Z: Zonas, zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2
Por Bruna Bösing Minho, Ignácio Cordeiro, João Vítor Debiasi e Mariana Reyes

O nosso relato será organizado por cores, para que o leitor identifique facilmente quem está falando. As experiências da Bruna aparecerão em rosa, as do Ignácio em verde, as do João Vítor em azul e as da Mariana em bordô. Optamos por essa paleta por preservar a legibilidade e, ao mesmo tempo, evidenciar quando nossos relatos se encontram, se afastam ou até mesmo se contradizem.
O Bar em Bar é aquele tipo de evento que, mesmo quando não é bom, continua sendo bom pela simbologia. Em um primeiro momento, o que chamou atenção foi a empolgação coletiva que se formou quando o retorno de um dos rolês mais adorados pelos universitários de Porto Alegre foi anunciado. Um porto-alegrense pode até torcer o nariz para o Bar em Bar, mas vai defender sua existência como quem defende um patrimônio emocional. Parte dessa excitação veio do hiato imposto pela prefeitura, uma prefeitura, digamos, nada simpática para qualquer pessoa munida de bom senso.
Eu, no entanto, não estava tão animada para comparecer, mas esse era especial: marcava não somente o renascimento da festa como também a vitória dos alunos em exercer o seu direito de ocupar a cidade. A empolgação inicial começou a evaporar conforme o evento se aproximava. E isso parecia geral. Todo mundo com quem eu falava ao longo da semana dizia que iria, mas sempre num tom desanimado, quase protocolar.
Essa vibe de “vou porque tem que ir” me chamou atenção. A semi-resposta que consegui elaborar é que essa sensação nasceu do próprio contexto e das mudanças impostas para que o evento acontecesse.
Os boatos anunciavam um percurso controlado, delimitado pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Esse suposto controle chegou a despertar um sentimento de que o propósito de invasão e ocupação da rua seria invalidado. Como propõe Camila Proto (2019, P.109), em seu ensaio Territórios resistentes: Arte, som e sociedade – “Na pós-modernidade, o espaço, que antes era delimitado por sua função, tornou-se lugar múltiplo, que independe de qualquer finalidade ou codificação social prévia. É dizer, também, que em um mundo globalizado e pós-industrial, todos os lugares públicos acabaram, consequentemente, tornando-se lugares de consumo e, logo, lugares privados”. Isso explica alguns movimentos censuradores da vida boêmia na cidade, e consequentemente, desperta a vontade dos jovens de apoiar esse movimento de contracultura que o Bar Em Bar representa nesta edição. E foi assim que, às vésperas do rolê, o anúncio de que a Praça da Matriz estaria fora do percurso contribuiu para o receio sentido por amigos próximos. Foi dito, em uma publicação no Instagram, no perfil do evento, que estava proibida a aglomeração de pessoas na região e foi destacado o alerta de que não seria permitido escalar o monumento central da Praça. No post em questão, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (DAFA) explica que incluir o espaço na rota reforçava ideias que não condizem com a ocupação e ressignificação da cidade e de seus espaços de forma “saudável e responsável”.
A retirada da parada na Praça da Matriz foi uma reclamação unânime. A Matriz sempre foi o ponto alto, a imagem mais representativa, a coroação do caos bonito que o evento traz. Ela nunca foi ponto final oficial, mas era tão querida que muitos participantes simplesmente abandonavam o estandarte e encerravam por lá.
O Bar em Bar estava virando um evento “liberado” pela prefeitura. Parecia que aquilo que antes era puro fluxo — um rizoma se espalhando pela cidade — estava virando uma rota institucionalizada. Um território capturado. A cidade, que deveria ser vivida como devir e não como mapa pronto, estava tentando organizar o imprevisível. E, no semestre, discutimos o quanto esse evento é profundamente político. Ocupar as ruas do Centro Histórico com milhares de jovens é um ato político em si, mesmo que a pessoa não vá com essa intenção. A ocupação acontece porque vivemos numa cidade que nos tira das ruas — seja pela insegurança, seja pela gentrificação. Um Bar em Bar liberado pela prefeitura deixa de ser ocupação. E isso parece ter afetado até quem nunca pensou politicamente sobre ele.
O caráter itinerante do evento, movendo uma grande massa de pessoas que procuram habitar a cidade, é uma manifestação exemplar daquilo que apontam os autores de Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no Recife, no que diz respeito ao ambiente comunicacional, à corporeidade, às ruas e aos entraves. O artigo trabalha os conceitos de cidades musicais: a articulação entre música e cidade, materializada em percursos, pressupõe corporeidades que surgem dos acoplamentos entre corpos humanos e não humanos, trânsitos, lugares, dispositivos técnicos e possibilidades que vivências musicais associadas ao imaginário de cidade possibilitam para os corpos que habitam o universo dos trajetos das cidades ditas musicais. Como bem sabemos, há todo um imaginário audiovisual ligado a corpos e ambientações que tocam, dançam e encenam diferentes categorizações, gêneros musicais e as cidades dentro da cidade.
Eu nunca tinha ido. Quer dizer, fui uma única vez, no ponto final do trajeto, na Praça da Matriz. Desta vez, porém, comecei do início. Cheguei por volta das 19h30 em frente à Faculdade de Arquitetura, no Campus da UFRGS. A cena já era de movimento. Grupos se formando, conversas cruzadas, latas abrindo, aquela energia de começo de noite. Encontrei a minha amiga, Gabriela, e ficamos bebendo e colocando a vida em dia. Só meia hora depois lembrei de ativar minha localização no Strava, gesto que já denunciava o desejo do nosso grupo de registrar aquela experiência de viver a cidade a pé, no fluxo.
A Gab contou que já tinha ido a três edições, embora sem muito entusiasmo pelas experiências anteriores. Eu, estreante, ouvia tudo com curiosidade. Logo ela reencontrou alguns amigos, e nos juntamos a eles. Foi ali que percebi algo que marcaria minha noite: naquele evento, especificamente, as pessoas parecem energeticamente dispostas a furar suas bolhas. Há uma abertura quase imediata para conversar, rir, seguir junto, como se, por algumas horas, a sociabilidade urbana ganhasse outra lógica.
A noite começou com Jazz no espaço onde trabalho. A saxofonista alemã Nicole Johänntgen tocou um jazz contemporâneo misturado com afrobeat, música latina e afro-cubana em um show complexo e coeso ao mesmo tempo, sons muito diferentes daquilo que eu ouviria mais tarde naquela noite. Foi por causa desta atividade que tive que trabalhar até as 20h30, o que atrasou a minha chegada ao Bar em Bar. Quinta-feira é um desafio para quem trabalha. Só chega no horário quem vai direto do serviço.
Eu, como sempre, cheguei atrasado. Saí de casa às 20h20. Fui a pé, como costumo fazer, seguindo a Protásio e a Osvaldo. Dessa vez não estava sozinho. Meu grande amigo Rodrigo, que recentemente se mudou para minha rua e virou praticamente vizinho, foi junto. Caminhamos tomando uma ceva e batendo papo. A avenida estava meio vazia e tudo ressoava — os carros, os ônibus, até os passos. A academia do lado de casa exibia sua população de infelizes, foi o que pensei na hora.
Quanto mais nos aproximávamos do Campus do Centro da UFRGS, mais gente aparecia. Quem estivesse na rua naquele horário provavelmente tinha o mesmo destino. Com o passo apertado alcançamos um grupo de amigos que encontramos por acaso. Antes mesmo de chegar no evento já tínhamos nosso primeiro encontro da noite. Quando finalmente chegamos, quase 21h, descobrimos que o estandarte ainda mal tinha saído, mesmo com a previsão das 20h. Tinha gente saindo de bueiro. Caixas de som por todos os lados, ambulantes, churrasquinho, motoristas buzinando estressados, uma onda de conversas que se misturava e virava apenas barulho. Parecia que tudo fazia parte de um mesmo som gigante. A largada finalmente foi dada. Saímos do prédio da faculdade de Arquitetura da UFRGS e o Bar em Bar oficialmente estava de volta.
Por volta das 20h30 começamos a caminhada até o segundo ponto, no Boulevard da Duque. Pelo caminho, cruzamos ainda mais conhecidos, e acabamos consolidando um grupinho. A verdade é que partimos aceitando um risco, se terminássemos a noite sem ninguém se perder, seria pura sorte.
No trajeto, uma cena se repetia e me chamou atenção. As pessoas se cumprimentavam, desejavam “bom rolê” e sempre finalizavam com um “a gente se encontra durante a noite”. Era um pacto tácito. Uma confiança no acaso.
Quando nos aproximamos da Faculdade de Direito da UFRGS, o “modo sobrevivência” foi acionado. Era gente demais e a cada passo parecia mais difícil manter o grupo unido. O início sempre é um aperto. Todo mundo caminhando como um amontoado de pinguins tentando descobrir onde dá para passar. Em certo momento, olhei para trás e não reconheci mais ninguém. Senti a ansiedade subir, aquela sensação breve e aguda de estar perdida no meio de uma multidão. E agora? Por sorte, cerca de dez minutos depois, eles me encontraram. Ser alta, nessas horas, vira ponto de referência involuntário.
Os encontros começam cedo, mas são tantos que se dissolvem rápido. Os desencontros também chegam cedo. No meio do caminho, encontrei minha melhor amiga da faculdade, a Giovana. Nós havíamos combinado de chegar juntas ao início do trajeto, mas no momento combinado ela me respondeu que estava lavando o box e ainda ia tomar banho. Aquilo me fez pensar no pré-rolê da vida adulta. Moramos sozinhas, temos outras rotinas, outros tempos. Não somos mais tão jovens.
Subimos a Duque e ali as coisas engrenam de verdade. O caos reinava, mas de um jeito curioso. Um caos que não incomodava tanto. Carros presos, motoristas perdidos, e frequentadores tentando, com boa vontade, indicar algum caminho possível. Na calçada, uma fileira de patinetes. Um deles jogado no chão, obrigando as pessoas a pular por cima. Era visível a irritação, tropeços e quase quedas. Até que uma “boa alma” interrompeu o fluxo para recolocá-lo no lugar. Esse gesto simples me fez pensar no quanto esses patinetes, símbolo de mobilidade urbana “futurista” do governo Melo, seguem representando riscos e atritos, especialmente quando somos pedestres em massa.
Outro aspecto que me surpreendeu foi a relação dos moradores com o evento. Os curiosos aparecem nas sacadas, observando a multidão como papas abençoando fiéis. Os cachorros ficam hipnotizados nas janelas, e já que não adianta reclamar do barulho, parece que resolvem aproveitar o espetáculo. Lembro de um cachorro imóvel na janela, acompanhando a multidão como quem assiste a um desfile. Em outra sacada, um casal de idosos, sorridente, virou atração quando a multidão começou a gritar “beija, beija”. Eles se beijaram e a rua inteira comemorou. Por alguns instantes, parecia réveillon, uma celebração coletiva, espontânea, de estar vivo e partilhar a cidade.
Foi nesse clima que me senti, pela primeira vez, verdadeiramente pertencente. Brinquei até que, finalmente, me senti porto-alegrense, justo eu, que sou de Uruguaiana, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Algo na mistura entre o caos, o encontro e a cidade em festa me deu essa sensação de que, naquela noite, eu habitava Porto Alegre de um jeito novo. E Porto Alegre, de algum modo, também me habitava.
Naquela noite, também tinha um recital de orquestra para comparecer com minhas amigas, o qual tínhamos comprado ingressos fazia algum tempo, muito antes do anúncio da data do Bar Em Bar, e por isso não podia desmarcar. Passado estas divergências de horário e compromissos, finalmente chamo meu Uber para o rolê.
Primeiro passo: entrar no Instagram do DAFA para localizar o ponto da rota que estaria a multidão. Localizamos eles na rua Duque de Caxias, por volta das 22h, e o endereço referência colocado no aplicativo foi o colégio Bom Jesus Sevigne. O caminho até lá foi tranquilo, mas não esperávamos ter que descer 2 quadras antes do destino. As ruas estavam lotadas de jovens e carro nenhum estava conseguindo passar com facilidade ou agilidade, por isso a solução foi caminhar até a Duque. Durante a caminhada, já conseguimos notar os rastros deixados por uma festa característica de rua: algumas garrafas quebradas, pessoas indo comprar bebidas em mercados próximos, gritos de gente tentando se comunicar com seus amigos no meio da multidão, coisas normais de todos os Bar Em Bar que já presenciei. Quando finalmente chegamos onde estão a maioria das pessoas, noto que existe um membro dos organizadores do rolê com um megafone nas mãos, pedindo para as pessoas abrirem espaço nas ruas para que os carros pudessem passar. Penso na hora que esta é uma estratégia de organização que não era praticada nas edições anteriores, e algo que facilitou a mobilidade urbana naquela noite de festa.
É nessa parte que as ruas paralelas se transformam em mictórios. Não há container, canteiro ou fachada que escape do “pipi amigo”, como minha mãe dizia quando eu era criança. E é sempre uma experiência curiosamente comunitária, sem julgamentos. A gente se ajuda, indica bons lugares, faz rodinha pras gurias terem seu alívio com um mínimo de dignidade improvisada.
Por algum motivo, esse trecho da Duque parece ser o grande vórtice de encontros e desencontros. Todo tipo de conhecido aparece. Ex-colegas de colégio, gente da faculdade, ex e futuras namoradas. O Bar em Bar tem essa energia de abraços e sorrisos espontâneos acompanhados de um “quanto tempo”. É bonito. Nessas pequenas cenas dá pra sentir como o evento proporciona essas microafetividades espalhadas pelo caminho. Como se, por algumas horas, surgisse outra cidade por cima da Porto Alegre de sempre. Uma cidade que só existe nessa noite.
Mais uns passos a frente, paramos para comprar bebida com um vendedor ambulante, e é nessa hora que um coro altíssimo de pessoas cantando “Vamos Para Gaiola”, do funkeiro Kevin O Chris, começa a repercutir pela rua inteira. Paro para ouvir, e a sensação é energizante, sinto a frequência em que todas aquelas pessoas estão vibrando, e é pela música que se conectam. O público parece ser bem maior em número desta vez, o que aumenta o tremor dos cantos e dos gritos de festejo durante a caminhada. Não demora muito para encontrarmos as primeiras pessoas conhecidas. Um grupo de meninas da faculdade de psicologia da UFCSPA, amigas de amigas. Logo mais adiante, vejo alguns colegas de curso, outro grupo de amigos, além de pessoas que não gostaria de ter esbarrado.
O trajeto oficial seguia direto para a Praça dos Açorianos. Quase ninguém acreditava que as pessoas realmente abririam mão de ir à Praça da Matriz. O fluxo até a praça é natural, pois o corpo dos frequentadores assíduos do Bar Em Bar já caminha sozinho pela rota dos bares, e a parada no monumento da Matriz era obrigatória, mas esse ano foi diferente. A curiosidade nos fez ir até lá, eu, Rodrigo e nossa amiga Carolina. Para nossa surpresa, a praça estava praticamente vazia. Meia dúzia de gatos pingados e policiamento. Uma visão estranha para um lugar que sempre foi pulsante no evento. Ali fui percebendo que o método cartográfico é isso mesmo: seguir pistas, mesmo quando elas não dão em nada. Ou melhor, dão em algo, nesse caso uma sensação de ausência. A Matriz vazia também era um dado. Um silêncio no meio do barulho todo.
A cartografia implica que o pesquisador adote uma postura de explorador, de descobridor, observando os caminhos desordenados dos processos e mantendo uma atenção sensível para a detecção de signos e forças circulantes. A pista metodológica é um guia no percurso da pesquisa, permitindo que o pesquisador cultive a atenção concentrada e aberta à experiência de problematização. Como apontado pela pesquisadora Nísia Martins do Rosário, a cartografia lida com a multiplicidade, transversalidade, processo e rizoma e não se opera sobre modelos prévios.
Diante da situação, resolvemos apenas regar as plantas e voltar para a rota. Quando chegamos próximo à Igreja, demos de cara com a Guarda Municipal, e pegamos uma rua alternativa para voltar a rota estabelecida pelo DAFA. Nesse caminho, vejo um grupo de meninas que encontram outra menina conhecida, “lembram de mim?” uma delas pergunta, e cenas como essas se repetem ao longo da noite. Os encontros, reencontros e desencontros são a marca registrada dessa reunião de universitários, que se aglomeram no centro da cidade para beber, se divertir e tomar posse das ruas por algumas horas.
No fim, o “grupão” em que estávamos acabou naturalmente se reduzindo a um trio: eu, a Gab e a Gi. Seguimos juntas até o final. Depois da segunda parada, rompemos com o roteiro oficial, nos desprendemos do restante da galera e fomos parar no Brechó do Futebol. Eu e a Gi somos amigas dos atendentes, então aproveitamos para colocar o papo em dia e, claro, usar o banheiro, um privilégio raríssimo em noites assim.
Na sequência, retomamos a caminhada e cruzamos com um casal vendendo Melz, o famoso mel com cachaça. A Gab me perguntou se eu já tinha provado; respondi que não. Ela fez questão absoluta de comprar um para mim, e eu adorei. Mais uma primeira vez registrada naquela noite cheia de estreias. Seguimos nós três pelas ruas, conversando sobre tudo: ficantes e ex-ficantes, dilemas familiares, histórias de vida. Era como se o Bar em Bar nos oferecesse não apenas deslocamentos, mas uma espécie de suspensão do cotidiano, um espaço para que certas conversas acontecessem.
Em meio ao trajeto, encontramos um dos organizadores, megafone em mãos, orientando a multidão a seguir para o último ponto, a Ponte de Pedra.
A caminho da ponte, a Gab resolveu comprar uma ceva em um bar que nem fazia parte da rota oficial. Ficou um bom tempo conversando com o atendente, como se aquele encontro improvisado fosse parte da própria noite. Ali me dei conta de que o Bar em Bar não se limita à linha que liga um ponto ao outro. Ele vaza, transborda. O evento ativa a cidade inteira, seus bares, suas esquinas, seus trabalhadores e, de algum modo, faz com que tudo isso passe a compor a experiência. A rota é só um pretexto, o essencial acontece no meio.
Deleuze e Guattari (1995, Vol. 1) afirmam que o rizoma “não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo”. O rizoma é composto por linhas de segmentaridade, estratos e territorialidades, mas também por linhas de fuga e movimentos de desterritorialização, fazendo dele um mapa móvel que se constitui em suas múltiplas conexões. O evento, ao vazar e transbordar, exemplifica perfeitamente essa dinâmica do rizoma.
Chegamos na Praça dos Açorianos perto da meia-noite. O lugar histórico e lindíssimo, estava tomado de gente em cima e ao redor da ponte de pedra. Música para todos os lados, uma multidão vibrante. Penso quanto esse lugar é mal aproveitado.
A noite foi marcada por vários públicos diferentes, com caixas de som tocando de funk à Chali XCX. O que chamou a atenção nesta edição foi a presença de um DJ com uma CDJ e caixas grandes de som esperando a multidão chegar na ponte de pedra. E todos chegaram, curtiram a música, dançaram. Quando a rota finalmente teve seu destino alcançado, olhei em volta e vi pessoas em cima das paradas de ônibus, ocupando.
O som se impunha o tempo inteiro. Vinha das conversas entrelaçadas, das risadas, das JBLs disputando espaço com as vozes, dos ambulantes anunciando seus produtos, da multidão que aplaudia, cantava, vibrava. E também das buzinas dos carros, presos no trânsito humano que tomava as ruas. O cheiro, igualmente presente, compunha sua própria camada, com churrasquinho, cachorro-quente, cerveja derramada, perfumes dos mais variados tipos das mais variadas pessoas, lixo acumulado, xixi nos cantos. Caminhar por Porto Alegre naquela noite era atravessar uma explosão sensorial.
O áudio a seguir reúne trechos que sintetizam a vivência do grupo no Bar em Bar, evidenciando as diferentes experiências sonoras sobre o percurso. Dê o play!
Esses estímulos agradáveis e incômodos moldam nossas trajetórias diárias. Da casa à faculdade, da faculdade ao trabalho, do trabalho ao retorno para casa, ou, naquela noite, da Arquitetura até a Ponte de Pedra. No fundo, estamos sempre expostos a tudo. Aos sons, aos cheiros, aos espaços e às pessoas que compõem essa cidade que transborda para muito além do que conseguimos processar. Mas ali, no Bar em Bar, essa exposição deixava de ser apenas pano de fundo e se tornava parte essencial da experiência de ocupar a rua.
Algumas cervejas e muita caminhada depois, era hora de ir ao banheiro, algo que, para mulheres, significa ficar horas em uma fila. Fomos em dupla e deixamos o resto do grupo curtindo a música na praça, e 30 minutos depois nos reencontramos para ir embora, pois a noite já tinha sido cansativa e a ida ao banheiro sempre é desestimulante. Fomos embora por volta das 1h30, e fui refletindo na volta sobre o que tinha experienciado. No fim, os encontros e desencontros são algo não só vividos no Bar Em Bar , mas ao longo de toda vida acadêmica. Não esbarrei em tantos amigos como nas edições anteriores, pois hoje alguns estão no mestrado, outros foram estudar fora, outros mudaram de curso e a comunicação ficou falha. Isso evidencia o fim da trilha da graduação, que termina com um indivíduo modificado pelo espaço da cidade e por seus processos. Como contemplaria Foucault (2009, p.414),“Dito de outra forma, não vivemos em uma espécie de vazio, no interior do qual se poderiam situar os indivíduos e as coisas. Não vivemos no interior de um vazio que se encheria de cores com diferentes reflexos, vivemos no interior de um conjunto de relações que de nem posicionamentos irredutíveis uns aos outros e absolutamente impossíveis de ser sobrepostos”.
Na Açorianos encontrei uma gurizada, inclusive minha ex que não era exatamente ex e agora virou ex de fato. Com ela e vários amigos segui a noite até às duas da manhã. Já não conseguimos seguir até depois das 4h como antigamente.
Utilizamos o Strava para demarcar os passos e o trajeto de cada um do grupo. Ao final do rolê, o meu marcou 21,25 km percorridos em 3h57min, o da Mari 11,66 km em 2h17min e o do Ignácio 22,98 km em 2h25min . O aplicativo não se deu bem com a Bruna e o trajeto dela se perdeu, faz parte do processo. O registro, no fim, virou uma espécie de representação gráfica rizomática — aquela maluquice de linhas cruzando por todos os lados, sem hierarquia, sem centro, só um emaranhado que fazia sentido porque era exatamente assim que a noite tinha sido vivida. Como se o mapa tivesse ficado bêbado também.

Clique aqui para conferir o mapa em detalhes.
Uma verdadeira cartografia de encontros e desencontros, de seguir a rota e de se permitir dispersar, de sons sobrepostos em camadas, porque silêncio, de fato, não houve. Nem mesmo na volta para casa. No Uber, o motorista perguntou o que estava acontecendo na cidade, e acabamos conversando sobre o evento e sobre a energia que se espalhava pelas ruas.
O Bar em Bar, naquela noite, ultrapassou a simples lógica do deslocamento. Foi como se acordasse Porto Alegre, devolvendo-lhe um ritmo que há tempos parecia suspenso. A cidade pulsava e nós pulsávamos com ela. Essa pulsação e o ritmo são elementos que, segundo Deleuze e Guattari, são essenciais na constituição de um território existencial. A cartografia, ao buscar a identificação das linhas de fuga, acompanha os fluxos e movimentos de desterritorialização que definem esses mapas moventes.
Confesso que não senti o impacto de alguma restrição imposta pela EPTC, nem percebi se houve uma intervenção de fato. Ainda assim, a ronda de viaturas da Brigada Militar foi expressiva, mas isso é costume por aqui, principalmente em momentos festivos de grande fluxo de pessoas pelas ruas.
O rolê, no fim das contas, foi muito afudê, mesmo com todas as mudanças. E foi interessante vivenciar tudo com os olhos e ouvidos mais atentos, como quem oficialmente está estudando a própria cidade enquanto bebe e abraça conhecidos.
Faz algum tempo que a juventude da capital busca ambientes para viver sua própria cultura e habitar a cidade com liberdade e segurança. Em um contexto de cerceamento e proibições, o corpo procura por espaços de lazer onde a aglomeração conduzida pela música seja permitida, para que seja possível o movimento dançante que tire dos músculos o cansaço da rotina, dando espaço a outro cansaço, um que deixa saudade e a gente procura de novo pelos bares, shows, feiras ou mesmo ao redor de uma caixa de som pirata por alguma esquina em mais um after.
Referências:
PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.
FOUCAULT, M. Outros espaços. In: MOTTA, M. B. (Org.) Estética: literatura e pintura, música e cinema/Michel Foucault. Rio de Janeiro: Forense, 2009.
MONTEIRO, Gabriel et al. Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no Recife. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. UFF. Niterói – RJ. 23 a 26 de julho de 2024.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.