PARTE II – Memes: O que são ? Onde vivem? Do que se alimentam ?

@artesdepressao. Referência: Gustav Klimt. Judit I, 1901.

Em texto anterior a este (acesse aqui) falamos sobre o que é um meme e como se configura um alicerce da cultura digital, que estrutura de maneira participativa. Aqui  apresentamos alguns exemplos de apropriações que ressignificam imagens de arte em formato de memes no ambiente virtual. Nos modelos de interação da internet é interessante não só naquilo que os artistas estão fazendo diante desse fluxo, mas como os usuários estão interagindo com esses memes, já que a cultura digital é ativada por agentes (usuários) que interagem com o conteúdo e imprimem sua marca nele. 

Desta maneira, os memes estão inseridos na cultura digital, que possui uma intensa circulação de informações e gera uma abundância de conteúdo, que pode levar à superficialidade. Um dos elementos que irá destacar os memes bem sucedidos será a permanência deste a partir das costuras culturais que estabelece. Por ser um fenômeno cultural, obviamente essas unidades culturais não passariam despercebidos pela produção artística. Aqui, no ConectartBR, já falamos sobre a abordagem de artistas como Aleta Valente, com a sua conta Ex-miss Febem e Wisrah Villefort, que a executam formas de curadoria desse conteúdo. Além do coletivo Saquinho de Lixo,  voltado para a produção de conteúdo viral e memético, a partir das explorações estéticas dos formatos.

Esse cenário interativo se apropria de maneira interessante da arte, especialmente do cânone artístico. Páginas como a Classical Arts Memes, Ugly Renaissance Babies e Artes Depressão, são conhecidos exemplos dessa interação. Ao recontentextualizar de forma anacrônica conhecidas obras, substitui a lógica vertical por uma relação horizontal com essas narrativas estruturantes, isto é, não são mais obras sagradas, intocáveis, são agora conteúdo que podem ser acessados seja qual for lugar, em qualquer momento, sem ser necessário conhecimento prévio sobre obra. O contexto da imagem será estabelecido pelo recorte do que vemos com texto que se relaciona com ela. 

A Classical Arts Memes e a Ugly Renaissance Babies são páginas estrangeiras que produzem memes com conteúdo disponível somente em inglês. A primeira é voltada para uma relação intertextual entre imagens majoritariamente de pinturas classificadas em movimentos artísticos que alcançam o início do século XX. O foco temático são situações geradas por sentimentos e questionamentos comuns do cotidiano ou analogias com outros produtos culturais, como filmes, séries, músicas e livros da cultura pop. No segundo perfil temos uma interessante proposta de recorte sobre obras de um período específico, o Renascimento – ainda que algumas imagens podem não ser classificadas em tal período. Aqui, recortes dentro de obras com representações  de crianças em pinturas do período – consideradas feias, estranhas ou deslocadas – apresenta uma narrativa puramente visual. A intertextualidade desses delineamentos visuais acontecem no ato de postar, que pode vir acompanhado de frases e expressões, geralmente carregadas de humor.

Conteúdo do perfil Ugly Renaissance Babies

O conteúdo humorístico de ambas páginas, assim como o dos memes em geral, é gerado na interação do contexto em referência com essa imagem. Uma forma que sobrevive ao ser recontextualizada, não só temporalmente como em seu sentido; seguindo a linha de pensamento de Dawkins: sobrevive a seleção natural das unidades culturais ao se tornar um meme.

No Brasil provavelmente a página mais conhecida a produzir esse tipo de conteúdo é a Artes Depressão, criada em 2012 e atualmente com mais de 1.600.000 seguidores. Uma das características que se destacam em relação aos outros exemplos citados é a forte presença do repertório da história da arte brasileira, com pintores como Rodolfo Amoedo e Pedro Américo. Além disso, o humor desenvolvido é relacionado a questões culturais próprias do brasileiro, política nacional são presença constante nos memes produzidos e reproduzidos pela página. 

Segundo Shifman, um traço característico do meme é a alteração provocada pela interação, no exemplo abaixo  podemos ver isso claramente. A frase “A mulher deve servir o homem…” se refere a declarações de Damares Regina Alves, Ministra de Estado da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, sobre o papel submisso que, segundo ela,  cabe a mulher à mulher em um relacionamento heteronormativo. Por razões óbvias, a declaração gerou grande reação, especialmente nas redes sociais. A partir da utilização da imagem de Guido Reni que representa a Salomé com a cabeça de João Batista em uma bandeja, imprime o sentido de não conformidade com a posição subserviência a partir do jogo com a palavra “servir”. A composição então oferece o sentido de revolta que só conseguirá ser entendido pelo observador que possuir a vivência do contexto em que essa ideia transmitida foi gerada.

Por fim, mas não menos importante, essa dinâmica intensa de produção e circulação, no caso dos memes com imagens da arte, leva a uma prática extrema de desmistificação de objeto de arte, o que Walter Benjamin chamaria de morte da aura. Essa maneira de se apropriar e ressignificar o cânone através dessas unidades culturais, que estruturam a cultura digital de maneira participativa, estabelece uma nova dimensão para o que a arte comunica. E que vai ressoar em processos de deselitização e democratização de acesso ao conteúdo artístico. Assim, os desdobramentos participativos da relação arte-vida chegam um campo de abrangência mais amplo e podem proporcionar um primeiro contato desinibido com a arte, a partir das referências culturais compartilhadas com aquele objeto, o meme. 

 

Referências:

SHIFMAN, L. Memes in a Digital Culture. Cambridge – EUA, MIT Press: 2014

SHIFMAN, L. Memes in a Digital World: Reconciling with a Conceptual Troublemaker. Journal of Computer Mediated Communication. P. 362-377. Disponível em <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/jcc4.12013>

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