Sextante

Ciclistas em uma cidade de carros

Como o uso de bicicletas auxilia no reconhecimento cultural de Porto Alegre e na ocupação dos espaços públicos?

Nesta reportagem, as bicicletas serão abordadas como um meio de transporte capaz de promover passeios pela cidade. A ideia não é tratar do ciclismo como um esporte a ser treinado, mas sim de como é possível pedalar e reconhecer Porto Alegre sobre duas rodas – o que permite que a pauta esteja dentro da Sextante 63, com o tema “número dois”.  

Aos domingos, quando um trecho da Avenida Edvaldo Pereira Paiva é fechado, vemos muitas pessoas praticando ciclismo de uma maneira quase turística, ou seja, como uma forma de passeio. Em outros espaços, como o Centro Histórico e Zona Sul de Porto Alegre, a prática também ocorre, passando por locais emblemáticos. Existem também iniciativas coletivas em datas comemorativas, como o aniversário da cidade, para andar de bicicleta turisticamente celebrando a capital gaúcha, como retratado na reportagem de GZH.

Algumas iniciativas promovem esse reconhecimento da cidade de maneira coletiva, com saídas regulares e programadas. Vamos entrevistar uma representante do coletivo Pedal das Gurias, coletivo que se reúne nas quartas-feiras às 20h no “Monumento das Cuias”, localizado na Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, e pedala por Porto Alegre, decidindo o trajeto na hora do passeio. O grupo é voltado para mulheres e pessoas não-binárias e também organiza saídas temáticas, como um ato em janeiro, homenageando a artista venezuelana assassinada enquanto viajava de bicicleta pelo Brasil, ou outro em 2020, contra a violência contra a mulher no contexto da pandemia. 

Em Porto Alegre, no entanto, as más condições das ciclovias – e a ausência delas – são um problema de mobilidade urbana. Segundo reportagem do Sul21, a cidade tem 86 quilômetros implantados e quatro em implantação, o que corresponde a 17% da meta estabelecida em 2009, quando o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) foi aprovado. Além disso, parte da faixa na Avenida Ipiranga segue interditada, por causa de desabamentos recentes e possibilidade de maior deterioração e risco aos ciclistas. Procuraremos ouvir um especialista para tratar dos problemas urbanísticos das ciclovias porto-alegrenses.

Além disso, as faixas destinadas para ciclistas são concentradas em partes centrais da cidade. Questionaremos um pesquisador em urbanismo sobre essa desigualdade do território da cidade – que é observada não somente na distribuição das ciclovias, mas também de espaços culturais, por exemplo. A ideia, neste ponto, é entender como a centralização contribui para que a ocupação de espaços públicos e reconhecimento da cidade aconteça de forma elitizada e localizada.

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Fontes:

  • Case 1: Luis Felipe (proprietário da Ogro Bicicletas, na BC, já viajou vários países para pedalar, tem grupo em POA). Instagram: @luisfelipeogro.
  • Case 2: alguém que ande de bicicleta ocasionalmente em Porto Alegre, fazendo essa espécie de “turismo” pela cidade;
  • Especialista: pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano (Propur) e Regional da UFRGS para falar das ciclovias em Porto Alegre e da relação entre o uso de bicicletas, a mobilidade urbana e o turismo;
  • Representante do Pedal das Gurias, coletivo que se reúne nas quartas-feiras às 20h no “monumento das cuias” e pedala por Porto Alegre, decidindo o trajeto na hora do passeio. Instagram: @pedaldasgurias.

Sugestões de pergunta:

Cases:

  • O que a bicicleta representa pra ti? 
  • Desde quando tu pedalas?
  • Hoje a bicicleta é um meio de transporte inserido na tua rotina?
  • Tu dirias que a bicicleta é um meio teu de estar inserido na cidade?
  • Hoje em dia, quais as dificuldades de quem é ativo no pedal?
  • Como tu enxergas a situação das ciclovias em Porto Alegre hoje?
  • Já motivou alguém a começar a pedalar também?
  • Participas de algum movimento/grupo de pedal atualmente? Se sim, o que isso diferencia a experiência de pedalar?
  • Qual o teu trajeto preferido em POA hoje?

Pesquisador:

  • O quanto o uso das bicicletas impacta hoje no planejamento urbano? E qual seria o ideal?
  • Qual a importância da ciclovia na mobilização para o maior uso da bicicleta?
  • Qual a maior problemática das ciclovias de Porto Alegre hoje?
  • Como podemos relacionar a prática do pedal com o reconhecimento do espaço da cidade?
  • Qual é o maior benefício do uso desse meio de transporte para a cidade em si? 
  • A presença de ciclovias próximas e em locais emblemáticos e de grande movimentação, como o Parque Farroupilha ou o Parque Marinha, contribuem para a maior aderência da prática?
  • A que podemos relacionar o aumento de praticantes da modalidade nos últimos anos? 

Pedal das Gurias:

  • De onde surgiu a ideia do projeto?
  • Qual a motivação maior para a criação do projeto?
  • Atualmente, quantas pessoas fazem parte da organização do Pedal? E das saídas, sabem dizer?
  • De onde veio essa “delimitação” dos grupos participantes?
  • Sabemos que vocês escolhem o trajeto na hora, mas existe algum critério para optar por um e não por outro? 
  • Hoje em dia, o quanto as ciclovias colaboram com o acontecimento das saídas em grupo?
  • Como rola a organização de eventos maiores como as saídas temáticas?
  • Como o grupo busca relacionar o pedal com pautas sociais?

Possíveis fotos:

  • Bicicleta em lugares emblemáticos de Porto Alegre. Gasômetro, Praça da Matriz, Casa de Cultura Mario Quintana, Praça da Alfândega, Orla do Guaíba, Beira-Rio, Redenção, Parque Moinhos de Vento, Parque Germânia, Fundação Iberê Camargo e Mercado Público são algumas possibilidades;
    • Seria muito legal uma foto contra a luz no pôr do sol, mostrando a bicicleta e uma silhueta marcante, como Gasômetro ou Iberê.
  • Fotos das ciclovias;
  • Closes em detalhes característicos: capacete, rodas, pés nos pedais.

Propostas multimídia:

  • Disponibilizar um possível mapa sinalizando as ciclovias de Porto Alegre;
    • Exemplo: fizemos um mapa no Google MyMaps para Ciberjornalismo III que pode ser incorporado à matéria, dependendo do suporte do site, e fica interativo diretamente na página, ou da pra hiperlinkar, caso o site não suporte. Link aqui
  • Colocar uma GoPro (ou outra câmera que conseguirmos) em um ciclista e gravar passagens por pontos emblemáticos da cidade; 
  • Gravação de podcast com o especialista entrevistado.

Redes sociais:

  • Fazer uma edição mais dinâmica, estilo “TikTok”, do vídeo gravado com a GoPro passando pelos pontos emblemáticos de Porto Alegre; 
  • Post com o mapa das ciclovias de Porto Alegre sinalizando pontos interessantes em todas elas, aqui pode ser feito um carrossel com um card para cada ciclovia;
  • Um post de dicas pra quem quer começar a pedalar e divulgação de grupo de pedalada para quem tem medo de fazer esses trajetos sem companhia ou quer conhecer a cidade;
  • Um roteiro de lugares indispensáveis de Porto Alegre para se conhecer pedalando; 
  • No twitter, podemos fazer uma thread com dicas de filmes e séries sobre andar de bicicleta e, no Instagram, um carrossel;
  • Post com uma playlist de músicas e ou podcasts para ouvir enquanto pedala pela cidade.

Da pauta à reportagem

Quando a turma decidiu que o tema da revista ia ser “dois”, aparentava ser fácil determinar uma pauta dentro de um assunto que parecia tão abrangente. Na prática, foi difícil pensar em uma proposta de reportagem que estivesse dentro do tema sem “forçar a barra” – ou seja, que apenas tangenciasse o assunto, mas ficasse distante das matérias dos colegas. Em discussão com a turma, surgiram vários tópicos relacionados. Anotamos o “duas rodas” e logo pensamos em bicicletas. Afinal, elas fazem parte do cotidiano tanto da Laura quanto da Maria Clara. Mesmo que existam outros veículos que se encaixam nessa categoria, a ideia desde o início foi tratar dos ciclistas.

A pauta que apresentamos no começo do semestre focava no pedal como uma maneira de reconhecer a cidade e de ocupar espaços públicos. No entanto, em conversa com as professoras, entendemos que, além das duas rodas, a nossa temática tem outra dualidade: a desigualdade de condições para andar de bicicleta dentro de um mesmo município. Além das ciclovias e outras estruturas não serem as ideais na capital gaúcha, ficam concentradas em bairros de classe média ou alta, dificultando o acesso de grande parte da população a esse transporte. Chamamos isso de duas “Porto Alegres”. 

Dessa forma, mudamos o enfoque para tratar diretamente das condições para andar de bicicleta na cidade e como isso impacta a mobilidade urbana. O aspecto do pertencimento foi mantido – até porque, como os entrevistados abordaram, ele se relaciona diretamente com este tópico central da reportagem. A maioria das fontes se manteve igual, mas precisamos trocar o perfil do nosso segundo case para se adequar ao tema: ao invés de alguém que pedalasse de maneira turística, buscamos uma pessoa que utiliza a bicicleta como transporte em locais diferentes dos bairros centrais.

Conseguimos contatar as fontes, realizamos entrevistas produtivas e a escrita fluiu bem. Em relação aos conteúdos multimídia, resolvemos gravar o podcast com o Pedal das Gurias, ao invés do pesquisador, como era a ideia inicial. Fizemos isso pois entrevistamos duas integrantes e, com esse formato, conseguiríamos aprofundar melhor a fala delas – o que realmente se concretizou. 

A reportagem estava pronta no final de abril, quando a enchente começou em Porto Alegre. Não tínhamos a dimensão do que seria a catástrofe climática. Ficamos afastadas da universidade e em dúvida do que seria da Sextante a partir daquele momento. No retorno, a turma decidiu manter as mesmas matérias no online e realizar a versão impressa com o tema da enchente. Ainda assim, a nossa reportagem permanecia mais atual do que nunca, mesmo dois meses depois de ter sido produzida. 

A enchente ressaltou diversos problemas de Porto Alegre, incluindo os relacionados à mobilidade urbana. A ciclovia da Avenida Ipiranga, que já havíamos usado de exemplo de problemas de infraestrutura na primeira versão escrita, ficou ainda mais comprometida. Houve desmoronamentos de diversos pontos e interrupção do uso por meses. Para atualizar o cenário, resolvemos conversar novamente com o pesquisador. Segundo ele, a situação é ainda pior do que antes da catástrofe. Com isso mudamos o início da reportagem, trazendo a fala dele que remete ao momento histórico, mas mantendo a construção que tínhamos formulado desde o início da escrita. Na prática, nossa matéria não mudou depois da enchente, apenas trouxemos o cenário atual, agravado pela catástrofe climática.