Sextante

PAUTA DA REPORTAGEM

Um direito da infância

Nome: Raquel Sanches / Renata Marques Bencke

Tema

Oitiva de crianças no sistema de Justiça do Rio Grande do Sul

Pergunta da reportagem

Como funciona a escuta de crianças no sistema de justiça no Rio Grande do Sul? 

Explicação da pauta / enfoque

A reportagem abordará o funcionamento da escuta de crianças no sistema de justiça do Rio Grande do Sul, com foco no modelo de “depoimento especial”. O enfoque será investigar como esse modelo funciona na prática no Rio Grande do Sul, quais são seus limites e como ele impacta as crianças envolvidas nesses processos.

Contextualização

A forma como crianças são ouvidas no sistema de justiça passou por mudanças significativas nas últimas décadas. No Rio Grande do Sul, esse processo ganhou destaque com a criação do modelo conhecido como “depoimento sem dano”, desenvolvido em Porto Alegre pelo juiz José Antônio Daltoé Cezar.

A proposta surgiu como alternativa ao modelo tradicional, no qual crianças eram ouvidas diretamente em audiências, muitas vezes em ambientes considerados inadequados e potencialmente traumáticos. O novo formato buscou reduzir danos emocionais, utilizando espaços adaptados e a mediação de profissionais especializados, como psicólogos e assistentes sociais.

Com o tempo, a prática foi incorporada à legislação nacional por meio da Lei 13.431/2017, que estabelece diretrizes para a escuta de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.

Apesar de ser considerado um avanço institucional, o modelo levanta questionamentos. Mesmo em um ambiente protegido, a fala da criança pode assumir papel central como prova no processo judicial, o que gera tensões entre cuidado, verdade e responsabilização.

 A reportagem pretende investigar como esse modelo funciona na prática no Rio Grande do Sul, quais são seus limites e como ele impacta as crianças envolvidas.

Fontes

Representantes do Tribunal de Justiça do RS 

Juiz José Antônio Daltoé Cezar – Idealizador da escuta sem dano 

Juiz Charles Maciel Bittencourt – atua na Coordenadoria da Infância e Juventude

Psicólogos ou assistentes sociais que atuam com depoimento especial

Verônica Petersen Chaves – Psicóloga na Coordenadoria da Infância e Juventude

Dari Lorenzoni – Assistente Social 

Representantes do Conselho Regional de Psicologia do RS

Comissão de Direitos Humanos

Presidenta/e: ATHENA BITTENCOURT MARTINS CAMARGO 

Pesquisadores de universidades (áreas de infância, direitos humanos ou psicologia)

Catúla da Luz Pelisoli –pesquisadora da área – Lattes http://lattes.cnpq.br/2338722019855153

Débora Dalbosco Dell’Aglio – pesquisadora da área – Lattes http://lattes.cnpq.br/6343989319484265

Defensores públicos ou advogados 

Paula Simões Dutra de Oliveira – Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente

Possíveis fontes

Familiares que possam relatar casos e ou crianças que já passaram pelo depoimento especial (sem identificação em caso de vulnerabilidade).  – a definir 

Sugestões de perguntas

José Antônio Daltoé Cezar

O que motivou a criação do modelo de “depoimento sem dano”?

Quais problemas do modelo tradicional o senhor buscava resolver?

Ao longo dos anos, o senhor acredita que o modelo manteve seu propósito original?

Existe risco de a fala da criança ser utilizada de forma inadequada como prova?

Charles Maciel Bittencourt

Como funciona hoje, na prática, o depoimento especial no RS?

Quais são os principais cuidados adotados para evitar a revitimização?

Em que medida o depoimento da criança influencia a decisão judicial?

Quais são os principais desafios ainda enfrentados pelo sistema?

Verônica Petersen Chaves

Quais são os principais cuidados ao conduzir a escuta de uma criança?

Como garantir que a criança se sinta segura durante o depoimento?

Existem situações em que a escuta pode causar sofrimento mesmo sendo protegida?

Como você percebe o impacto desse processo nas crianças depois da escuta?

Dari Lorenzoni

Qual é o papel do assistente social no processo de depoimento especial?

Como o contexto familiar e social da criança influencia sua fala?

O sistema consegue dar suporte à criança depois do depoimento?

Quais são os principais limites que você observa na prática?

Athena Bittencourt Martins Camargo

Como o CRP avalia o uso do depoimento especial no sistema de justiça?

Quais são os principais cuidados éticos envolvidos na escuta de crianças?

Existe tensão entre a função de escuta e o uso da fala como prova?

O modelo atual garante, de fato, a proteção integral da criança?

Cátula da Luz Pelisoli

O que as pesquisas mostram sobre os efeitos do depoimento especial nas crianças?

O modelo brasileiro é eficaz na redução de danos?

Quais são os principais riscos ou limitações identificados pela literatura?

Débora Dalbosco Dell’Aglio

Como experiências de violência impactam a memória e o relato infantil?

Quais cuidados são essenciais ao ouvir uma criança em situação de vulnerabilidade?

Como equilibrar a necessidade de escuta com a proteção emocional da criança?

Paula Simões Dutra de Oliveira

Qual é o peso do depoimento da criança dentro do processo judicial?

O modelo atual garante o direito de defesa de todas as partes?

Há riscos de interpretação equivocada da fala da criança?

Como a Defensoria atua para proteger os direitos da criança nesses casos?

Cases 

Como foi a experiência de passar pelo depoimento especial?

Como você se sentiu durante o processo?

Houve acompanhamento psicológico depois?

O que você acha que poderia ter sido diferente

Sugestões de fotos

  • Sala de depoimento especial (ambiente adaptado, brinquedos, equipamentos)
  • Detalhes do espaço (câmeras, microfones, divisórias)
  • Profissionais em atividade (sem expor crianças)
  • Fachada de prédios do Judiciário envolvidos
  • Elementos simbólicos (brinquedos, cadeiras, objetos que remetam à infância)

Da pauta à reportagem

Após a escolha do tema “infâncias” para a Revista Sextante 67, nós começamos a pensar em possíveis pautas para tratar o assunto. Várias ideias surgiram. Começamos uma pré-apuração para fazermos a reportagem sobre crianças desaparecidas, porém essa pauta mostrou-se inviável. Então, voltamos a pensar em outras possibilidades. O processo de definição da pauta foi o mais difícil para nós, até que Renata teve um insight e propôs que fizéssemos sobre a forma como crianças são ouvidas dentro do sistema de justiça. O intuito da reportagem foi investigar como o modelo funciona na prática no Rio Grande do Sul, quais são seus limites e como ele impacta as crianças envolvidas nesses processos.

Finalmente, com a pauta definida, passamos a construí-la pensando em quais fontes seriam importantes para explicar como o sistema do Depoimento Especial funciona. Entramos em contato com profissionais do Judiciário, que trabalham na Coordenadoria da Infância e Juventude do Rio Grande do Sul (CIJRS), e com o desembargador Daltoé, um dos idealizadores desse tipo de escuta para crianças e adolescentes. Todas as fontes foram extremamente receptivas ao nosso contato.

Para a primeira entrevista, fomos até o Palácio da Justiça conversar com Verônica Petersen Chaves, psicóloga na CIJRS, que nos deu um panorama geral sobre o assunto. Também visitamos o Foro Central I de Porto Alegre para conhecer a estrutura das salas de acolhimento e depoimento especial, onde as crianças são recebidas. As demais entrevistas, por questões de agenda e localidade, foram realizadas de forma online.

A nossa principal fonte foi o desembargador Daltoé, que, no período de produção da reportagem, estava de férias fora do país, o que foi um obstáculo para uma entrevista mais qualificada. Porém, a fonte nos respondeu tudo prontamente via WhatsApp, conseguindo transmitir a sua experiência com a escuta de crianças.

Marleci Hoffmeister, assistente social da CIJRS, foi uma fonte fundamental para a coleta dos dados e para entendermos algumas dificuldades que a metodologia ainda enfrenta. Além disso, entramos em contato com Catúla da Luz Pelisoli, entrevistadora da comarca de Passo Fundo, que vivencia diariamente o processo de escuta de crianças e adolescentes, e com Natália Masiero Pereira, psicóloga clínica infantojuvenil, que já atendeu crianças que passaram pelo sistema de justiça.

Depois de reunirmos todas as informações necessárias, partimos para a escrita da reportagem. Nossa intenção é fazer com que o leitor se coloque no lugar de uma criança que passou por essa experiência, levando-o para esse cenário. No decorrer da reportagem, explicamos como o sistema funcionava antes e como está atualmente. A ideia é que o leitor compreenda a importância desse tema tão delicado sobre crianças e adolescentes que passam por situações pelas quais ninguém deveria passar, principalmente na infância. Acreditamos na importância desta pauta para dar luz a este debate, que tem pouca visibilidade.