Onde foi parar este site? Todos já passamos pela situação de tentar acessar determinado domínio e nos depararmos com a mensagem de “a página não existe”. Para aqueles que trabalham com pesquisa online o cenário é uma preocupação constante, pois o material fonte que deveria estar ali desapareceu.
Mas afinal, o que é o famigerado erro 404? Em termos técnicos, de maneira muito superficial, é quando a solicitação feita pelo usuário em forma de URL (endereço digitado ou link) não pode ser atendida pelo servidor responsável, resultando na impossibilidade de exibir determinada busca. As causas desse erro são diversas, as mais comuns são: alteração da URL, endereço digitado incorretamente e o endereço não existir mais por a página ter sido removida, tirada do ar.
Se tratando de práticas artísticas na internet o problema faz parte do cotidiano, especialmente em trabalhos anteriores a Web 2.0. No blog Territorialidade/Territoriality – que possui uma vasto banco de dados de Web Arte – é possível encontrar diversas amostras dessa situação, sites que por uma razão ou outra já não estão mais disponíveis, o que ficaram foram os registros feitos por outras plataformas. Isso pode ser visto no site que antes pertencia a obra Ego Lego Logo, de Agged Simões e Marcus Nascimento, de proposta interativa era percurso pela anatomia cerebral, juntamente com citações de escritores, desenhos e por vezes dados científicos. Propunha um percurso visual do lúdico, sensível, por dentro do órgão responsável pelo campo das ideias, pela racionalidade. A página esteve no ar desde 2001 e permitia a participação do usuário/espectador através de imagens do cérebro e pontos (como hipotálamo e claustro) sobre os quais poderia clicar, sendo direcionado para este diretório que possuía desenhos e/ou textos relacionados ao funcionamento desta área no cérebro. Atualmente capturas de tela do site podem ser encontradas também no site do pesquisador Fábio FON.

Ao mesmo tempo que esses erros que são um problema para pesquisadores, alguns artistas exploram a visualidade deles, como é caso de Giselle Beiguelman. Em Esc for Escape, a artista apresenta um webdocumentário sobre as mensagens de erros enviadas por usuários. O projeto se originou em 2001, a partir de um fórum que nutriu o projeto Content = No Cache, aqui a expressão fica emergindo na tela, ao clicar o participante é redirecionamento para uma tela escura, dividida em categorias, novamente o clique é solicitado como experiência participativa, agora sobre alguma das categorias expostas, como resultado é apresentada uma tela de erro relacionada com a ação executada.



As referências estéticas de erros de acesso, ou mesmo erros técnicos próprios dos meio digital, já está amplamente apropriada pela cultura visual digital e em referências fora deste meio. Memes como o tela azul (referência a um erro grave no sistema Windows que paralisa todas as funções do computador) são comumente utilizados na linguagem coloquial para descrever situações cotidianas em que os indivíduos, que dominam tais referências, se encontram.

Apesar da naturalização dessa estética do erro, tais situações não deixam de representar um problema para a construção de arquivo da produção artística na internet. Se a condição online é o que estrutura determinada obra, quando ela deixa de existir nesse habitat, como saberemos que ela existiu ?
Assim, a documentação desses processos adquire especial importância. Na arte contemporânea, marcada no século XX por transformações como a desmaterialização, o documentar adquire ares de tornar “real” o acontecimento de uma obra. O que as poéticas de conectividade demandam é um desdobramento 2.0 dos recursos técnicos de arquivo, já que um dos principais problemas enfrentados é a velocidade de obsolescência das ferramentas tecnológicas capazes de comportar e reproduzir determinados formatos. Além, claro, dos debates em torna da produtibilidade infinita x reprodutibilidade que a internet proporciona.
De tal modo, se faz necessário pensar em estratégias de trabalho com a informação no campo artístico, evidentemente esse não é um problema exclusivo do campo, mas é facilmente detectável quando nos deparamos com a produção recente que não se encontra mais acessível e é pouco documentada. De maneira particular, salvamos diversos registros em arquivos nos nossos computadores, porém, esse é um meio privado. Para o presente momento é indispensável termos em mente estratégias coletivas de acesso aberto aos registros artísticos. A arte é importante e tem diversas particularidades, cabe a nós articular maneiras para que esta área do conhecimento humano esteja disponível ao maior número de interessados.
