O que explica a popularidade do compartilhamento de fotografias no Instagram? Qual o motivo de usarmos essa rede social, que função ela cumpre ou o que ela nos dá em troca? Que imagens são essas que postamos? Quais são os padrões que se repetem nessas fotografias? Essas são perguntas que o pesquisador Lev Manovich fez a si mesmo, e acabaram gerando diversos projetos relacionados ao assunto e também o livro Instagram and Contemporary Image (Figura 1) de 2017. Este livro, que inclusive está disponível inteiro online pelo autor no site dele, traz um estudo aprofundado do Instagram, com intersecções entre as áreas de história da arte, estudos de mídias, análise e visualização de dados.
Tendo o contato com esta produção e pesquisa do Manovich, pensei em uma série de três postagens: o primeiro sobre a técnica da visualização de dados, o segundo texto será sobre cada projeto que Manovich desenvolveu com seu grupo de pesquisa, e, por fim, o último texto será sobre estudos de caso de artistas brasileiros que desenvolvam algum projeto artístico no Instagram.

Já havia comentado um pouco sobre o Instagram no texto Somos mais livres na internet?, sobre como que essa rede social tem se popularizado e se tornado essencial dentro do próprio mercado de arte (todas as galerias mais importantes tem uma conta nesta plataforma), trazendo contrapontos sobre a questão do algoritmo e a percepção do pesquisador Boris Groys sobre esse assunto. Lev Manovich trás um outro olhar sobre esse assunto, ele é um professor acadêmico do departamento de Ciências da Computação e na City University of New York (CUNY), teórico da cultura digital e que já foi considerado pelo site The Verge como uma das “50 pessoas que está construindo o futuro” em 2014.
No livro Instagram and Contemporary Image ele apresenta a estratégia de pesquisa que teve com a sua equipe, em que eles fizeram o download e análise de imagens de Instagram, em um período de tempo e localidades específica. Coletaram mais de milhões de imagens compartilhadas nas seguintes cidades: Bangkok, Berlim, Moscou, Nova Iorque, Londres, São Paulo, Tóquio, Kiev e Taipei. Com essas imagens foram criados diversos projetos que exploravam questões diferentes. Aqui levantarei cada um desses projetos, mostrando o que Manovich quis analisar neles.
Mas antes de entrar em cada projeto no próximo texto, precisamos entender o que é a Data visualization que permeia toda a pesquisa de Manovich sobre o Instagram. Este termo, que o autor comenta recorrentemente, trata-se de uma ferramenta para a representação gráfica de informações e dados. Nesse tipo de trabalho as informações são analisadas e organizadas de uma forma visual e criativa, para uma leitura mais dinâmica daqueles dados. Um exemplo disso é o gráfico Tintim pelo mundo: onde o personagem dos quadrinhos já esteve (Figura 2) por Rodolfo Almeida e Gabriel Maia publicado pelo Nexo Jornal em junho de 2019. Nele os autores mapeiam todos os locais reais e fictícios em que Tintim e outros personagens estiveram ao longo da sua história. Outro exemplo de análise de dados é do grupo Kontinentalist, que tem o foco na Ásia e usam mapas para contar histórias e ressaltar a voz da região na narrativa global. Eles produziram o projeto Understanding the Belt & Road (Figura 3), que traz informações sobre o planejamento econômico estratégico atual da China, de uma forma interativa e com a construção de uma história.


Portanto, vemos que esta ferramenta tem sido muito utilizada para informar sobre assuntos, de uma forma que atraia e capture o leitor por mais que alguns instantes. Além disso, a visualização de dados tem sido muito procurada por pessoas que trabalham com arquivos, acervos, seja em bibliotecas, museus, por terem a vontade de transformar as suas coleções em informação digital que possa ser compreendida por uma máquina. Portanto, essa área de estudos é ampla e não se restringe à informações de textos e números, já foram estudados sons, imagens e vídeos também.
O estudo de caso de Manovich com o Instagram é diferente das análises mais tradicionais, pois ao invés de mostrar dados, gráficos e números, ele priorizou as imagens e as apresentou de uma forma interativa. Em uma única visualização, como um painel de fotos, por exemplo, ele organiza as imagens coletadas e as apresenta de uma forma que é possível explorar os metadados das fotos e perceber os padrões criados (Figura 4). Nesta nova técnica se destacam as imagens comuns e ordinárias, em vez de imagens excepcionais. O que vemos, portanto é talvez uma nova abertura para uma forma diferente de analisar não só imagens, mas a história da arte. No próximo texto irei discutir sobre cada projeto em específico que Manovich trabalhou analisando as imagens coletadas do Instagram.

Continue lendo a série: Parte 2 e Parte 3
Referências:
MANOVICH, Lev. Instagram and Contemporary Image. 2017. Disponível em: <http://manovich.net/content/04-projects/150-instagram-and-contemporary-image/instagram_book_manovich.pdf> Acesso em: julho de 2019.