O computador, tal como nós o conhecemos, passou por diversas transformações e aperfeiçoamentos que acompanharam o aprimoramento da matemática, da engenharia e da eletrônica. Por essa razão não existe apenas um inventor, sendo um progresso desenvolvido coletivamente. Nesse artigo vamos explorar o avanço do conceito na história e a evolução, principalmente do hardware, na computação do século XX até os dias de hoje.
Um pouco de História
A palavra computador tem sua origem no verbo computar cujo significado é calcular. Por essa razão podemos afirmar que os primeiros computadores foram criados na Antiguidade (4000a.C a 476d.C). Diversas civilizações, por todo o mundo, desenvolveram independentemente ferramentas de cálculo, sendo difícil definir uma como a primeira. Destas, as mais rudimentares são chamadas tábua de cálculo, com registros entre os ameríndios, mesopotâmicos, egípcios, entre outros. Outra ferramenta com mesma função é o ábaco, cujo modelo por nós conhecido atualmente é muito próximo do exemplar chinês, criado no século V a.C., no entanto há registros de ábacos similares entre os romanos e russos. Todos esses artefatos eram uma espécie de calculadora que realizava operações algébricas. No século XVII, o escocês e matemático John Napier (1550–1617) inventou a técnica matemática dos logaritmos, pelos quais Edmund Gunter (1581–1628) foi motivado a criar a primeira régua de cálculo, um instrumento analógico baseado na escala logarítmica capaz de efetuar cálculos de multiplicação, divisão e trigonometria rapidamente. É com Blaise Pascal (1623–1662), matemático, teólogo e filósofo francês, que temos um grande avanço na produção de calculadoras, pois no ano de 1642 ele inventou a primeira máquina de calcular mecânica, a Pascaline. Mas, foi Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716) quem aprimorou a calculadora, tornando‑a capaz de efetuar os quatro principais cálculos matemáticos, sendo essa calculadora produzida em larga escala e comercializada. Para sua calculadora, esse matemático e filósofo alemão desenvolveu o primeiro sistema de numeração binário moderno, no qual baseou a Roda de Leibniz. O avanço das calculadoras mecânicas foi grande, e a menor destas foi desenvolvida por Curt Herzstark (1902–1988) entre 1939 e 1950, também baseada no sistema binário; chamadas de calculadoras Curta, elas eram portáteis, pesando entre 200 e 400 grama.
Já a primeira máquina programável foi inventada pelo matemático francês Joseph-Marie Jacquard (1752–1834). O instrumento era uma espécie de tear capaz de controlar a confecção dos tecidos através de cartões perfurados. Ainda que não se trate de maquinário, vale lembrar de George Boole (1815–1864) um dos fundadores de uma área da matemática inédita, que se tornou uma poderosa ferramenta no projeto e estudo de circuitos eletrônicos, bem como na arquitetura de computadores, a lógica matemática, também conhecida como álgebra booleana. Ainda no século XIX, o matemático inglês Charles Babbage (1791–1871) criou uma máquina analítica com memória e programas, semelhante aos computadores atuais. Por causa dessa invenção alguns estudiosos o consideram o “Pai da Informática”. Outra personalidade importante foi Augusta Ada Byron King (1815–1862), Condessa de Lovelace, popularmente conhecida como Ada Lovelace, matemática e escritora inglesa. Foi ela quem escreveu o primeiro algoritmo para ser processado pela máquina analítica de Charles Babbage. Os algoritmos, desenvolvidos por ela, permitiriam à máquina computar os valores de funções matemáticas. Em virtude desse trabalho é considerada a primeira programadora da humanidade.
A história da computação contemporânea é comumente dividida em quatro períodos de acordo com os sistemas utilizados. Os computadores de Primeira Geração (1951–1959) funcionavam por meio de circuitos e válvulas eletrônicas. Possuíam o uso restrito e eram imensos, ocupando uma sala inteira, além de consumirem muita energia. Um desses computadores era o ENIAC (Eletronic Numerical Integrator and Computer) que consumia cerca de 200 quilowatts e possuía 19.000 válvulas. A Segunda Geração (1959–1965) ainda possuía computadores de grandes dimensões, funcionavam por meio de transistores, os quais substituíram as válvulas, maiores e mais lentas. Foi nesse período que os computadores começaram a ter uso comercial. Já os computadores da Terceira Geração (1965–1975) passaram a funcionar com circuitos integrados, é por essa razão que os computadores passaram a apresentar uma dimensão menor e maior capacidade de processamento de dados. Um único circuito integrado possui vários transistores, resistores e capacitores junto com os circuitos associados. É nessa geração, em que os chips são criados, que a utilização de computadores pessoais começa. Por último temos a Quarta Geração (1975-até os dias atuais) na qual, com o desenvolvimento da tecnologia da informação, os computadores diminuem muito de tamanho e aumentam a velocidade e capacidade de processamento de dados. Nesse período são desenvolvidos e incluídos microprocessadores com gasto de energia cada vez menor. Com isso, a partir de 1990 há uma grandiosa expansão dos computadores pessoais. Já no novo milênio, surgem os softwares integrados que, com o aperfeiçoamento de outras tecnologias, possibilitam o advento dos computadores de mão, isto é, smartphones e tablets, que incluem conexão móvel com navegação na internet.
O computador usado na Apollo 11

Ao falar na evolução dos computadores é curioso pensar que o poder computacional do computador de bordo da Apollo 11, a espaçonave da missão que levou os ser humano à Lua em 1969, é inferior ao de um celular que temos acesso hoje. O computador, chamado de Apollo Guidance Computer (AGC), tinha 72 KB de memória ROM e pouco mais de 4 MB de memória RAM para leitura de dados. Para se ter uma ideia um smartphone intermediário atual tem 4 GB de RAM, com os mais sofisticados chegando a 8GB de RAM. Isso significa que um smartphone popular tem 4 mil vezes mais capacidade de processamento que o computador da Apollo 11. Alguns dos smartphones atuais podem ter 512 GB de armazenamento, o equivalente a 4.398.046.511.104 de bits. Ou seja, a capacidade desses smartphones é sete milhões de vezes maior que o AGC. Além disso, o computador da Apollo 11 tinha um processador, um circuito eletrônico que executa operações em fontes de dados externas, que funcionava na ordem de MHz. Um dos mais potentes processadores de smartphone atuais funciona por volta de 2.490 MHz. Isso quer dizer que ele tem pelo menos 1.000 vezes mais poder de processamento do que o computador que auxiliou o ser humano a pisar pela primeira vez na superfície lunar.
Se há 51 anos tivéssemos as ferramentas atuais, os especialistas estimam que o tempo de desenvolvimento de software teria sido menor, uma vez que hoje é muito mais rápido escrever, depurar e testar um código do tipo necessário para a viagem. A interface do usuário, chamada de teclado de exibição (DSKY), usada na Apollo 11, era uma espécie de calculadora, na qual os comandos precisavam ser inseridos a partir de códigos numéricos. As interfaces do presente são mais fáceis de usar, provavelmente não teria um teclado, mas comandos de swipe, ou seja, controle do instrumento feito por meio de movimentos, em uma tela sensível ao toque ou por sensores de movimento, sem a necessidade de contato tátil. A interface também poderia funcionar através de gestos, movimentos dos olhos, etc. Ainda que tenhamos muitas vantagens tecnológicas, uma coisa que não seria melhor é a velocidade de comunicação com a Terra. O tempo necessário para se comunicar em 1969 é o mesmo hoje, pois é limitado pela velocidade da luz, uma constante universal. Contudo, a maior mudança na Apollo 11 estaria no seu sistema operacional que seria muito mais inteligente e mais fácil de ser programado. Ainda que voo e o pouso da espaçonave não fossem exclusivamente feitos pelo computador, ele teria muito mais informação e inteligência para tomar decisões do que o AGC era capaz de fazer. O que garantiria uma maior segurança e alívio para os astronautas.
Início e fim da Lei de Moore
Tratando-se de avanço computacional, não podemos deixar de citar a Lei de Moore, uma expressão atribuída à observação feita, em 1965, por Gordon E. Moore, cofundador da Intel, sobre a tendência histórica da indústria de microchips e processadores. Segundo a lei, o número de transistores teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada dois anos, ou seja, o poder de processamento dos computadores, de uso doméstico e industrial, dobraria a cada 24 meses. Este parâmetro serve para qualquer chip, não apenas para CPUs, Unidade Central de Processamento, incluindo o CCD, Dispositivo de Carga Acoplada, responsável por captar a luz das cenas e transformá-la em imagens coloridas nas câmeras fotográficas digitais. Isso significa que o aumento da capacidade de memória RAM e memória flash, o aprimoramento dos sensores e até mesmo o número e tamanho dos pixels em câmeras digitais, estão fortemente ligados à lei de Moore.
Vale lembrar que a primeira pessoa a formular uma teoria evolucionista a respeito de hardware foi Alan Turing, no ano de 1950, fazendo a previsão de que na virada do século teríamos computadores com memória por volta de 1 GB. Quinze anos depois de Turing, em um artigo na revista Eletronic Magazine, de 1965, Moore falou o seguinte:
A complexidade para componentes com custos mínimos tem aumentado em uma taxa de aproximadamente um fator de dois por ano … Certamente em um curto prazo pode-se esperar que esta taxa se mantenha, se não aumentar. A longo prazo, a taxa de aumento é um pouco mais incerta, embora não haja razões para se acreditar que ela não se manterá quase constante por pelo menos 10 anos. Isso significa que em torno de 1975, o número de componentes por circuito integrado para um custo mínimo será 65 000. Eu acredito que circuitos grandes como este poderão ser construídos em um único componente (pastilha).
Gordon E. Moore
O primeiro a propor como lei essa afirmação de Moore foi Caver Mead, professor na Caltech e pioneiro da VLSI Technology. Porém, alguns especialistas previram que esse período de evolução poderá chegar a 18 meses. Ainda que inicialmente a lei de Moore não passasse de uma mera especulação, ela acabou tornando-se um objetivo para as indústrias de semicondutores, fazendo-as despenderem muitos recursos e aumentarem o desempenho para garantir competitividade no mercado. Talvez se a observação não tivesse ganho notoriedade, não tivéssemos um desenvolvimento tão acelerado em nível de hardware e com custos acessíveis. A indústria de semicondutores teve de investir muito em pesquisa e desenvolvimento.
Segundo Carl Anderson, pesquisador da IBM, a Lei de Moore pode estar findando. Um dos motivos seria o fato de que os engenheiros estão desenvolvendo sistemas que exigem menos recursos do processador, além dos custos de pesquisas estarem cada vez mais altos. Outro motivo é que, com o aumento da velocidade, aumenta também o consumo de energia e a dissipação de calor. Em 2014 o departamento de pesquisa da IBM anunciou um teste com novos chips de silício com tecnologia de 7 nm, adiando o fim previsto da Lei de Moore. No ano de 2015, foi anunciada uma pesquisa inovadora da IBM iniciando novos imites na produção de processadores utilizando tubos de carbono, o que permitiria atingir escalas de 1,8 nm. Contudo, ordinariamente, o tamanho dos microchips atuais é em torno de 5 nm. Em 2017 Brian Matthew Krzanich, então CEO da Intel, disse que a empresa tem investido pesado tanto na computação quântica como na engenharia neuromórfica. Já em 2019, a Google declarou publicamente ter alcançado a supremacia quântica, o que pode multiplicar consideravelmente o poder de processamento.
Cristiane Pinheiro / Equipe AMLEF 2021
Saiba Mais
- Your Smart Toaster Can’t Hold a Candle to the Apollo Computer/Sua torradeira inteligente não consegue segurar uma vela no computador da Apollo
- Computação Quântica: Entenda o futuro dos computadores e suas principais aplicações
Referências
- Toda Matéria: História e evolução dos computadores
- CanalTech: Seu smartphone seria poderoso o suficiente para te levar até a Lua
- Wikipedia: Ada Lovelace
- Wikipedia (pt): Lei de Moore
- Wikipedia (en): Moore’s law
- OLIVEIRA, José D. S. de; MENDES, Iran A.. A régua de cálculo como um artefato mediador entre a história e o ensino de matemática. III EREM, 2011.
- TecMundo: Vídeo explica como funciona o sensor CCD das câmeras digitais
- TutorialsPoint: Computer third generation










