A atuação do mercado de arte no instagram

Os anos de 2020-2021 (em decorrência da pandemia de COVID-19) trouxeram, especificamente as plataformas digitais, significativas reflexões sobre o modelo comportamental da sociedade, seja no consumo de informação, relacionamentos, entretenimento, que por fim, também afetou de certa maneira, o modo de consumir e comercializar arte. Em virtude do confinamento, o cenário artístico do país se viu sem grandes perspectivas de um contato direto com o público, sem conteúdo artístico e cultural criado para a web, aderiram aos únicos campos da vida on-line que conhecem: redes sociais, e-commerce e saídas de emergência apontadas para o Google Arts Institute (BEIGUELMAN, 2020, p. 21)

Em vista disso, a pesquisa  se inicia a fim de compreender a influência que as plataformas digitais, em especial o Instagram, tem enquanto “agente” de circulação/movimento do mercado de arte de Porto Alegre, que por ser um dos principais canais de interação, é capaz de gerar uma forte inclinação de jovens colecionadores em busca da ferramenta digital para venda e compra de obras de arte. Além de pensar na própria plataforma como suporte para a criação de novas narrativas estéticas auxiliando na criação de linguagens visuais a partir das redes sociais como uma própria visão do mundo.

O tema surgiu a partir da leitura do texto Notes on Instagrammism and mechanisms of contemporary cultural identity (2016) do pesquisador Lev Manovich, no qual ele apresenta o termo Instagramismo sendo uma combinação estética de forma, mídia e conteúdo que seguem características similares. Entre elas, o cenário escolhido, objetos e filtros que saturam as cores, que por fim são postados por jovens (mais conhecidos hoje como influenciadores/instagramers) e empresas na plataforma do Instagram a fim não de contar uma história ou criar uma narrativa, mas sim de mostrar um estilo de vida. 

Instagrammism does not care about “telling a story,” and it does not feature proper “subjects” (in the sense of “subject of a photo”). Certainly, Kinfolk and Instagram video and photos show very concrete things: textured walls, human hands, flowers, bodies moving along designed trajectories, people looking into the landscape from a corner of a frame, etc. But at the same time they blur, so to speak, the semantic function of a representation. They are not about showing, or signifying, or registering, or narrating, or convincing. And they are not about conveying a “feeling” either, this would be too simplistic. Really, what is the “feeling” expressed by a close-up view of textured objects arranged on a table, or a hand holding a cappuccino cup in morning light? Can you name these “feelings”? And finally, they are not even about “style.” Well-dressed people and design hotel rooms do have “styles.” Not photographs or videos. (MANOVICH, 2016, p. 10)

Apresentando a cultura da imagem da plataforma, o autor insere o Instagram em um contexto histórico e cultural ao lado da fotografia, cinema e design, para assim como a fotografia foi no final do Século XIX, o Instagram também seja uma moldura para as primeiras identidades dessa época, que nesse caso, conectadas às mídias digitais. Mesmo encontrando alguns pontos datados nas palavras de Manovich, o texto se torna importante para pesquisa justamente por mostrar as evoluções constantes que as plataformas virtuais sofrem e como a sociedade vem se adaptando a elas.

Partindo dessa cultura da imagem que a plataforma disponibiliza, pensamos nas imagens que as instituições brasileiras, em especial as do sul do país, pelo meu recorte, oferecem ao seu público a partir dos conteúdos publicados em seu perfil no Instagram como uma estratégia comunicacional. Projetos curatoriais, programas educativos, desenhos expositivos, protocolos de conservação e documentação, estratégias de marketing, políticas editoriais e de relações públicas não podem ser mais subtraídos do modo como acessamos e compreendemos a obra de arte, dentro e fora do museu (GROYS, 2015). E ainda hoje não me parece que é de interesse de grande parte de historiadores e pesquisadores a ideia de que o ambiente físico de instituições culturais possa ser expandido para o cenário virtual, como um novo membro corpo, o que seria um atraso por parte das instituições pois o Instagram atende necessidades visuais que muitas instituições hoje necessitam:

A seleção desta rede social digital online é condicionada por sua lógica operativa inicial: o uso massivo da imagem visual como condição de comunicação entre seus usuários, estabelecendo o valor estético e experiencial como parte de um sistema de criação, consumo e circulação de sensações, prazeres e conhecimento. (OLIVEIRA, 2020, p. 3)

Atualmente pertencendo ao grupo Facebook a rede social já possui mais de um bilhão de usuários ao redor do mundo, sendo a quinta plataforma mais usada globalmente, e tendo o Brasil como terceiro maior público consumidor. O veículo também possui ferramentas de marketing e de negócios que funcionam a partir da imagem como ponto focal,  permitindo que o usuário tenha acesso a dados de interação e engajamento do seu público-alvo contribuindo para a identificação do anunciante (instituição)  com o receptor do produto (público que consome arte).

Seguindo então por essa linha temática, a pesquisa busca compreender as dinâmicas do mercado de arte de Porto Alegre a partir do Instagram, explorando as plataformas digitais como agentes de difusão e circulação (apto a alcançar as três dimensões sistemática, sendo elas a simbólica, política e econômica) dentro do sistema da arte, capaz de indicar os deslocamentos das ofertas culturais para outros espaços, possibilitando conquistar contato com outros públicos que além o especializado pois a interação proporcionada pelas plataformas estimulam não só mercado propriamente dito, mas o restante das instituições a ter contato com um público jovem direcionado à cultura online. 

Printscreem do feed do Instagram da Galeria Mamute. Uma das galerias analisadas na pesquisa. Link para acesso.

Como já comentado, por muito tempo as instituições parecem não querer entrar no mundo digital, seja por ser um universo novo, por falta de conhecimento e profissionais que soubessem trabalhar com essas ferramentas de maneira institucional, ou até mesmo um certo preconceito/medo com a amplitude que a internet oferece aos usuários, em vista disso. Meu problema de pesquisa se dá na procura por respostas que compreendem como os avanços tecnológicos cercam as instituições e agentes que compõem o mercado de arte de Porto Alegre, considerando esses veículos de comunicação (por exemplo, o Instagram) como criadoras de tendências no mundo da arte.

Segundo a pesquisa Setorial realizada pela plataforma Latitude, as vendas online em 2018 no Brasil não passam de 08%, enquanto outras pesquisas. no resto do mundo e no mesmo ano, mostram que 63% dos colecionadores entrevistados citam o próprio Instagram como plataforma de escolha, fechando em 74% o total de vendas online. Contudo, para concluir algum posicionamento precisamos levar em conta o cenário econômico de cada país, suas movimentações de mercado, e qual público foi consultado para a pesquisa, mas observando o avanço dessas pesquisas conseguimos ter uma breve ideia de como o Brasil vem se colocando no mercado digital e de como as galerias estão se instrumentalizando com essas ferramentas de negócios no campo das artes para alcançar novos públicos com potencial consumidor.

Essa diferença do Brasil para o resto do mundo foi revisitada pela pandemia de COVID-19, propondo mudanças no momento quando as feiras, exposições e vendas voltaram para o cenário digital, incentivando o sistema presencial migrar, em partes, para o digital, a fim de superar a crise sanitária. Importantes mudanças que hoje, o mercado já se vê inserido nesse cenário, sendo muito propício a continuar com esses novos hábitos de vendas como consta na pesquisa publicada por Ana Letícia Fialho:

Many of them declared to have the intention of balancing out the participation in-presence international art fairs and online art fairs and to keep investing in their digital presence to reach international audiences. Another aspect that we would like to draw attention to is that the transposition of face-to-face activities into the digital environment allowed the galleries to remain conected with the international circuit and opened new business opportunities for some agentes. (DUARTE, FIALHO, PÉREZ-IBÁÑEZ, 2020. P 21) 

Mas ainda há ressalvas sobre esse novo método de consumir e vender arte, apenas ter presença online ainda não é o bastante para uma estabilidade no mercado, seja ele nacional ou internacional. No entanto são movimentações que acredito serem importantes estarem no radar de galeristas e instituições, pois o mundo está mudando, e junto o mercado, apenas ainda não temos dimensões concretas do quanto ele já foi transformado, sendo assim são algumas dessas questões que pretendo responder nesta pesquisa.

Acesse o vídeo de apresentação no Salão de Iniciação Cientifica da UFRGS aqui.

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Referências:

ARTTATIC, Hiscox. Online Art Trade Report 2019 Art Market Research & Analysis For The Art World. Disponível em <https://arttactic.com/product/49173/#:~:text=The%207th%20annual%20Hiscox%20Online,a mong%20online%20art%20platforms%20likely..>

BEIGUELMAN, Giselle. Coronavida: pandemia, cidade e cultura urbana. Coleção Outras Palavras vol.8. Associação Escola Cidade. São Paulo, 2020

DE OLIVEIRA, Emerson Dionísio Gomes. Museu no Instagram. Museologia & Interdisciplinaridade, v. 9, n. Especial, p. 103–131, 2020. Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/museologia/article/view/31740>. Acesso em: 15 set. 2021.

DUARTE, Adelaide; FIALHO, Ana Letícia ; PÉREZ-IBÁÑEZ, Marta. External Shocks in the Art Markets: How Did the Portuguese, the Spanish and the Brazilian Art Markets React to COVID-19 Global Pandemic? Data Analysis and Strategies to Overcome the Crisis. Arts, v. 10, n. 3, p. 47, 2021. Disponível em: <https://independent.academia.edu/AnaLet%C3%ADciaFialho>

Guia do artista visual: inserção e internacionalização. Rio de Janeiro : Funarte, 2018.

MANOVICH, Lev. Instagrammismo e identidade cultural contemporânea. Disponível em:http://manovich.net/index.php/projects/notes-on-instagrammism-and-mechanisms-of-cont emporary-cultural-identity>. Acesso em: 14 set. 2021.

PLATAFORMA LATITUDE. Pesquisa Setorial – Latitude – platform for Brazilian art galleries abroad. Latitudebrasil.org. Disponível em: <http://www.latitudebrasil.org/pesquisa-setorial/>

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