vida quieto, muitas vezes imigrantes de outros países, estados e municípios. É um bom lugar para constituir uma família, ter um emprego estável e comprar um imóvel, com estrutura para que se possa nascer e morrer sem pensar em sair de lá.

A cidade grita aos quatro ventos suas raízes e bons costumes ítalo-gaúchos, escondendo seu filho rebelde no começo da rua Coronel Flores, no nobre bairro San Pelegrino. É o endereço da antiga estação férrea, inaugurada em 1910 e tombada em 2001, um verdadeiro símbolo da potência metalúrgica característica de Caxias. Durante o dia, a quietude é ocasionalmente interrompida por alguns estabelecimentos em prédios comerciais, estudantes da faculdade próxima e frequentadores experimentando os finos cafés e restaurantes. Carinhosamente apelidada de Trilhos, a esquina no centro da cidade é despretensiosa, mas a noite é o coração da cena noturna caxiense.

Em uma sexta-feira com condições ideais – tempo limpo, início de mês e um bom line-up de festas – os Trilhos começam a receber seu público a partir das 21h30. Grupos se reúnem ao redor de garrafas de vodka barata, energético e sacolas de gelo no chão, ocupando o espaço público nas fachadas dos locais que posteriormente entrarão. Aos poucos o movimento se intensifica, bem como a energia: conforme a bebida bate, aumentam-se as intersecções sociais entre diferentes tribos, mesmo que posteriormente venham a se separar pois frequentam casas de festa diferentes. 

A música, apesar de presente, é contida em cada reunião, tocando de carros estacionados no meio-fio. O cheiro de cigarro é forte. A fumaça dos pods e vapes emergem dos grupos, colaborando para criar uma atmosfera densa. O chão é sujo com garrafas, latas vazias e está constantemente úmido e grudento com alguma coisa que ninguém quer pensar sobre. Moradores de rua entorpecidos se misturam com os jovens bêbados, tornando-se quase uma atração de entretenimento – já presenciei desde a leitura de cartas de tarô eróticas até a imitação de cachorro em troca de um gole de corote de canela. 

Em uma época, a rua Dr. Augusto Pestana era totalmente ocupada por carros de som e jovens com o orçamento baixo. Essa rua é uma travessa paralela aos Trilhos, coberta por paralelepípedos e inútil para o trânsito caxiense. Com a música alta e porta malas aberto servindo de banco, esse rolê ultrapassava o aquece e se tornava a festa em si. Um dia no meio de 2023, alguém levou uma arma de fogo e atirou para o céu. Esse foi o início das tocaias da polícia civil que passaram a acompanhar todas as noites de festa de um ônibus oficial. Agora, a travessa é deserta. Com a presença dos policiais, se instauraram algumas regras num ambiente antes desgovernado. Se os Trilhos de hoje são caóticos, é porque um dia foram muito mais. 

A primeira vez que eu fui para os Trilhos foi em 2022. Havia sido convidada pela Duda, uma amiga mais velha já maior de idade, porque ela iria sair com seus amigos e eu estava na casa dela. Decidimos de última hora, comprei um ingresso revendido por R$50 e editei meu ano de nascimento no Canva, eu ainda tinha 17 anos. Fui para o rolê de coração na mão, com medo de ser barrada na entrada, vestindo uma roupa emprestada e acompanhada de pessoas que eram no máximo conhecidas. A festa era no Cafe de La Musique, filial de uma rede que nasce em São Paulo, “aos moldes dos clubes mais badalados do mundo”. É um espaço que se propõe a entregar sofisticação e elegância, recebendo também eventos fechados como formaturas, casamentos e aniversários. Como a casa era pequena, quem quisesse ir da pista para a área de fumantes precisava passar no meio da fila de entrada, resultando em um ambiente desorganizado e lotado. O interior tinha uma decoração elegante, com espelhos, vidros, luzes e tons de dourado. A pista era apertada e metade da área total era ocupada pelo espaço reservado ao VIP, em formato de “C” e elevado, conectando-se à cabine do DJ. No final das contas, consegui entrar com minha identidade falsa. Fiquei traumatizada pela música – eletrônica que se transformava em um funk modinha ou em um sertanejo universitário. Só voltei a frequentar o espaço em 2024, uma única vez.  

O dresscode feminino é saia ou vestido, poucas mulheres optam por calças. Brilhos, paetês e estampas nos tecidos, maquiagem mais pesada e sapatos de salto. Tons escuros e neutros. São roupas parecidas entre si, quase que padronizadas. Os homens também acatam um uniforme: camisetas neutras, com pouca ou nenhuma estampa, e calças jeans lisas. A maioria da massa representa um recorte de padrão estético da sociedade. Não havia fila, mas se mantinha o sistema de ter que cruzar o caixa para chegar na área de fumantes. Dessa vez, utilizei minha identidade real. A decoração era mais ou menos como eu lembrava, mas o espaço parecia ser menor. Estranhei o VIP, o Cafe é a única festa dos Trilhos que oferece essa opção.

Sou chata com música de festa: para mim, é o que vai definir se o rolê vai render ou não, considerando que eu passo a maior parte do tempo na pista. Por isso, eu sabia que não ia gostar assim que pisei dentro do Cafe e ouvi música eletrônica. Entramos na festa um pouco após a meia noite e quando saímos, em torno das 3h, a impressão que ficou é de que havia tocado a mesma coisa a madrugada inteira. Não consegui aguentar mais de dez minutos na pista. O que salvou a noite de ser uma completa falha foi o fumódromo – não pelo cigarro, mas pela conversa. O espaço é apertado, uma área coberta como se fosse uma sacada que dá de frente para a rua. Bancos espaçosos intermediados por plantas e mesas permitem um respiro da festa lotada, cujos sons são abafados pela parede que separa os dois ambientes. Apesar de ter muitos fumantes, a maioria dos que ocupam o recinto apenas procuram uma folga dos estímulos fortes da pista. A bebida serve de coragem líquida e afrouxa a língua, tanto para tagarelar quanto para beijar, e a área de fumantes é o palco de ambos. 

Em qualquer festa, o banheiro feminino é um local sagrado. O único espaço reservado somente a mulheres, onde a sororidade reina sob o acordo silencioso de paz e irmandade entre todas. Exceto no Cafe, aparentemente. Ali, o banheiro feminino não tem a aura característica, o clima é de seriedade e objetividade: entre, faça suas necessidades, use sua droga de preferência, e saia. Ao menos é o que testemunhava enquanto usava o espelho para conferir a maquiagem. 

Todo o role nos Trilhos acaba na pizza da Level, e esse não foi a exceção. Uma fatia estilo americano da melhor pizza da cidade, pois leva o melhor tempero: a larica. Eu pedi uma de chocolate branco com nozes, típica. Quase todas as mesas estavam cheias com grupos como nós, jovens com fome saindo da festa, mas sem querer ir para casa. A calçada já estava mais vazia, o gelo do aquece derretido e as garrafas sem nada dentro. Mesmo assim, algumas pessoas ainda se reúnem pela rua. 

Se o Cafe é uma festa padrão, a Level Cult é o completo oposto. A casa noturna fica no segundo andar e quintal da pizzaria de mesmo nome, de fachada preta por exceção do arco-íris pintado sobre a porta. A premissa do espaço é enaltecer a comunidade lgbtqia+, e isso transparece em cada escolha da produção. Característico do lugar, as noites são temáticas e criativas, com atrações como promoções de drink, rodada de shot, flash tattoo e drag queens. Naquela noite, a festa era dos signos do zodíaco. Os Trilhos estavam no seu auge às 23h com o calor da primavera. A fila é única, se desenrolando em um beco do lado da Level que permite a entrada com bebidas – estendendo o aquece na espera que toma pelo menos meia hora. A segurança confere a identidade e ingresso antes entregar uma comanda de papel. 

A entrada da festa é uma escada estreita e escura, iluminada por leds coloridos que constroem a atmosfera energizante até desembocar na pista de dança. O espaço é pequeno, representando ¼ do total. À direita, a DJ toca pop brasileiro e funk, ocasionalmente hits internacionais. À esquerda, uma saída leva ao bar e ao andar de baixo. O ponto alto da Level é a área aberta no final das escadas. Um dia foi um quintal, mas agora é cercada por arquibancadas cheias de pessoas, um coreto elevado que recebe as flash tattoos e outro bar que divide a demanda para evitar a espera. A música não é alta, mas se faz ouvir, sem atrapalhar as conversas que preenchem o ambiente. É acolhedor e confortável, diferenciando-se ao dar prioridade a um espaço além da pista.

É onde passo a maior parte da festa, caçando conversa com pessoas novas fora do meu círculo social – atividade que pode parecer simples, mas em Caxias é uma verdadeira olimpíada. Eu gosto da música que toca, sou apaixonada por pop, mas deixo para escutá-las durante o dia; a noite pede funk. Isso, combinado com a pista pequena e lotada de dançarinos performáticos, me faz optar pela arte da conversação.

Caxias do Sul recebia uma visita importada, uma amiga americana da Sophia vinha ao Brasil pela primeira vez – a Gringa. Os Trilhos e a Level foram os programas escolhidos para apresentar a ela a nata que nossa pequena cidade tinha a oferecer. Considerando a paixão pelo primeiro gole da Gringa de um Corote de canela, não foi surpreendente quando a encontrei abraçada em uma drag queen de quase dois metros de altura na área aberta. Ela, que só falava inglês, virou a grande atração da noite na festa dos signos. 

A Level é única em alguns conceitos. Oferece comida, e de qualidade! Salgados de festa de aniversário como coxinha, bolinha de queijo e batata frita feitos na hora. As bebidas não eram escandalosamente caras, e como sempre havia alguma promoção divertida rolando, se tornava mais acessível. Para agradar os fãs, eles traziam para Caxias festas temáticas de divas pop, eventos já famosos nas capitais. Taylor Swift, Luísa Sonza, Charli XCX e até Ana Castela. Há muita liberdade de expressão intrínseca na cultura da Level, abraçando estilos, tipos e escolhas que no dia a dia são malvistos pela sociedade. Isso culmina na maior junção de pessoas diferentes que a tradicional Caxias permite. É um lugar que une a performance à essência de quem se é. Para quem sente que não se encaixa na sociedade, a casa acolhe.

 Meu professor de dança define: “na Level, eu posso beijar todos os meus amigos e ninguém vai me julgar”. É verdade. Tanto que naquela festa dos signos, a promoção da noite era um shot de graça para a dupla composta por signos compatíveis. Como geminianos e sagitarianos, leoninos e aquarianos, virginianos e peixes. Lá, há o incentivo a absolutamente todas as formas, práticas e tipos de amor, mesmo que seja um que só vai existir por uma noite. 

Saímos da festa a convite dos seguranças, porque a Gringa tinha perdido a mão na bebida e estava dormindo nas arquibancadas. Por pouco que não me juntei a ela, tanta arte da conversação me deu sono, principalmente estando sentada em um lugar confortável. Ela acordou de forma lenta e, com a minha ajuda e a da Sophia, caminhamos juntas até o final de todo rolê nos Trilhos, a segunda Level da noite, dessa vez para comer. A americana aprovou a pizza estilo americano, enquanto contava como havia beijado cinco brasileiros. 

Religiosamente, ao longo de 2023, frequentei os Trilhos e o Zero54 às sextas-feiras. Era uma rotina: às 22h, a Isa chamava o Uber com uma parada na minha casa e juntas íamos até os Trilhos encontrar nossos amigos. Tínhamos um spot, ao lado direito da entrada do Station, a única conveniência da rua. É um estabelecimento pequeno, com apenas três cadeiras sempre ocupadas e uma geladeira preenchida por bebidas populares a preço de monopólio. Com seu kit montado em mãos, o Michael era a única presença obrigatória, fora ele as pessoas variavam. Conhecíamos todas, e caso contrário, era fácil fazer amigos. A sensação de familiaridade com aquele ambiente era do tipo que permite a expressão da personalidade no volume máximo, era muito confortável estar ali porque todos vibravam de forma sintonizada. Apesar de ser uma relação limitada ao ambiente, tornaram muitas festas mais divertidas. 

O Zero é a maior casa noturna em estrutura. Filas duplas, para ingresso e lista, em ambas entradas, e mesmo assim pode demorar até 40 minutos em festas específicas. Os ingressos comprados adiantados incluem um shot de vodka. A estética da festa agrega elementos da cultura hip-hop e é moderno, acatando trends e características da geração que frequenta o espaço. Também é restaurante, mas essa opção fecha quando a festa abre. 

As roupas são mais casuais, apesar de não fugirem do código de vestimenta que une os frequentadores. O estilo circula em torno da própria proposta do espaço, streetwear e num geral peças que estão em alta. Se fosse definir o look Zero54, seria uma calça cargo larga – com uma camiseta da High para os homens e um tube top para as mulheres. 

O espaço oferece duas pistas de dança, com DJs distintos. A pista principal recebe as atrações, tocando o estilo temático da noite. Na segunda, os DJs da casa constituem um set mais democrático. Cada uma tem uma área de fumantes acoplada, mas apenas a primeira tem bancos e cadeiras. Ainda, conta com um corredor entre elas, onde a música é mais fraca. É fácil de transitar entre elas, e esse funcionamento fornece mais de uma opção de música – dobrando as chances de gostar do que se está ouvindo. O gênero principal é funk, às vezes tem festas específicas para tocar variedades como hiperpop, rap e rock. Mesmo nesses casos, a segunda pista se encarrega de fazer o feijão com arroz para agradar ao público fiel. Artistas convidados sobem aos palcos como atrações, trazendo uma experiência única. 

Grande parte do meu tempo, passo na pista de dança. O principal motivo do meu apego com o Zero é justamente esse, a música é muito boa. É confortável para dançar e a energia do público é alta, apesar de algumas exceções: uma barreira de homens com os braços cruzados se apoia nas paredes como se elas fossem cair a qualquer instante. Aqui, falta a liberdade que sobra na Level. Havíamos entrado antes da meia noite, pois tínhamos nome da lista e esse é o horário limite. Já estava cheio, mas quando deu 1h, não havia espaço para respirar – muito menos caminhar livremente. Péssima (ou ótima) hora para estar colada na frente da cabine do DJ, sem poder sair porque seria impossível voltar. Nas duas horas que passamos no nosso lugar sagrado sem querer abrir mão, aproveitamos cada segundo. O set havia sido muito bom. Saímos para a área de fumantes. O problema de ter uma festa preferida é que ela é a preferida de todo mundo que você conhece, até de quem você não está em bons termos. A sensação de ir ao Zero em festas imperdíveis é a de caminhar entre ovos sem poder pisar em nenhum, é impossível relaxar. De alguma forma, todo mundo que eu não queria ver estava lá, e caminhar entre as pessoas exigia um planejamento enorme para não passar perto de alguém complicado. Não é um lugar tão grande, uma hora sua ex-melhor amiga vai passar a dois centímetros de distância do seu ombro e você vai precisar fingir que não viu nada. É um campo minado. 

O banheiro feminino é um portal para outra dimensão, uma na qual todas são formadas em psicologia, maquiadoras profissionais e o machismo foi erradicado da face da terra. Não há motivos para estresse. Acima de tudo, as cabines são consideravelmente limpas e a porta tranca. Minha memória mais especial lá foi descobrir que a Taylor Swift havia anunciado a regravação do seu álbum Speak Now porque uma menina anônima estava comemorando. Não nos conhecíamos e nem conheço ela hoje em dia, mas naquela noite nós choramos juntas. Em uma das muitas trocas de pista, demos de cara com uma batalha de dança no meio do corredor. Igual aos filmes, com jurados, panelinha de torcida e death drops como se fossem água. É sempre incrível presenciar pessoas talentosas, especialmente de um ramo que eu estou envolvida – como dançarina de jazz e contemporâneo – e justamente por isso, sei na pele a dificuldade das apresentações. Não foi uma situação à parte, já houveram batalhas de rima e open mic, incentivando pequenos artistas a mostrar seus trabalhos. 

Eram 4h54 quando fechamos a comanda, o sol já ameaçava nascer. A festa ainda estava movimentada, apesar de nem se comparar ao início. Terminamos a noite na pizza da Level, com um pedaço de chocolate branco com nozes, afinal, o café da manhã é a refeição mais importante do dia. A sensação de dever comprido só pode ser verdadeiramente experimentada ao estar nos Trilhos com a luz raiando após uma festa incrível, maquiagem borrada e pés cansados. Rindo com amigos e relembrando os momentos recém vividos na madrugada, mas que parecem ser de uma vida inteira. Tomando uma Coca-Cola para prevenir a ressaca e reclamando do preço do Uber. Em dias muito especiais, de alguma forma convencendo o grupo a ir a pé para casa, uma caminhada de vinte minutos. Nos comuns, entrando no carro e desejando boa noite ao motorista só para receber um “bom dia” como resposta. No dia seguinte, a ressaca é forte e todos juram nunca mais pisar em uma festa. No fundo, a gente sabe que é mentira, porque quando a mensagem “e hoje? ” chega, a resposta sempre é “Trilhos!”.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A Última Noite de Batalha do Raça

Make Fabico Weird Again #1

por Amanda Juliano Casartelli

E no final, talvez a coisa menos verossímil que eu poderia fazer é organizar as ideias para falar freestyle, eu enquanto MC, talvez só queira o tempo todo contar minhas histórias com um certo quê de improviso. Será que todos os nossos eventos, mesmo quando extremamente divulgados, ainda não exalam improviso? Preciso falar sobre uma praça lotada, sobre caixas de pizza, sobre rimas, crianças, regatas de basquete e um mar de bonés. Distantes do coração da cidade, que por si é distante daquilo que diriam ser o centro de qualquer coisa, mas que cada frequentador afirmaria com certeza ser o ponto central do hip hop numa tarde de domingo. 

Poucos lugares que eu fui enxerguei tanta paixão quanto na “Quadrinha do Raça”, o lar da batalha, que também é ponto de encontro de todos os jovens, crianças, atletas e artistas de fora e de dentro de um bairro. Ninguém pisa no chão daquela quadra de cimento sem paixão, gosto muito de alguns apaixonados pelas cestas de 3 pontos, usam camisas com o nome de Stephen Curry e arremessam naquelas linhas quase apagadas, o que divide eles talvez seja só um hemisfério de luxos, porque assim que a bola atravessa a rede, a glória é a mesma que a de um jogo da NBA. 

Hoje me detenho um pouco mais a falar sobre os apaixonados por rima, grupo que eu faço parte com orgulho. Esses, ligam um pouco menos para o chão da quadra e um pouco mais para aquilo que permeia o ar dela. A inspiração paira por todo o ambiente, os temas dos mais sociais aos mais divertidos se entrelaçam com os sentimentos daqueles que escolheram com os pés, cabeça e alma aquele caminho. 

“O rap é compromisso”, mesmo que improvisado. E nessa modalidade ele transcende a maioria das regras de convivência estabelecidas em quase todos os ambientes. As palavras falam sobre realidades, mas não necessariamente servem para perpetuar elas. Muitas vezes os versos “pedrada”, lançados com força um contra a têmpora dos outros, acabam com um aperto de mão e um abraço afetuoso: “caralho, mandou muito, minha mana!”. Provavelmente, segundos antes dessa informação eu estava no meio de uma roda, dizendo para 50 pessoas que a opinião dele não me importava, que seus argumentos são inválidos e que estava prestes a matar ele, mas adivinha, ali talvez ironicamente seja o lugar em que as opiniões importam, os argumentos são validados e as pessoas se sentem mais vivas. 

É assim que as batalhas funcionam quase sempre, quando a paz é quebrada não dura muito, mas normalmente quebra tudo. Algumas coisas capazes de tirar a paz dos frequentadores do Raça: aqueles que ficam falando durante as rimas dos outros, aqueles que chegam com versos contendo preconceitos de qualquer cunho, ou aqueles que desrespeitam “as mina”. Por esse último motivo em específico, já tivemos alguns dentes quebrados e olhos roxos.

Bom, talvez esse seja o relato sobre um dia específico, que não necessariamente represente o resto do ano, mas que carrega todos os personagens e emoções que estiveram presentes ao longo dele. Para a cultura das batalhas de sangue, a batalha de trio constituiu-se como um título muito nobre e só acontece em momentos muito importantes, os trios são extremamente bem pensados como equipes e visam construir uma estratégia imbatível, que une os atributos mais fortes de cada um dos participantes que desejam vencer o campeonato.

Em 2024, a Batalha do Raça, que acontece na cidade de Rio Grande, na Avenida Pelotas 886, decidiu realizar uma competição em trios para fechar seu ano, mas ao mesmo tempo a organização anunciou o fim das suas atividades de modo geral. Às vezes, é preciso pensar um pouco diferente, uma batalha é de fato uma organização? Ou é um ato? Será que se as pessoas continuarem a rimar no Raça, a organização importa tanto? Pois definitivamente a cultura não morreu depois do evento. 

No entanto, cabe falar sobre o evento em si, um dia bastante frio para dezembro, mas cheio de calor humano. Na praça deviam ter cerca de cem pessoas, que passaram no mínimo algumas horas no aguardo do começo do evento. Para variar, o horário marcado às 16 horas era só simbólico, todos tinham a certeza de que nada começaria muito antes das 19. Mas, nem por isso deixaram de chegar cedo. 

Enquanto a batalha não começava e alguns comiam pizza bancada pela vaquinha feita no grupo de whatsapp, eu me aventurava pelo basquete, mesmo tendo pouca ou nenhuma ideia do que estava fazendo. Marciano, um MC (e amigo) muito simpático, me chamava para um duelo 1×1. Quando eu parei, após um placar de 5×3 para ele, já estava ofegante e totalmente suada, confesso que experimentar a atividade depois de tanto tempo só observando foi extremamente divertido e libertador, agradeço muito àquela tarde por ter proporcionado o momento. 

Eu estava inscrita como competidora e meu trio era formado só por mulheres, eu (Jotacê), Anarima e Memy. Conheci essas meninas durante as batalhas da cidade, as similaridades dentro das vivências nas rodas aproximaram as vontades de fazermos algo juntas, a oportunidade caiu bem e o desejo de vencer o evento era grande. Era hora de aquecer para “o show”, a gente curtia a nossa própria rodinha e passava a palavra circularmente para que todas pudessem mostrar alguns versinhos previamente. Minha melhor rima surgiu descontraidamente neste momento, não sei descrever exatamente o contexto, mas eu rimei:

“Eles vem na roda falando de SBT

MC devendo rima eu mando pro SPC, 

nesse caminho eu saio do trilho,

programa do Ratinho, fiz o teste e cês são tudo meus filho!”

As gurias gostaram dessa especialmente, a ponto de pararmos um pouquinho para fazer um “uou, uou, uou”. Depois disso, rimamos por mais um tempo, até que as meninas decidiram parar para fumar um cigarro. 

Aí aconteceu algo digno de entrar no relato, quando o beat da música chamada “Set Ajc 2” começa a tocar, simplesmente todas nós paramos tudo e começamos a cantar a letra em coro:

“Vou cantar o que eu quero

Não vou entrar em gravadora

Vou montar a minha firma

Gângstas fazem assim

 

Tô na bala de eu ser

Tudo que um dia eles disseram

Que eu Júlia não seria

Como eles vão reagir”

 

A “vibe” foi estabelecida ali, a partir daquele momento talvez já não importasse tanto os resultados, pois a preparação havia sido um momento tão intenso, que a batalha em si já não estava ocupando os mesmos lugares nas nossas cabeças. 

Finalmente a batalha começou, a DJ Thaibrisa soltava os beats, DudaG e Cacau apresentavam o evento, mas antes era preciso de mais um único momento sério antes do sangue se instaurar. O GB interrompeu as festividades para fazer um pedido inusitado, ele contou a história de uma moradora do seu bairro (Vila dos Navegantes), que viveu como ele mesmo disse “uma vida de cão”. A personagem tratava-se de uma moradora de rua, travesti, que viveu sua vida sozinha pelas ruas do bairro e que ao longo dos anos teve contato com vários moradores, que a ajudaram ou não. Na noite anterior ela havia morrido e ali era o momento de dedicarmos um minuto de silêncio a ela. 

Depois do momento de concentração e reflexão, tudo podia prosseguir normalmente, as crianças, atletas, moradores, MCs e simpatizantes se reuniam em círculo, para escutar os confrontos musicais. O grito de guerra ecoava pela quadra: 

“Batalha do Raça, 

enxame de abelha, 

quero ver colar

os pitbull sem focinheira”

e era a hora de mostrar o talento 3, 2, 1… RIMA! Os confrontos foram passando, a noite foi caindo e o frio foi aumentando. Sinceramente, não consigo imaginar nada mais com capacidade de reunir tantas pessoas em um lugar tão esquecido pelo resto da cidade. Meu trio perdeu na primeira fase, mas participar do momento continuou sendo extremamente importante para nós, que ao longo dos anos nutrimos tanto carinho pelo movimento que ali acontecia. 

Um trio chamava atenção em especial, Bryan, Cheip e Menor CG. Bryan, também conhecido carinhosamente como “Rocklee” ou “Diógenes” nos dias em que usa seu chapéu. O astro da vila da quinta de 20 anos, “adotou” na competição nossos talentos mais jovens, de respectivamente 14 e 12 anos, suas rimas cheias de referências do mundo do hip hop e ao mesmo tempo de animes, contrastavam com os ataques enérgicos e descontraídos dos meninos que o acompanhavam. Falaremos de novo deles mais tarde. 

Eu já estava um pouco impaciente às 22 horas, ainda ali, depois de ter perdido. Eis que surge o convite mais inusitado e ao mesmo tempo alegre da minha noite. Gi, uma das cantoras que frequenta o movimento fala:

— Jota, vamo ali na padaria, a gente compra uma cerveja e faz xixi!
— Nossa, bora! Tava precisando muito…” — eu respondi
— Da cerveja ou do banheiro? — ela perguntou
A minha reposta foi óbvia —  dos dois.

E fomos assim, para nossa caminhada de mais ou menos 1km, rumo a padaria que ainda estava aberta naquele horário. Resultados extremamente satisfatórios: 1 lata de Amstel, 1 empada de frango e 1 ida ao banheiro. 

Voltei para a quadra revigorada e pronta para enfrentar o resto do tempo que faltava até o fim dos confrontos, a noite era longa, mas querendo ou não eu estava curtindo. Era hora, da final e o trio dos meninos ainda era o que mais brilhava. Era engraçado, pois o melhor lugar para pessoas jovens brilharem talvez fosse ali mesmo. Enquanto algumas crianças corriam atrás da bola nos cantos da quadra, duas viviam seu momento de glória no centro dela. Os guris de 20, 14 e 12 anos foram os grandes campeões da noite e em seus sorrisos era visível o quanto acreditavam naquilo. A batalha para eles significava muito mais do que uma vitória, aquela era a grande vitória, que coroava suas cabeças que muitas vezes foram atingidas com os milhões de argumentos sobre sua “infantilidade”. Talvez essa seja a parte mais importante de tudo, a leveza que eles carregavam junto com suas palavras e que tantos ali já haviam esquecido faz tempo. 

A Batalha do Raça não existe mais enquanto organização, mas segue existindo enquanto cultura e lugar onde os MCs se reúnem, normalmente às terças, para compartilhar seus talentos, pensamentos e angústias. E se um dia ela não existir mais, não importa tanto, pois aqueles que cresceram sendo impactados por todo aprendizado compartilhado ali, seguirão a levar a cultura daquelas noites em suas palavras, por toda a cidade e fora dela.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Notas de resistência: as múltiplas faces da música durante e após a ditadura militar brasileira

Make Fabico Weird Again #1

por Milena Resch de Oliveira

Nesse trabalho proponho a investigação das diversas facetas da música enquanto objeto de infinitas interpretações. Para isso, farei a análise de 4 músicas lançadas no período da ditadura militar brasileira, enquanto mecanismo de resistência, e os significados e símbolos que elas assumem hoje. Analiso o que as músicas se propunham, como foram aceitas na época que lançaram e os diferentes usos e significados que lhe são dadas atualmente. Para isso, irei analisar comentários na plataforma de streaming YouTube, buscando trazer o debate sobre os diferentes sentidos que a música enquanto objeto pode ter dependendo do sentido que o receptor dá para ele. 

Em 1968, o regime militar tomou a decisão de apertar ainda mais o controle sobre o país com o AI-5, um ato que basicamente rasgava a Constituição e dava aos militares a liberdade de censurar qualquer coisa que não gostassem. A partir daí, a mídia e os artistas passaram a ser vigiados de perto, e tudo o que fosse produzido no Brasil precisava da aprovação dos militares antes de ser exibido. Essa “liberdade de criação” imposta pela censura fez com que muitos artistas se vissem obrigados a recorrer à criatividade para continuar fazendo críticas ao regime. O resultado foi uma enorme quantidade de músicas recheadas de metáforas, duplo sentido e mensagens subliminares, tudo para driblar a censura e ainda assim passar suas mensagens sem ser pegos.

Porém, com as tecnologias de difusão e permanência desses registros sonoros, essas obras ainda existem e hoje assumem novos significados, dos mais variados, abrangendo visões que perpassam diversos ideais musicais e também políticos. Sobre essa questão, é necessário entender que devemos, sim, analisá-las conforme seu contexto de produção e a que se propunha na época, mas também compreender seu caráter dinâmico e mutável de acordo com a experiência e interpretação de cada um. A arte nunca foi nem será algo duro, imutável. Pelo contrário, sempre varia seu significado quando se fala de diferentes tempos, espaços e pessoas. Mas até onde vai a liberdade de interpretação de sua subjetividade?  

Gol com drible do poeta: entenda como cada música conseguiu escapar da censura e se tornar referência de resistência desde aquela época até os dias atuais 

A música “Apesar de Você”[1], produzida por Chico Buarque no finalzinho de 1970, foi seu primeiro lançamento após um ano e meio exilado na Itália. Quando ele mandou a letra para aprovação, justificou que a música era sobre uma discussão entre um casal e ela foi aprovada. Em pouco tempo, ele já tinha vendido mais de 100 mil cópias, quantidade impressionante para a época. Foi uma questão de meses até a sociedade mastigar a canção e ela ser retirada de circulação, mas a ideia já tinha se espalhado e continua firme e forte até hoje. 

Confira comentários da música:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro artista que infernizou a vida dos militares foi o grande Caetano Veloso tanto que ele acabou sendo preso e obrigado a se exilar em Londres por suas obras subversivas. A alfinetada mais emblemática do artista no regime militar é a música “É Proibido Proibir”[2]. O título veio de uma frase que ficou famosa nas manifestações estudantis de Paris e foi apresentada pela primeira vez em 1968 no 3° Festival Internacional da Canção. A performance, que teve até a presença d’Os Mutantes como banda de apoio, ficou marcada por ter sido talvez a mais vaiada da história. Caetano desistiu de continuar e trocou os versos por um discurso improvisado criticando a falta de visão da plateia “mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Cálice”[3], uma parceria entre Chico Buarque e Gilberto Gil, nasceu numa sexta-feira santa em 1973. O refrão pega emprestado a passagem bíblica “ele se retirou, pela segunda vez, e orou: ― Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça‑se a tua vontade.”, dita por ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jesus Cristo sobre todo o sofrimento que sentia na noite em que foi traído. Gil apontou o duplo sentido presente na fonética da palavra “cálice”, podendo também remeter a forma imperativa do verbo calado, ou seja, “cale-se”. A partir dessa ambiguidade surgiu uma das músicas mais poderosas em oposição à censura e violência do regime militar, mesmo que inicialmente ela nem viu a luz do dia, uma vez que o órgão de censura percebeu a verdadeira intenção por trás do jogo de palavras e vetou o lançamento dessa canção, que só foi liberado há cinco anos depois.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por último, não tem como fazer uma lista dessas sem citar a música “Pra não dizer que não falei das flores”[4], uma das mais emblemáticas da época e composta pelo Geraldo Vandré. A canção ficou no segundo lugar do festival internacional da canção de 1968 da Rede Globo (para revolta da plateia, já que ela era a favorita absoluta do pessoal). Anos depois, o então diretor geral da Rede Globo, Walter Clark, revelou que a emissora recebeu ordem dos militares para que essa música perdesse. Isso porque muita gente interpretou essa música como um chamado para a luta armada radical, colocando Geraldo Vandré nos radares dos militares. Ele começou a ser vigiado pelo departamento de ordem política e social e teve que se exilar no Chile assim como muitos dos seus colegas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para finalizar a análise, considero importante destacar a metodologia adotada. O processo de pesquisa envolveu uma abordagem qualitativa, focada na interpretação das diversas manifestações presentes nos comentários de usuários no YouTube, relacionados a músicas lançadas durante o período da ditadura militar brasileira. A partir dessa seleção, foi realizada uma leitura atenta e criteriosa dos comentários, priorizando aqueles que abordavam temas políticos, sociais e culturais. A escolha dos comentários foi pautada por uma postura neutra e moderada, buscando refletir a diversidade de pontos de vista. 

É relevante destacar algumas curiosidades observadas durante o processo, como o fato de as músicas publicadas nos perfis oficiais sempre apresentarem os comentários desativados, o que levou à necessidade de buscar os comentários em perfis públicos de usuários. Além disso, é importante notar que, entre 2018 e 2022, período do governo de Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL, muitos desses vídeos também tiveram os comentários desativados. Outro ponto interessante foi a constatação de que a maioria dos comentários abordava questões políticas, tanto relacionadas ao período de veiculação das músicas quanto à política atual. Percebi que as opiniões de direita geravam uma quantidade significativamente maior de respostas, fenômeno que pode ser explicado pelo fato de as músicas, com um viés esquerdista, serem associadas por esse público a uma identidade e representação política. Também foram considerados os comentários mais pessoais, nos quais os usuários expressavam suas experiências e sentimentos, sobretudo em relação a momentos difíceis como a pandemia de Covid-19.

Esse trabalho permitiu uma compreensão mais ampla das múltiplas interpretações e significados atribuídos às músicas, tanto no contexto histórico de sua criação quanto na atualidade, revelando a continuidade de seu papel enquanto objetos de resistência e reflexão social. Por fim, conclui-se que mesmo com o perfil polissêmico da música e da arte, ainda há questões que devem ser levadas em consideração quando analisada uma obra. Nesse sentido, as canções analisadas devem ser ouvidas levando-se em conta o contexto de sua produção, pois seu sentido conotativo, muitas vezes, carrega um peso interpretativo tão significativo quanto, ou até mais, que seu sentido denotativo.

Referências

EL KABONG. Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré (1968). Youtube, 06 de abr. de 2010. Disponível em: https://youtu.be/A_2Gtz-zAzM?si=6G72USIMLOVMQqAG. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

FRANCISCO, EL HOMBRE. Apesar de Você. Youtube, 24 de out. de 2022. Disponível em: https://youtu.be/TTfOt-B25cA?si=zB8qrkJj1h61MJlt. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

GABRIEL ESTEFFAN. Caetano Veloso – É proibido proibir. Youtube, 13 de ago. de 2008. Disponível em: https://youtu.be/hE1ULHlLdWo?si=-thVx21W4-KBkM9-. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

MARTHA ANDRADE. Caetano Veloso – é proibido proibir (LEGENDADO). Youtube, 18 de nov. de 2012. Disponível em: https://youtu.be/7hYxfP5q5og?si=Wo7CahWLER40Bw-H. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

PATRICIA PORTO. Cálice (cale-se) – Chico Buarque e Milton Nascimento. Youtube, 23 de set. de 2009. Disponível em: https://youtu.be/RzlniinsBeY?si=5ZWWVHhTqfuMyM8R. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

PIPOCANDO MÚSICA. 6 Músicas CENSURADAS na DITADURA! YouTube, 28 de jan. de 2019. Disponível em: https://youtu.be/–Dvl9yXHK4?si=lugbek1hS8-Icuza . Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

SCHWARCZ, Lilia Moritz; VAINFAS, Ronaldo. O Brasil Republicano: O regime militar e a resistência cultural. 2018

TAUIL. Apesar de você – Chico Buarque e MPB4. Youtube, 20 de março de 2010. Disponível em: https://youtu.be/xbH2E1XfscA?si=J7-5aHSV0IO4_Lbj. Acesso em: 21 de dez. de 2024. 

BUARQUE, Chico [intérprete]. Apesar de você. No álbum Chico Buarque de Hollanda – Volume 3. São Paulo: Philips, 1970.

GIL, Gilberto; BUARQUE, Chico [intérpretes]. Cálice. No álbum Construção. Rio de Janeiro: Philips, 1978.

VANDRÉ, Geraldo [intérprete]. Pra não dizer que não falei das flores. No álbum Geraldo Vandré. São Paulo: Philips, 1968.

VELOSO, Caetano [intérprete]. É proibido proibir. No álbum Tropicalia – ou Panis et Circensis. São Paulo: Philips, 1968.

[1] Comentários sobre a música “Apesar de Você” retirados dos seguintes vídeos do Youtube:  https://youtu.be/TTfOt-B25cA?si=zB8qrkJj1h61MJlt  e https://youtu.be/xbH2E1XfscA?si=J7-5aHSV0IO4_Lbj.

[2] Comentários sobre a música “É proibido proibir” retirados dos seguintes vídeos do Youtube: https://youtu.be/7hYxfP5q5og?si=Wo7CahWLER40Bw-H  e https://youtu.be/hE1ULHlLdWo?si=-thVx21W4-KBkM9-

[3] Comentários sobre a música “Cálice” retirados dos seguintes vídeos do Youtube: https://youtu.be/RzlniinsBeY?si=5ZWWVHhTqfuMyM8R e https://youtu.be/8CnSiaP-jL4?si=MK8PIow0p0mNXS5Y.

[4] Comentários sobre a música “Para não dizer que não falei das flores” retirados dos vídeos do Youtube: https://youtu.be/A_2Gtz-zAzM?si=6G72USIMLOVMQqAG e https://youtu.be/5HnVjI2Injo?si=acQtEYVfZTM5HTML. 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

As ruas são do povo: vida noturna e resistências pelas ruas de Porto Alegre

00Make Fabico Weird Again #1

por Ana Luiza Barbosa

Era uma hora da manhã de uma madrugada de domingo e eu e duas amigas estávamos em um dos muitos bares de esquina que tomam conta das ruas da Cidade Baixa, o bairro “boêmio” de Porto Alegre. Um DJ vestido de Papai Noel transformava a atmosfera do que poderia ser apenas mais um estabelecimento em uma aglomeração que extravasava os limites da calçada e adentrava as Ruas Lopo Gonçalves e José do Patrocínio. Entre a boa música e a cerveja gelada, estabelecia-se o começo de um dos muitos caminhos a serem traçados em um fim de semana quente de dezembro.

Já de pijama, eu assistia a uma comédia romântica sentada no sofá no momento em que recebi a notificação mais esperada quando se está sozinha em casa em um sábado à noite: “Vamos fazer algo?!”. Uma hora e algumas pesquisas depois, o Uber nos levava ao apÊzito Bar, que costumava ficar na Lima e Silva, recomendação de alguém em um vídeo do TikTok. Ao chegar lá, deparamo-nos com portas fechadas e poucas pessoas nos arredores. A solução mais óbvia era caminhar até encontrar o movimento.

Durante a noite e para três imigrantes do interior, as ruas da Cidade Baixa parecem se reconfigurar a cada passo, como se estivéssemos em um labirinto sem saída, que não leva a lugar nenhum, mas também leva a todo lugar. Passamos por um, dois, três bares. Nenhum deles era o que procurávamos. Quando não era o público, era o preço, a música, o ambiente. Algo estava errado. Até que uma esquina e um bar desconhecidos se destacaram em meio a tantos outros. O agrupamento de pessoas animadas e o bom som que se propagava no Street da CB se sobressaiu.

Ao nos aproximarmos, foi possível analisar melhor o que acontecia lá. Um bar com a parte interna pequena e algumas mesas na calçada chamava a atenção pelo seu DJ um tanto quanto incomum. No interior do Street, o Papai Noel comandava a controladora e estava prestes a fazer um dos melhores sets que já ouvimos, ganhando facilmente de inúmeras das baladas que cobram entrada para tocar uma conjuntura de músicas que mais parece uma playlist pronta do Spotify.

Em pouco tempo, já estávamos sentadas em cadeiras verdes de plástico e, mesmo sem mesa graças à superlotação do pequeno trecho do passeio disponível, ali ficamos. A primeira cerveja foi mais um dos fatores que confirmou a presença e permanência daquela quantidade de pessoas. Cada gole da Brahma gelada, acompanhado pelo som do funk que contagiava, justificavam aquele ambiente tão característico dos rolês de rua. Ao nosso redor, o que tomava conta era a fumaça de cigarro, as rodas de jovens em torno de uma vodka barata, energético e gelo e o clima de fim de ano – ou, talvez, de apenas mais um dia bem aproveitado.

Os detalhes sobre aquele espaço diziam muito sobre quem o frequenta e por quê. Boa música, bebida acessível, localização central e funcionamento até mais tarde são alguns dos fatores que tornam um movimento de rua bem-sucedido, ou melhor, que levam ao seu surgimento. A aglomeração em torno do Street é uma das inúmeras que se formam na CB e em toda a Porto Alegre. Por cerca de uma e meia da madrugada, decidimos migrar para outra delas.

Uma quadra à frente, observava-se mais uma rua lotada. Caminhar pelos dois lados da Joaquim Nabuco era uma tarefa difícil na madrugada daquele domingo em que a aglomeração na rua era maior que nas casas noturnas e nos bares. Sem cadeiras e sem espaço, tomamos lugar em frente ao Bosque que, embora com estrutura semelhante à do bar anterior, deixava a desejar na música – e também na bebida, já que estavam sem cerveja às duas horas da madrugada. No bar ao lado, somente long neck. Em busca de um litrão, atravessamos até o boteco da esquina onde, finalmente, pudemos saciar a sede de uma noite abafada.

Entre um lugar e outro, perambulamos pela movimentação, conversando, bebendo e curtindo a música. Nesse processo, pude perceber as peculiaridades que estão presentes nos rolês de rua e que fazem parte de sua estrutura. Jovens procurando um lugar para curtir a noite sem hora para acabar, livres para levar sua bebida barata, sua caixa de som com música estourando, sua carteira de cigarro, ou seja, lá o que for. Para quem frequenta esse tipo de evento, o mais importante, além da presença de um grande número de pessoas, é se divertir gastando pouco. Uma cidade repleta de universitários com recursos limitados precisa de um escape que não envolva drinks de mais de quarenta reais, ingressos caros e revista na porta. E esse escape acaba por ser a rua.

Confrontando bares e residências ao seu redor com sua presença e seus barulhos, a crescente multidão em frente ao Janela marcava a resistência daqueles que não se rendem às imposições do capitalismo. Entre os tantos bares que fazem da Cidade Baixa ela mesma, muitos cobram entrada e muitos mais tem preços elevados que barram a entrada de grande parcela da população, ainda que de forma velada. Então, resta à classe baixa duas opções: ou aceitar a exclusão e não frequentar esses lugares, permanecendo à margem, ou tomar conta dos espaços que lhes pertencem independentemente do dinheiro que carregam consigo.

Estar na rua, nesse contexto, é ser visto e ser lembrado. Cada movimento que se forma nos ambientes públicos é uma forma de retomada dos direitos renegados aos invisibilizados pelo sistema. É o aviso de que, mesmo que a propriedade privada os impeça de acessar certos lugares, não pode lhes tirar de outros que são de todos. O rolê de rua é uma luta contra as desigualdades e contra o tolhimento do direito ao lazer. Estar nas ruas de Porto Alegre às três da manhã tomando kit de Ninoff é uma forma de resistência.

Por volta das quatro, tomamos rumo ao que seria o fim da noite. Como em todos os bons rolês, o afterenvolveu comida gordurosa e de qualidade questionável. Do Bosque, caminhamos pelas ruas escuras – mas movimentadas – da Cidade Baixa em busca do lanche mais aclamado das madrugadas porto-alegrenses: um xis do Cavanhas. Rememorando os caminhos que a aventura tomou, encerramos a experiência de barriga cheia e com histórias para contar.

Embora concentrados no bairro noturno de Porto Alegre, os rolês de rua se configuram em outros lugares espalhados pela cidade. Entre eles, alguns se destacam pelas semelhanças ou por seus aspectos diferenciados, apesar de se formarem a partir dos mesmos princípios.

Na esquina entre as Ruas Mariante e Liberdade, no bairro Rio Branco, há um movimento que merece uma menção honrosa. Em torno do Pito Bar, centenas de jovens se reúnem em mais uma das possibilidades que a noite porto-alegrense fornece. O Pito na Rua enche os bares, a calçada e a rua em um rolê que não se restringe aos fins de semana. De terça a sábado, o funcionamento do Pito é um atrativo para a reunião de centenas de pessoas naquele trecho, embora o próprio bar não seja o elemento central desse tumulto. Com um horário reduzido, o movimento que circunda o Pito começa quando ele está fechando as portas e se estende até altas horas da madrugada.

Com aglomerações que, inclusive, dificultam a passagem dos carros, os dois lados da Rua Mariante são lotados por jovens todas as semanas por uma conjuntura de fatores. Cercado por botecos e bares com bebidas baratas que funcionam até tarde da noite, quem vai ao Pito tem a certeza de algumas coisas: terá onde comprar álcool, opções de lanche para a larica e uma rua movimentada. Mukifo, Sheik e Xis da Bruxa são alguns dos estabelecimentos que contribuem para a permanência desse rolê e que são muito frequentados nas noites de Pito.

A ocupação dessas ruas por pessoas que trazem consigo seu som também fomenta a cultura, uma vez que os bares nos arredores trazem a música como um diferencial em relação aos demais, contratando DJs e músicos locais. O Pito em si conta com uma programação que traz artistas quase todas as noites, em uma medida eficaz para atrair público ao mesmo tempo em que torna o acesso à música mais democrático.

Mais uma vez, a rua se converte na casa daqueles que buscam se aventurar por Porto Alegre à procura de uma noite agitada.

O Pito é mais um dos tantos locais que reafirmam presenças socialmente apagadas, dando espaço para a visibilidade das comunidades e dos grupos que ali frequentam. Assim, como afirma Camila Proto, “O som e a apropriação apresentam-se, desta forma, como meio e tática para produção de territórios mutáveis e participativos, através da arte e da emergência cultural popular.” (PROTO, 2020). Nesse contexto, os rolês de rua ultrapassam o lazer e o entretenimento e se convertem em um instrumento social para exibir existências e presenças em lugares que são públicos. Através desses movimentos, é possível gerar o pertencimento do povo onde ele deveria pertencer sempre. A apropriação desses locais é sobre resistir e lutar pelos direitos que são de todos – ou deveriam ser. As ruas são do povo e o povo é das ruas, porque nelas constroi seus afetos, sua cultura e suas vivências.

Referência

PROTO, C. . Territórios Resistentes: arte, som e sociedade. In: José Cláudio S. Castanheira; Dulce Mazer; Pedro Silva Marra; Marcelo Bergamin Conter; Cássio de Borba Lucas; Mario Arruda. (Org.). Poderes do Som: Políticas, escutas e identidades. 1ed.Florianópolis: Insular Livros, 2020, v. 1, p. 121.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.