Sextante

PAUTA DA REPORTAGEM

A dor da perda

O medo de esquecer as pessoas que morreram

Como as pessoas lidam com o medo de esquecer aqueles que já morreram? 

O objetivo dessa reportagem é abordar o medo do esquecimento que acompanha as pessoas após a perda de um ente querido. Nesse sentido, destaca-se o medo de esquecer a voz, a risada, o rosto, o jeito, entre outras características e recordações de indivíduos que já faleceram. A partir dessa temática, também serão abordados tópicos como o luto e suas etapas e as lembranças que mantêm os mortos no mundo dos vivos.

Por meio de entrevistas com pessoas que passam (ou passaram) por essa situação, procura-se entender de que forma o medo de esquecer afeta o cotidiano delas e o que é feito para manter presentes as memórias daqueles que partiram. Especialistas serão entrevistados para explicar, a partir de um ponto de vista científico, de onde surge esse medo e outros aspectos relacionados a esse assunto.

Sobre o assunto 

O processo do luto é composto de um conjunto de reações que não necessariamente ocorrem em ordem e pode se manifestar de diferentes maneiras para cada indivíduo. Durante esse período, é comum que surjam inseguranças e medos. Pessoas que experienciam a perda de alguém próximo relatam frequentemente que um dos maiores medos é esquecer lembranças e detalhes de quem partiu.

Então, em oposição ao comportamento de evitar lembranças ligadas à pessoa que faleceu, está o receio de esquecer essas memórias. O luto saudável implica em encontrar formas de se lembrar da pessoa e de se adaptar à vida sem ela. Essa fase envolve revisitar experiências e processar a variedade de emoções, positivas e negativas, acompanhadas da perda.

A passagem do tempo é inevitável, e o esquecimento de certas vivências acontece de maneira natural. Porém, quando alguém próximo morre, pode surgir o medo de esquecer muito cedo essas lembranças, que são aquilo que, de certa forma, fazem com que os que partiram se mantenham presentes no mundo dos vivos.

Referências
Possíveis fontes
  • Maria Júlia Kovács, psicóloga e membro-fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte, da Universidade de São Paulo;
  • Pesquisador(a) do Instituto de Psicologia da UFRGS;
  • Pais e mães que fazem parte da Associação das Famílias de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria;
  • Filhos que perderam os pais.
Sugestões de perguntas

Especialista

  • Como funciona o processo do luto e quais são suas etapas?
  • Ao que está relacionado o medo de esquecer aqueles que já morreram? 
  • Por que as pessoas em luto tendem a sentir esse medo?
  • De que forma as lembranças ajudam no processo do luto? 
  • Por que algumas pessoas, para amenizar a dor da ausência, preferem esquecer as lembranças e outras preferem mantê-las?
  • Como lembrar sem ficar preso ao passado?
  • Existe um limite que estabeleça até que ponto é saudável reviver as lembranças?
  • Por que algumas pessoas mantêm o quarto de quem morreu, por exemplo, intacto? 

Pessoa que perdeu alguém próximo

  • A partir de qual momento surgiu o medo de esquecer as características da pessoa?
  • Como esse medo afeta o cotidiano?
  • De que forma é possível manter vivas as lembranças da pessoa que partiu? Quais recursos são utilizados? 
  • Como as lembranças ajudam a integrar a perda?
Fotos

Fotografias das fontes que irão falar sobre suas experiências, se for possível realizar a entrevista presencialmente, e fotos de arquivo pessoal.

Ilustração

Seria interessante ter elementos relacionados à ausência de uma pessoa, mas de uma forma que ainda transmita afeto, que tenha relação ao medo de esquecer as lembranças dela etc.

Possível inspiração.

Sugestões multimídia

Áudios com trechos das entrevistas e um vídeo com um depoimento de alguma fonte. 

Redes sociais

Post com informações sobre o assunto da pauta, de forma simples e que possa gerar engajamento.  


Da pauta à reportagem

Inicialmente, quando eu escrevi a pauta, imaginava que o medo de esquecer as pessoas que morreram fosse algo muito mais forte e que durasse por mais tempo. Ao conversar com mães, a Tatiana e a Gláucia, que vivenciaram a perda das filhas, foi possível perceber que, na verdade, esse medo não permanece por toda a vida, porque ocorre a compreensão de que os vínculos rompidos são os presenciais, e não os afetivos. Ou seja, outro tipo de relação é estabelecida com os mortos quando ocorre a integração da perda no cotidiano. 

Por meio de pesquisas e da entrevista com a professora Maria Júlia, pude entender melhor a complexidade que permeia o processo do luto — algo comum a todos que perdem alguém, mas, mesmo assim, tão singular. Algumas nomenclaturas novas para mim também foram adicionadas ao texto. Por mais que vejamos com frequência o uso da palavra “superação” em materiais sobre a temática, ela não é utilizada por pessoas que trabalham com o luto. Uma perda nunca é superada, ela é integrada à vida daquele que lida com a ausência.

Um dos meus receios com essa pauta era não encontrar pessoas dispostas a falar sobre a morte de alguém próximo por ser um assunto mais delicado. Apesar de não ter tido retorno de algumas fontes previstas, consegui entrevistar essas duas mães que compartilharam as suas histórias. Como ambas possuem associações de apoio a pessoas enlutadas, o contato foi mais fácil e rápido. De modo geral, embora algumas mudanças tenham sido feitas, a reportagem foi desenvolvida de acordo com o que havia sido pensado na pauta.