Como uma evolução da “Web 1.0”, o estágio inicial da internet com o simples compartilhamento de conteúdo, e da “Web 2.0”, com foco nos usuários dos sistemas e seus dados, a “Web 3.0” ou “Web3” vem levantando novas ideias e questões em diversos campos de estudo, inclusive no da arte. Tendo como principais características a descentralização dos sistemas e a criptoeconomia, ela chega ao sistema da arte estabelecido e influencia preponderantemente o comportamento do mercado.
Com ela é permitido garantir a autenticidade de qualquer arquivo transmitido pela internet, sem a necessidade de conhecer o usuário, ou a pessoa que enviou o arquivo. Com o certificado de autenticidade no próprio arquivo, é possível ter a certeza de que o arquivo é único, original, não foi alterado. Com essas características surgiram as criptomoedas, sendo possível transferir dinheiro sem nenhum intermediário, como um banco ou um aplicativo, evidenciando o conceito, ainda incipiente, de descentralização dos sistemas econômicos.
Aplicando a tecnologia das criptomoedas, conhecida como blockchains, aos arquivos digitais visuais, surgiram os NFTs. A possibilidade de valorização que eles propiciam atraiu muitos investidores, aparentemente mais interessados no lucro do que em algum valor artístico que os NFTs pudessem apresentar. Ao mesmo tempo, se abriu um novo espaço no sistema da arte, principalmente através do mercado, mas que também traz questões estéticas, semióticas, filosóficas e sociológicas, que devem ser consideradas. O movimento para legitimação desse espaço mostra indícios do que vem acontecendo, como nos leilões muito valorizados de NFTs na Sotheby’s.
Permitindo a associação autônoma de um grupo de pessoas através dos seus criptorecursos, a Web3 viu aparecerem as DAOs. Organizações Autônomas Descentralizadas, em que os participantes investem na expectativa de que vai aumentando de valor. Eles podem decidir quais rumos a organização vai tomar, através de votação, e onde vão aplicar seus recursos. DAOs relacionados à arte vêm surgindo constantemente, a maioria com foco em NFTs, mas também grupos que se associam por uma causa, artista ou instituição.
Buscamos na DAO ‘Pleasr’, mais informações para entender o sistema:
“PleasrDAO é um coletivo de líderes DeFi (finanças descentralizadas), primeiros colecionadores de NFT e artistas digitais que construíram uma reputação formidável, porém benevolente, por adquirir peças culturalmente significativas com um toque de caridade. Desde que o DAO comprou sua peça original, o Uniswap V3 NFT de ppleasr, o DAO evoluiu e elevou sua missão de coletar arte digital que representa e financia ideias, movimentos e causas importantes que foram homenageados na cadeia como NFTs. PleasrDAO abriu um precedente para licitações em peças únicas, muitas das quais com mensagens poderosas que transcendem a criptografia. Apelidado de império de coleção de arte, o DAO está experimentando novos conceitos de propriedade de arte digital e comunitária. Seus membros estão explorando ideias como o fracionamento de peças icônicas para serem distribuídas e pertencentes à comunidade. No entanto, além de apenas propriedade compartilhada dessas peças, o coletivo planeja aplicar inovações criativas dentro de DeFi para adicionar e disseminar valor. De certa forma, o DAO é uma plataforma para experimentação coletiva no nexo de propriedade da comunidade, DeFi e arte digital. Em essência, o modus operandi do DAO é comprar e financiar peças culturalmente significativas e, em seguida, criar algo fundamentalmente aditivo à alma da peça antes de compartilhá-la de volta com a comunidade.”
Nesta data, possui PleasrDAO conta com 54 membros; eles se apresentam abaixo:

Para ingressar na DAO, os membros aceitam um contrato, que determina as regras da organização, sobre a distribuição dos lucros entre os membros, sobre as votações para aceitar novos membros, sobre quanto cada um tem que investir para entrar na DAO, onde serão investidos os recursos, quais obras serão escolhidas, quem serão os membros da curadoria, etc.
No site, é apresentada uma galeria com NFTs pertencentes à DAO, sempre acompanhadas do identificador do contrato de quem é dono do NFT. Acessando esses contratos, pode-se acompanhar todo o histórico de transações que aconteceram com o NFT e seu valor, nesse caso é utilizada a criptomoeda “Ethereum”. Dentre os temas dos NFTs da Pleasr, há um sobre o Edward Snowden “Stay Free”, um meme famoso de um cachorro, e um vídeo arte digital.


Recentemente a Pleasr lançou uma outra DAO, FreeRossDAO, com objetivo de financiar a campanha pela libertação de Ross Ulbritch, condenado à prisão perpétua por lavagem de dinheiro, invasão de computadores, conspiração para traficar documentos de identidade fraudulentos e conspiração para traficar narcóticos por meio da Internet, em fevereiro de 2015. Foi o personagem central do documentário “Deep Web” (2015), produzido pelo ator e diretor Alex Winter. Além de mostrar a versatilidade de novas direções que uma DAO pode tomar, também ficam evidentes os perigos de poder fazer transações sem nenhum tipo de controle ou regulação, o que também tem semelhanças com o que acontece a respeito da valorização de obras de arte.

Nossa pesquisa também abordou a “DAOWO Global Initiative”, uma parceria entre Goethe-Institut, Furtherfield@DECAL e Serpentine Galleries, que se baseia na série de laboratórios de arte e blockchain:
“Nossa ambição é semear uma nova ecologia descentralizada de organizações culturais de código aberto, construída por artistas inseridos em comunidades globais distribuídas. Projetados para ativar a colaboração entre comunidades, disciplinas e setores, os eventos DAOWO (Organização Autônoma Descentralizada com Outros) permitem que os participantes interroguem os benefícios e as armadilhas do desenvolvimento de blockchain para artes, cultura e sociedade em geral a partir de perspectivas locais. Os eventos conectam artistas visionários, trabalhadores culturais e empreendedores blockchain, junto com iniciativas, comunidades, instituições e empresas locais para buscar novos sistemas e abordagens transnacionais.”
Numa série de eventos, debruçaram-se sobre os seguintes temas, sob diferentes pontos-de-vista de atores do sistema da arte, como o colecionador, o artista renomado, o curador, o artista emergente, o galerista, o novato em leilões de arte, o negociador, e o amante de arte:
“As sessões DAOWO:
Protótipos Artworld 2021
DAOWO Global Initiative 2020
DAOWO Summits UK 2019
Programa DAOWO de Laboratórios e Debates 2017-18:
Qui, 26 de outubro de 2017 – Reinventando o Art Lab (no blockchain)
Qui, 23 de novembro de 2017 – Problema de identidade (no blockchain)
Qui, 25 de janeiro de 2018 – Tudo bem (no blockchain)
Sexta, 16 de fevereiro de 2018 – Organização dos Artistas (no blockchain)
Qui, 29 de março de 2018 – Como será quando comprarmos uma ilha (no blockchain)?”
Mesmo a Web3 apresentando um caráter subversivo aos sistemas estabelecidos, o sistema da arte acaba se retroalimentando e absorvendo o que pode ser legitimado como arte, muitas vezes exatamente pela sua própria subversão.
O momento atual nos permite acompanhar o surgimento de um novo meio e seus desdobramentos que não só influenciam o sistema da arte, como busca seu reconhecimento social através deste sistema que atribui o valor artístico primordial da obra, que não pode ser somente financeiro.
Referências:
Blockchain Lab. Serpentine Galleries https://www.serpentinegalleries.org/whats-on/blockchain-lab
DAOWO. https://www.daowo.org/#the-daowo-sessions-artworld-prototypes
DAOWO Global Initiative. Goethe-Institut Vereinigtes Königreich. https://www.goethe.de/ins/gb/en/kul/zut/dao.html
FreeRossDAO https://freerossdao.com/
PleasrDAO https://pleasr.org