Tag: Meroé

Amanishaketo (41–12 a.C.?)

Também referenciada como Amanishakto e Amanishakete. Governou Meroé durante ou logo após a transição do domínio ptolemaico para o romano no Egito. Assim, poderiam ter sido suas forças que atacaram a guarnição romana em Assuã no período de governo do imperador Augusto.

Como a cronologia meroítica é muito imprecisa e as inscrições ainda não foram completamente decifradas, ela ou Amenirenas poderia ter sido a candácia mencionada por Estrabão que firmou um tratado para definir a fronteira romana-núbia em Maharraka, e poderia ter sido ela a governanta núbia no fracassado contra-ataque meroítico em Qasr Ibrim.

É muito provável que o seu palácio real de 670 metros quadrados estivesse localizado em Naga, dispondo de alojamentos, sala com várias colunas, diversos corredores e tesouros. Também foram encontradas duas estelas em sua homenagem em Wadi Ben Naga. Amanishkheto demonstrou grande reverência às divindades egípcias Ísis e Amon.

Outro traço marcante da história dessa rainha é o seu túmulo, reencontrado em 1830-1834 pelo médico e caçador de tesouros Giuseppe Ferlini, que impressiona pela quantidade de jóias e ornamentos de ouro, objetos de vidro, prata ou pedras preciosas, e também por conter duas flautas talhadas em estilo helenístico. Este tesouro funerário, após ter sido apropriado e levado pelo italiano, que tentou vendê-lo na Europa, foi parcialmente comprado em 1844 por Ludwig I, rei da Bavária, passando a fazer parte de seu antiquário real e do Museu Egípcio em Berlim. 

BIBLIOGRAFIA

FANTUSATI, Eugenio. Amanishaketo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 196-197.

ONDERKA, Pavel. Preliminary report on the third excavation season of the archaeological expedition to Wad Ben Naga. Annals of the Náprstek Muzeum, v. 33, p. 117-134, 2012.

WILDUNG, Dietrich. The treasure of Amanishakheto. New York: Smithsonian Libraries African Art Index Project, 1997.

Amanitore (século I a.C – século I d.C.)

Rainha-mãe de Meroé, coroada com o nome de Merkare. Compartilhou o governo com o marido, Natakamani.

Devido a ausência de registros escritos sobre o seu governo, parte do que se sabe sobre ela provém de evidências arqueológicas, que a apresentam como guerreira – por exemplo, no pilar do Templo do Leão, em Naga. Ali ela aparece retratada como uma mulher volumosa, com anca proeminente, fustigando inimigos enquanto estes imploram pela vida.

Os altos-relevos de Naga mostram imagens em perfeita simetria de dois co-regentes, o que confirma o compartilhamento do poder entre Amanitore e seu marido Natakamani. Ambos aparecem em tamanho equivalente, ele associado ao sul e ela associada ao norte, assim como as divindades são divididas por sua identidade sexual de acordo com as posições norte/sul. Também do lado oeste do templo, cada um dos membros do casal aparece flanqueando uma representação incomum de Apedemak, o deus-leão, que contém mais duas cabeças laterais e quatro braços laterais, que podiam ser dirigidos indistintamente ao soberano e à soberana.  

Outro aspecto único de Amanitore é que ela sempre compartilhou com o rei o exercício das funções religiosas: isso pode ser deduzido a partir da observação do Templo de Amon (N.100) – construído em Naga pelo casal real. Neste templo, ela e Natakamani, vestidos em peles de pantera, aparecem realizando os ofícios sacerdotais e oferendas.

As escavações que começaram em 1995 dentro do templo N.300 levaram à descoberta de uma estela fragmentada na qual se pode ver os dedos de uma deusa, talvez Amesemi, noiva de Apedemak, que era provavelmente associada com a imagem da rainha meroítica. Na inscrição, é provável que a palavra “Amni” corresponda ao nome de Amanitore. Algo similar ocorre com a rainha Manishaketo, que aparece retratada em uma estela de arenito encontrada em um salão do Templo de Amonto abraçada com a deusa Amesemin – que usa uma coroa encimada por um falcão e uma lua, como evidência da divina benevolência da deusa à governanta.

Como em geral ocorria, Amanitore tem uma pirâmide no cemitério situado ao norte de Meroé. Os relevos nas paredes da capela representam uma procissão funerária de sacerdotes carregando várias insígnias e imagens daquela candácia.  No túmulo situado na parte inferior do edifício o seu corpo não foi encontrado, mas apenas restos humanos e ossos de animais.

BIBLIOGRAFIA

DUNHAM, D. The west and south cementeries at Meroe. Royal Cementeries of Kush. Boston: Museum of Fine Arts, 1963.

FANTUSATI, Eugenio. “Amanitore”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 197-198.

OLIVEIRA, Fernanda Chamarelli de. Senhoras da Núbia: as candaces na cultura material em Kush (África, I AEC – I EC). Dissertação (Mestrado em História), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

TORÖK, Lászlo. The kingdom of Kush. Handbook of the napatan-meroitic civilization. Londres: Brill,1997.

Amenirenas (século I a.C.)

Também referenciada como Ameniras e Amanerinas. Rainha-mãe de Meroé, detentora do título de Candácia. Seu nome pode constituir uma alusão à divindade suprema egípcia Amon Ra. Informações sobre ela são fornecidas por escritores romanos, e alguns sugeriram que ela poderia ser a Candácia mencionada na Bíblia, cujo eunuco foi convertido ao cristianismo e batizado pelo apóstolo Filipe

A existência de Amanirenas é documentada em algumas fontes epigráficas. Na estela Hamadab, descoberta pelo arqueólogo John Garstang em 1910, haveria segundo alguns intérpretes uma alusão ao confronto entre tropas romanas e cuxitas, com a celebração da vitória africana no conflito de 25-21 a.C.  No mesmo monumento ela é retratada ao lado do filho Akindad, que dividia com ela o governo, em frente às divindades Amon e Mut, enquanto na parte de baixo aparecem prisioneiros deitados de bruços, em posição de submissão, que poderiam ser soldados romanos. Neste e noutros lugares ela é referida pelo termo kore, a palavra meroítica para governante.

Duas outras inscrições em que seu nome é certificado são grafites no templo de Daga, na Baixa Núbia, e a estela de Teriteqas, seu marido, onde ela é referida somente como Kdke, isto é, Candácia, Rainha-mãe. Segundo parece, as inscrições de Hamadab poderiam fazer referência ao período em que governava com o filho, Akindad, enquanto as outras dizem respeito ao período em que era co-regente e rainha-mãe, junto com o seu cônjuge.

Sua descrição marcial tem sido interpretada como uma alusão aos conflitos bélicos do período. Estrabão informa que Gaius Petronius, prefeito romano do Egito, lançou um contra-ataque aos cuxitas que tinham invadido a região de Tebas e passaram a controlar cidades como Elefntina, Syene, e Philae durante o governo de Aelius Gaius.  Segundo ele, os cuxitas aproveitaram-se do deslocamento das tropas romanas para uma batalha na Arábia e “escravizaram os habitantes e derrubaram as estátuas de Caesar”. A seguir, as tropas de Gaius Petronius marcharam contra os “etíopes” da “viril Candácia de um olho só” e os derrotaram em Pselchis, atingindo Napata e fixando uma guarnição militar na fortaleza de Qsar Ibrim. A rainha cuxita teria então atacado a guarnição, reabrindo as hostilidades, mas não deixa entrever o resultado do embate.

As descrições deste controverso acontecimento foram feitas por escritores romanos, em relatos marcados pela parcialidade e desprezo pelos “etíopes”.  É de se supor que Teriteqas tenha liderado a marcha inicial contra o Egito Romano, morrendo em batalha, quando Amanirenas assumiu sozinha a liderança do governo, representando parcialmente o filho. Muito provavelmente as incursões de Gaius Petronius não tenham ido tão longe ao sul do Nilo, e o certo é que os romanos jamais conseguiram impor sua autoridade ao sul do Egito nem impor-lhes o pagamento de tributo, limitando-se a manter postos militares na fronteira.

Além de proteger a integridade territorial e a independência do estado meroítico, Amanirenas inaugurou um período de prosperidade econômica que encorajou o florescimento do comércio, de trocas e o intercâmbio intercultural entre a região da Núbia e o mundo Mediterrâneo. Seu nome está associado ao período áureo de Meroé, que persistiria até a metade do século IV d. C..

BIBLIOGRAFIA

BURSTEIN, Stanley M.. Graeco-africana: studies in the history of Greek relations with Egypt and Nubia.  New Rochelle: Aristide D. Caratzas, 1995.

EIDE, Tormode et alii. Fontes historiae nubiorum: textual sources for the Middle Nile region between the eighth century b. C. and the sixth century d. C.. Noruega: University of Bergen, 1994-1998, v. 2-3.

FARAH, Salim. “Ameniras”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 207-208.

TOROK, Laszlo. The kingdom of Kush: handbook of the napatan-meroitic civilization. Leiden: Studia Aegyptiaca, 1995.

Bartare (século III a.C.)

Primeira governanta núbia de Meroé a exercer o poder político, teria governado no período situado entre 284-275 a.C. As informações sobre ela são muito imprecisas, e o pouco que se sabe é que teria recebido os títulos de “Filho de Rá, Senhor das duas Terras”, título que era utilizado apenas pelos faraós egípcios. Sua pirâmide encontra-se ao sul da cidade.

Bartare é tida como sucessora direta do soberano Arakakamani, o primeiro governante a ser enterrado em Méroe. Como governanta suprema, foi provavelmente a primeira das candácias, termo de origem meroítica, kn-ti-kylktke, que em grego se lê kandake e que equivale a “rainha-mãe” ou “filha de rei”. Mas a ela não era atribuído o título de gore, que pode ser associado a “chefe”. Este último título aparece associado apenas a quatro governantas posteriores: Amanirenas, Amanishaketo, Nawidemak e Maleqereabar.  

BIBLIOGRAFIA

OLIVEIRA,  Fernanda Chamarelli de. Senhoras da Núbia: as candaces na cultura material em Kush (África, I AEC – I EC). Dissertação (Mestrado em História), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

PHILLIPS, Jacke. Women in Ancient Nubia. In: BUDIN, Stephanie Lynn; TURFA, Jean Marcintosh. Women in Antiquity. Real Women across the Ancient World. Nova York: Routledge, 2016.

SWEETERMAN, David. Grandes mulheres da história africana. Lisboa: Nova Nórdica, 1988.

Theme: Overlay by Kaira.