Mídia Tática: entre ativismo e arte

O conceito de Mídia Tática é utilizado para tratar de formas alternativas de usos da mídia, que subvertem os usos comuns dessas ferramentas. Foi nos anos 90 que começou a se ouvir sobre esse termo, e práticas deste tipo só se tornaram possíveis graças à popularização de equipamentos de mídia mais baratos e ao movimento faça-você-mesmo (DIY) que incentiva a produção independente. Mais recentemente a internet 2.0 possibilitou mais ainda a apropriação dessas mídias para usos subversivos e críticos.

Geert Lovink e David Garcia publicaram o manifesto “O ABC da Mídia Tática” em 1997, que foi um dos primeiros a apresentar esses pensamento. Na época ele foi enviado por e-mail para uma lista de pessoas envolvidas nos primeiros eventos de mídia tática. No primeiro parágrafo os autores exemplificam o que se pensava como mídia tática: 

“Tactical Media are what happens when the cheap ‘do it yourself’ media, made possible by the revolution in consumer electronics and expanded forms of distribution (from public access cable to the internet) are exploited by groups and individuals who feel aggrieved by or excluded from the wider culture.” (GARCIA, D.; LOVINK, G., The ABC of Tactical Media, 1997)

Manifesto The ABC of Tactical Media

Há diversos exemplos de trabalhos de mídia tática, os quais se utilizam das mais variadas técnicas como mídias tradicionais como rádio, televisão e jornal, mas também a internet entre outros. 

O coletivo The Yes Men, formado pela dupla de hacktivistas Andy Bichlbaum e Mike Bonanno, são conhecidos pelos seus trotes, ou “estratégias parasitárias” como define Juan Martín Prada (em seu curso Arte e Internet. La red como campo de investigación para las nuevas prácticas artísticas, 2016). Em 2004, Andy Bichlbaum apareceu no canal BBC World com o nome de “Jude Finisterra”, representando a empresa Dow Chemical. Na ocasião era o vigésimo aniversário do Desastre de Bhopal, que foi um vazamento de gás ocorrido em 1984 na fábrica de pesticidas Union Carbide India Limited (UCIL) em Bhopal, Madhya Pradesh, Índia. Em torno de 500.000 pessoas foram expostas ao gás, e muitos mais foram feridos e sofrem as consequências até hoje.

Frame do vídeo da entrevista de Andy Bichlbaum “Jude Finisterra”

Na entrevista para a TV, em que Bichlbaum se fez passar por porta-voz da empresa, ele anuncia que a Dow Chemical planejava fechar a Union Carbide e usar 12 bilhões para pagar os reparos à população de sobreviventes, investindo em cuidados médicos e pesquisas para entender os riscos dos produtos da empresa. Eles se utilizam, portanto, dos mecanismos, do formato da televisão e das linguagens deste meio, e conseguem assim se passar por empresários e fazer posicionamentos políticos que os reais donos da empresa nunca fariam.

O filme The Yes Men Fix the World (2009), produzido pelo coletivo foi disponibilizado online no YouTube e também para download gratuito, através de licenciamento Creative Commons copyright. Nos primeiros minutos do documentário o grupo pede que os espectadores copiem o filme e passem adiante, pois estavam sendo processados pela Chamber of Commerce, que demandava que todas as cópias do filme deviam ser destruídas. O grupo Yes Men apesar de utilizar a internet mais para divulgar e fazer os falsos anúncios, acabam focando suas críticas nas grandes corporações, no governo do Estados Unidos e na globalização e seus efeitos, tendo mais repercussão nas mídias tradicionais. 

O grupo UBERMORGEN, Paolo Cirio and Alessandro Ludovico criaram um projeto que criticou e tentou subverter as formas de uso de um dos sites mais populares da internet, o Google. Este projeto artístico chamado Google Will Eat Itself – GWEI hackeava os mecanismos de propaganda Adsense do Google. Os artistas criaram bots que clicavam automaticamente nos anúncios, em sites criados por eles, o dinheiro que ganhavam era usado para investir em ações do Google e repassados para a empresa criada pelos artistas, que se chamava GTTP Ltd. – Google To The People Public Company (“Companhia Pública Google para o Povo”). E o objetivo final era distribuir os ganhos com todos e tornar o Google uma empresa pública. No fim os artistas receberam uma carta do Google na Alemanha, exigindo que parassem com o esquema, ameaçando de processar e terem que reembolsar o dinheiro, portanto os artistas finalizaram as atividades mas mantém o site ativo e disponibilizam a carta da empresa junto com o trabalho artístico. 

Captura da carta do Google na Alemanha

No Brasil, um exemplo de mídia tática que trata de dar voz a quem a mídia tradicional não costuma ouvir ou contemplar é o CMI – Centro de Mídia Independente, que é uma rede de produtores de informações autônomos e independente e focados em dar cobertura à movimentos sociais, que muitas vezes são abafados ou distorcidos pelas grandes mídias. Eles estão mais relacionados a produção de notícias e compartilhamento de informações de grupos de minorias. Todo o conteúdo do site é disponibilizado sob licença copyleft (é livre a reprodução para fins não comerciais, desde que autor e a fonte sejam citadas), o que é uma prática comum nos trabalhos/ações de mídia tática.

Captura de tela do site do CMI – Centro de Mídia Independente

Por fim, é importante citar também o trabalho das pesquisadoras e artistas brasileiras como Cristina Ribas, Giseli Vasconcelos e Tatiana Wells chamado Arquivos Táticos, no qual elas compilaram vinte anos de textos, ensaios, projetos e sites que apresentam os pensamentos da mídia tática, cruzamentos entre arte e ativismo sobre uma perspectiva de gênero. Além dos arquivos, nos quais podemos pesquisar e descobrir muitas informações sobre o movimento no Brasil, tudo está contextualizado com momentos políticos, através de uma linha do tempo, e com a organização em um diagrama no qual podemos visualizar os acontecimentos lado a lado. No mapeamento delas estão, por exemplo, conceitos gerais de mídia tática, cultura digital, copyleft, pedagogia radical, ciberfeminismo, mencionando contextos políticos, culturais e sociais como Gilberto Gil no MinC, jornadas de junho, intervenção militar no rio de janeiro, entre outros. São esses diversos links e produções artísticas e teóricas que mostram como a mídia tática é um espaço de discussões muito amplo que envolve a arte com ativismo, e que apesar de ter uma origem em movimentos dos anos 90 de popularização de acesso às mídias essas ideias continuam reverberando e sendo ressignificadas até hoje. 

A cartografia do Arquivos Táticos

 

Referências:

FOLETTO, L. Mídia tática: uma introdução. Huffpost Brasil. Disponível em: https://www.huffpostbrasil.com/leonardo-foletto/midia-tatica-uma-introducao_a_21695778/. Acesso em: 23/09/2019.

Garcia, D.; Lovink, G. The ABC of Tactical Media. Disponível em: https://www.nettime.org/Lists-Archives/nettime-l-9705/msg00096.html. Acesso em: 23/09/2019.

 

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