Sextante

ilustração em preto e branco. Personagem possui cabelos compridos, está com o rosto pintado de branco e veste uma camiseta preta de mangas compridas. Ela realiza o simbolo de "ator" em Libras.

PAUTA DA REPORTAGEM

Mãos em cena

Como a Libras pode se fazer presente em artes performáticas? Como podemos pensar a arte a partir da Língua Brasileira de Sinais?

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como uma língua, utilizada pela maioria das pessoas surdas brasileiras para se comunicar. Ao contrário do que muitos pensam, ela não se baseia apenas nas mãos. Na verdade, as expressões faciais e os movimentos corporais também são essenciais para a comunicação, o que a torna uma língua espaço-visual.

Considerando a temática da 62º edição da Revista Sextante, a ideia da reportagem será explorar a Língua Brasileira de Sinais através de artes como teatro e cinema. Ou seja, diferentes artes como forma de pensar a língua. 

A reportagem, portanto, irá procurar contextualizar a formação de atores e como se dá a produção, a elaboração e a apresentação de uma peça/filme/performance em Libras. O objetivo é procurar discutir os potenciais cênicos da língua, considerando que na cultura surda a expressão corporal vai além de uma forma de comunicação, ela faz parte da construção gramatical. Dessa forma, a pesquisa irá trazer aspectos sobre a construção do texto e da cena, a adaptação do texto verbal em gestos e a contextualização das emoções, entrelinhas, figuras de linguagem presentes no universo falado.

A arte é uma forma de comunicação e expressão, sendo fundamental para a construção da identidade individual e coletiva. As diferentes manifestações artísticas também são instrumento de inclusão social, de formação cultural e social dos indivíduos. Entretanto, a falta de espaços e eventos culturais com acessibilidade, intérprete de Libras, boas iniciativas públicas e privadas, e a desinformação dificultam o acesso e a produção por parte dessa população. Além disso, ainda é pouco comum vermos esses corpos ocupando não só as plateias, mas os palcos, as telas, as assinaturas das obras.

O número de pessoas com algum nível de deficiência auditiva, no Brasil, passa dos 10,7 milhões, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A partir disso, outro ponto que a reportagem irá buscar entender é como está o acesso da população surda ao setor artístico, não apenas como consumidores, mas como produtores de arte. 

Informações importantes:

  • Em 24 de abril de 2002, a Lei 10.436, intitulada como Lei de Libras, reconheceu a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão no Brasil
  • A Libras é considerada uma língua, não uma linguagem, uma vez que é falado por um povo, possui sintaxe, semântica, alfabeto e estrutura linguística e gramatical própria. Assim, não é a Língua Portuguesa sinalizada
  • A Libras não é universal, é utilizada no Brasil e há diferenças regionais

Da pauta à reportagem

Assim que o tema da 62ª edição da revista Sextante foi definido como “Língua”, logo pensei em explorar a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Refletindo sobre as possibilidades, lembrei de uma entrevista que realizei com a professora Márcia Berselli, do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), líder do grupo de pesquisa Teatro Flexível, que investiga práticas de criação cênica com pessoas com e sem deficiência. Na ocasião, produzia uma reportagem para o portal Humanista, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e, durante o bate-papo, Márcia comentou sobre a existência do Grupo Signatores. A matéria jornalística em questão tinha uma abordagem um pouco mais ampla sobre acessibilidade nas artes e não consegui desenvolver um aprofundamento sobre a cultura surda.

A indicação ficou em minha mente. Com o início dos trabalhos da Sextante, decidi discutir a Libras através de artes como teatro e cinema, procurando contextualizar a formação de atores surdos e como se dá a produção, a elaboração e a apresentação de uma performance na língua. Ao longo da pesquisa, estendi a abrangência e decidi explorar como a Libras se insere na literatura surda e na arte drag queen.

A partir da primeira apuração, encontrei a existência de diferentes grupos com trabalhos e artistas que fomentam a cultura surda. Entre eles, conheci o professor Cláudio Mourão, do curso de Letras Libras/Português da UFRGS e o seu projeto Arte de Sinalizar. Fiz o primeiro contato e ele recomendou que eu participasse do sarau literário Arte de Sinalizar, ação pela qual é responsável. Cláudio queria que eu tivesse um panorama sobre a literatura surda antes da conversa, e, assim, segui sua sugestão.

Ao chegar no sarau me deparei com um contexto que eu nunca havia experienciado antes: eu era uma das únicas ouvintes no local e uma das poucas que não sabia me comunicar em Libras. Comecei a sentir uma certa angústia ao pensar como iria informar meu nome, pedir informações, conversar com o Cláudio, comprimentar os atores. O alívio surgiu quando uma intérprete observou a minha inquietação e foi até mim. Pedi para que ela me acompanhasse para que eu pudesse me apresentar para as pessoas. No entanto, nas performances, a proposta era que não houvesse intérpretes. 

Naquele momento, quem precisou da acessibilidade fui eu.  A experiência me tocou e pude ter empatia ao imaginar a sensação que pessoas surdas devem sentir em uma sociedade que parece não se importar com a Língua Brasileira de Sinais. A ocasião me sensibilizou para a importância da inclusão e da valorização de diferentes formas de comunicação.

A pauta em si se desenvolveu da forma como planejei, considerando a coleta de informações e a apuração. Pude conhecer o trabalho do Grupo Signatores, coordenado pela professora Adriana Somacal e com a participação dos atores Umberto da Rosa e Lucas Bourscheid. Também pude ampliar a temática ao abordar a literatura surda após conhecer o projeto Arte Sinalizar, conversando com o professor Cláudio Mourão e com a atriz Alessandra Rithieli, que participou do sarau. Conversei também com uma especialista em teatro surdo, Priscila Lourenzo. Além disso, para a reportagem digital, explorei a arte drag queen em Libras, ao conversar com Rita D’Libra, a primeira drag queen intérprete, em uma perspectiva de que a língua gestual não é só para pessoas surdas. 

A única dificuldade durante o desenvolvimento da matéria girou em torno da comunicação. Por eu não saber me comunicar na Língua Brasileira de Sinais e por priorizar conversar com atores surdos, precisei da presença de intérpretes de Libras para fazer as entrevistas. Tendo isso em vista, esta reportagem só foi possível de ser executada devido ao trabalho realizado por estes profissionais. Ângela Russo, tradutora e intérprete de Libras do Grupo Signatores e do Incluir (Núcleo de Inclusão e Acessibilidade da UFRGS), foi quem se fez presente na chamada de vídeo online com Lucas, Umberto e Adriana e na sessão de fotos na Sala Qorpo Santo. Janaína Viegas, tradutora e intérprete de Libras do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), me acompanhou na entrevista com Alessandra no Teatro de Arena. Já Maitê Maus e Celina Xavier, tradutoras e intérpretes de Libras do Instituto de Letras da UFRGS, estiveram comigo na conversa com o professor Cláudio.

Por fim, acredito que consegui abordar a importância da arte e da Libras para a população surda. Trocar ideias e conhecer essas pessoas e projetos foi enriquecedor, deixando-me convicta sobre o quanto é preciso estar atento à diversidade e à inclusão.