Astrônomo também é gente: histórias de quem faz o departamento de Astronomia – Rogério Riffel

Rogério Riffel, professor e pesquisador do departamento de Astronomia da UFRGS, em seu ambiente de trabalho (2019)

Na primeira entrevista desta série conversamos com Rogério Riffel, natural de Alegria (RS), que é professor e pesquisador do departamento de Astronomia da UFRGS desde 2010. Suas áreas de interesse são: Astronomia Extragaláctica, Galáxias Ativas, Buracos Negros supermassivos, Populações estelares e processos físicos em gás ionizado.

Falamos sobre a sua trajetória, desde os tempos do ensino fundamental até a posição de professor. Abordamos a importância dos que lhe deram força para continuar neste caminho, os sucessos e as lições que ficaram, hobbies, inspirações e conselhos para quem está começando.

Confira a entrevista abaixo:

 

AstroUFRGS: Como começou a sua vida escolar?

Rogério Riffel: Até a 4ª série eu estudei numa escola do interior de Alegria (RS) que ficava a 2 km de casa, e eu e meu irmão íamos a pé todos os dias. Na quinta e sexta série não tinha escola perto, então tínhamos que caminhar 12 km, somando a ida e volta. Depois mudei de escola para fazer a sétima, oitava e o ensino médio (antigo segundo grau), e essa escola ficava a 8 km de casa pelo caminho mais curto. Felizmente tinha um ônibus escolar! Porém ele fazia um trajeto de 70 km pela estrada de chão e demorava 1h30 para chegar na escola.

Rogério Riffel em 1994, então na 8ª série (atual 9º ano)

 

AstroUFRGS: Você trabalhava neste período?

Rogério Riffel: Meus pais eram pequenos agricultores, então eu chegava em casa por volta das 13:30, almoçava rapidinho e ia pra lavoura. Lá a gente trabalhava a tarde toda e ainda havia todo o trabalho com os animais (vacas leiteiras, porcos, etc). Finalizávamos tudo perto das 21h.

 

AstroUFRGS: E quando você estudava?

Rogério Riffel: No ônibus.

 

AstroUFRGS: O seu ensino de ciências foi como?

Rogério Riffel: Todos meus professores foram muito bons e no ensino médio, quando eu estudei no melhor colégio da cidade -o único (risos)-, tive um professor excepcional. Teve uma aula que eu me lembro vividamente em que ele fez uma bobina para explicar como ele poderia magnetizar uma barra de ferro. Acabou derrubando a energia do prédio e fez a barra voar! (risos)

 

AstroUFRGS: De onde surgiu a ideia de fazer graduação?

Rogério Riffel: Quando eu estava no 3º ano um ex-aluno foi no colégio e falou das vantagens de ir pra UFSM. Ele explicou que existia a casa do estudante, um lugar pra morar sem pagar nada, e que era possível pedir isenção da taxa de inscrição do vestibular. Assim, eu e meu irmão (Rogemar), que é astrofísico também, e mais 3 colegas nos reunimos e decidimos ir fazer o “tal” vestibular.

 

AstroUFRGS: Qual foi a reação dos seus pais com essa decisão?

Rogério Riffel: Foi uma discussão porque eu e meu irmão ajudávamos eles na lavoura e teríamos que sair de casa para estudar. Mas ao mesmo tempo meus pais sempre tiveram a ideia de que a gente não deveria sofrer tanto quanto eles na lavoura e nos incentivaram muito a estudar. Não tínhamos dinheiro para custear um cursinho pré-vestibular, mas depois de tanto incomodar em casa, um dia nossa mãe disse brava “Então vão, façam! Daremos um jeito de pagar” e a gente foi. Prestamos vestibular para licenciatura em Física e ambos fomos aprovados.

 

AstroUFRGS: E como foi a transição para a faculdade?

Rogério Riffel: No colégio eu tinha muita facilidade, então pensei “fazer a graduação sem ter que ir pra lavoura, sem precisar andar 3h por dia de ônibus… com todo esse tempo pra estudar é certo que vou gabaritar todas as provas”. Minha primeira prova foi de cálculo I e eu resolvi que eu ia estudar muito; comecei meio dia antes (era muito tempo para mim). Eu nunca mais esqueci, tirei 3,7 na prova e então comecei a estudar de verdade. Isso é uma coisa que eu sempre falo pro pessoal: é uma mudança muito grande.

 

Minha primeira prova foi de cálculo I e eu resolvi que eu ia estudar muito; comecei meio dia antes (era muito tempo para mim). Eu nunca mais esqueci, tirei 3,7 na prova e então comecei a estudar de verdade.

 

AstroUFRGS: Quando surgiu o interesse em astrofísica?

Rogério Riffel: Eu sempre gostei de tentar entender o céu e coisas assim, mas não tinha Astrofísica (o curso de bacharelado) em Santa Maria. Mas soube de um professor na Matemática, o Marcus Copetti, que era astrônomo e acabei fazendo uma disciplina com ele, de métodos computacionais. Eu gostava das aulas, tomei coragem e fui pedir pra fazer pesquisa. Logo consegui uma bolsa, mas nesse meio tempo ele foi pros Estados Unidos fazer um pós-doutorado. Ou seja, minha Iniciação Científica (IC) foi basicamente por e-mail e com a ajuda dos estudantes de Pós Graduação dele.

 

AstroUFRGS: Então você seguiu para o mestrado?

Rogério Riffel: Eu passei na prova do mestrado da UFSM e falei que queria trabalhar com ele (Copetti), que ainda estava viajando.  Quando ele voltou eu estava fazendo um trabalho que eu não gostava, que era catálogos, e falei “pode me mandar embora, mas não quero mais esse trabalho, quero trabalhar com redução de dados”. Já estava em cima da hora para mudar o projeto, mas consegui trabalhar com o que eu queria. Você não precisa fazer um projeto que você não quer. Converse com seu orientador e esteja aberto ao novo.

Como o tempo estava apertado resolvi fazer as coisas da forma que sabia: à mão. Quando terminei as primeiras contas, umas 10 páginas, fiquei todo feliz… até que o Oli (mestrando do Copetti) me disse “e se tu errou na segunda linha?” o que me deixou encucado. Para evitar erros assim comecei a programar, o que tornou o trabalho de correção muito mais eficaz e o trabalho em si mais eficiente.

 

Você não precisa fazer um projeto que você não quer. Converse com seu orientador e esteja aberto ao novo.

 

AstroUFRGS: E o doutorado?

Rogério Riffel: Eu fiz a seleção pro doutorado em Santa Maria e estava em primeiro lugar, mas decidi ir para a UFRGS em Porto Alegre. Eu queria estudar AGNs (galáxias de núcleo ativo). Decidi trabalhar com a Miriani e foi a decisão mais sábia que eu poderia ter tomado, porque ela é uma pessoa fantástica.

Quando vim conversar com ela sobre o projeto pela primeira vez, cheguei na sala dela e encontrei ela e uma aluna de IC submetendo um projeto no computador. Então aconteceu algo que para mim era inimaginável: a aluna disse “bate aqui” e a Miriani bateu na mão dela e riu feliz… e eu não era acostumado com isso, devido a personalidade mais recatada do meu antigo orientador. Essa é uma imagem que eu nunca mais esqueço.

Para o meu projeto de doutorado eu precisava de uma observação com telescópio para obter dados. Pedimos tempo no telescópio mais de uma vez (os pedidos só podem ser feitos duas vezes ao ano), mas não conseguimos. Então a Miriani me passou dados que ela já tinha relacionados com o infravermelho e isso acabou se tornando meu projeto. No início de 2005, nós começamos a escrever o primeiro artigo. Eu gostei muito porque estávamos lidando com moléculas, que são bem complexas, fazendo a diversão ser muito maior! Depois disso, fizemos um atlas estudando os espectros de 50 AGNs no infravermelho próximo.  Esse é um dos meus artigos mais citados e eu fiquei muito feliz por escrevê-lo.

Rogério durante o doutorado

 

AstroUFRGS: Qual sua maior conquista?

Rogério Riffel: Eu diria que a maior conquista científica é ter o trabalho das populações estelares do infravermelho reconhecido; é você fazer trabalhos que as pessoas vão citar, que as pessoas vão saber quem é o “tal do Riffel” que fez o trabalho. Mas a maior conquista profissional é conseguir ser um bom professor; os alunos virem conversar e te dizer “eu gostei muito da tua aula” ou também com críticas construtivas. Essa construção é o mais importante.

Pra mim, foi uma satisfação absurdamente grande ter sido o paraninfo de duas turmas.  Então, eu acho que isso é uma coisa que me faz levantar todos os dias: vir pra cá e ver que as pessoas gostam de aprender aquilo que você está tentando ensinar, que é a tua paixão, ensinar algo que você realmente gosta para as pessoas.

Então, eu acho que isso é uma coisa que me faz levantar todos os dias: vir pra cá e ver que as pessoas gostam de aprender aquilo que você está tentando ensinar, que é a tua paixão, ensinar algo que você realmente gosta para as pessoas.


AstroUFRGS: O que te intriga mais sobre o Universo?

Rogério Riffel: Eu não vou falar que são as AGNs por que isso fica muito óbvio (risos). Eu diria que o que me levou pra astronomia é simplesmente você estar andando numa noite num local escuro de verdade e olhar para o céu e tentar entender o que tem lá em cima usando o que a gente mais gosta que é saber como as coisas funcionam. Curiosidade é a palavra que resume tudo, eu acho que um estudante de Física que não tem curiosidade não está no caminho certo.


AstroUFRGS: Qual é o seu cientista favorito?

Rogério Riffel: Eu podia dizer que é a Miriani, que é uma senhora de quase 80 anos que vem com uma boa frequência pro campus para trabalhar. Ela tem um espírito científico fantástico, é uma mulher desbravadora. Imagina tudo que tinha contra ela! Uma mulher que foi expulsa do país dela por um regime militar e é uma mulher que, perto dos 80 anos, ainda tem um espírito educador que se dedica desde aluno de IC até colaborações internacionais. Por isso, ela é uma baita inspiração pra gente.


AstroUFRGS: Tem alguma indicação de filme?

Rogério Riffel: Um filme que me chamou muita atenção e que me aguçou muito a parte astronômica foi Contato, que eu vi quando um professor da graduação arrastou uma TV para a sala e o colocou para assistirmos. É um dos filmes que eu mais gosto. Um outro filme fantástico é O Jovem Einstein, que é uma comédia e tem um monte de coisas legais, por exemplo como o Einstein fez as descobertas dele, de modo errado, engraçado e muito bem humorado (risos).


AstroUFRGS: E de livro?

Rogério Riffel: Cosmos. É um livro à frente do seu tempo, assim como o seu autor (Carl Sagan). Outro livro que vale a pena ler é O Arco-Íris de Feynman. Ele não foi escrito pelo (Richard) Feynman, mas todo o estudante deveria ler. Não por ser um bom livro científico, mas por ser um livro que trata de um problema que todos vão passar alguma vez na sua vida chamada síndrome do impostor.

É muito importante a gente fazer as coisas da forma mais séria que a gente pode, seja aqui (Brasil) ou em qualquer lugar.

 
 

AstroUFRGS: Você tem algum conselho para os estudantes?

Rogério Riffel: É muito importante a gente fazer as coisas da forma mais séria que a gente pode, seja aqui (Brasil) ou em qualquer lugar. Não adianta você ir para Harvard e ir passear, você tem que ir pra fazer as coisas da maneira mais séria que você puder fazer.

Acho que o laboratório é um lugar bacana para trabalhar porque é possível compartilhar muitas coisas e é legal também essa miscigenação de alunos de diferentes áreas. Outro ótimo conselho é: ajudem os colegas, porque se vocês trabalharem em equipe é mais fácil de fazer as coisas; não se isolem nas coisas de vocês.

Mais uma experiência que acho que vale a pena passar adiante: pensar em desistir é normal. É incalculável o número de vezes que a gente acorda de manhã e pensa “P*ta m*rda, não quero mais isso. Eu já tenho 23, 24, 30 anos e eu não tenho um emprego”, mas isso vai passando. E coloquem metas, isso vai fazer com que vocês não pensem muito e façam a coisa da melhor forma possível. E como você que está no mestrado consegue um doutorado? Fazendo o mestrado do melhor jeito possível. Obviamente tudo com responsabilidade pra você ter o tempo livre pra ouvir uma música, correr, namorar, jogar bola… isso faz parte.

Por último, procure ajuda: às vezes, é simplesmente falar mal dos professores com os colegas (risos). Você pode odiar o professor, mas a gente nunca pode odiar a disciplina que ele ta dando e o que ele está tentando te ensinar.

Pensar em desistir é normal

 
 

AstroUFRGS: Algum recado final?

Rogério Riffel: Estamos num período difícil, com pouco investimento em pesquisa, mas vai passar. Isso são os altos e baixos de um país que não é cientificamente maduro para se ter um investimento sólido e de longo prazo em ciência.

Em parte, a culpa é nossa, porque as pessoas não sabem o que a gente faz aqui (Universidade). A gente tem que levar isso para as pessoas entenderem cada vez mais que o que fazemos é importante; que ser cientista é importante, que somos pessoas normais, não um cara maluco de jaleco branco e com os cabelos em pé. Além disso, mostrar o quanto a gente sofre, porque é uma carreira muito sofrida,  por conta destes cortes de financiamento que geram muitas incertezas, mas que no final, o avanço científico serve para todos os cidadãos melhorarem de vida.

É preciso ter muita paixão pela profissão, se não você não aguenta. Você aguenta virar cimento o dia inteiro, mas não aguenta fazer uma pós-graduação se não tiver paixão. É uma dedicação muito intensa: abdicar de estar com as pessoas que a gente gosta muitas vezes e tentar a todo o custo manter a sanidade mental. Mas isso é temporário, depois as prioridades mudam e a gente amadurece, consegue compreender a carreira melhor.

E outra coisa: com que idade um doutor consegue emprego? Acima dos 30 geralmente. Temos políticas/ideologias que são perversas e severas com isso: “Agora tu te formou, tu não vai começar a trabalhar? Tu não vai começar a ganhar dinheiro agora? Mas tu ainda tá estudando?” As pessoas não entendem que isso é o nosso trabalho, que viemos todos os dias trabalhar para receber uma bolsa que nada mais é do que o pagamento da tua dedicação pelo teu trabalho. Mas a questão é que isso é uma bolsa, não te traz nenhum benefício social (tipo contribuição para previdência) e se algo tiver que ser cortado do orçamento é uma das primeiras coisas que  está na mira. Os governantes e a sociedade precisam entender que a bolsa não é uma bonificação, é o salário de alguém que dedica-se integralmente ao seu trabalho.

As pessoas não entendem que isso é o nosso trabalho, que viemos todos os dias trabalhar para receber uma bolsa que nada mais é do que o pagamento da tua dedicação pelo teu trabalho

 
 
 

Equipe Astro UFRGS

Eduardo Hartmann, Jamile Fritzen, João Pedro Benetti, Pedro Henrique Cezar, Stéfani Almeida Villa