Pandemia acelera transição da universidade para o mercado de trabalho

Planos e sonhos adiados, celebrações com familiares e amigos impedidas. Em meio à pandemia de covid-19, muitos estudantes da área da saúde, em fase final de curso, tiveram de lidar com essas frustrações ao mesmo tempo em que começavam a vida profissional enfrentando um grande desafio; o combate ao novo coronavírus. “Somos os egressos da pandemia”, brinca a enfermeira Julia Borges Antunes, de 25 anos, que colou grau em 7 de julho, e começou a trabalhar poucos dias depois, em 13 de julho, no Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, como analista de controle de infecção hospitalar. Ela é um dos 38 estudantes de último semestre da Escola de Enfermagem da UFRGS que optaram por antecipar a formatura para começar a atuar imediatamente nas suas áreas para reforçar as equipes de saúde na pandemia. Determinação, senso de responsabilidade e vontade de aprender e de colaborar fizeram com que ela e colegas encarassem a oportunidade surgida com a Portaria 374, publicada em abril pelo MEC, que autorizou estudantes de Medicina com 75% do internato concluído e alunos de Enfermagem, Farmácia e Fisioterapia com a mesma porcentagem do ensino curricular obrigatório realizada a se formarem, tendo em vista a situação de emergência na saúde pública, para atuação no combate ao novo coronavírus.
Como as atividades de estágio haviam sido suspensas por conta da pandemia, os 47 concluintes do curso de Enfermagem da UFRGS em 2020/01 estavam parados quando foi publicada a Portaria do MEC. Após discussões e ponderações no âmbito das comissões do curso, um grupo de 38 alunos decidiu realizar o estágio hospitalar, última etapa que faltava para a formação, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, um dos locais de referência para pacientes com covid-19. A diretora da Escola de Enfermagem, Gisela Souto de Moura, afirma que os estudantes demonstraram coragem ficando nos campos de estágio e terminando o curso no momento em que a sociedade mais precisa desses profissionais. “É um orgulho para a UFRGS estar formando enfermeiros nesse contexto. Eles estão preparados, prontos para ajudar no enfrentamento à covid-19”, destaca.
Ester de Melo Borba, de 22 anos, foi uma das primeiras a colar grau, em cerimônia de gabinete no dia 5 de junho. “Eu já me sentia enfermeira, estava na última etapa do curso, faltando pouco para a conclusão. Então, vi que era uma oportunidade de ingressar no mercado de trabalho e ajudar estando na linha de frente no enfrentamento à pandemia”, afirma. Como enfermeira folguista do Hospital Nossa Senhora das Graças, em Canoas, atuando em diferentes unidades, Ester trabalha principalmente em uma unidade que recebe pacientes com suspeita de covid-19. Havendo a confirmação do diagnóstico, esses pacientes são encaminhados para o Hospital Universitário do município. Ela descreve o sentimento que acompanha sua rotina profissional: “o primeiro contato foi bem assustador, porque acabamos tendo uma transição muito rápida para o meio profissional, mas agora me sinto bem tranquila, apesar de o ambiente hospitalar ter se tornado mais pesado. Estou preparada depois dos cinco anos de faculdade, bem respaldada com todo o conteúdo aprendido”, afirma a jovem enfermeira. No entanto, Estér ressalva que, em relação a tudo que está acontecendo no País, com o persistente aumento de casos da doença, o sentimento é de ansiedade.
Felipe Adonai Pires Soares também colou grau no início de junho e aguarda com expectativa o dia de iniciar no seu primeiro emprego, na próxima segunda-feira, 10, no Hospital Dom João Becker, em Gravataí. Adonai vai atuar na UTI com pacientes de covid-19 e tem certeza que será uma “grande experiência”. Segundo ele, o momento é único: “estamos fazendo história”, diz. Aos 25 anos, seguro de que fez a escolha certa e afirmando estar preparado, o enfermeiro completa: “a gente escolheu cuidar de pessoas independente do contexto.” Julia também ressalta como positiva a experiência. Para assumir a nova função, ela teve de mudar de cidade, deixando a família em Guaíba e assumindo novas responsabilidades. “Não tem como mensurar a aprendizagem proporcionada por tudo isso”, diz.
Enquanto se dedicam ao trabalho em um contexto tão desafiador, os três entrevistados percebem que estão aprendendo muito, crescendo como pessoas e profissionais e fazendo história. São importantes conquistas para quem sonhava em ingressar de toga no Salão de Atos lotado de amigos e familiares para celebrar a formatura e teve de abrir mão desse momento tão esperado. Também adiaram planos de ingresso em residência ou em mestrado, porque acreditam que podem ajudar a sociedade brasileira durante a emergência de saúde. Com certeza, a experiência na pandemia marcará para sempre as vidas desses jovens profissionais. “A gripe H1N1 exigiu muito dos profissionais de saúde, mas nada comparado à covid-19. Em 40 anos de formada, eu nunca tinha vivido algo parecido”, confessa a experiente enfermeira e professora Gisela.

Notícias relacionadas:
Formar-se médico em tempos de pandemia
Egressos da covid-19: estudantes da UFRGS na linha de frente no combate ao novo coronavírus
