• Edição Especial: A Escala do Universo

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Medir,  contar, quan­ti­fi­car as coisas é uma prática antiga, assim como os nomes dados a essas uni­da­des de medida. Já se usou, pés, pole­ga­das, o peso do rei, dedal et cetera. Com o passar do tempo, a neces­si­dade de uni­for­mi­zar a ter­mi­no­lo­gia se tornou urgente, prin­ci­pal­mente para o comér­cio entre países com sis­te­mas de medidas dife­ren­tes, o que causava perdas e confusão.

Na ciência, é extre­ma­mente impor­tante fazer­mos medidas uni­ver­sais, de forma que todos falem a “mesma língua”.  Não só isso, já citamos várias medidas de tama­nhos bas­tante dife­ren­tes. Falamos de acon­te­ci­men­tos que ocor­re­ram cen­te­nas de milhões de anos atrás, de um teles­có­pio situado a 547 km da terra, dando voltas com velo­ci­dade de 28 mil km/h (ou seria 28 Mm/h?). Se esses números já parecem grandes, lembrem-se que falamos da massa da Terra, com apro­xi­ma­da­mente \fn_phv 5,8\times 10^{24} kg. Quando vamos para a escala espa­cial, o tamanho das coisas, a duração dos eventos e a dis­tân­cia entre eles torna-se gigan­tesca e fica com­pli­cado uti­li­zar­mos medidas ter­re­nas para descrevê-las.

Figura 1. Car­ti­lha sobre novas defi­ni­ções das uni­da­des do SI pro­du­zida pela Soci­e­dade Bra­si­leira de Metro­lo­gia. Cré­di­tos: Luciana e Sá Alves e Gelson Rocha — Soci­e­dade Bra­si­leira de Metro­lo­gia, CC BY 4.0, via Wiki­me­dia Commons

É neces­sá­rio enten­der as uni­da­des básicas de medida para poder­mos expan­dir para a Escala do Uni­verso. Ao longo da his­tó­ria, hou­ve­ram vários momen­tos em que grupos se jun­ta­ram para regu­la­men­tar as uni­da­des de medida. Mais recen­te­mente, em 1960, foi criado o Sistema Inter­na­ci­o­nal de Uni­da­des (SI), uti­li­zado até hoje, e que vem sendo revi­sado pela comu­ni­dade cien­tí­fica, tendo sua última alte­ra­ção em 2019.

O Sistema Inter­na­ci­o­nal de Uni­da­des (SI) define 7 uni­da­des básicas. Todas as uni­da­des podem ser defi­ni­das ou medidas a partir de 7 Cons­tan­tes Físicas defi­ni­das, e por­tanto, exatas. Atu­al­mente, as 7 uni­da­des básicas, apre­sen­ta­das na figura N, e as gran­de­zas que elas repre­sen­tam são: o segundo (s) para tempo, o metro (m) para com­pri­mento, o qui­lo­grama (kg) para massa, a candela (cd) para inten­si­dade lumi­nosa, o mol (mol) para quan­ti­dade de subs­tân­cia, o kelvin (K) para tem­pe­ra­tura e o ampere (A) para cor­rente elétrica.

Grande parte das uni­da­des de medida que uti­li­za­mos para repre­sen­tar gran­de­zas são uni­da­des deri­va­das, ou seja, podem ser expres­sas por uma com­bi­na­ção das uni­da­des fun­da­men­tais na forma de mul­ti­pli­ca­ção ou divisão. As uni­da­des deri­va­das são muitas (infi­ni­tas) e suas com­bi­na­ções também, por isso cita­re­mos apenas algumas delas:

  • velo­ci­dade, repre­sen­tada em metro por segundo (m/s);
  • força, repre­sen­tada em newton (N), equi­va­lente a kg.m/s²
  • energia, repre­sen­tada em Joule (J), equi­va­lente a N.m=kg.m²/s²
  • potên­cia, repre­sen­tada em Watt (W), equi­va­lente a J/s=N.m/s=kg.m²/s³
  • área, des­crita em metro qua­drado (m²)
  • volume, des­crito em metro cúbico (m³)

Mas como fazemos quando temos que descrever algo muito grande ou pequeno?

Para repre­sen­tar algo muito pequeno, como o tamanho de um átomo, ou muito grande, como a capa­ci­dade de arma­ze­na­mento do seu celular, uti­li­za­mos os pre­fi­xos do SI. Estes repre­sen­tam a mul­ti­pli­ca­ção da unidade de medida em questão por potên­cias de 10, como um milhar (k, de quilo, 10³), um milhão (M, de mega, 10^6). Da mesma forma temos pre­fi­xos para a divisão por potên­cias de 10, como o milé­simo (m, de mili, 10^-3) ou o mili­o­né­simo (u, de micro, 10^-6).

Estes pre­fi­xos esten­dem muito as nossas escalas de unidade e por vezes podemos esque­cer o que elas sig­ni­fi­cam. Na com­pu­ta­ção temos o byte (B), que des­creve a unidade de infor­ma­ção digital, já estamos acos­tu­ma­dos com celu­la­res com capa­ci­dade de arma­ze­na­mento de até teraby­tes (TB), um epi­só­dio de uma série que vemos em stre­a­ming tem da ordem de gigaby­tes (GB) e músicas que com­par­ti­lha­mos com amigos ocupam algo na escala de megaby­tes (MB), mas nem sempre foi assim. O com­pu­ta­dor de voo da missão Apollo 11, que pousou na Lua em 1969, possuía 4kB de memória RAM, menos de um mili­o­né­simo do que o com­pu­ta­dor moderno (4 a 16 GB).

Quais unidades de medidas usamos para dimensionar o Espaço Sideral?

Quando pen­sa­mos em tamanho de pla­ne­tas ou estre­las, já não é nada prático falar em metros, imagine quando estamos falando do uni­verso. Seriam tantos zeros ou pre­fi­xos tão impo­nen­tes que não con­se­gui­mos ter noção do que sig­ni­fi­cam. Por sim­pli­ci­dade, tra­ta­re­mos toda esta seção com valores aproximados.

O raio da Terra, que pode ser con­si­de­rada esfé­rica, é de apro­xi­ma­da­mente 6,3 Mm (6300 km, ou 6300000 m, essa repre­sen­ta­ção será uti­li­zada só desta vez, para escla­re­ci­mento). Se isso não é o sufi­ci­ente para você perder a noção de escala, o raio de Júpiter, o maior planeta do nosso Sistema Solar, é de quase 70 Mm (ou 70 mil quilô­me­tros), mais de 10 vezes o tamanho da Terra; enquanto o raio do Sol mede apro­xi­ma­da­mente 700 Mm, ou seja 10 vezes o tamanho de Júpiter, e o Sol não é uma estrela tão grande assim. Por esse motivo, quando os astrô­no­mos tra­ba­lham des­cre­vendo as estre­las, a unidade de medida mais comu­mente uti­li­zada é o Raio Solar.

Figura 2. Repre­sen­ta­ção artís­tica ilus­trando o Sol e os pla­ne­tas do Sistema Solar. Nesta imagem, o tamanho dos pla­ne­tas está em escala, mas a dis­tân­cia entre eles não. A dis­tân­cia seria muito maior. Cré­di­tos: WP, CC BY-SA 3.0, via Wiki­me­dia Commons

Mas para descrever as distâncias no espaço?

Como sabemos, a maior parte do espaço é vazia, então as dis­tân­cias entre os corpos são muito maiores do que eles mesmos. A dis­tân­cia entre a Terra e o Sol é de 150 MILHÕES de quilô­me­tros (150 Gm), mais de duzen­tas vezes o raio do Sol. Esta medida, a dis­tân­cia média entre a Terra e o Sol, é chamada Unidade Astronô­mica (au), e é uti­li­zada para des­cre­ver dis­tân­cias dentro da escala do Sistema Solar. Existem algumas formas de definir o tamanho do nosso Sistema, uma delas é con­si­de­rando a dis­tân­cia do objeto obser­vá­vel mais dis­tante ainda dentro do Sistema Solar, o planeta anão Sedna; este se encon­tra, no seu ponto de órbita mais dis­tante do Sol, a 940 ua desse e, por­tanto, defi­nindo o Sistema Solar com um raio de 140 Tm. 

Lembre-se, do que o tera (T) sig­ni­fica: um TRILHÃO. Para dar uma noção do absurdo da escala, pense em encher um HD de 1 TB com GIFs de 250 KB. A quan­ti­dade de GIFs neces­sá­rias para enchê-lo é pare­cida com a quan­ti­dade de pla­ne­tas Terra que seriam ali­nha­dos para atra­ves­sar o Sistema Solar de ponta a ponta.

Sei que o texto já está longo, mas ainda nem saímos do Sistema Solar. Pen­sando em uma viagem espa­cial, a estrela mais próxima que conhe­ce­mos, Proxima Cen­tauri, encon­tra-se a 270 kau, ou 40 Pm (40 QUADRILHÕES). Neste sentido, começa a ficar com­plexo tra­ba­lhar com a Unidade Astronô­mica, e come­ça­mos a tra­ba­lhar com o Ano-Luz (ly, do inglês light year), que repre­senta a dis­tân­cia per­cor­rida pela luz em um ano no vácuo. Como a velo­ci­dade da luz é cons­tante, temos que 1 ly é igual a 9,5 Pm, e a dis­tân­cia de Proxima Cen­tauri pode ser des­crita como 4,2 ly.

Nossa galáxia, a Via Láctea, é formada por 100 a 400 bilhões de estre­las dis­tri­buí­das no formato de um disco espiral, ou seja, há muitas dis­tân­cias inte­res­te­la­res dentro dela. O tamanho dela é, por­tanto, ordens de gran­deza maior do que o Ano-Luz. Seu raio é esti­mado em 90 kly, ou 90 mil anos-luz. A dife­rença de escala é enorme. Se o Sistema Solar fosse do tamanho de uma moeda, a Via Láctea seria do tamanho do Brasil, e estamos falando apenas de uma galáxia.

Mas e a escala do Universo?

Ele é formado por todo o espaço e tempo que conhe­ce­mos, con­tendo muitos pla­ne­tas, estre­las, galá­xias e outras formas de matéria e energia. De acordo com a teoria cos­mo­ló­gica mais aceita, a do Big Bang, o Uni­verso estaria expan­dindo a 13,6 bilhões de anos. Seu tamanho é des­co­nhe­cido, mas esti­ma­ti­vas indicam que ele teria, no mínimo, um raio de 11,5 tri­lhões de anos-luz (11,5 Tly).

É impor­tante lembrar: o que obser­va­mos ao olhar para muito longe, é o que acon­te­ceu naquele lugar há muito tempo. O que cha­ma­mos de Uni­verso Obser­vá­vel, ou seja, todo o espaço de onde a luz emitida estaria che­gando à Terra hoje, levando em conta que estas fontes de luz con­ti­nuam se movendo enquanto a luz vem ao nosso encon­tro, tem o seu raio esti­mado em 46 Gly, e segue expan­dindo ace­le­ra­da­mente. Essa é a escala do Uni­verso que vemos.

Silvana Fraga e Gabriel Perrone / Equipe AMLEF 2021

Curiosidade: Como medimos distâncias tão grandes?

Figura 3. Ilus­tra­ção do efeito de paralaxe.

Uma das formas como medimos dis­tân­cias fora do sistema solar é através de um efeito chamado para­laxe. Este efeito ocorre quando olhamos um objeto razo­a­vel­mente próximo contra um fundo dis­tante a partir de dois pontos dife­ren­tes. Para per­ce­ber este efeito, estique seu braço e levante seu dedo indi­ca­dor; observando‑o com um dos olhos fecha­dos, memo­rize a sua posição no plano de fundo, e depois olhe‑o apenas com o outro olho; há um des­lo­ca­mento na nossa per­cep­ção da posição do dedo rela­tiva ao plano de fundo que observamos.

Agora, se você con­si­de­rar que olhamos para uma estrela próxima (em relação às estre­las mais dis­tan­tes) em dois momen­tos do ano, com inter­valo de 6 meses, esta­re­mos em dois extre­mos da nossa órbita do Sol. Assim, cada obser­va­ção do objeto é como se fosse a obser­va­ção do nosso dedo com os olhos dife­ren­tes. A nossa per­cep­ção da posição da estrela obser­vada rela­tiva a estre­las mais dis­tan­tes muda, e a partir dessa medida podemos saber a dis­tân­cia dessa estrela ao nosso Sistema Solar. Essa forma de medida deu origem ao parsec (pc), a dis­tân­cia do objeto para que o ângulo de para­laxe seja de um segundo de arco (1’’), que é equi­va­lente a 3,6 ly. Esta unidade também é uti­li­zada como medida de dis­tân­cias inte­res­te­la­res ou maiores, mas para medir dis­tân­cias muito maiores é neces­sá­rio uti­li­zar outras téc­ni­cas muito mais complexas.


Saiba mais:


Referências:

  1. Wiki­pe­dia: Inter­na­ti­o­nal System of Units
  2. BIPM: Bureau Inter­na­ti­o­nal des Poids et Measures
  3. Wiki­pe­dia: Apollo Gui­dance Computer
  4. Wiki­pe­dia: 90377 Sedna
  5. Wiki­pe­dia: Universe
  6. Wiki­pe­dia: Obser­va­ble Universe
  7. Dis­tân­cias Astronô­mi­cas, aula da dis­ci­plina Fun­da­men­tos de Astro­no­mia e Astro­fí­sica do IF-UFRGS
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