Negritude e Tecnologia no Sistema das Artes na Pandemia de 2020

Esse projeto nasce da minha vontade de abrandar inquietações que transpassam toda a minha trajetória de vida. Sendo uma mulher negra nascida no sul global, as questões de raça, colonialidade e gênero são inerentes a minha vivência e, ao decorrer da minha vida acadêmica, tornou-se imprescindível dar atenção a essas inquietudes. Logo, fortuitamente, essas temáticas acabam sempre tomando importância nos textos e trabalhos nos quais me engajo. Segundo Grada Kilomba (2016, p. 8)

Descolonizar o conhecimento significa criar novas configurações de conhecimento e poder. […] Vale a pena relembrar que a teoria não é universal nem neutra, mas sempre localizada em algum lugar e sempre escrita por alguém, e que este alguém tem uma história.

“III: Búzios, espadas e outros mistérios para autocuidado e fuga da ilógica em períodos de isolamento social”, 2020, Linoca Souza

Em outras palavras, quando aquele que produz o conhecimento se diz neutro, está tentando escondendo o contexto de onde fala, o que, para Kilomba (2016, p. 8), é impossível, já que todos, especificamente aqueles que detêm o poder da fala, “escrevem de um lugar específico, que […] não é neutro nem objetivo, tão pouco universal, mas dominate”.

O momento inédito que vivemos – a pandemia viral mundial – demanda atenção especial, uma vez que o mundo se depara com uma série de mudanças abruptas e inevitáveis. Desde maio de 2020, as iniciativas feitas pelas instituições de arte para superar as restrições impostas por esse cenário vêm sendo objeto de pesquisa no Projeto Territorialidades na Arte Contemporânea: Experiências Artísticas na internet no Brasil, grupo de pesquisa coordenado pela Profª Drª Maria Amélia Bulhões, no qual sou bolsista voluntária. Compreender as escolhas feitas por instituições e analisar o porquê elas estão sendo feitas são ações necessárias para que tenhamos um panorama do que foi feito e dados para planejar quais as melhores ações para o futuro.

As instituições se voltaram para o meio digital como alternativa para manter o vínculo com seu público e passaram a criar projetos específicos para esse cenário. É o caso do Instituto Moreira Salles, que, entre outras iniciativas do Projeto #IMSquarentena, criou o IMS Convida. Segundo o site, o Programa é

formado por projetos individuais comissionados pelo IMS, que ficarão disponíveis para o público no site e nas redes sociais da instituição como IMS Quarentena – Programa Convida. Serão contemplados cerca de 50 criadores [na primeira etapa], nas áreas de atuação do Instituto: fotografia, cinema, música, literatura, artes visuais e desenho gráfico. Foram convidados segundo critérios que levam em conta a diversidade de identidades presentes no Brasil – de raça, gênero, regionalidade, contexto social e cultural.

Instituto Moreira Salles (2020)

No momento em que escrevo – março de 2021 – o programa está em sua terceira etapa e disponibiliza 171 projetos em seu site, todos digitais, em diversos formatos, desde podcasts, entrevistas, obras de arte digitais, curtas, entre outros. 

A compreensão da Internet para além de um repositório de links e o reconhecimento de sua produção artística  são  fatores determinantes, mas o investimento em pesquisa  e  criação  são  decisivos.  Esse  é,  sem  dúvida,  o único antídoto eficaz ao tsunami das  lives  e visitas virtuais.

Giselle Beiguelman (2020, p. 22)

O que mais chama atenção no projeto do Instituto Moreira Salles é a curadoria de artistas – em sua maioria mulheres, negras, indígenas, trans, periféricas, etc. – que foram chamados a participar e o torna interessante para essa pesquisa.

Partindo de uma base conceitual de um sistema da arte como conjunto de 

indivíduos e instituições que, atuando em uma complexa rede de interrelações, são responsáveis pela produção, a difusão e o consumo de objetos e eventos, por eles mesmos rotulados como artísticos, e, também, pela definição dos padrões e limites da arte para uma sociedade em um determinado momento

(BULHÕES, 1990, p. 17 apud BULHÕES, 2020, p. 116)

Voltamos nosso olhar para os artistas e coletivos que foram selecionados para o projeto. Fazendo uma estimativa rápida pelos textos de apresentação e fotos dos artistas e coletivos, é possível aferir que 98 deles são artistas não-brancos e 47 brancos, 69 são mulheres e 60 são homens, 10 são transexuais, travestis ou pessoas não binárias, 15 tem militância LGBTQIAPN+, 80 são de fora do eixo Rio-São Paulo, enquanto 85 estão inseridos no centro cultural e econômico do país. Esses números demonstram um empenho significativo por parte da instituição em buscar vozes que não ecoem o padrão que há séculos perdura no sistema da arte. 

Print da página do Programa Convida

Ao falar da pouca presença negra na história da arte brasileira, Igor Simões (2020, p. 371) afirma que

ao nos depararmos com a dificuldade de elencar nomes [de artistas negros na história da arte], teremos sim, de pensar que estamos tentando erguer um trabalho que nos atravessa como herdeiros de uma sociedade de matriz colonial baseada na coisificação de sujeitos negros e logo, na dificuldade de reconhecimento destes como figuras autorais.

No tocante ao assunto de arte afro-brasileira, algumas questões se colocam, uma vez que “como uma categoria autônoma, de fato não poderia existir” (MENEZES, 2018). Há diversos dilemas sobre como definir aqueles que fazem arte afro-brasileira. Seria necessário ter a pele escura e somente isso? Ou, para além da autoria ser ou não de uma pessoa negra, é preciso ter em vista a forma e o tema da obra? Durante as últimas décadas, essa discussão está muito presente nos círculos de especialistas da arte. Menezes (2018), ainda que não determine o que é uma arte afro-brasileira, coloca que “‘arte afro-brasileira’ como uma categoria política de reivindicação de visibilidade e reconhecimento da arte feita por mãos negras, não só existe como adquire uma importância fundamental”. Logo, as obras feitas por artistas negros no projeto do Instituto Moreira Sales se tornam importantes por serem um passo a frente nessa busca por representatividade. 

Outra característica importante que está presente em todas as obras, é que o seu suporte é digital. Todas as obras não apenas são disponibilizadas pela web, mas foram pensadas e construídas através dela, uma vez que, devido a pandemia, o encontro pessoal se torna impossível. A tecnologia, segundo o filósofo chines Yuk Hui (2020, p, 132) é “o suporte […] do pensamento e o meio pelo qual o pensamento é herdado e transformado”, ou seja, a tecnologia, ainda que vista de forma neutra e universal, carrega consigo vieses ontológicos e epistemológicos. Esses vieses vêm daqueles que exportam não apenas as tecnologias, mas seu modo de vida, sua visão de mundo e de humanidade: primeiramente a Europa, através dos processos de colonização e mais recentemente os Estados Unidos da América, com o imperialismo. Segundo Hui (2020, p. 19), “sem confrontarmos o conceito de tecnologia em si, dificilmente seremos capazes de preservar a alteridade e a diferença”. O conceito da Cosmotécnica, proposto pelo autor, seria “a unificação do cosmos e da moral por meio das atividades técnicas, sejam elas da criação de produtos ou de obras de arte” (HUI, 2020, p. 39). Existiriam muitas cosmotécnicas, que seriam formadas por morais, cosmos e sujeitos diversos e a união dessas peças se daria através de dinâmicas próprias.

É a partir dessa provocação que se constrói o projeto de pesquisa que estou desenvolvendo, o desejo de analisar de que forma as mudanças no Sistema da Arte causadas pela pandemia de COVID-19 impactaram a introdução de obras de arte afro-brasileiras e artistas negros em suporte digital. Pretendo analisar a curadoria dos artistas pretos por parte do Instituto Moreira Salles no projeto #IMSquarentena e as obras que nasceram dessas parcerias. Mignolo (2017, p. 31), ao falar daqueles que se opõe ao colonialismo, irá dizer que 

A sociedade […] está constituída não por milhares, mas por milhões de pessoas que se agrupam em projeto para ressurgir, reemergir e re-existir. Isto já é não só resistir, porque resistir significa que as regras do jogo são controladas por alguém a quem resistimos. Os desafios do presente e do futuro consistem em poder imaginar e construir uma vez que nos liberamos da matriz colonial de poder e nos lançamos ao vazio criador da vida plena e harmônica.

É com fundamento nessa ideia que parte esse projeto: no desejo de imaginar outros futuros possíveis, em que não haja apenas uma forma “correta” de pensar e que a diferença possa ser celebrada e não excluída.

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