Poderia o uso de inteligência artificial determinar padrões estéticos promovendo homogeneização? Apesar da de inteligência artificial (IA) parecer algo relegado a obras de Asimov e outros autores de ficção científica, na realidade ela está presente em nossos smartphones e a maioria de nós lida com ela corriqueiramente e de forma natural. O Instagram, por exemplo, nos sugere perfis para seguir com base nas imagens pelas quais demonstramos interesse a partir das nossas interações como likes, comentários e direct messages. Estas sugestões são baseadas em ferramentas que utilizam um tipo específico de inteligência artificial.
A questão da possibilidade de homogeneização estética mencionada anteriormente é abordada pelo crítico e teórico radicado nos Estados Unidos Lev Manovich (Moscou, 1960) no seu texto Automating Aesthetics – Artificial Intelligence and Image Culture (2017). No texto o autor discorre sobre a utilização da inteligência artificial para análise de produções visuais. Para o autor a AI pode ser usada como um recurso de análise, mas não o único, sob pena de se tornar reducionista. A aplicação de um algoritmo vai determinar semelhanças e excluir da análise as diferenças, entretanto, cada interação é única, mesmo quando compartilha de grande similaridade com as demais de um grupo. A interação a que se refere Manovich é relação interpretativa de quem se confronta com a imagem, seja artista, espectador ou especialista. Cada pessoa terá uma experiência única baseada em suas próprias referências e que mesmo dentro de uma semelhança busca o que único, a diferença.
Pensando a semelhança e diferença na análise da arte, o trabalho que artista Denise Agassi (São Paulo, 1975) vem desenvolvendo na série Portal – Cachoeira desde 2015, nos apresenta uma maneira de trabalhar com essas relações algorítmicas sem deixar escapar a experiência individual de quem se relaciona com a imagem. Os modelos de instalação propostos em seu site, consistem em reproduções ampliadas e espelhadas de composições de imagens feitas através do banco de dados em duas etapas. Na primeira etapa foram localizadas imagens com a tag “paisagem” traduzidas em diversos idiomas e organizadas conforme a sequência de cores do arco-íris. Na segunda, a partir da Plataforma Net Arte que localiza automaticamente imagens com a tag “cachoeira” e derivações e é apresentada através de recortes em tiras verticais. Ao ser apresentada para o público em forma de instalação a artista acrescenta uma sequência e sobreposição de sons localizados no Freesound e nos vídeos do Youtube com as tags “água”, “cachoeira”, waterfalls, etc.
O que a série Portal faz é assumir a padronização visual que os metadados geram para criar uma nova composição virtual de base cromática, criam assim uma imagem alimentada por imagens individuais que se conectam tematicamente. E na materialização a vertigem virtual adquire formas e sons, despertando sensações que na relação frontal dessas imagens, sempre presas em telas diante de nós, poderiam facilmente se esvair na naturalização da abundância visual.
Referências:
MANOVICH, Lev. Automating Aesthetics – Artificial Intelligence and Image Culture. An expanded version of the article published in Flash Art International no. 316, September–October 2017. Acesse aqui.


