Odiolândia

O vídeo Odiolândia, da artista Giselle Beiguelman, reúne comentários publicados nas redes sociais sobre as ações da Prefeitura de São Paulo e do Governo do Estado na Cracolândia. O áudio foi coletado de vídeos postados na Internet, que registravam os momentos da ação (entre 21 de maio e 9 de junho de 2017). A obra foi criada para a exposição São Paulo Não é Uma Cidade: as invenções do centro no Sesc 24 de Maio, em São Paulo. Com curadoria de Paulo Herkenhoff e cocuradoria de Leno Veras, a exposição tinha como proposta apresentar uma possibilidade de leitura do centro de São Paulo com uma visão de vários contextos como da arte, arquitetura, história, comércio, entre outros diversos aspectos.

 As mensagens coletadas demonstram posicionamentos agressivos e têm como alvos os dependentes da Cracolândia, nordestinos, sem terra e gays. Segundo a artista, a única interferência feita foi tirar conteúdos eleitorais dos comentários. Giselle Beiguelman escreve sobre o trabalho que: “No fluxo dos textos despidos das imagens, desvela-se um tecido social contaminado pela cultura do ódio. A Cracolândia se expande, como se fosse uma lente através da qual podemos ler a cidade. Transforma-se no ovo da serpente… Através da fina membrana, pode-se ver o réptil inteiramente formado.”

O fato da artista ter apagado os comentários eleitorais demonstra que não era importante questionar a política. Mas sim questionar a forma que as pessoas interagiam em um espaço online e interativo, que acabou potencializando os comentários de ódio. Durante a Bienal Internacional The Wrong de 2017, a artista participou de uma palestra chamada Arte Pós Internet na qual dividiu a fala com o jornalista Thiago Carrapatoso. Na ocasião, a artista comentou que queria demonstrar esses comportamentos das pessoas, que eram intolerantes, racistas, e preconceituosos.

A internet sempre foi um espaço muito ambivalente, surgiu com promessas de democratização de informação e conhecimento, mas também com potencial de vigilância e controle, o que tem sido explorado pelas corporações. Na internet sentimos que podemos falar o que quisermos, e também há aquele sentimento de efemeridade das mensagens e das ações, que ficam perdidas entre novas atualizações, propagandas, e likes. Há uma ideia de que a internet não é um espaço real, porém cada vez mais os limites entre o mundo online e offline ficam mais próximos. Segundo Beiguelman, no momento pós-internet em que vivemos, nossa vida é de uma forma ou outra mediada pela internet.

Odiolândia tira os comentários que estamos acostumados a ver dentro de um contexto com tantas informações, publicidade, interatividade, e coloca eles em um  vídeo de fundo preto, evidenciando os comentários que destilam ódio ao som caótico de conflitos, gritos e tiros. Por isso, o vídeo Odiolândia é um trabalho tão interessante, pois demonstra os comportamentos sociais online e como eles são potencializados pelas ferramentas online de compartilhamento. O trabalho evidencia uma cultura do ódio e nos faz confrontar ela, mesmo que isto cause desconforto. Mas a arte também pode ter esse papel, de nos mostrar o que não estamos vendo ou não queremos ver.

Acesse o site da Giselle Beiguelman aqui.

Acesse a exposição do Sesc São Paulo aqui.

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