Z: Zonas, zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2
por Clarissa Chaves, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes
Por volta de setembro ou outubro deste ano, enquanto scrollava a aba de Reels do Instagram, me deparei com um vídeo que me apresentou algo que ainda não conhecia: o soft clubbing. Eugene Healy, mestre em Comunicação e criador de conteúdo, descasca a prática de maneira sagaz, amparado por autores como Mark Fisher, e já na sua fala de abertura, ele descreve o soft clubbing como mais um produto de controle da psique no capitalismo tardio. Sem que pulemos precipitadamente para às conclusões e deixando o aparato acadêmico em segundo plano por um momento, o soft clubbing foi uma descoberta que instigou a curiosidade, porque seu próprio conceito era para mim inexistente antes do momento em que vi aquele vídeo. O que será que toca em uma festa assim? As pessoas bebem? As pessoas dançam como em uma pista de dança mais usual? Que tipo de pessoa que vai ouvir um set de DJ pela manhã?
Já sabia que existiam pessoas que não gostam muito de sair e preferem ficar em casa assistindo a uma série em algum streaming, em vez de dividir o ambiente com centenas de pessoas entorpecidas ouvindo música. Porém, propostas como o soft clubbing nos levaram a pensar qual seria o motivo pelo qual este movimento existe. Pois, se existe o soft, fica subentendido que também existe o hard. Se o soft é ouvir house em um café, o hard é ouvir um acid em um galpão abandonado.
O soft clubbing se propõe como uma balada diurna; consiste em festas acompanhadas de DJ sets que ocorrem majoritariamente em cafeterias durante o final da manhã e início da tarde. A bebida alcoólica, o combustível mais comum e mais fortemente consumido na vida noturna, pode estar presente ou não, à depender da demanda. A partir dos dados de pesquisa de comportamento da geração Z consultados pela Eventbrite — que corresponde, creio eu, sobre os hábitos do norte global, não é especificado —, site estadunidense de marketplace de eventos, a VICE bate o martelo sobre soft clubbing: é literalmente a nova rave. Seu caráter de novidade mostrou que o cenário porto alegrense ainda não dispõe de uma grande variedade de eventos soft, mas a demanda é preenchida principalmente pelo projeto Torra Sessions, promovido pela empresa de comunicação FeedMe, além de ter se tornado uma estratégia ligada à identidade de marca dos estabelecimentos, como no caso da XOX Coffeeclub, cafeteria localizada no bairro Floresta.
Em contrapartida, a cena musical de Porto Alegre, em especial a cena de música eletrônica tem buscado conectar o público com as experiências sonoras que atravessam a cidade de forma cada vez mais frequente. Considerando como a pandemia de coronavírus afetou diretamente as práticas e eventos que aconteciam antes de 2020, o ano de 2025 prova que o fazer coletivo da cultura pôde se reestruturar com o decorrer do tempo e agora expande, com novos coletivos artísticos conquistando seu espaço e diversificando ainda mais as sonoridades das pistas. Por exemplo, Batukbaile e Afrojams, estabelecidos respectivamente em 2024 e 2025, são coletivos que vão colocar diversos ritmos negros no centro do seu som; Boiler Baile, de 2023, vai borrar ainda mais a barreira imaginária entre a eletrônica e o funk. Já Sensi, de 2025, nos convida a explorar as pontes entre o Brasil e a Jamaica através do ragga. É claro, estamos falando de um nicho específico dentro da música local e que apesar da sensação de uma virada cultural protagonizada pelas CDJs e DDJs, seus sons plurais e muitas vezes ruidosos, Gabriel Bernardo (Marginália Metropolitana, 2025) não é tão otimista quando aponta que a relevância desta cena apesar de indiscutível pelo viés da cultura, ainda não atingiu o rompimento da barreira do mainstream que permitiria um alcance em escalas maiores do que a regional e maior retorno financeiro por parte dos artistas, que até o momento, não é expressivo. Na plataforma Substack, o ensaio de título infame everyone wants to be a DJ, no one wants to dance ganhou grande repercussão nas esferas musicais ao tratar sobre o aumento da cena não somente como um fortalecimento da expressão artística difuso como no conceito de contágio que Eduarda Fernandes trabalha no seu capítulo na Marginália Metropolitana, mas como este processo de expansão também acontece em razão da necessidade de comodificação da própria produção artística. Se vivemos em um momento da hipervalorização da produtividade, da otimização do tempo, da busca por capitalização do lazer, o criador (neste caso, o DJ) é um empreendedor e ocupa uma posição hierárquica maior do que o contemplador (a pista), porque dentro desta lógica neoliberal, sua habilidade se converte em produto com valor social e financeiro agregado, enquanto o ato participativo de estar em contato com a música como atividade de lazer, por sua vez, torna-se um ato de consumo. E adivinha? Isso por si só não é produtivo, a não ser que se converta em em um novo produto (como conteúdo para redes sociais). A autora Dani Offline coloca, “As creation gets conflated with entrepreneurship, making art becomes an experience, a lifestyle, to be bought and sold.” De modo geral, a classe artística — que vale ressaltar, é historicamente e sistematicamente desvalorizada — estar em uma efervescente proliferação não é apontada por ela como um problema, mas como uma consequência do modelo econômico.
Coletivos de arte e música fazem parte de uma economia participativa e que, ao analisarmos os exemplos citados anteriormente, são compostos por corpos plurais que realizam o trabalho de potencialização e protagonismo de vozes advindas de grupos sociais marginalizados através das atividades por eles propostas. Um dos diferenciais de eventos promovidos por coletivos é a lista afirmativa que funciona de maneira a facilitar a participação de pessoas sistematicamente oprimidas, como pessoas trans e dissidentes de gênero e pessoas pretas e pardas, iniciativa que se mantém incomum para casas de festas mais tradicionais e populares. Outro diferencial é a ocupação de espaços não convencionais, como praças e prédios históricos negligenciados pelo órgão público. Através da música, da pista, da dança, esses espaços são ressignificados e adquirem novos propósitos antes sequer considerados. Festas em espaços públicos propõem uma inclusão ainda mais abrangente de pessoas com maiores dificuldades de exercer o seu direito ao lazer, como pessoas em situação de rua, por exemplo. Essas estratégias de democratização cumprem o papel de dissolução da hierarquia DJ e pista promovida pelos ideais neoliberais e de hierarquias sociais; a pista não é uma simples consumidora com poder aquisitivo para o acesso àquele espaço, sua identidade é valorizada e assim torna-se participante ativa das experiências sônicas em conjunto com quem está do outro lado da controladora. Em uma passagem do livro, Fernandes explica: “Para além de uma mera “importação” das referências globais, a música eletrônica — ou melhor, as festas de música eletrônica — também podem ser pensadas como transgressoras de muitas dinâmicas e hierarquias. Não é que não existam sacralizações ou diferenciações; mas, nesses momentos específicos de comunhão de pista, as fronteiras ficam nebulosas, e as práticas que são convencionalmente estigmatizadas e impuras ganham um quê subversivo.”
Assim, este ensaio busca compreender onde estas duas maneiras de experienciar a música num ambiente social convergem e divergem uma da outra, em outras palavras, o que faz o soft ser soft e o hard ser hard. Tomando como inspiração a trajetória metodológica que os pesquisadores por trás do artigo acadêmico Inimigos do fim: apontamento sobre o circuito de “afters” no Recife (MONTEIRO, Gabriel et al. Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no
Recife. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. UFF. Niterói – RJ. 23 a 26 de julho de 2024) nossa proposta seria que essas experiências fossem o mais contínuas possível, considerando o bem provável desgaste físico como parte da experiência empírica. Para arquitetar nosso roteiro, foi realizado um mapeamento de eventos de hard e soft clubbing que houvessem datas compatíveis com os membros do grupo, se possível com a proposta de continuidade, e sobretudo, que o valor dos ingressos dos eventos coubessem em nossos bolsos. Tendo em mente o último critério, o primeiro evento soft a ser considerado foi rapidamente descartado de forma cômica, devido ao valor de R$350,00 por ingresso. Um cálculo de porcentagem simples evidencia que esse preço corresponde à 23% do salário mínimo atual. No mais, a estratégia de comunicação da produção do evento não foi transparente — o post no Instagram informava que o evento era aberto ao público e referenciava um link de compra na bio que não encontramos lá. Somente um dia antes do evento, através de um conteúdo de influenciador publicado como stories, conseguimos nos informar onde esses ingressos estavam sendo vendidos e qual era o valor. De forma alguma esse acontecimento foi considerado um obstáculo para nossa exploração, na verdade, tornou-se um próprio objeto sujeito à observação: um delimitador de público bem estabelecido e difícil de ignorar. Por fim, a proposta se concretizou na festa do “Na boca do sol” do Coletivo Plano e na coffee party da XOX Coffeeclub nos dias 15 (sábado) e 16 (domingo) de novembro, o que totalizou em por volta de 12 horas de pista. Dois autores do presente texto estavam presentes na etapa de rua da festa durante o período da tarde, seguindo para o grupo completo navegando a etapa de after e soft clubbing nas horas subsequentes.
Na boca do sol, literalmente
Coletanêa de momentos da Plano de rua.
Vídeo por Clarissa Chaves.
Clarissa – relato da Plano de rua
A ansiedade para conhecer o Coletivo Plano já começou na semana que antecedeu o evento. Como a minha única experiência com festas eletrônicas não tinha sido das melhores, e esse seria o primeiro contato com um lugar novo, estava pensando em tudo: o que vou vestir? Que bolsa eu levo? Será que eu vou beber? E se me der mal-estar? Mas então nós chegamos à nossa primeira parada: Plano de Rua. Ela aconteceu no meio do Parque Marinha, o que me chocou. Sabia que seria ao ar livre, não que seria ao lado de uma pracinha com crianças brincando. Logo de cara vi a mesa dos dj’s, o telão com imagens passando, as luzes coloridas se espalhando com o gelo seco. As pessoas, cada uma no seu mundo, curtindo como bem entendiam. Acho que o que mais me encantou foram as diversas particularidades presentes em um só espaço. Tinham famílias, grupos de amigos que estavam aproveitando o dia na volta e, ao ouvir o som, resolveram se aproximar, além, claro, das pessoas que se organizaram para atender o evento.
Logo de cara avisei o João Guilherme, meu amigo, também autor desse texto, que sou uma pessoa que ama observar o ambiente, gosto de ficar “viajando”, o que se provou ao longo da noite quando nos desencontrávamos no espaço porque eu havia parado para tirar alguma foto, ou o abandonado para fazer carinho em uma cachorra, chamada KUSH ( KUSH é um subtipo da Cannabis), que, segundo o dono, foi levada para ser ponto de reabastecimento de serotonina, algo que eu posso confirmar a eficácia.
Eu, Clarissa, e minha mais nova amiga, Kush
Vídeo por: João Guilherme Gomes.
Eu queria me sentir livre para aproveitar do meu jeito, mas como uma fiel overthinker fiquei pensando sem parar “será que é óbvio que é a minha primeira festa assim? Como que dança? Acho que eu estou meio esquisita dançando assim”. Entretanto, quando o álcool entrou no meu corpo, tudo isso sumiu da minha cabeça, e eu percebi que ninguém estaria prestando atenção em mim, porque cada um está aproveitando o próprio rolê, assim como eu. Eu estava em um lugar com uma música incrível, luzes lindas, pessoas tão unicamente peculiares, me preocupando com o que os outros vão pensar de mim? Acho que não!
Acredito que, se a Plano de Rua acontecesse pelo resto da noite, eu gostaria de ficar noite adentro. Como chegamos às 18h, e a festa — teoricamente — acabava às 22h, me arrependi de não ter ido antes, assistir o pôr do sol e aproveitar mais aquele ambiente. Mesmo assim, consegui curtir bastante cada segundo. Acho que a música “libertou” a minha inner clubber.
Em certo momento fomos ao Front, grudados ao DJ, sentindo a música até a última célula do corpo, parecia que tudo ficava mais leve, o que é um tanto contraditório, visto que a música é mais “pesada”, por assim dizer. É um conjunto de barulhos que separados são caóticos e até “bagunçados”, mas juntos formam algo harmônico e energizante, como se fosse uma tela de arte abstrata. Durante a troca de artista, houve uma curta fala, na qual ele disse “Isso é de nós para nós”, o que ficou na minha cabeça a noite toda, porque isso é Coletivo, coletivo de pessoas, sons, vidas.
João Guilherme – relato da Plano de rua
A expectativa já se instalou no sábado de manhã, logo ao acordar. A empolgação em levar uma pessoa nova para conhecer algo que eu admiro, e depois ela poder me devolver a mesma experiência, parecia ser algo incrível. Parecia que estávamos montando um briefing, pois a Clarissa tinha muitas perguntas a fazer e eu, como amigo e guia particular dela nessa missão, respondia a tudo com muita empolgação.
É normal que haja uma curiosidade ao estar prestes a conhecer algo inédito. Eu não poderia ficar mais feliz pelo fato da Clarissa ter tantas dúvidas, afinal isso mostra que ela estava interessada em realmente viver a nova experiência.
Assim com ela eu também tinha as minhas dúvidas, e elas eram muitas como: “Será que ela vai gostar?”, “Será que ela vai aguentar até o final?”, “Será que ela vai gostar das pessoas que vão estar lá?”. Só que, diferentemente das dúvidas dela, eu não tinha ninguém para me respondê-las de prontidão; o que eu podia fazer era apenas esperar.
Depois de tudo estar devidamente alinhado, partimos então para o local onde tudo aconteceria. Quando chegamos ao local, já era por volta das 19h, então já havia bastante gente, tendo em vista que o evento começava às 16h. Nossa primeira preocupação ao chegar foi procurar algo para beber, pois é humanamente impossível ir a uma festa que toque só música eletrônica e não estar ao menos um pouco bêbado.
Com isso resolvido, eu quis levar a Clarissa para o front, logo de cara, para ela ver de perto como a qualidade do som era boa — e eu nem digo do gênero, mas sim das caixas mesmo. Queria que ela visse o pessoal tocando e a performance que estava tendo também. Quanto mais detalhes eu conseguisse mostrar para ela, melhor.
After

Globo em formato de Mickey acima da mesa do DJ no after da Plano
Foto: Clarissa Chaves.
Clarissa – relato do after da Plano
Após um primeiro contato incrível com a Plano de Rua, estava com as expectativas lá no alto – algo que eu não costumo fazer para evitar decepções. O álcool já havia evaporado do corpo no intervalo de quase duas horas que se deu entre a parte inicial da noite e o After, o que eu considero o principal culpado pela percepção que tive do evento. Chegamos lá e ficamos um tempo no fumódromo, iluminado com luzes verdes e decorado com bancos, cadeiras e plantas. Podíamos escutar a música, o tuts tuts vindo do lado de dentro, misturado com o burburinho das diversas vozes do lado aberto. O ar estava quente, abafado, meio pesado, mas, do lado de dentro, a energia era um tanto diferente, mesmo que não muito. As luzes coloridas refletindo em um globo de espelhos acima do dj era o charme, mudando de acordo com a música – que, por sinal, estava meio morta ao meu ver. O público também era completamente diferente: não tinham famílias ou pessoas que estavam passando e se interessaram pela cena, mas haviam jovens elétricos, que planejaram a ida à festa, que se programaram. O máximo que se via eram pessoas que, após a Plano de Rua, resolveram atender o after, mas seguiam o certo padrão do pessoal.
Acredito que em lugares cuja cena é conhecida por ser mais alternativa, espera-se que as pessoas sejam muito diferentes entre si, mas eu não percebi tanta diferença assim. Obviamente, não existe um padrão imediatamente identificável, mas, ao prestar atenção de verdade, todos – ou quase todos – têm várias características em comum: o jeito de dançar e balançar a cabeça, o óculos escuro, os olhos fechados que passam a impressão de que o indivíduo estava prestes a atingir o seu buddha.
Observar essas novas perspectivas foi interessante, e, mesmo querendo ficar mais tempo, não consegui. Não sei dizer se o problema era eu, mas realmente não me senti confortável naquele lugar. A energia estava pesada, o cheiro, inexplicavelmente, era esquisito, vazio. Tinham várias pessoas, mas, ao mesmo tempo, parecia não ter ninguém.
Com certeza daria uma segunda chance, mas, como primeira impressão, não foi a melhor.
João Guilherme – relato do after da Plano
Chegamos ao after relativamente cedo, por volta das 23h, depois que a etapa da rua havia se encerrado. Dirigimo-nos a um lugar para comer, a fim de nos preparar para o que estava por vir. Ao chegarmos, repliquei o mesmo esquema com a Clarissa: mostrei-lhe todo o ambiente, falei sobre os DJs e apresentei-a a pessoas que conheço e são assíduas na cena.
Por conta de o ambiente ser fechado e as chances de desencontro serem menores, fiquei mais tranquilo em não estar a todo momento ao lado dela, afinal Gezebel também estava lá, junto a pessoas que são da FABICO. Contudo, diferentemente da rua, o after estava estranho; não era a mesma energia do pessoal que estava antes. Eu já havia alertado Clarissa para prestar atenção na diferença entre o público da rua e o do after, pois ela é notável. O pessoal que frequenta a rua nem sempre vai ao after, pelo simples fato de o evento ser gratuito, o que atrai muita gente que deseja apenas ouvir um som legal em um lugar público.
Já o público do after tinha uma energia mais forte, mais presente, como é de se esperar de um ambiente que toca hard e acid techno a noite toda. Algo que considerei uma atitude legal por parte do coletivo: na semana do evento, eles enviaram mensagens na comunidade do Instagram chamando a galera para ir, mesmo quem não estava com dinheiro para o after (provavelmente oferecendo ingressos cortesia), para que pudessem curtir o evento com eles, pois faziam questão de que todos pudessem fazer parte desse coletivo.
Mesmo já conhecendo o evento, os DJs, o espaço e as pessoas, fazia um certo tempo que eu não frequentava; então, desta vez, eu também estava ali com uma sensação de primeira vez, ainda que momentânea. O espaço, de fato, estava com uma disposição diferente, e as pessoas também eram outras. Creio que a Plano vem se popularizando tanto que está atingindo novos públicos; era notável que era a primeira vez de muita gente ali. Isso é bom, pois Porto Alegre quase nunca apresenta algo novo e, quando apresenta, muitas vezes dura pouco tempo, já que não existe demanda suficiente para manter aquilo vivo.
Foi bom poder levar meus amigos para conhecer algo novo dentro de uma cidade tão limitada, onde tudo é o mais do mesmo e nada mais proporciona aquele frio na barriga de antecipação e ansiedade pelo que pode acontecer.
Gezebel – relato do after da Plano
Ir para festas de eletrônica é uma prática de encontrar conhecidos. Seja na entrada, na pista ou no fumódromo — mas especialmente no fumódromo — encontros e desencontros são mais recorrentes do que parecem. A primeira pessoa que vi ao chegar lá foi um familiar meu que trabalha com segurança de eventos, quase sempre presente nos fritos da cidade. Quando encontro outras pessoas conhecidas nestes espaços, compreendo que o motivo de nós estarmos ali é, sobretudo, a música. Mas por encontrá-lo com mais frequência em casarões aleatórios do que em festas de família, me pergunto se a música eletrônica é um fator diferencial ou não, se é do agrado dele e se, talvez se não estivesse à trabalho, fosse estar na pista dançando com todo mundo. Será que existe um appeal?
O after da festa Plano aconteceu no Garden, casa noturna no bairro Navegantes. Dada a distância de 9km entre os locais que aconteceram as duas etapas da festa, o próprio coletivo apresentou uma solução para os clubbers diurnos, oferecendo três viagens gratuitas em uma van fretada para facilitar o deslocamento.
A pista estava cheia e se manteve cheia até o momento que parti. Os corpos lá presente se moviam e dançavam com a batida do som alto, cada um da sua forma, e quando me permiti apenas sentir essas vibrações, fui engolida pela batida. Por um momento, meu corpo também fez parte daqueles tantos outros, e a pista deixou de ser uma aglomeração de pessoas para se tornar um único corpo vivo, conduzido pelo DJ e em sintonia com o ritmo. O calor escaldante é comum em espaços de pista, já que corpos grudados e suados estão em movimento; quando ocupo o front, o ar pesado dificulta minha respiração, mas vejo isso como uma das consequências desse espaço de disputa. Diferente de outras experiências prévias de pista, o ar condicionado gelado que refrescava o espaço garantiu um conforto maior para a atividade de dança. Naquela noite, com o volume de pessoas que preenchiam a pista, não investiguei o front, assim, não posso concluir se a experiência agradável de quem estava mais ao fundo era a mesma de quem estava coladinho no DJ.
Por fim, percebi que apesar do trabalho visual lindo para compor o espaço — um “globo” espelhado no formato da cabeça do Mickey Mouse refletia a luz dos fortes e coloridos holofotes — as pessoas à minha volta não estavam tirando fotos. Me senti até um pouco constrangido com essa observação, agora ciente de que era o único ali com uma câmera erguida enquanto todo mundo dançava. Esse reality check me pôs no lugar e me disse: vai curtir à noite.
Do acid ao açúcar, XOX Coffeeclub
Fotos do ambiente interno da coffe club
Fotos: Clarissa Chaves
Gezebel – relato do XOX Coffeeclub
Saída diretamente do Pinterest, a cafeteria XOX Coffeeclub nos recebeu com um ambiente aconchegante e pronto para ser fotografado. Jogo de luzes interessante e coloridas, as paredes azuis, letreiros legais. O espaço era preenchido por um DJ set leve de ambient house enlaçado à músicas pop, muitos decibéis mais baixo do que na noite anterior; com cadeiras, mesas e sofás à disposição e um cardápio repleto de opções de cafés, bebidas alcoólicas e comidas. Aquela manhã em específico não contava com um público total maior do que 20 pessoas. Com o movimento reduzido, as mesas que ficam em frente a pista não foram retiradas como em outras vezes em que houveram coffee parties, visto em registros presentes no Instagram da cafeteria. Dentre o público, a observação curiosa foi de que o espaço não era muito diversificado. Por exceção de um, todos os clientes eram pessoas brancas. A relação das pessoas com o espaço e com a música também aconteceu de um modo diferente — captações de vídeos e fotos através dos smartphones eram mais frequentes e usuais. Fosse um curto story do set, fosse uma selfie no belíssimo espelho do banheiro, fosse um click da comida disposta de uma maneira harmônica pro dump, estar neste espaço ia além da experiência material e sensorial, ela clamava por registros que pudessem a confirmar. E eu também não agi diferente; captei imagens para compor este ensaio como também postei algo quando adentrei no espaço. Me parece sua funcionalidade primária.
Eu não concordo com a frase “Come for the coffee, stay for the vibe” presente em um dos letreiros, mas ela possui, sim, um fundo de verdade. Por um lado, visitar a XOX foi revigorante. O café que pedi estava uma delícia, a música era ok, com algumas decisões do DJ sendo melhores do que outras, no geral, uma atividade tranquila e agradável para começar o dia de domingo tentando se livrar da ressaca. Por outro lado, um dos maiores pontos negativos da cafeteria é a sua localização, que fica há 10km de distância de mim, somado ao difícil acesso via transporte público. Mas talvez isso não seja um dos pontos considerados por empreendedores que abrem novos comércios na região do 4º Distrito. No entanto, as ruas compridas e vazias repletas de galpões fechados, terrenos à venda e, vez que outra, um outro comércio são o oposto de um ambiente convidativo. Cafés, restaurantes e minimercados são estabelecimentos que desempenham funções pra além do consumo, funcionando como uma expressão da comunidade do bairro e como ela socializa. Se eu pudesse cruzar com a XOX Coffeeclub no meu caminho, com certeza ela desempenharia o trabalho de me cativar à adentrar o seu espaço para consumir, mas ela acaba sendo um pontinho azul no mapa, o perfil que eu vejo no meu Instagram e o “Local de destino” do meu Uber.
Acredito que soft e hard clubbing são experiências sonoras consideravelmente diferentes, em suas propostas, seus aspectos de execução, nos gêneros musicais que abrangem e seus públicos-alvo. De tudo, posso dizer que a VICE me fez superestimar o que tal tipo de evento poderia ser — se o público frequentador de festas de eletrônica já existe dentro de um nicho que não corresponde necessariamente com a totalidade de pessoas que saem de casa buscando o lazer em ouvir música, o soft clubbing propõe não uma segmentação financeira pra este nicho, mas um novo nicho completamente novo, produzido por e para um público de maior poder aquisitivo, e assim, higieniza a potencialidade subversiva, ruidosa e suja do clubbing.
Clarissa – relato do XOX Coffeeclub
Logo de cara o XOX Coffee Club dá um sentimento de “uou”. É um ambiente meio futurista, com uma proposta contrária aos lugares que visitamos na noite anterior. Como cafeteria, é um espaço incrível, bonito, superinteressante. Agora no quesito coffee party deixou a desejar. Eu já fui em outras coffee parties, então imaginava que seria minimamente parecido, mas não.
O único fator em comum à experiência que já tive era a música, fora isso, nada. O Torra Sessions apresenta a proposta de um ambiente para networking entre criativos, um lugar com comidas, música, café e criatividade. Enquanto isso, o XOX tem uma proposta mais simples: aproveitar um café com amigos escutando um house. Acredito eu que, por ser mais novo e menos consolidado, a coffee party que atendemos não tinha muitas pessoas, era meio morta, meio sem energia. Parecia que as pessoas iam lá apenas para fazer a mídia do instagram e pronto. Ninguém conversava com outras mesas (outra coisa que difere do Torra, no qual todos ficam em pé, rodando e conversando), apenas permanecia na própria bolha.
Inclusive, que bolha! Enquanto a Plano apresentava uma diversidade enorme entre os indivíduos, a XOX não tinha nenhuma. Ninguém parecia estar lá para compartilhar experiências e ver pessoas diferentes.
Acredito que a intenção faça toda a diferença nessa experiência. Ao visitar um café cuja proposta é “come for the coffee, stay for the vibe”, eu espero que a tal vibe seja inexplicável, que tenham várias pessoas e seja um evento! Provavelmente foi inesperado estar com um público tão pequeno nesta edição, visto que em registros de outras vezes havia mais audiência, por isso estranhei tanto esse quesito.
Com certeza frequentaria novamente o café, com um grupo maior, de repente, com uma intenção diferente. Inclusive, já vi no instagram que haverá uma outra coffee party com uma doceria que amo, então estou pensando em ir.
João Guilherme – relato do XOX Coffeeclub
Diferente das minhas duas colegas, que foram para casa e descansaram pós-Plano, eu fui para a casa de outras amigas e fiquei o resto da noite/manhã lá. Ou seja, fui virado para o café. Realmente, fui o inimigo do fim. Quando cheguei no XOX, a música estava alta. Logo ao lado da porta, havia uma mesa com quatro pessoas, e elas estavam bem animadas. De começo, prestei atenção na música: eram remixes house de músicas pop. Lembro que todas as pessoas que estavam lá estavam em grupos de, no mínimo, três. Todos estavam muito animados. Mesmo com a música alta, ainda era possível ouvir as vozes das pessoas, que precisavam falar mais alto do que o som presente no ambiente.
Fiquei com uma sensação de vergonha, pois eu estava com cara de quem ainda não tinha dormido e, por conta disso, fui obrigado a usar óculos em um ambiente fechado, onde as pessoas vão para tomar café. Mas percebi que ali havia outras pessoas usando óculos também, então logo desapeguei da vergonha. O espaço era muito bonito; seguia uma estética cool, com várias placas iluminadas com frases que, com certeza, alguém iria fotografar para postar nos stories. Dentro das cabines dos banheiros, era tudo vermelho — desde o vaso até os azulejos da parede. O corredor tinha espelhos que iam do chão até o teto. O ambiente parecia todo planejado com um objetivo: entre aqui, faça sua foto e nos marque no Instagram.
O instagramável se estendia às comidas e aos cafés também; todos tinham apresentações muito bonitas. Ao contrário do que pensei, não havia ninguém na “pista de dança”. Mesmo o ambiente contendo cadeiras, ainda havia um espaço grande para que as pessoas pudessem ficar em pé e dançar, caso quisessem, o que me fez pensar por qual motivo as pessoas iriam a um lugar onde toca música se estavam apenas sentadas, bebendo e comendo. Ainda assim, gostei de ir lá, mas acho que não seja o tipo de ambiente em que as pessoas vão para dançar e conversar, pois elas estão em suas “bolhas coletivas”, e, mesmo em um espaço social, preferem se manter dentro do próprio mundo.
Em contraste com a Plano, onde todo mundo performa intensidade e suor, o XOX parece funcionar como o avesso dessa experiência: um lugar pensado milimetricamente para ser visto, mas não necessariamente vivido. No fim, a diferença mais gritante entre os dois espaços não é a música nem o cansaço; é a maneira como cada ambiente revela como a gente consome o social hoje. Na Plano, a gente vive o momento; no XOX, a gente fabrica o momento para postar depois.
E talvez a verdadeira reflexão esteja aí: no fato de que estamos cada vez mais cercados de gente, mas nem sempre de presença.
REFERÊNCIAS:
MONTEIRO, Gabriel et al. Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no Recife. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. UFF. Niterói – RJ. 23 a 26 de julho de 2024. Disponível em: https://proceedings.science/compos/compos-2024/trabalhos/inimigos-do-fim-apontamentos-sobre-o-circuitode-afters-no-recife. Acesso em 22 jul 2025
BERNARDO, Gabriel (org.). Marginália Metropolitana. Porto Alegre: Marginália Metropolitana, 2025. Disponível em: https://marginaliametropolitana.com.br/wp-content/uploads/2025/04/marginalia_pdf_19abr.pdf. Acesso em 17 jun 2025.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e Estagiário docente Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas, zumbidos e um zilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.


