Por Thais Ueda
Embora a arte tenha se tornado cada vez mais permeável e receptiva às inovações da tecnologia, é cada vez mais desafiador avaliar seus impactos, compreender e questionar seus ditames, além de conciliar o tempo tecnológico ao tempo dos processos de criação artística. A arte está constantemente aprendendo novos modos de ver e se abrindo para novas leituras e formulações, possibilitados pelo surgimento e desenvolvimento dos aparatos tecnológicos. Um exemplo, entre muitos, é a fotografia quadro a quadro de Muybridge, que desmitificou a ideia de que os quatro cascos do cavalo permanecessem no ar quando cavalgava. A fotografia, cujo surgimento causou grande repercussão sobre os pintores e os artistas na época, por décadas se impôs como o meio representacional testemunho dos fatos e o registro da memória e da verdade, além de contribuir para ampliação do conhecimento do mundo natural.
Desde então, horizontes inéditos se descortinaram para a arte com advento da tecnologia, abrindo oportunidades para os artistas materializarem suas obras em novos suportes. Se Walter Benjamin já havia apontado a conquista “de um lugar próprio entre os procedimentos artísticos” (BENJAMIN, 2013) dos avanços tecnológicos de mídias, tais como o cinema e – mais uma vez – a fotografia, a utilização de produtos pré- fabricados, frutos da sociedade industrial, tanto nos ready-mades quanto pelos artistas do minimalismo, promove um deslocamento do objeto à valorização do olhar, e ultrapassa a ideia da finalidade da tecnologia de estar somente à serviço da produção, se apropriando da divulgação e do consumo, principalmente em ambientes digitais, e se elevando a um nível de linguagem artística e, consequentemente, contribuindo a uma nova aparência da arte.
Partindo da perspectiva que engloba a natureza, desde sua apreciação e busca de entendimento até a incorporação e utilização da fauna e da flora em expressões artísticas, pode-se dizer que sua percepção e expressão na arte tem sido potencializada pela tecnologia e sua gama de possibilidades, oferecendo experiências estéticas e ampliando a capacidade de reinvenção para atender a desafios específicos e demandas das questões contemporâneas. Nesse sentido, instaura-se um encadeamento tríade que nos leva a indagar: como a arte pode nos revelar aspectos humanos das tecnologias? Quais relações são possíveis traçar entre natureza e tecnologia? Quais os efeitos e consequências da mediação da tecnologia no âmbito da junção arte e natureza?

Uma obra que abrange um repertório de manifestações envolvendo a ecologia – ressaltando os efeitos adversos das práticas preditivas de manejo das áreas produtivas e a crise socioambiental e alimentar – e a experiência estética é a obra Um campo da fome (2022) de Matheus Rocha Pita. A instalação é uma horta com 30 canteiros de barro geometricamente dispostos, onde sobre cada lote são dispostas peças de cerâmica em forma de frutas, raízes e legumes, num total de 9000 peças aproximadamente. O acesso à obra se dá por um caminho cimentado, que termina frente a uma placa de cerâmica com a inscrição “Um campo da fome / Matheus Rocha Pitta 2019/22”. No campo de visão do observador, a aridez e a monocromia sugerem um terreno estéril e carente. Mas as vistas aéreas da instalação nos instigam a
algumas questões.

Drones são amplamente utilizados no geoprocessamento, interpretação e análise de ambientes produtivos, mapeando e subsidiando a tomada de decisão sobre práticas com foco na produtividade e redução de custos. Se no caminho do progresso, a promessa que as tecnologias serão as grandes aliadas no aumento sustentável da segurança alimentar e da renda, a obra traz à tona a questão: como as tecnologias aplicadas à agricultura podem contribuir para o combate à fome através da produção de alimentos? Vista do alto, as fotografias de Um campo da fome assemelham-se tanto a um chip – pequeno dispositivo composto por microcomponentes que armazenam e processam dados – que busca uma conexão, como também pode nos remeter aos jazigos e sepultamentos em massa amplamente divulgados pela mídia nos momentos críticos dapandemia da Covid-19 em território brasileiro.
Segundo a Agência Brasil, a pandemia intensificou o uso de tecnologias digitais como a internet e dispositivos móveis, transformando os modelos de trabalho e a forma como as pessoas se conectam entre si. Por outro lado, houve o agravamento da fome, o descontrole da inflação dos alimentos e o aumento da desigualdade social. Aqueles que não tinham acesso ou não podiam usufruir dessas tecnologias se ornaram os “excluídos digitais”. Segundo Rocha Pitta, seu trabalho foi idealizado de forma a criar um vínculo com o manifesto Estética da Fome (1966), de Glauber Rocha, onde alguns elementos centrais como a fome, a violência e o povo ganham novos contornos num cenário que se situa entre a barbárie e a tecnologia.

Sob outra perspectiva, a obra Matrix, da artista japonesa Rei Naito, é uma celebração da vida. Única obra instalada no Museu de Arte de Teshima, na província de Kanagawa, no Japão, foi desenhada juntamente com o arquiteto Ryue Nishizawa. Se localiza no cume de uma colina, sobre um terraço de arroz restaurado em um trabalho conjunto com os moradores locais, e oferece uma vista panorâmica para o mar. O desenho da instalação explora o formato de uma gota d’água em repouso sobre uma superfície, mesclando propostas da chamada arquitetura cultural¹ com a arquitetura orgânica², isto é, uma edificação que apresenta estruturas fluidas, busca utilizar materiais sustentáveis e valoriza a luz natural. “A produção arquitetônica de qualidade na atualidade é marcada por uma considerável diversidade de conceitos e posições frente ao meio ambiente natural e construído” (CUNHA, 2010) que, neste caso, junto com a arte, possibilita a proposta de um ambiente multissensorial e imersivo em uma dimensão tecnológica harmônica.
Matrix, palavra de origem latina que, nos termos da geologia, se refere à rocha-mãe, propõe um espaço que remete ao útero. No espaço interior da obra, amplo e sem colunas, a água brota continuamente por pequenas perfurações do piso, que é levemente inclinado. Gotas de água surgem e fluem: às vezes se juntam a outras gotas d’água, formando estrias que correm ou param. Ora poças se acumulam ora crescem – como se estivessem respirando – ou se juntam a outras gotas. A vida, em sua fluidez, pode ser observada tanto nos movimentos contínuos das gotas, como também nas fitas suspensas ondulantes, na luz, na chuva e nos insetos que entram pelas suas aberturas. Para a artista, Matrix é uma obra que expressa a “continuidade entre a natureza, que forma a base deste mundo, e a vida na terra” e, nesse sentido, propõe uma experiência que permite ressignificar e reformular os paradoxos entre o avanço tecnológico, o fator humano e o meio ambiente.

Reconhecendo a impossibilidade de abordar em sua totalidade tanto o campo das artes – por sua extensão, multiplicidade de narrativas e abundância de conteúdos e signos – quanto o da tecnologia – em razão da dificuldade em acompanhar seu acelerado avanço no mundo contemporâneo – e considerando que o meio ambiente segue se modificando ao longo do processo histórico, assim como o entendimento sobre a natureza pelas diversas sociedades, nos resta questionar: como a arte produzida através da tecnologia continuará a expandir a nossa capacidade de experiência e reflexão, e como sua incorporação, por meio dos procedimentos, nos auxiliará na produção e transformação do conhecimento da vida no planeta?
A arte não existe separadamente da realidade, de modo que, assim como todos os outros campos do conhecimento, não pode ser analisada independentemente uns dos outros. Nesse contexto, ela pode desempenhar um papel crucial na compreensão da relação entre o ser humano, a natureza e as descobertas tecnológicas que, se por um lado, provocam desconfiança quanto ao futuro, resistência às inovações disruptivas ou uma sensação de desumanização, por outro, incorporadas às linguagens artísticas, podem auxiliar a articular futuros possíveis, instigando a imaginação e enriquecendo e ressignificando a experiência de vida.
¹ ”A arquitetura cultural é definida pela experiência humana. Como locais de encontro e intercâmbio, os equipamentos culturais aproximam as pessoas. Esses projetos são feitos para nos conectar a ideias maiores e uns aos outros. De museus a teatros e bibliotecas, os projetos culturais refletem a vida contemporânea. Como lugares de socialização, a arquitetura cívica também se torna referência e ícone. Por sua vez, essas obras monumentais repensam como a cultura é compartilhada e celebrada.” (BALDWIN, Eric. Projeto monumental: 10 práticas globais que redefinem a arquitetura cultural. Architizer. 20-. Disponível em: https://architizer.com/blog/inspiration/collections/global-practices-rethinking-cultural-architecture/ . Acesso em 13 de junho de 2023.)
² “Arquitetura Orgânica é um dos estilos da chamada “escola futurista”, dentro da arquitetura modernista. (…) Criada pelo arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright, a arquitetura orgânica encontra correspondência no trabalho de renomados profissionais do Design Humanista, como Antoni Gaudí e Rudolf Steiner” (Arquitetura orgânica: o que é, como surgiu e quais os seus princípios. Anama. Disponível em: https://www.somosanama.com.br/postagem/27/arquitetura-organica-o-que-e-como-surgiu-e-quais-os-seus-principios Acesso em 13 de junho de 2023) e busca promover a harmonia entre natureza e as edificações humanas, por meio da integração dos espaços internos e externos com o ambiente
natural.
REFERÊNCIAS
Agência Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021- 11/estudo-mostra-que-pandemia-intensificou-uso-das-tecnologias-digitais . Acesso em 14 de junho de 2023.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Ebook. L&PM Editores, 2013, Porto Alegre.
CUNHA, Eduardo Grala. Discussão sobre o papel da tecnologia no processo de concepção arquitetônica contemporânea: o caso Norman Foster. Arquitextos, 2010. Vitruvius. Disponível em: < https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.118/3369> . Acesso em 15 de junho
de 2023.
Discussões sobre fome e violência pulsam a expansão do acervo da usina de arte. DasArtes, 2022. Disponível em: < https://dasartes.com.br/de-arte-a-z/discussoes-sobre- fome-e-violencia-pulsam-a-expansao-do-acervo-da-usina-de-arte/>. Acesso em 10 de junho de 2023.
NUNES, Mateus. Recolher a Fome. Select, 2022. Disponível em: https://mateus- nunes.com/Matheus-Rocha-Pitta-Recolher-a-fome. Acesso em 10 de junho de 2023.
Rei Naito: Landscape is a scene of life upon Earth. TLMAG, 2022. Disponível em: <
https://tlmagazine.com/rei-naito-landscape-is-a-scene-of-life-upon-earth/> Acesso em
10 de junho de 2023.
Ryue Nishizawa: Teshima Art Museum. HIC. Disponível em: https://hicarquitectura.com/2023/05/ryue-nishizawa-teshima-art-museum-2/. Acesso em10 de junho de 2023.