Mais atingidos pela pandemia, empreendedores negros buscam adaptar seus negócios
Reportagem especial sobre economia do Jornal da Universidade trata de um levantamento que mostra como o afroempreendedorismo se adaptou à nova realidade do mercado

A sétima e mais recente edição da Pesquisa Impacto da Pandemia de Coronavírus nos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae e pela Fundação Getúlio Vargas entre 27 e 31 de agosto, aponta uma diminuição na disparidade do impacto da crise sanitária entre empreendedores negros e brancos. O levantamento aponta que 19% das empresas lideradas por negros estavam localizadas em áreas com fechamento parcial, enquanto 20% das comandadas por pessoas brancas ficavam nessas áreas. Já nas zonas de fechamento total, os índices de empresários foram de 2% de negros e 1% de brancos.
Na quarta edição da pesquisa, realizada entre 29 de maio e 2 de junho, em contrapartida, os dados mostravam que 61% dos afroempreendedores tinham empresas em locais com fechamento parcial e 9% em locais com fechamento total, enquanto para os brancos os índices eram de 55% e 5%, respectivamente. A menor circulação de pessoas naquele momento pode estar relacionada a essa diferença, já que 45% dos negócios liderados por negros funcionavam apenas com atendimento presencial, enquanto isso acontecia com 36% dos empresários brancos.
Alguns problemas já existentes nos pequenos negócios, como a ausência de controle de gestão financeira, se ampliaram com a pandemia. Para Gaia Rauber, analista de Relacionamento com o Cliente do Sebrae-RS, a ausência de uma proposta de atendimento diferenciado prejudicou principalmente os empresários que não tinham controle administrativo e tampouco cadastro de clientes, ficando à mercê da procura presencial no estabelecimento.
De acordo com Gaia, a remodelagem das empresas é uma realidade para 14% dos negócios pesquisados. Dentre as mudanças destacadas estão o desenvolvimento de novos produtos ou serviços e a recriação do modelo de negócios, alterando a sua forma de atuação. “As empresas que apontam interesse em se reposicionar nos próximos 30 dias somam 11%. E percebemos, pela pesquisa, que 27% das empresas do setor do agronegócio adaptaram sua estrutura física, enquanto a indústria adaptou em 45% a sua estrutura”, exemplifica.
Donos de pequenos negócios se reinventam na pandemia
Com o seu negócio parado em decorrência da pandemia, Fabrício Goulart, dono da food tech Feitosa Gourmet, que produz molhos a base de bananas orgânicas em desuso – produtos muito maduros ou pequenos demais que seriam descartados –, decidiu readaptar o seu trabalho e começar a vender feijão congelado em seu novo empreendimento: Feijão in box. “Ao mesmo tempo, duas gurias estavam vendendo feijoada, o Bossa Feijoadinha Caseira, e as pessoas que compravam falavam delas pra mim e vice-versa. Então nós conversamos e decidimos nos juntar”, conta o chef.
A junção desses dois negócios possibilitou a abertura de uma cloud kitchen (cozinha compartilhada) e a recriação do nome do último empreendimento, que passou a ser Bossa Gastronomia Brasileira. Liana Rigon, cocriadora da iniciativa, conta que a empresa passou a oferecer uma variedade de pratos típicos, como moqueca, farofa, tapioca, além da feijoada.
De acordo com Gaia, do Sebrae-RS, a leitura dos empreendedores de quais são as demandas presentes neste momento é fundamental para reorganizar o próprio negócio a fim de se manter aberto.
A ideia do negócio partiu de sua sócia Viviane Nobre, que, do dia para a noite, teve a agenda de eventos cancelada. Liana, que é jornalista e cuida da comunicação de uma empresa, está trabalhando em casa e, como as duas começaram a pedir delivery, pensaram que elas próprias poderiam fazer comida para entregar. “A Viviane cuida da produção do material e eu fico na gestão da cloud kitchen e também me envolvo na cozinha, mas com a experiência do chef Fabrício eu fui promovida a assistente de cozinha”, brinca. Antes de terem a cozinha compartilhada, a feijoada era confeccionada nos finais de semana pela jornalista.
“O interessante da cloud kitchen é que a gente tem um gasto só e, como não abrimos ao público, temos uma facilidade logística de produção, até porque são públicos diferentes. Otimizamos o recurso que estamos pagando”
Liana Rigon
As sócias viram na parceria com Fabrício uma oportunidade de ampliar o negócio. “A nossa lógica é, a partir de um lugar, que é a nossa cozinha, ter diferentes empreendimentos; hoje, a gente desenvolve quatro negócios”, conta Liana.
A cozinha conta com mais dois empreendimentos criados pelo chef: a marca Fabrício Goulart, experiências gastronômicas, com um cardápio assinado por ele em parceria com a Vinhos Por Aí, que seleciona um vinho para harmonizar com a comida – os ingredientes, as instruções e a bebida são entregues na casa do cliente; e a Feitosa Gourmet, produção que o chef já retomou.
Fabrício iniciou seu percurso pela gastronomia após sentir uma falta de protagonismo no ambiente corporativo em que atuava na área de tecnologia da informação.
“Eu me via como um número, mais uma ferramenta da empresa, e não conseguia ir além. Queria atingir as pessoas de uma maneira melhor, entregar algo com amor, então decidi estudar e trabalhar em cima disso. A partir daí senti que poderia protagonizar, estar à frente do negócio e fazer do meu jeito, do jeito em que eu acredito”
Fabrício Goulart
Em 2013, um ano depois de terminar o curso de Gastronomia, ele viajou para o Canadá e percebeu como o país valorizava os pratos típicos, o que não sentia no Brasil. Ao voltar no ano seguinte, viu na banana uma possibilidade de empreender com um produto nacional. O primeiro teste do inédito ketchup de banana foi no seu food truck, em 2015. A criação da marca de molhos a base de banana veio em 2017.
Entender o mercado para ampliar o empreendimento
Para Amanda Jesus, a solução encontrada para manter o faturamento do salão de beleza Mulheres de Fibras foi, além da aplicação de cabelos e tranças, a venda desses produtos. “Como estamos localizados na Restinga, muitas trancistas [profissionais que aplicam tranças] precisavam ir ao Centro para buscar o seu material, então me surgiu a ideia de vender também”, conta. Mesmo com a pandemia, e apesar de ter ficado fechado no início da quarentena por 10 dias, o salão conseguiu aumentar o faturamento em 100%. “Mesmo a maioria das clientes ficando em casa, elas continuam procurando a gente”, conta Thierry Caldeira, gerente do negócio.
Atenta ao crescimento da procura de mega hair, Amanda decidiu criar seu próprio negócio em 2015. Nos fundos da sua casa, em uma sala pequena, ela e uma colaboradora recebiam as clientes para a aplicação de cabelos humanos e sintéticos. Em 2017, o salão foi para um espaço maior a convite de uma sócia, dividindo espaço com uma cafeteria.
No mesmo ano, a cafeteria fechou, mas o salão permaneceu. Thierry, que acompanhou a mudança da casa de Amanda para o novo local, conta que “o medo de ampliar o negócio e continuar mantendo as contas em dia foi muito grande, mas ela arriscou, e o salão está se mantendo bem”.
Negócios nativos digitais
A pesquisa Impacto da Pandemia de Coronavírus nos Pequenos Negócios aponta que 49% dos empreendedores negros já vendiam de maneira online antes da pandemia e 17% passaram a fazê-lo por causa da crise. Em comparação, 53% de empreendedores brancos já tinham o negócio presente no ambiente virtual e 15% iniciaram nessa modalidade.
Segundo Gaia, do Sebrae-RS, as empresas que já possuíam presença online conseguiram se adaptar rapidamente e potencializar as suas vendas online pelas redes sociais.
“É importante que as empresas olhem para dentro das suas estruturas organizacionais e revejam seus processos internos, reestruturando o seu negócio e revendo o planejamento empresarial, levando em conta essa nova realidade do mercado”
Gaia Rauber
Após pedir demissão do emprego que lhe sugava muita energia – trabalhava em uma lanchonete –, Luiz Bastos criou, em 2017, o Arte Customizando, negócio desenvolvido no Instagram para customizar tênis e roupas. “Como eu desenhava bastante e pintava meus tênis quando eles desbotavam, as pessoas começaram a perguntar quanto eu cobrava e eu vi que ali eu poderia ganhar dinheiro”, conta.
Após o início com média de sete customizações ao mês, teve uma queda brusca em 2019 quando contou apenas dez customizações ao todo. Neste ano, porém, Luiz afirma que as vendas cresceram timidamente; ainda assim, não consegue se manter apenas com o negócio. “Este ano eu não estou tão focado nas customizações, porque comecei a fazer música e criei uma produtora junto com amigos”, revela. Desse modo, Luiz intercala seu tempo entre os dois empreendimentos.
O sonho de ter um Ipod fez com que, na brincadeira, Larissa Rodrigues começasse a vender roupas customizadas em grupos de Facebook. Ao notar que o negócio estava crescendo, criou a Purchase Store em 2013. “A loja foi construída na internet; quando tinha uns 16 anos, eu divulgava as minhas customizações. Em 2016, abri a loja física no centro de Porto Alegre”, conta.
Conciliando as vendas entre as lojas física e online, Larissa se mudou para São Paulo, há dois anos e meio, com a intenção de revender as peças. “Quando me mudei, minha ideia era comprar aqui e revender em Porto Alegre, mas eu vi que não tinha como crescer, então comecei a fabricar”, explica. O negócio conta com uma equipe de costureiras terceirizadas e modelistas, mas as vendas online são feitas por Larissa. Sua irmã, Daiane Ferreira, cuida da Purchase Store na capital.
Com a pandemia, o faturamento da loja física caiu; em contrapartida, as vendas online aumentaram. Sem se especializar em gestão de negócios, Larissa conta que aprendeu tudo o que sabe na prática. “A administração veio com a experiência. E, depois que eu fiz um curso de modelagem, percebi que sou boa mesmo em gestão”, diverte-se.
* Reportagem de Karoline Costa / Jornal da Universidade / Estudante de Jornalismo na UFRGS
