A dinâmica arte – política sempre apresentou tensões ao longo dos seus inúmeros momentos históricos, no Brasil os aspectos políticos que tocam a arte vêm ressurgindo com maior força em diversas discussões. Acompanhamos esses questionamentos, muitas vezes, sem nos determos nas expressões que são empregadas para discuti-los, para Maria Amelia Bulhões, no texto Arte e política, arte política ou política da arte? (2015), comenta: “A expressão “arte e política” diz respeito a todo tipo de possibilidades de interconexões da produção artística com os movimentos políticos. “Arte política” é aquela em que o artista se assume como protagonista de uma ação política, buscando produzir efeitos nas estruturas de poder vigentes, sejam para sua transformação ou para sua manutenção. A expressão “política da arte” se refere às correntes políticas que se estabelecem dentro do campo da arte definindo posições e poderes.”
É importante termos clareza nas definições para que possamos refletir sobre os acontecimentos que se colocam diante de nós de forma complexa. É comum que se estabeleça uma relação histórica com palavras como censura e política e quando estas se manifestam há certa incompreensão por parte do público. Dentro desse cenário quais espaço a arte online ocupa, ocupou ou pode ocupar?
A página Net Arte Molotov, criada no início da década, buscava investigar as relações de movimentos sociais dentro dos desdobramentos políticos da arte na produção de net art. A partir do acervo do banco de dados do Projeto de Pesquisa Territorialidade e Subjetividade: práticas artísticas meios digitais, foi realizado um recorte de obras de arte que têm relação com temas sociais e de questionamentos políticos. As obras foram segmentadas em três modelos de ação. Da rua para Web, onde projetos culturais, como o Canal Motoboy, focados em questões sociais são trabalhados a partir da interação do espaço físico com o espaço virtual, com conteúdos que migram da rua para e rede. Na Web, que questiona o espaço virtual e seus modos de atuação política, através da análise da posição da dupla Eva e Franco Mattes. E Da Web para rua, que analisa o Coletivo WokiToki e suas ações virtuais que chamam que convocam o público para ações além desse ambiente, tendo postado uma entrevista realizada com eles.

A partir destes três modelos de ação expostos no blog Net Arte Molotov pode-se pensar muitos outros trabalhos que se relacionam com a internet, observando diferentes práticas políticas na rede. Esta iniciativa adquire importância ainda maior dada a instabilidade na hospedagem de sites, como é o caso de uma das página do projeto Canal Motoboy, Cultura Motoboy. Mesmo a maior parte das informações e registros do projeto estando disponíveis no Megafone, a página que é uma das ações, já não se encontra acessível.
No blog Territorialidade/Territoriality é possível encontrar registro dessa e de outras tantas outras experiências que se desenvolveram online. Nesse cenário, a importância do arquivo ultrapassa somente o sentido de construção de memória. A partir da utilização de um banco de dados produz-se novos registros, registros de um tecido em movimento, em plena transformação.

Em Mal de Arquivo (acesse aqui), Jacques Derrida nos fala de uma nova noção de arquivo, que se opõem a noção hermética de arquivo como guardião da memória e verdade. Ele apresenta o arquivo como tela (tecido), sempre em movimento com abertura para o que está por vir. Sob essa perspectiva o Net Arte Molotov desenvolveu um trabalho importante de documentação das implicações entre as variáveis das dinâmicas ente política e arte, citadas no início desse texto, oferecendo fomento e desdobramentos para o que ainda está por vir. Assim, usos da redes online se expandem para além das práticas artísticas e assume também um caráter de reflexão teórica do campo. Oferecendo a possibilidade de um arquivo em movimento, que pode ser usado para ser tecido de modo aberto, tirando a memória de um lugar estanque e a colocando em diálogos, tão necessário para entender as transformações que vivemos.