Sextante

No Brasil se fala brasileiro

Quando foi definido o tema “Língua” para a 62ª edição da Sextante, não tive dúvidas de que iria escolher uma pauta no campo das linguagens. As particularidades de cada idioma e a sua aplicação variada a depender da região em que é falado sempre me chamaram a atenção. E pensar mais especificamente sobre a língua portuguesa falada no Brasil, sempre foi algo atrativo para mim. Decidi abordar na reportagem, portanto, o português brasileiro.

Para ser sincero, a ideia inicial da pauta era apontar os estrangeirismos – palavras importadas de outras línguas – utilizados no Brasil. O plano era identificar os termos estrangeiros mais utilizados no país e avaliar os pontos positivos e negativos de suas importações para a cultura brasileira. A pauta original caiu logo na primeira entrevista, após o linguista Pedro Garcez indicar que os meus questionamentos iniciais estavam envoltos no senso comum. Talvez  esta seja uma das maiores belezas do jornalismo: iniciar a pauta com uma ideia, se deparar com outros pontos de vista e entregar uma reportagem diferente da que tinha sido imaginada inicialmente.

O senso comum a que Garcez se refere é em relação à noção de que as línguas têm em seu idioma uma “Bíblia” de formas que devemos respeitar para manter a língua “pura”, e a importação de termos, de certa forma, a poluiria.. A verdade é que essa  forma de pensar sobre as línguas é relativamente recente na história humana e não diz respeito à natureza mutável de como se fala a língua em cada nação. Assim, avaliamos que a importação de termos não  só é inevitável, mas benéfica para o desenvolvimento cultural de um país.

A partir dessa quebra de paradigmas, optei por direcionar a reportagem mais para as especificidades da língua portuguesa falada no Brasil. Não descartei por completo, entretanto, o debate sobre estrangeirismos. Mas seria difícil falar apenas sobre a importação de termos no país sem abordar propriamente a língua brasileira. Foi assim que surgiu a reportagem “No Brasil se fala brasileiro”.