Sextante

Ilustração de uma igreja escura, com três janelas e luzes entrando por elas e uma pessoa se confessando ajoelhada entre os bancos

PAUTA DA REPORTAGEM

Perdoa-me, Senhor, porque pequei

Como a prática do sacramento da penitência na Igreja Católica influencia as relações sociais e qual seu impacto nos indivíduos e na sociedade atual? 

Como é a sensação de colocar em palavras um pecado guardado dentro de si? É através da linguagem que confessamos nossas falhas e as trazemos à luz. Com a fala, expressamos emoções, pensamentos e pedimos perdão pelas ações. Minha reportagem busca entender de que forma as práticas contemporâneas da confissão na Igreja Católica influenciam as dinâmicas sociais e psicológicas dos indivíduos. Explicarei a história deste sacramento: quando, onde, por que e como surgiu? Examinarei se a prática mudou ao longo do tempo ou permanece a mesma, e quais suas implicações culturais no contexto religioso. Para isso, conversarei com pessoas relacionadas à religião, como padre e algum fiel da Igreja Católica. Partindo para um viés mais psicológico, investigarei os motivos que levam alguém a confessar e quais sensações surgem durante a prática: alívio? vergonha? medo? A partir disso, pretendo falar com alguém da Psicologia Social para entender como essas implicações atuam no sujeito. 

Também explorarei questões como poder, controle, resistência dentro da Igreja Católica, e suas evoluções ao passar dos anos. Conversarei com um pesquisador do Núcleo de Estudos de Religião (NER), da pós-graduação de Antropologia da UFRGS, para entender melhor os entrelaçamentos sociais da prática religiosa. Por fim, buscarei alguém que se confessava e não frequenta mais a Igreja. O que ela tem a dizer hoje sobre o que se submetia? A intenção é abordar como a confissão impacta não apenas a vida espiritual, mas também as subjetividades, relações sociais e dinâmicas culturais dentro e fora da Igreja Católica. 

No contexto religioso, a confissão é um sacramento praticado em várias tradições religiosas, incluindo a Igreja Católica, Ortodoxa e algumas protestantes. Na Católica, ela é conhecida como Sacramento da Penitência ou Reconciliação. Este sacramento envolve um penitente (a pessoa que confessa) falando seus pecados e arrependimentos para um padre. A intenção é buscar perdão pelos atos. Resolvi focar a reportagem na Igreja Católica, pois, de acordo com o Censo 2010 do IBGE, cerca de 64% dos brasileiros se identificaram como católicos. Apesar das pesquisas indicarem uma diminuição nessa porcentagem ao longo das décadas, os católicos ainda são a maioria no país. Em 2000, eles representavam 74% da população brasileira. Em 1991, o número era de aproximadamente 83%. Quero contar a história e evolução da confissão ao longo dos séculos. Também pretendo explorar a prática da penitência como uma instituição de controle social, pois, através dela, a Igreja estabelece normas morais e mantém uma coesão no comportamento. Além de seu significado religioso, a confissão tem implicações sociais e psicológicas. Ela representa uma oportunidade de alívio emocional, enquanto para outros, pode criar uma sensação de culpa e responsabilidade moral e social.

Ideia de fontes:

  • Padre;
  • Católico;
  • Professor de Psicologia Social na UFRGS;
  • Professor de Antropologia e membro do NER, da UFRGS;
  • Ex-católico que se confessava.

Perguntas

Padre:

  • Qual é o significado espiritual e simbólico da confissão para os católicos?
  • Como é feita a avaliação da penitência para os pecados?
  • Quais são algumas das motivações pras pessoas procurarem o sacramento da penitência?
  • Como a prática da confissão mudou ao longo dos anos? Existem diferenças entre a confissão hoje e no passado?

Católico:

  • Como tu descreverias a experiência de participar do sacramento da penitência?
  • O que te motivou a buscar a confissão?
  • Quais emoções tu sentes antes, durante e depois da confissão?
  • Como a prática da confissão influencia sua fé?
  • Sente que a confissão fortalece sua relação com Deus?

Psicólogo social:

  • Quais são as emoções que as pessoas experimentam ao se envolverem no sacramento da penitência?
  • Como a confissão está relacionada com os conflitos internos e sentimentos de culpa? 
  • Existem mecanismos de defesa psicológica envolvidos na prática da confissão? 

Antropólogo:

  • Qual é o papel da confissão na construção da identidade cultural e religiosa?
  • Como a prática da confissão se relaciona com as estruturas de poder dentro da comunidade religiosa e na sociedade em geral?
  • Existem dinâmicas de poder específicas durante o processo de confissão?
  • A confissão pode impactar as relações familiares ou sociais?
  • Quais são os desafios enfrentados pela Igreja Católica ao manter a prática da confissão em um mundo digital e secularizado?

Ex-católico: 

  • Por que tu não te confessas mais? O que influenciou a decisão?
  • Como tu te sentias antes, durante e após a confissão?
  • Existe algum sentimento associado à decisão de não se confessar mais?
  • Como essa decisão afetou seus relacionamentos com amigos, familiares ou membros da igreja? Quais foram as reações?
  • Como tu lidas com sentimentos de culpa agora que não participas mais da confissão? Existem outras formas de buscar perdão?
  • Como tu vê a prática da confissão na Igreja Católica? Existem aspectos que tu valorizas ou criticas?

Da pauta à reportagem 

Na verdade, minha pauta inicial não era essa. A ideia surgiu enquanto eu lavava as mãos no banheiro da faculdade, durante o horário de aula. Era o dia de definir o tema da revista e apresentar sugestões de pauta. O pensamento me ocorreu: explorar o “não dito”. Pensei em buscar histórias de pessoas com algo a dizer a alguém, como um amigo importante que se afastou ou um familiar falecido. Que revelações essas histórias poderiam trazer?

Contudo, como o tempo é curto e o trabalho é muito, decidi mudar a pauta por questões logísticas. Pensando ainda sobre o “não dito”, percebi que a ideia estava fundamentada em um aspecto confessional. A partir disso, cogitei abordar a confissão em três áreas: religião, psicanálise e cotidiano. No entanto, ainda não conseguia visualizar uma pauta bem estruturada. Durante a reunião, as professoras esclareceram minha visão, e decidi focar apenas na Igreja Católica.

A entrega da primeira versão da reportagem estava marcada para 14 de novembro. Ao todo, entrei em contato com 10 fontes. Muitas demoraram a responder, e o tempo era curto. Algumas nem responderam. A primeira entrevista foi com o catequista, em Canoas, no dia 31 de outubro. Em 8 de novembro, conversei com a ex-católica. No dia seguinte, foi a vez do padre.

Com apenas quatro dias para encontrar um especialista que pudesse contrapor a visão religiosa sobre a confissão, meus colegas e eu imploramos por um adiamento do prazo, e as professoras nos ouviram. Com dois dias a mais, consegui marcar as entrevistas restantes e concluir a matéria. Conversei com o professor em 14 de novembro e com o psicólogo no dia seguinte, no feriado da Proclamação da República. Finalizei a reportagem às 3h30 da manhã do dia da entrega. 

“Amo o jornalismo por proporcionar as fontes necessárias sempre nos momentos finais. É sempre emocionante (e ansiógeno)”, escrevi em uma conversa com a professora Thais Furtado. Para mim, essa mensagem resume bem a minha experiência com a Sextante.