Kesso Barry (1948)
Princesa de origem fula. É filha de El Hadji Ibrahima Sory Barry, de Dara (1884? – 1978), que foi o último almami (monarca) dos Fulas da região de Futa Djalon, e de sua terceira esposa, Diello. Nasceu na comunidade de Mamou, na atual República da Guiné-Conacri. Etimologicamente, seu nome próprio, Kesso, significa “virgem” na língua Fula.
Ela teve uma infância feliz enquanto morou com a família paterna, até os seis anos de idade, mas passou a ter problemas quando se mudou para Sogotoro para morar com sua tia, que era muito autoritária. Por ser impulsiva e obstinada, aquela tentou discipliná-la sem sucesso e depois de quatro anos Kesso retornou a Mamou quando passou a ter a reputação de “princesa revolucionária”. Passou a realizar tarefas tipicamente masculinas como caçar, coletar impostos e frequentar cinema. Por iniciativa própria, frequentou a escola primária em Mamou e com muita persistência terminou o ensino secundário na capital, Conakry, e depois em Dakar no Senegal.
A mudança também foi uma forma dela se distanciar da sociedade patriarcal e conservadora de Mamou, na qual ela foi obrigada a se submeter ao ritual de clitoridectomia, a mutilação genital, quando tinha doze anos, exigência para se casar e adentrar em um relacionamento poligâmico – como era o costume. Morou com a família da quarta esposa do pai, que também era muito rigorosa e conservadora. Algum tempo depois mudou-se para casa de amigos da família, o casal francês Saint-Grémois, com quem a jovem princesa teve liberdade e acesso ao cenário cultural da vida moderna, além de participação em negócios no país.
Aos quinze anos Kesso se casou com Baïlo, um empresário de trinta anos originário de Mamou, após uma tensa negociação familiar uma vez que ele não pertencia a uma família de origem nobre, embora fosse bem sucedido economicamente. Com ele Kesso teve uma filha e um filho: Bintou e Ousmane, mas algum tempo depois pediu divórcio, mudando-se para a casa de um irmão dela.
Para sustentar os filhos, trabalhou como secretária numa mina de bauxita onde conheceu o segundo marido – o industrial Gérard Decoster. Embora a família muçulmana tenha ficado desapontada com este casamento com um homem francês branco e católico, ela assumiu o relacionamento e em 1966 foi morar com ele e os filhos em 1966, seguindo uma carreira de sucesso no mundo da moda.
Em 1988 escreveu sua autobiografia, Kesso, princesse peuhle (Kesso, princesa fula). No livro, mostra otimismo em relação às situações que enfrentou, mas o final deixa notar a situação ambígua de pertencer a duas culturas e revela-se parcialmente arrependida por ter deixado a Guiné.
BIBLIOGRAFIA
BARRY, Kesso. Kesso, princesse peuhle. Paris: Seghers, 1988.
BEKERS, Elisabeth. “Kesso Barry”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 389-390.
D’ALMEIDA, Irène Assiba. Kesso Barry’s Kesso, or autobiography as a subverted tale. Research in African Literatures, v. 28, n. 2, p. 66-82, 1997.
SANKARA, Edgard. L’appropriation du masculin dans Kesso, princesse peuhle de Kesso Barry. Itineraires, n. 1, 2008: https://journals.openedition.org/itineraires/2221
































