Novas práticas artísticas e a internet na contemporaneidade

Em busca de ampliar a discussão e fundamentação entre esses dois campos do conhecimento, Maria Amélia Bulhões, em seu livro lançado em novembro de 2022,  busca compreender de que maneira a disseminação do uso da internet e seus avanços tecnológicos geram novas práticas artísticas e transformam as dinâmicas do sistema da arte. 

No primeiro capítulo do livro, Bulhões parte do conceito de sistema da arte, que tem por entendimento “indivíduos, e instituições que, atuando em uma complexa rede de inter-relações, são responsáveis pela produção, a difusão e o consumo de objetos e eventos, por eles mesmos rotulados como artísticos e, também, pela definição dos padrões e limites da arte para uma sociedade em um determinado momento”. Visto as transformações que o sistema da arte contemporânea vem sofrendo em decorrência das lutas sociais por um campo mais inclusivo para as novas práticas artísticas e críticas da arte, e os avanços comunicacionais dos últimos anos,  as fronteiras desse ecossistema tem se mostrado cada vez mais fluidas. Neste espaço, surgem muitas experiências disruptivas que partem da relação da arte com a internet, dentre elas destaco o trabalho do coletivo anônimo Newmemeseum, criado em 2020. O perfil nativo digital  extrapolou os limites do campo da arte e caiu nas graças do povo brasileiro por utilizar os memes como forma de linguagem e ferramenta crítica, não só ao sistema da arte, mas também às peripécias que nos unem na  identificação de “ser brasileiro”. 

Sua aceitação foi tanta que em 2021, ganhou espaço no sistema de arte e  realizou a ocupação virtual Combater ficção com ficção no projeto ofício:web do Sesc Pompéia, São Paulo, na qual com uma curadoria sagaz, trouxe a roda das instituições o riso como sua maior arma. Como diz Clarissa Diniz, curadora da exposição “Quem acompanha o dia a dia do museu logo verificará que, nele, os públicos também são instituintes. Transformados em espaço de debate público, os comentários dos posts reivindicam conteúdos, apontam ausências, discordam entre si, criticam as perspectivas propostas pela instituição (isso sem mencionar o quão profícua deve ser a ouvidoria do museu via DM). Se rir é um ato político, a memeficação o potencializa”.

Disponível em: https://anexa.sescsp.org.br/oficio/?newmemeseum 

Outro trabalho que causou muito debate no sistema de arte contemporâneo foi a intervenção do artista Von Ha, em 2021, no perfil do Instagram do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Surgindo como quem nada, a intervenção do artista começou com diversos memes desconexos na página do museu, causando dúvida e rebuliço se o mesmo havia sido hackeado. Se por parte do público a intervenção foi recebida com espanto e risadas, a instituição teve por intuito reafirmar seu acordo social de um museu contemporâneo, demonstrando estar atenta ao uso dos memes como linguagem e absorvendo seu potencial para dentro do museu.

Disponível em: acervo pessoal

Outro ponto destacado pela autora é a complexidade da era digital para o campo, visto que a internet está processando “uma mudança extraordinária e incontornável nas formas de produção do conhecimento e de sua manipulação, o que tem levado antropólogos e sociólogos a questionarem o futuro da humanidade como a conhecemos” (p.23, 2022). A produção da internet, em grande parte, não está preocupada com aspectos fundamentais do campo artístico como os valores de autoria, de permanência e de originalidade, O Newmemeseum, por exemplo, constrói seu conteúdo em grande parte com memes não autorais,  o que embora não seja renegado pelo sistema de arte brasileiro, ainda encontra resistência de aceitação em disciplinas mais tradicionais do campo. 

Ressalto aqui o importante papel que a crítica de arte toma neste momento, discutido ao longo do capítulo 5. O sistema de arte contemporâneo precisou repensar a forma que vinha desempenhando as interpretações na produção de narrativas de legitimação, dado que as mudanças nos meios digitais e da internet criaram novas possibilidades de escrita e leitura. Esse panorama abriu espaços para que profissionais mais ousados migrassem para os espaços on-line, assim expandindo seus públicos e proporcionando experiências mais dinâmicas com a arte. Dentre elas destaco o papel do coletivo The White Pube, criado em 2015, pelas críticas pelas Zarina Muhammad (1994, Londres) e Gabrielle de la Puente (1994, Liverpool). Cansadas da crítica de arte tradicional. O duo busca utilizar suas visões para “um novo mundo da arte” através de críticas ácidas às instituições, muitos memes e projetos de residência para artistas  “conversamos sobre as resenhas de exposições e como elas eram chatas, não falavam nada, só conversa ruim de brancos de classe média” (trecho extraído do site do coletivo). 

Sua crítica extrapolou o universo virtual e se tornou algo palpável por meio de um projeto colaborativo com o BuildHollywood, um grupo de mídia independente que atua no espaço ao ar livre. Esta colaboração permitiu transformar seu ativismo sagaz em uma série de pôsteres e outdoors que têm por objetivo visibilizar suas ideias para um novo mundo da arte. Entre janeiro e abril de 2021 e com uma rotação a cada duas semanas, os trabalhos puderam ser vistos nas cidades de Londres, Liverpool, Birmingham, Manchester, Sheffield, Glasgow, Cardiff, Edinburgh e Bristol.

 

Fonte: Bourton (2021)

Por fim, cabe ressaltar que essas novas práticas artísticas surgem em resposta à uma luta social que avança na sociedade e repercute no campo das artes, que ainda apresenta diversas resistências, principalmente por desafiar as instituições a quebrar com práticas de dominação colonial a muito tempo reproduzidas. Cabe a cada um de nós fomentar e engajar essas novas práticas em busca de um sistema da arte mais justo e plural. 

 

REFERÊNCIAS

BOURTON, Lucy . The White Pube takeover billboards to address systemic injustices and inequalities in the art world. its nice that. 2021. Disponível em: https://www.itsnicethat.com/news/the-white-pube-buildhollywood-art-campaign-290121. Acesso em: 10 mai. 2021

BULHÕES GARCIA, Maria Amelia. Artes plásticas: participação e distinção: Brasil anos 60/70, 1990

BULHÕES, Maria Amelia. Desafios: arte e internet no Brasil. Editora Zouk. 151p. 2022.

Ofício:web:raquel kogan. Disponível em: <https://anexa.sescsp.org.br/oficio/?newmemeseum>. Acesso em: 12 maio. 2023.

Ideas for a new art world – The White Pube’s “Your Space or Mine” billboard project. Disponível em: <https://www.thestateofthearts.co.uk/features/ideas-for-a-new-art-world-the-white-pubes-your-space-or-mine-billboard-project/>.

Quem é o artista que postou o meme de Britney surtada no Instagram do MAC-USP. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/quem-e-o-artista-que-postou-o-meme-de-britney-surtada-no-instagram-do-mac-usp.shtml>. Acesso em: 18 nov. 2022.

 

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