
No capítulo “como sair da Terra” aprendemos que há uma relação forte entre a gravidade e qualquer possibilidade de sair da atmosfera terrestre, porém outro elemento importante da nossa jornada ao espaço é a resistência do ar. No ensino médio aprendemos a desconsiderar a resistência do ar, mas em altas velocidades e na nossa viagem espacial considerá-la é fundamental. Um experimento simples da influência da resistência do ar, que você pode fazer em casa, é observar o movimento de queda de uma folha e uma bolinha de papel.

Para sair da atmosfera rumo ao espaço, precisamos pensar em como contornar essa “resistência” que ocorre na atmosfera. Algumas peças fundamentais para entender esse movimento são: as forças de resistência do ar (ou de arrasto), o empuxo (ou empuxo dinâmico) e a força da gravidade, como demonstrado na figura 2. A força de arrasto depende de dois fatores essencialmente, a velocidade do objeto em relação ao ar e a forma do foguete. Para minimizar a força de arrasto associada à forma, os foguetes têm sua extremidade em forma de cone invertido, chamado de nariz (ogiva). O empuxo dinâmico é a força que impulsiona o foguete na liberação dos gases oriundos da combustão em seus motores.
Durante seu percurso, o foguete experimenta, como parte do arrasto, a chamada pressão dinâmica, que é uma pressão que se deve ao movimento. É aquela mesma que experimentamos quando andamos em um veículo com a janela aberta: mesmo que não haja vento, sentimos como se houvesse, pois nos deslocamos com velocidade em relação ao ar que está parado. Essa pressão pode ser tão intensa a ponto de danificar o foguete e, portanto, precisa ser considerada.
A pressão dinâmica segue a equação , onde
é a pressão,
é a densidade do ar junto ao objeto e
é a velocidade deste. Ora, se a velocidade é nula no lançamento e a densidade atmosférica é nula no vácuo do espaço, essa pressão também vai ser nula nesses pontos; mas em algum ponto durante o lançamento dentro da atmosfera, ela vai passar por um máximo. Considerando que a construção do foguete possibilita que ele aguente até certos valores de pressão com segurança, a velocidade de lançamento tem que ser controlada para que a pressão máxima durante o voo não ultrapasse esse limiar. Por esse motivo, os foguetes não são lançados com seus motores em potência máxima até atingir certa altura na atmosfera, onde o ar é mais rarefeito.
A atmosfera também demonstra sua influência no retorno à Terra. Durante a reentrada, ao ingressar na atmosfera terrestre, a nave encontra-se em velocidades ultrassônicas, com grande energia cinética. Para não espatifar-se no chão, é necessário reduzir a velocidade da nave, e isso ocorre em diversas etapas.

Em um primeiro momento, a nave colide com a atmosfera. Essa colisão causa um enorme aumento de pressão, que leva à compressão adiabática do gás e seu aumento de temperatura. Este efeito pode ser tão intenso a ponto de ionizar o gás, emitindo luz e outras ondas eletromagnéticas, como rádio e micro-ondas. Todo esse processo causa uma grande dissipação de energia, reduzindo muito a velocidade da nave. Dependendo da inclinação com que a nave entra na atmosfera, ela pode ser empurrada de volta ao espaço ou passar por um estresse tão grande que cause danos à sua estrutura ou carga e passageiros.
Após a reentrada, a nave continua sofrendo efeitos da resistência do ar. Devido a sua alta velocidade, a força de arrasto é maior do que a força gravitacional, e a nave segue desacelerando. Como a densidade atmosférica é maior quanto mais próximo da superfície, esse efeito é gradativo e, quando a velocidade é pequena o suficiente, a nave pode abrir seus paraquedas sem risco de que estes se rompam.
O efeito do paraquedas pode ser entendido da seguinte maneira: a superfície de contato com o ar é ampliada no momento em que ele se abre, fazendo com que a força de resistência do ar aumente, alterando o equilíbrio das forças de arrasto e da gravidade. Quando a força de arrasto e da gravidade se equilibram, a nave atinge o que é chamado de velocidade terminal, pois a força total que age sobre ela é nula e não há aceleração. Com o paraquedas aberto, a velocidade terminal da nave é baixa o suficiente para que ela caia no chão, ou na água, sem maiores danos.
Curiosidade: O paraquedas do gato! Gatos podem sobreviver à queda de grandes alturas!? Na queda de um gato de grandes alturas, ocorre o mesmo efeito do paraquedas. Durante a queda, a força da gravidade atua em favor do movimento de queda livre e a força resistência do ar atua no sentido oposto ao movimento, para equilibrar as forças o gato se estica, aumentando a sua área de contato com o ar. No equilíbrio das forças, o gato passa a ter uma velocidade terminal baixa o suficiente para não se esborrachar no chão.

Álisson Francisco Schneider Siebeneichler e Rogério Nunes Wolff / Equipe AMLEF 2021
Saiba mais:
- BBC: Por que os gatos sobrevivem a quedas de grandes alturas?
- Integrando Conhecimento: Como os foguetes funcionam? fácil
Referências:
- Ufpel: Os aspectos físicos e matemáticos do lançamento do foguete de garrafa pet
- COMO FUNCIONAM OS FOGUETES?
- Aerodinâmica de foguetemodelo
- Wikipédia inglês: Rocket
- Como funciona o lançamento de um foguete
- Estágio do lançamento de um foguete
- Britannica: Foguete
- Reação de empuxo — Como os foguetes se locomovem?
- Força de Resistência do Ar
- Wikipédia inglês: Pressão dinâmica máxima
- Wikipédia português: Amaragem
- Como os astronautas voltam à Terra após missões espaciais?
- Propulsão de foguetes no espaço: como é possível o empuxo se não existe atmosfera?
- Dúvida sobre meteoro: causa do aquecimento e razão da interferência com as telecomunicações