• Capítulo 10: Histórico da Exploração Espacial

  • Voltar
 by 

Para enten­der­mos como o ser humano con­se­guiu ‘’con­quis­tar’’ o espaço, pre­ci­sa­mos olhar bem para trás. As inven­ções que pos­si­bi­li­ta­ram o sucesso das missões que come­ça­ram a ser feitas em 1957, pela antiga União Sovié­tica, tiveram um início remoto; estamos falando de séculos atrás! Apertem os cintos porque o Manual de Explo­ra­ção Espa­cial está prestes a enviar você a uma viagem ao passado, para que pos­sa­mos enten­der o nosso pre­sente e pensar no que o futuro nos aguarda!

Onde começaram os foguetes

Os pri­mei­ros regis­tros de fogue­tes foram feitos por volta de 1045 d.C, conhe­ci­dos por fazerem parte inte­gral das táticas mili­ta­res chi­ne­sas, mas só no início do século XIII eles pas­sa­ram a ser mais desen­vol­vi­dos. Com a cres­cente pressão feita pelos mongóis (grupo étnico da Ásia Central), se viu a neces­si­dade de melho­rar o arma­mento, assim o foguete foi aper­fei­ço­ado e usado pelos chi­ne­ses para repelir os mongóis na batalha de Kai-fung-fu em 1232 d.C.

Figura 1. Teste de lan­ça­mento de um foguete V2 no início da ignição. À esquerda, uma pla­ta­forma móvel de manu­ten­ção. Pee­nemünde, Ale­ma­nha, 1943. Arquivo Naci­o­nal da Ale­ma­nha, Imagem 146‑1978-Anh.026–01 / CC-BY-SA 3.0, CC BY-SA 3.0 DE, via Wiki­me­dia Commons.

Os fogue­tes foram intro­du­zi­dos na Europa cerca de 10 anos após essa batalha, e há relatos sobre eles em diver­sos estudos ao longo dos anos. Eles esti­ve­ram inclu­sive pre­sen­tes na Guerra dos Cem Anos (1337–1453; entre França e Ingla­terra), no cerco à cidade fran­cesa de Orleans. Com o passar dos séculos, eles aos poucos foram ganhando melho­rias, mas foi em 1926 que Robert Goddard (1882–1945) criou a pro­pul­são supersô­nica, sis­te­mas de direção e esta­bi­li­za­ção por giros­có­pios e com­bus­tí­vel líquido. Esse projeto chegou a ser apre­sen­tado ao exér­cito ame­ri­cano, porém foi des­car­tado. Em 1942, a Ale­ma­nha desen­vol­veu um míssil balís­tico de longo alcance, um foguete chamado V2 que foi uti­li­zado em bom­bar­deios durante a Segunda Guerra (1939–1945), embora sem causar fortes danos, pois eram muito impre­ci­sos. Este foguete, mais além, veio a ser o pri­meiro veículo espa­cial. Até o momento o uso deles era total­mente militar, visando melho­res formas para atacar o inimigo e ajudar a vencer a guerra, mas final­mente em 1957 a União Sovié­tica (atual Rússia) con­se­guiu criar o R7 — um míssil nuclear modi­fi­cado -, que serviu como modelo e pos­si­bi­li­tou a tec­no­lo­gia neces­sá­ria à criação de máqui­nas capazes de chegar ao espaço, dando início à explo­ra­ção espacial.

Dando início ao futuro

Com o fim da Segunda Grande Guerra, o mundo estava em cons­tante estado de alerta. A Europa, que até então domi­nava o mundo, encon­trava-se devas­tada. O medo de que esse ‘’fim’’ da guerra fosse apenas uma pausa, estava pre­sente em todas as casas. O con­ti­nente europeu saiu de cena para tentar recu­pe­rar um pouco do que foi perdido, e isso deu aber­tura para uma outra grande guerra entre duas nações ainda em ascen­dên­cia: a guerra ide­o­ló­gica entre os Estados Unidos da América (EUA) e a então União das Repú­bli­cas Soci­a­lis­tas Sovié­ti­cas (URSS).

Em 1947, o pre­si­dente ame­ri­cano Henry Truman (1884–1972) afirmou, em um dis­curso, que os Estados Unidos pode­riam inter­vir em gover­nos não demo­crá­ti­cos. Essa afir­ma­ção, junto ao plano Marshall (ajuda finan­ceira dos EUA para recons­truir a Europa no pós-guerra) criado no mesmo ano, iniciou a sequên­cia de eventos que ficaram conhe­ci­dos como Guerra Fria (1947–1989). Ambos, Estados Unidos e União Sovié­tica, visavam a algum tipo de domínio sobre outros países, e tinham como obje­tivo fazer pro­pa­ganda da sua posição política.

E como pensar na Guerra Fria e não lembrar da corrida espa­cial que se seguiu durante toda ela?

O desen­vol­vi­mento de saté­li­tes pos­si­bi­li­ta­ria a cons­tru­ção de saté­li­tes espiões, uma arma útil para ambos, que bus­ca­vam a supre­ma­cia em arma­men­tos e tec­no­lo­gia. Então, o que seria maior, como uma forte demons­tra­ção de poder, de mostrar ao mundo inteiro que a maneira como o seu governo fun­ci­o­nava era a maneira certa em direção a um futuro prós­pero, do que explo­rar o espaço? Assim ini­ci­ava a corrida para a explo­ra­ção espacial.

Primeira fase da exploração espacial: corrida

A pri­meira publi­ca­ção séria que mos­trava ser pos­sí­vel rea­li­zar a explo­ra­ção espa­cial foi feita em 1903, mas apenas em 1957 isso de fato teve início. A URSS enviou dois fogue­tes ao espaço, o Sputnik e o Sputnik 2, em sequên­cia. O segundo foi o pri­meiro a trans­por­tar vida, uma cadela chamada Laika que ficou famosa por ser o pri­meiro ser ter­res­tre a se ‘’aven­tu­rar’’ para fora do nosso planeta. Esse foi apenas o começo.

Figura 2. A tri­pu­la­ção da missão Apollo 11, da esquerda para a direita: Neil A. Arms­trong, coman­dante; Michael Collins, piloto do módulo de comando; e Edwin E. Aldrin Jr., piloto do módulo lunar. Fonte: NASA, Domínio público, via Wiki­me­dia Commons.

Logo no ano seguinte os EUA ‘’revi­da­ram’’ envi­ando o pri­meiro saté­lite ame­ri­cano para orbitar a Terra, além de fun­da­rem a NASA. No próximo ano, a URSS teria enviado um saté­lite arti­fi­cial para orbitar o Sol e uma sonda que con­se­guiu alcan­çar a Lua. No ano que se seguiu, ambas as nações foram res­pon­sá­veis por enviar os pri­mei­ros homens ao espaço. Todos os anos a seguir foram cheios de novi­da­des e cada vez mais uma nação tentava superar a outra, e quem ganhava com isso era a huma­ni­dade, a ciência e a tecnologia.

Os pri­mei­ros 12 anos da corrida espa­cial eram uma disputa acir­rada para ver quem con­se­guia enviar uma missão tri­pu­lada até a Lua, e quem con­se­guiu, de fato, foram os Estados Unidos, que em 1969 lançou a missão Apollo 11, ficando eter­ni­zada por esse feito. O homem norte-ame­ri­cano pisando na Lua trazia a imagem de poder que ambas as nações estavam cor­rendo atrás, e em todos esses anos esse era o maior pro­pó­sito: poder e avanço tec­no­ló­gico. Era como se eles esti­ves­sem dizendo: venham para este novo mundo que só nós podemos te proporcionar.

A ‘’corrida’’ estava ganha, e nos anos que se segui­ram pouca coisa foi feita. Até 1975.

Segunda fase da exploração espacial: cooperação internacional

Foi aqui que a explo­ra­ção espa­cial deixou de se tornar uma corrida. O pri­meiro passo que mostrou essa mudança foi quando, em 1975, a Apollo 18 (ame­ri­cana) e a Soyuz 19 (sovié­tica) fizeram a pri­meira ligação inter­na­ci­o­nal entre naves espa­ci­ais, e em 1994 chegou a ser feita uma missão em con­junto entre os EUA e a Rússia. O prin­ci­pal obje­tivo desde as pri­mei­ras missões sempre havia sido chegar na Lua, e agora que este obje­tivo estava con­quis­tado, missões des­ti­na­das a trazer conhe­ci­mento sobre o Sistema Solar e mais além come­ça­ram a serem feitas.

Figura 3. Teles­có­pio Espa­cial Hubble, visto de trás, em órbita da Terra. Maio de 2009. Fonte: NASA, Domínio público, via Hubblesite.

A missão pio­neira em busca do conhe­ci­mento sobre o uni­verso foi o lan­ça­mento do teles­có­pio Hubble, feito pela NASA em 1990. Ele nos per­mi­tiu visu­a­li­zar mais de 1500 galá­xias e é impres­cin­dí­vel para a pes­quisa até hoje. Ele traz imagens majes­to­sas do nas­ci­mento de estre­las, grandes coli­sões entre galá­xias, super­no­vas… É a his­tó­ria do uni­verso sendo regis­trada e uti­li­zada para o estudo. Após mais de 30 anos de ‘’serviço’’, o Hubble irá ser apo­sen­tado e subs­ti­tuído pelo teles­có­pio James Webb (atu­al­mente marcado para 22 de dezem­bro de 2021), que promete ver as pri­mei­ras estre­las e galá­xias for­ma­das, alte­rando de forma fun­da­men­tal nosso enten­di­mento sobre o universo.

Nessa fase da explo­ra­ção espa­cial também se cons­truí­ram esta­ções espa­ci­ais, feito impor­tante para se estudar os efeitos cau­sa­dos por viver no espaço ao ser humano, além de serem feitas lá diver­sas pes­qui­sas impor­tan­tes. A MIR, estação russa, foi a pri­meira delas, lançada em 1986 e pos­te­ri­or­mente subs­ti­tuída pela Estação Espa­cial Inter­na­ci­o­nal, um projeto con­junto de diver­sos países e agên­cias espaciais.

Privatização do espaço?

Há alguns anos vem se falando sobre voos comer­ci­ais para fora do nosso planeta; o que antes era de domínio gover­na­men­tal, começou a ser explo­rado e desen­vol­vido por empre­sas pri­va­das, com pos­sí­vel foco no comér­cio. Quem não gos­ta­ria de sair do planeta nem que seja por alguns minutos? Enxer­gar o nosso ‘’pequeno ponto azul’’ do lado de fora com certeza deve ser a expe­ri­ên­cia mais emo­ci­o­nante na vida de alguém, e não faltam volun­tá­rios para pagar os preços estron­do­sos que tornam isto possível!

Figura 4. Lan­ça­mento do Falcon 9 na missão Star­link L‑25, levando 60 saté­li­tes para o espaço. Centro Espa­cial Kennedy, EUA. Maio de 2021. Fonte: U.S. Space Force, foto­gra­fia por Joshua Conti, Domínio público, via Wiki­me­dia Commons.

Esses voos comer­ci­ais são impor­tan­tes para o avanço na pes­quisa, tendo em vista que nas últimas décadas a NASA teve seu orça­mento redu­zido, em per­cen­tual do orça­mento ame­ri­cano. Esse tipo de ação agora pode ser ter­cei­ri­zada, e quanto mais viagens feitas — e pagas com os bilhe­tes ven­di­dos para os tri­pu­lan­tes -, elas acabam ficando mais baratas num geral, porque quando esta se torna uma ati­vi­dade lucra­tiva, faz sentido os empre­sá­rios jogarem dinheiro para se pes­qui­sar avanços e manei­ras de tornar ela cada vez mais ren­tá­vel. Nos dias de hoje, a NASA depende dos fogue­tes e cáp­su­las da SpaceX — maior empresa aero­es­pa­cial privada, criada por Elon Musk e com obje­tivo prin­ci­pal a colo­ni­za­ção de Marte -, para enviar astro­nau­tas e cargas para a Estação Espa­cial Inter­na­ci­o­nal. Ope­ra­do­res de saté­li­tes pri­va­dos, gover­na­men­tais e mili­ta­res uti­li­zam o foguete reu­ti­li­zá­vel Falcon 9, entre outros veí­cu­los pri­va­dos, para colocar seus saté­li­tes em órbita.

Tudo isso ainda é muito recente, mas esse futuro já está na nossa frente e nos pró­xi­mos anos ele vai ser tudo o que vamos conhe­cer, exa­ta­mente como acon­te­ceu com a inter­net na década de 1990! O que antes era ina­ces­sí­vel e ini­ma­gi­ná­vel para a popu­la­ção, hoje está no bolso de muita gente.

Laila Berg da Nobrega / Equipe AMLEF 2021

Saiba mais:


Referências:

  1. Oficina da Net: Entenda a linha do tempo da explo­ra­ção espa­cial: De 1957 até 2019
  2. UOL Escola KIDS: Corrida Espacial
  3. Wiki­pe­dia: Linha do tempo da explo­ra­ção espacial
  4. ISTOÉ: Corrida espa­cial S/A
  5. Aven­tu­ras na His­tó­ria: Da China medi­e­val à explo­ra­ção privada do espaço: A evo­lu­ção do foguete
Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *