O Museu no Instagram: arte, exposição e a visibilidade de práticas museológicas

A leitura escolhida para discussão no último seminário do grupo de pesquisa foi o texto “O museu no Instagram: arte, exposição e a visibilidade de práticas museológicas”, escrito pelo professor do Departamento de Artes Visuais e do curso de Museologia da Universidade de Brasília, Emerson Dionísio Gomes de Oliveira, onde ele busca debater sobre como a cultura digital, mais especificamente a plataforma Instagram, pode ser utilizada pelos museus como estratégia na divulgação de seus acervos, exposições e demais práticas museológicas. Para isso, entre março de 2017 e março de 2020, foram investigadas em sua pesquisa as publicações de 54 instituições de 14 países diferentes (África do Sul, Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, Espanha, Estados Unidos, Holanda, França, Itália, México, Portugal e Reino Unido), dando ênfase às brasileiras, no intuito de compreender as relações da mídia social com as políticas de visibilidade nos museus.

É evidente que as mídias sociais são uma ferramenta indispensável para a comunicação e expressão na Internet, possibilitando interações imediatas que permitem ao usuário compartilhar sua identidade, seus gostos e acompanhar páginas que o interessam. Nesse sentido, a pesquisa de Emerson Dionísio, tem como parâmetro as páginas oficiais do Instagram, que por ser uma rede social movida pelo uso da imagem visual como condição de comunicação entre seus usuários, estabelece o valor estético e experiencial como parte de um sistema de criação, consumo e circulação de sensações, prazeres e conhecimento. Assim, podemos nos render a pressuposição de que essa rede, em especial, atende necessidades pontuais de instituições que tem na visualidade sua missão principal. (DE OLIVEIRA, 2020) As páginas dos museus em redes sociais como o Instagram, portanto, se tornam essenciais para compreendermos como estes, através de táticas visuais como adesão a uma estética e uso de elementos de edição, administram a sua visibilidade por meio das estratégias de publicidade possíveis dentro da plataforma digital e assim constroem sua autoimagem.

Perfis no Instagram de algumas das instituições analisadas no texto. Fonte: Instagram

O Instagram foi escolhido pelos atores do sistema das artes visuais como principal ponto de encontro na internet atualmente, não só pela rica linguagem visual que a rede social permite, mas também por possibilitar um espaço que abrange desde a própria criação artística, práticas curatoriais, marketing institucional e até o mercado de arte. No entanto, de acordo com o autor, as instituições museológicas encontram um grande desafio no tocante aos processos de comunicação por meio desta mídia social: a necessidade de construir uma identidade pública por meio de suas práticas e ações dentro do imperativo de conectar uma ordem institucional e burocrática à dimensão pessoal, emocional, imaginária e intuitiva de seu visitante. (DE OLIVEIRA, 2020) Ou seja, além de utilizar as ferramentas visuais para uma construção da identidade estética atrativa, a instituição deve elaborar, por meio de suas ações de comunicação e conteúdos digitais, uma “personalidade” que cative os visitantes, gerando o sentimento de identificação. A adoção destas práticas identitárias é benéfica para a instituição na medida em que acaba gerando o engajamento dos visitantes em seu perfil na rede social, o que propicia a publicidade através das imagens e outros conteúdos que são compartilhados, “curtidos” (likes) e indexados (hashtag).

Uma das alternativas para a construção dessa identidade digital é a comunicação acessível e inclusiva nas mídias sociais, demonstrando um caráter descontraído que busca manter o debate e uma interação dinâmica nos perfis das instituições. Por isso, se tornaram recorrentes postagens dos bastidores dos museus, que mostram a intimidade e rotina de montagem das exposições, no intuito de aproximar o visitante do ambiente artístico, o que o autor chamará de “a performance dos bastidores”. Outro aspecto importante na criação de elos entre o público e instituição é o crescente destaque para as atividades dos programas educativos, cada vez mais veiculados e incentivados. Nesse sentido também se percebe o protagonismo dos próprios artistas, que tem a presença solicitada pelas instituições e dessa forma são conhecidos e reconhecidos pelo público, atuando diretamente nas estratégias de comunicação, bem como, nos processos educativos agindo como “facilitadores da experiência poética”, como define o autor. Dessa maneira, as instituições realizam as suas “missões identitárias”, e também constituem sua agenda pública e publicável, onde divulgam as atividades mencionadas.

Publicações nos perfis do Museu de Arte do Rio Grande do Sul e do Museu de Arte Moderna da Bahia, divulgando suas agendas e destacando seus programas educativos. Fonte: Instagram
Publicações no Instagram das Instituições exibindo seus bastidores. Fonte: Instagram

Embora a promoção das instituições museológicas através das mídias seja positiva, restringir o uso das mídias sociais somente a uma vantagem partidária, não é a opção mais compatível com uma rede social que tem como objetivo conectar os usuários. Nas instituições observadas na pesquisa, percebeu-se que a maioria delas tratam o Instagram como mais um veículo de comunicação, consolidado numa relação unidirecional com seu “público” virtual (OLIVER, 2012 p, 36) Enquanto no exterior, uma minoria de instituições compreendeu o potencial do contato e interação entre os visitantes, o qual permite enriquecedoras trocas culturais e uma nova forma de marketing que inclui a visão criativa do visitante: as imagens feitas pelo público nas instituições. Ato que um dia foi proibido nos museus, hoje se torna um meio conectar os consumidores de arte gerando movimentos nas redes sociais como o Museu Selfie Day, iniciado na rede Tumblr em 2014, que estimulava os visitantes a produzirem selfies enquanto visitavam exposições, bem como, a ação realizada em 2012 pelo Museu Real de Ontário, a Friday Night Live: uma mostra anual que exibia o conteúdo compartilhado sobre o museu em mídias sociais dentro da instituição (DODGE, 2018). Esse modo de participação do visitante como produtor de imagens, identificado pelo autor no texto como “performance do público exposto”, tem sido tema de estudos ao redor do mundo, na medida em que o seu olhar participa ativamente na percepção da obra de arte, possibilitando novas interpretações visuais.

Publicação encontrada no perfil da Pinacoteca de São Paulo, incentivando os visitantes a fazerem fotografias, divulgando-as em seu perfil. Fonte: Instagram


Conforme Emerson, além de estimular outros a visitarem o museu, a atuação do público impacta na identidade da instituição ao se tornar uma linguagem que reúne o corpo do visitante nos espaços expositivos e estabelece diferentes formas de retratos e autorretratos, introduzindo a performance do visitante como aspecto incontornável das políticas de visibilidade das instituições. (DE OLIVEIRA, 2020).

Imagens dos visitantes participando do movimento Museum Selfie Day, encontradas através da hashtag #museumselfieday. Fonte: Instagram
Imagem de publicações no Instagram dos visitantes nas Instituições. Fonte: Texto “Museu no Instagram”, figura 10.

Sem dúvida o texto de Emerson Dionísio expõe a importância das redes sociais, dado que proporcionam um ambiente comunicacional que proporciona a visibilidade e promoção das instituições de arte, sendo capaz de atingir públicos diversos, para além dos seletos grupos eruditos, incentivando o consumo da cultura de forma acessível. Sendo assim, é fundamental que nos dias de hoje os profissionais do sistema da arte reconheçam o potencial dos recursos digitais como aliados na promoção das práticas artísticas, sempre lembrando que a experiência artística “ao vivo” nunca será substituída, mas pode ser ainda mais rica com o complemento de plataformas como o Instagram, onde o sentido de exposto vai além da presença.

Referências:

DE OLIVEIRA, Emerson Dionísio Gomes. Museu no Instagram. Museologia & Interdisciplinaridade, v. 9, n. Especial, p. 103–131, 2020. Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/museologia/article/view/31740>. Acesso em: 15 set. 2021.

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