Sextante

comissão editorial

destino comum

Olhar para o passado e para o presente, projetando – com base em dados e pesquisas – um futuro, é uma atividade recorrente na vida dos jornalistas. É preciso compreender contextos sociais e históricos para redigir matérias e descobrir novas pautas.

Há um futuro, porém, sobre o qual nós, jovens jornalistas, não costumamos pensar muito. Trata-se de um destino natural da humanidade: a velhice. Um futuro que talvez tenhamos, caso a vida permita. E, ao que tudo indica, isso será cada vez mais possível.

De acordo com dados de 2019 da Secretaria Estadual de Planejamento, Governança e Gestão do Rio Grande do Sul (SPGG), um em cada três gaúchos terá mais de 60 anos até 2060. Hoje, os idosos são um a cada cinco da população gaúcha. No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa parcela da sociedade cresceu de pouco mais de 11% em 2012 para quase 15% em 2021.

Apesar de ser uma das poucas certezas da vida – nascemos, envelhecemos e morremos –, por vezes, a velhice é tratada como tabu. Mas o envelhecimento é a chave da nossa evolução, é com ele que se intensifica tudo de melhor e de pior que somos.

Soma de experiências, acúmulo de anos vividos e um bocado de alterações físicas: não limitamos a velhice a isso na 59ª edição da revista Sextante. Em oito reportagens aprofundadas, diferentes perspectivas sobre envelhecimento são exploradas pela turma de Jornalismo.

Roqueiros de longa estrada, empresárias idosas, a busca pelo rejuvenescimento físico, paixões que passaram de geração em geração, indígenas anciões, o clube negro mais velho do país, lares residenciais para idosos e o envelhecimento trans são as pautas que fazem parte da coletânea de histórias desta revista.

Narramos corpos que carregam, no mínimo, mais de seis décadas das mudanças históricas e sociais do mundo e que são manifestações vivas disso.

Descubra conosco mais sobre o envelhecimento para além da superfície das aparências a partir das narrativas de quem mais pode falar sobre o assunto: os idosos.

Comissão editorial
editorialsextante@ufrgs.br


professora-editora e estagiário-docente

um novo envelhecer

Contar a rotina de idosos contemporâneos foi o tema escolhido pelos oito alunos da disciplina de Jornalismo Impresso do curso de Jornalismo da UFRGS nesta edição da revista Sextante. Este primeiro semestre de 2022 estava cercado de expectativas: com grande parte da população vacinada (agradecemos à ciência!), nossos encontros foram, finalmente, 100% presenciais, após dois anos de aulas remotas e híbridas.

A vida aos poucos volta ao normal – e repórteres puderam ir a campo realizar entrevistas face a face. Para o jornalismo, o encontro físico é essencial: é quando jornalistas podem interagir com profundidade e reparar em expressões faciais, olhares e silêncios.

Mas uma dúvida surgiu em nossa redação: como se referir aos mais velhos? Idosos? Cidadãos da terceira idade? Indivíduos na velhice? E agora, que o avanço da medicina proporcionou a chamada “quarta idade”? Os próprios alunos tiveram dúvidas. Há quem não aprecie ser chamado de idoso. Uma entrevistada, inclusive, não quis revelar a idade – informou à repórter que tinha “a idade da jornalista Glória Maria”.

Há um tabu na hora de falar sobre velhice, associado ao medo da morte. Todavia, a insegurança é, aos poucos, superada em um momento no qual idosos adquirem, mais do que em qualquer período da história, autonomia para trabalhar, praticar esportes, viajar, realizar procedimentos estéticos e, até mesmo, fazer shows de rock – atividades impensáveis, décadas atrás, para alguém na faixa etária.

O que é, de fato, um idoso? A Sextante recorreu à idade citada no Estatuto da Pessoa Idosa, criado em 2003 pelo governo federal e destinado “a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos”. Marco nos direitos humanos do país, o regramento define que o envelhecimento é um direito de todo cidadão brasileiro.

Instigamos você, leitor e leitora, a questionar algum idoso: você é velho? Uma resposta bastante comum você já deve ter ouvido ou mesmo falado: “Eu não, velhos são os outros”. Porque o tempo passa, o corpo muda, o mundo se transforma. Mas a mente às vezes parece a mesma da juventude. O tempo passa rápido. De repente 30, de repente 60…

A passagem do tempo, aliás, leva muitos a exclamar: “No meu tempo, era de outro jeito!”. Mas o perigo dessa frase é reforçar a ideia de que ficamos para trás. Porém, se estamos vivos, o tempo não seria nosso? O tempo é de todos, jovens ou velhos. Talvez a lição que mereça ser reforçada seja outra: é preciso aproveitar o hoje, independentemente da idade. Esta revista é um convite para você preencher o tempo da melhor forma possível. Boa leitura.

Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br

Marcel Hartmann
celhartmann@gmail.com