Sextante

Em busca da liberdade

Arte: Sharisy Pezzi

Existe uma segunda chance após a prisão? Quem cumpriu sua pena foi perdoado de seus crimes no quesito penal e judicial. Mas será que a sociedade está pronta para perdoar?

Após cumprir suas penas, egressos precisam recomeçar a vida e lidar com o preconceito da sociedade quanto à sua ficha criminal. Ao se candidatarem às vagas de emprego, se deparam com hostilidade e desconfiança, pois muitos empregadores se sentem receosos com o histórico. A ressocialização de egressos, quando ocorre, é feita de forma demorada. Ainda há muitos estigmas sociais entre a população que não foi privada de liberdade, que não está preparada para recebê-los. 

Enfoque: Entender os desafios de voltar ao convívio em sociedade, após um período de reclusão, questionar se é possível obter uma segunda chance após ser punido pelos erros cometidos. Observar as diferenças da vida antes e depois do cárcere, como, também, as diferenças acometidas pelos recortes econômicos, raciais e de gênero.

Contexto: O Brasil é um dos países que mais encarcera pessoas no mundo. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 57% da população brasileira em 2015 concordava com a frase “bandido bom é bandido morto”. De acordo com a pesquisa realizada pelo International Center for Criminal Studies (ICCS), a média de encarceramento no mundo é de 144 egressos a cada 100 mil habitantes. No Brasil, essa média sobe para 300. 

Nesse cenário, a ressocialização não é prioridade do sistema penal. Mesmo que as ações educativas e produtivas estejam previstas na Lei de Execução Penal, o número de pessoas em privação de liberdade assistidas é pequeno: em 2019 apenas 18,9% trabalhavam e 12,6% estudavam no Brasil. No Rio Grande do Sul, o cenário contraria as estatísticas. O número de egressos que exercem algum tipo de atividade laboral é de 30%, cerca de 58% mais alto.  Já a porcentagem de privados de liberdade que buscam retomar os estudos é de 4,8%, em torno de 61% abaixo da média nacional.

Contudo, existem casos como o do Rodrigo “Sabiah” dos Santos Ramos, que superou o estigma de ser um egresso. Ao sair da prisão, trabalhou como reciclador de resíduos e abriu o próprio galpão de reciclagem, onde era responsável pela administração e gerenciamento do negócio. Aos 35 anos, leva sua trajetória às penitenciárias, escolas e organizações sociais por meio do projeto “Reciclando Vidas”.

Fontes:

  • Rodrigo Sabiah: Egresso, palestrante, empreendedor, criou o projeto “Reciclando Vidas”, que busca educar, qualificar e oportunizar empregos para jovens e egressos. Pode falar sobre como foi o processo dessa vida após retomar sua liberdade, e sobre seu projeto pedagógico e de ressocialização. 
  • Susepe: Fonte oficial para dar um parâmetro geral sobre o processo de ressocialização realizado durante o período de aprisionamento. Em especial os integrantes do projeto “Escritório Social”, que buscam instruir os presos e ex-presos em como retornar  à sociedade. 
  • Sandra Eunice Fonseca:  Assistente social que trabalha diretamente com egressos. Pode trazer uma perspectiva sobre os caminhos que podem ser percorridos para inserir essas pessoas na sociedade.  
  • Renato Dornelles: Jornalista, escritor e diretor, produziu o documentário “Olha Pra Elas”, que retrata a realidade de mulheres privadas de liberdade.
  • Outros egressos: Para compartilharem outras perspectivas e desafios no processo de retornar à sociedade. 

Sugestão de perguntas:

  • Existe uma segunda chance após a prisão?
  • Quais são os desafios enfrentados após reconquistar a liberdade?
  • Existe algum programa durante, ou depois do aprisionamento, que busca qualificar, encontrar empregos para esses indivíduos?
  • Os presos possuem algum amparo do estado? De suas famílias? 
  • Existem dados que medem essa ressocialização? 
  • Quais as diferenças do antes e depois da prisão?
  • Existem diferenças entre os presos por conta de sua classe social? Raça? Gênero? Gravidade do crime?

Fotos:

  • Foto do Rodrigo Sabiah durante uma de suas palestras. 
  • Foto de um egresso segurando seu currículo. 
  • Foto de uma reunião com o pessoal do Escritório Social e algum egresso.
  • Foto de um assistente social conversando com um egresso. 
  • Foto de um feirão de empregos. 

Recursos multimídia:

  • Infográficos: superlotação de prisões, perfil da população prisional (tipos de crime, etnia, idade, gênero e escolaridade), número de egressos que exercem atividades laborais e que retornam à cadeia. 
  • Vídeos: conversando com egressos sobre os desafios de retornar à sociedade, o que realizaram para conseguir se restabilizar. 
  • Caso não seja possível realizar gravações com egressos, um vídeo explicando os dados de ressocialização e perfil carcerário.
  • Recurso “ouça esta reportagem”.

Redes sociais:

  • Instagram/Facebook: Carrossel – Ressocialização: você sabe o que é isso?
  • Instagram/Facebook: Card – Segunda chance é um direito de todos
  • Instagram/Facebook: Reels –  Conversando com ex-detentos sobre os desafios de retornar à sociedade. 
  • Instagram/Facebook: Reels – Indicação de séries e filmes que retratam a realidade dentro e fora da prisão.
  • Twitter: Thread – Para que penalizar ainda mais quem já pagou por seus crimes? Conheça histórias de segunda chance após a prisão.
  • Twitter: Thread – Sabia que existem várias formas de ressocializar pessoas que estão cumprindo pena? Segue o fio com alguns exemplos.

Da pauta à reportagem

No momento em que foi anunciado que as reportagens da Revista Sextante deste semestre seriam realizadas em duplas, a turma sugeriu que o tema também fizesse alusão a este acontecimento inédito. Dentre uma série de possíveis pautas, pensamos em “segundas chances”. No início, cogitamos a ideia de segundas chances no caso de sobreviventes de acontecimentos trágicos, ou até no sentido romântico, de um casal que se separou e resolveu reatar a relação. Contudo, devido ao nosso interesse mútuo na área dos direitos humanos, em conjunto com a curiosidade sobre a realidade de algo que, como sociedade, tendemos a esquecer, optamos por abordar o sistema penal.

Desde o início, nosso objetivo era não apenas mostrar a realidade dentro e fora da prisão por meio de estatísticas, mas também contar histórias de quem viveu isso na pele. O nome de Rodrigo Sabiah foi o primeiro que cogitamos, por conta de sua luta política pelos direitos dos egressos. Nossa ideia era trazer mais fontes, porém, percebemos ser raro uma pessoa querer compartilhar este tipo de vivência com o mundo. Inclusive, chegamos a receber indicações de egressos, no entanto, eles não aceitaram dar entrevista por receio da exposição. Portanto, demos destaque para a história de Rodrigo.

O jornalista e cineasta Renato Dornelles foi cogitado pelo seu trabalho no jornalismo político e pela contribuição audiovisual sobre o tema. Suas histórias nos deram base para construirmos o bloco “Reflexos do abandono”, onde discutimos como as desigualdades sociais da nossa sociedade reverberam no antes, durante e depois de uma passagem pelo sistema prisional. Além disso, foi possível realizar uma comparação entre a solidão da mulher egressa e do homem egresso nos quesitos abandono familiar, alienação parental e negligência estatal.

Contatamos a assistente social Sandra Fonseca, que nos disse que, embora quisesse participar, outras duas colegas de trabalho se encaixariam melhor em nossa temática: Nathana Kubiça e Luana Boeira, psicólogas do Escritório Social, equipamento projetado para atender, acolher e encaminhar a população egressa e seus familiares para as políticas públicas existentes. Neste momento, tivemos que mudar nossa ideia inicial de Sandra ser nossa fonte técnica, porém, ela estava certa: a entrevista com Nathana e Luana foi um sucesso e conseguimos todos os dados que precisávamos para embasar nossa reportagem.

A maior dificuldade que enfrentamos foi cumprir o que estabelecemos para fotos e conteúdos multimídia. Devido às cheias que assolaram o Rio Grande do Sul no mês de maio, a produção parou e tivemos que engavetar algumas ideias, como o vídeo de Rodrigo contando sua história e imagens de suas palestras, que também foram canceladas por conta da tragédia climática. Não conseguimos foto das psicólogas e da Susepe, por conta das políticas internas da instituição. Também havíamos planejado fotografar um feirão de empregos, mas as enchentes pararam todas as atividades da cidade.

Apesar de termos passado por alguns desafios ao longo do percurso necessário para a construção da reportagem, especialmente no período da enchente, que nos obrigou a pausar a produção dessa pauta por semanas, acreditamos que conseguimos alcançar o nosso objetivo: dar uma chance de contar histórias daqueles que nunca tiveram oportunidade.