“O medo de esquecer características da minha filha foi praticamente instantâneo. Quando eu cheguei em casa, eu busquei imprimir fotos dela, porque eu não conseguia dormir sem olhar para ela”, conta Tatiana Maffini, de 41 anos, sobre o momento após o sepultamento da sua filha Helena, que faleceu com 17 dias de vida, em 2012. A dor da perda para aqueles que ficam é complexa, e a angústia de perder lembranças de quem partiu é algo recorrente nesse processo.
A morte é inerente à condição humana, mas se habituar à ausência de alguém pode não ser fácil. Ao longo da vida, as pessoas estabelecem relações fortes entre si, como aquelas com pais, filhos, avós, netos, irmãos, amigos, maridos e esposas. Quando esses vínculos presenciais são rompidos, emoções profundas são evocadas pela perda, e é um momento em que o luto precisa ser elaborado.
Segundo um estudo encomendado em 2018 pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) e realizado pelo Studio Ideias, 82,4% dos brasileiros acham que não tem nada mais sofrido do que a dor da perda de alguém. A pesquisa, que mapeia a percepção da população acerca de assuntos relacionados à morte, também apresenta que os sentimentos mais associados a esse tema são a tristeza (63%), a dor (55%), a saudade (55%), o sofrimento (51%) e o medo (44%).
Falar sobre a morte e os sentimentos que permeiam uma perda significativa ainda é um tabu. A passagem do tempo é inevitável, e o esquecimento de certas vivências acontece de maneira natural. Encontrar formas de manter vínculos com quem morreu é um caminho percorrido pelas pessoas que experienciam esse processo.
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Elaboração da perda

O processo do luto é composto de um conjunto de reações diante de uma perda e pode se manifestar de diferentes maneiras para cada indivíduo. Embora aconteça com todas as pessoas, como esse processo é singular, o tempo é variável e, em alguns casos, pode durar anos. Há situações em que ele nunca termina, mesmo com o passar do tempo.
Para possibilitar a compreensão desse processo, ele pode ser dividido, de maneira simplificada, em quatro fases. A primeira é o choque, que tem duração de algumas horas ou semanas e pode vir acompanhada de manifestações de desespero ou de raiva. Depois vem o desejo e a busca da figura perdida, que pode durar meses ou anos, e é quando dois processos contraditórios coexistem: a realidade da perda e a esperança de um reencontro. A desorganização e o desespero são sentimentos presentes na terceira fase, que é quando a raiva persiste, impedindo a aceitação da morte. Finalmente, a quarta fase é a de organização, em que ocorre a aceitação da perda definitiva e a constatação de que uma nova vida precisa ser começada.
A professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e membro-fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) Maria Júlia Kovács explica que as pessoas têm formas muito peculiares de lidar com as situações de perdas. “Elas vão escolher maneiras de enfrentamento que vão ajudá-las a viver o processo do luto. Então, para algumas pessoas, é importante ficar lembrando, recordando, ter memórias. E, para outras, esse processo pode perturbar”, diz Maria Júlia.
“Os vínculos que se rompem são os vínculos presenciais, mas a gente mantém os vínculos na nossa memória e na nossa lembrança”
MARIA JÚLIA KOVÁCS, membro-fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM)
A professora esclarece que, quando se tem uma relação significativa com alguém, dificilmente as pessoas esquecem aqueles que morreram. Os indivíduos que partiram se mantêm presentes de alguma forma, às vezes mais ou às vezes menos. Apesar de existir o medo do esquecimento, é pouco provável que ele aconteça.
Após a perda de uma pessoa próxima, as recordações assumem um papel significativo na manutenção das relações. “As lembranças ajudam no sentido de a gente poder ter a pessoa sempre presente no nosso coração, na nossa imaginação. E isso é muito importante, porque os vínculos que se rompem são os vínculos presenciais, mas a gente mantém os vínculos na nossa memória e na nossa lembrança”, destaca Maria Júlia.
Integração da ausência na vida cotidiana
A alegria da chegada tão desejada da filha foi interrompida de maneira brusca. Tatiana perdeu Helena à espera de um leito de UTI neonatal, por conta de um problema cardíaco diagnosticado no período pós-parto. A convivência durou pouco tempo, mas os vínculos estabelecidos permanecem até hoje. Ela conta que, inicialmente, a angústia para tentar manter recordações da filha era muito maior.
“Eu guardei uma série de coisas da Helena, tipo hipoglós e itens assim, que eu não vou utilizar. Eu ainda tenho o talco que ela usou, o shampoo que eu usava nela, que me remete bastante ao cheiro dela, que é uma coisa que ativa muito a minha memória”, relata Tatiana. As fotos e os vídeos também ajudaram nesse processo, mas ela menciona que, às vezes, ao olhar para esses materiais, surge a dúvida do que é memória de fato dela e o que é memória criada a partir desses recursos.
Algumas lembranças, inevitavelmente, ficaram menos nítidas ao longo dos anos. “Quando eu olho para as fotos da Helena, eu já não lembro o toque da pele dela.” Como já faz dez anos da morte da filha, Tatiana diz que muita coisa foi reorganizada nesse período, e o medo do esquecimento foi uma delas. “Hoje, amadureceu muita coisa, eu já não tenho mais essa angústia. A conexão que eu tenho com ela é dentro de mim, não é uma coisa externa”, afirma.
“A gente não supera. A gente se adapta, integra aquilo na nossa vida e vive junto com isso. Essas lembranças me ajudam a pensar que ela esteve viva um dia e que a gente teve uma relação”
TATIANA MAFFINI, mãe da Helena

A dor foi transformada em ajuda direcionada a mães e pais que perderam seus filhos. A Amada Helena foi criada em 2013, em um primeiro momento com um trabalho voltado à luta por mais leitos de UTI neonatal. Devido à carência de projetos para falar sobre o luto parental no Rio Grande do Sul, a ONG passou a abordar essa temática e a promover encontros e acolhimentos aos pais enlutados.
Tatiana, que também tem outros dois filhos, destaca que as recordações da filha fazem com que ela se mantenha presente no cotidiano da família. “A gente não supera. A gente se adapta, integra aquilo na nossa vida e vive junto com isso. Essas lembranças me ajudam a pensar que ela esteve viva um dia e que a gente teve uma relação. E que eu sou mãe dela, principalmente isso. Independentemente de onde ela esteja ou do que aconteceu, ela veio a esse mundo através de mim e isso nada vai mudar”, diz.
Vínculo não é sobre presença física
Assim como Tatiana, a psicóloga mineira Gláucia Tavares, de 67 anos, também perdeu a filha. Em 1998, Camile faleceu em um acidente de carro, quando tinha 18 anos. O impacto da morte da filha gerou a necessidade de desenvolver um trabalho tanto pessoal quanto familiar.
“Lidar com a ausência do ente querido é algo que está muito presente. E, muitas vezes, um dos meus grandes medos era esse: eu vou esquecer o tom de voz, eu vou esquecer a fisionomia, eu vou esquecer as características físicas que nos mantêm aqui?”, relata Gláucia. Ela conta que há algo interessante nesse processo, porque, ao lado desse medo, as pessoas desenvolvem um outro idioma, um idioma da sensibilidade, não da matéria palpável, concreta, mas da relação amorosa.
“Hoje, esse temor foi e está sendo substituído por uma sensação, por uma vibração, por uma energia de conexão, que nos mantém ligadas, a mim, a minha filha, ao meu marido, a minha família”, diz Gláucia.

Compartilhar os sentimentos e as vivências experienciados diante da perda foi o jeito encontrado para integrar a dor da ausência. Há quase 24 anos, Gláucia e seu marido Eduardo Tavares, de 72 anos, inauguraram a Associação de Perdas Irreparáveis (API), grupo que presta apoio a pessoas enlutadas. No início, o trabalho era focado naqueles que haviam perdido filhos, mas, com o passar do tempo, foi transformado em uma rede de suporte àqueles que perderam algum ente querido.
“Nos vários enlutados com quem a gente trabalha, muitas vezes vem esse temor de esquecer e até uma situação de muito desconforto. À medida que o tempo vai passando, a gente vai entendendo que existe uma saudade que a gente fala que é tóxica, que é querer o que não tem mais, mas existe uma forma de conexão que a gente pode manter e que, mesmo passado tantos anos, ela não deixa de existir”, explica Gláucia. Nesse sentido, ela fala que o luto não é algo que se supera e que tem prazo de validade. A perda é do físico, mas os vínculos amorosos, afetivos e simbólicos se mantêm.
Ressignificação do passado no presente
A restauração da vida diante da ausência das pessoas que morreram faz parte do processo do luto. Encontrar modos de integrar a perda no cotidiano, descobrir novas possibilidades de vínculo e receber apoio são fatores importantes para aqueles que passam por uma perda significativa viverem a situação atual, no presente.
As experiências vividas no passado, no entanto, não devem ser ignoradas ou esquecidas. A professora aponta que existe uma tendência de as pessoas dizerem em alguns momentos que não se pode ficar pensando em quem foi perdido, mas, do ponto de vista da psicologia, isso não é algo indicado.
“O interessante é que o passado possa ser ressignificado na vida presente. Lembrar não quer dizer ficar preso ao passado. Lembrar quer dizer manter a memória e a lembrança dessa pessoa viva na nossa imaginação, mas isso não é o tempo todo, é em determinadas circunstâncias. Ter as lembranças do passado é muito importante, pois elas fazem parte da nossa história”, destaca Maria Júlia.
As lembranças são aquilo que, de certa forma, fazem com que as pessoas que partiram se mantenham presentes no mundo dos vivos. Afinal, as recordações são formas de presença, e, apesar do medo inicial de esquecê-las, elas permanecem em diferentes graus em cada um que já perdeu alguém.
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