Projetos de diferentes áreas do conhecimento coletam sonhos durante a pandemia
Reportagem do Jornal da Universidade apresenta pesquisa científica que buscam compreender como as mudanças no mundo estão aparecendo nas atividades oníricas

A pandemia de covid-19 transformou o mundo que conhecíamos. São novos gestos, hábitos e comportamentos que rapidamente tivemos de incorporar para lidar com a circulação do vírus. Ao mesmo tempo, estamos à espera das pesquisas que estão sendo realizadas pela ciência, especialmente as que resultarão na vacina. O que talvez soe inusitado é que pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento – Psicologia, Comunicação e cinema – estão investigando a pandemia a partir da perspectiva dos sonhos.
O projeto Ainda Sonhar: rastros oníricos do nosso tempo, da doutoranda em Psicologia Social e Institucional da UFRGS Laura Barcellos Pujol de Souza, parte da premissa de que o sonho pode ser chave de leitura desse momento coletivo. Iniciada em maio, a pesquisa investiga a relação entre os sonhos e os acontecimentos políticos-sociais, dentre eles a pandemia. A doutoranda vem desde então recebendo relatos de pessoas interessadas em contribuir com o projeto. Para além da análise do conteúdos, é também uma busca por entender as formas possíveis de narrar essas experiências. “A gente está tentando investigar as formas narrativas para também poder levar o sonho a um outro lugar – para além de ser contado apenas no café da manhã, por exemplo”, conta Laura.
O deslocamento dos sonhos de uma dimensão apenas de experiência pessoal para um lugar compartilhado e coletivo é uma das ideias principais da pesquisa, segundo Luciano Bedin, orientador de Laura e professor do Instituto de Psicologia. “A coleta envolve tirar o sonho do lugar de segredo íntimo. Assim, pode nos revelar uma história ampliada, que extrapola o domínio da narrativa individual do sonhador”, explica.
A formação de uma comunidade de sonhadores
Os pesquisadores acreditam que no próximo estágio da pesquisa, quando os sonhos recebidos começarem a ser compartilhados com as pessoas – sempre de forma anônima –, isso possa incentivar ainda mais a produção de novos sonhos. O movimento de eco e de reverberação formaria uma espécie de “comunidade de sonhadores” em que um relato vai despertando o outro e, assim, um processo de identificação e também de empatia é estabelecido.
A ideia de comunidade já atravessou outro projeto que também teve como ponto de partida a coleta de sonhos durante o período de pandemia. Sonhos da Quarentena, criado pela doutora em Comunicação Anelise de Carli em março deste ano, já recebeu até o momento mais de 600 relatos. Em sua análise, só o fato de haver um projeto de coleta de sonhos, de as pessoas saberem que há alguém disponível para ouvir, já leva a atenção das pessoas para essa experiência. Para a pesquisadora, narrar o sonho passa pelo processo de interpretar o mundo, de se ver enquanto indivíduo, mas também de olhar para si mesmo atuando neste mundo, inclusive em relação aos outros.
“Quando nos referimos à experiência, estamos falando também de algo impreciso, que eu nunca vou conseguir narrar com total exatidão. No entanto, de alguma maneira, eu tenho vontade de escrever sobre essa vivência porque parece que, no fundo, também acho que alguém pode ter passado por ela.”
Anelise de Carli
No caso da pandemia, é um momento ainda mais evidente de compartilhamento de vivências. A partir dos sonhos já recebidos pelo projeto, Anelise conta que já é possível perceber um diálogo entre coisas experenciadas por pessoas diferentes, e que falam, inclusive, idiomas distintos – a coleta vem sendo realizada em português, inglês e francês. Sem sabermos, os sonhos formam uma constelação e estão conectados. “Muitos relatos trazem elementos como a água, o afogamento, a asfixia. Outra imagem interessante é a do mise-en-abyme, isto é, imagens de abismo, de precipícios em sequência”, exemplifica.
A repetição evidencia a teia que conecta os sonhadores e mostra, segundo ela, esse caráter coletivo da atividade onírica. “É quase como se a gente pudesse imaginar que mesmo os negacionistas da pandemia sonhem sobre ela. Tem um conteúdo sobre o qual a gente não precisa estar diretamente consciente para que faça parte do nosso acúmulo de experiências”, destaca.
Muitas pessoas, antes de enviarem o relato, perguntavam a Anelise se as narrativas precisavam ser imagens diretamente relacionadas à pandemia. A resposta era de que não. Todos os sonhos durante o período interessavam ao projeto, e algo que já se pode observar é que mesmo aqueles que imediatamente não tratam da experiência de quarentena conversam e trazem elementos semelhantes aos que são mais literais.
O onírico que é político
O interesse trazido pelo projeto Ainda Sonhar, de Laura, em abordar o sonhos para além da vivência da pandemia, prestando atenção também aos acontecimentos políticos do país, é o que vem conduzido outro projeto de coleta de sonhos: O Inventário. A pesquisa é coordenada pelo professor titular do departamento de psicanálise e psicopatologia da UFRGS, Edson Luiz André de Souza, em colaboração com os pesquisadores da USP Denise Mamede e Paulo Endo e os psicanalistas André Costa, Joana Horst, Caroline Mortagua e Luciano Bregalanti. Também iniciado no período de isolamento social, o acervo coletado evidencia de igual modo os diálogos invisíveis tramados nos mundos oníricos de cada um.
“O que podemos ver é que os primeiros sonhos ainda eram muito conectados com imagens de contaminação, de morte, de angústia. Essas temáticas ainda continuam, mas já vemos surgirem mais sonhos com imagens e cenas pós-pandemia. Começam a surgir também mais narrativas relacionadas à situação política que vivemos no Brasil, que, como sabemos, agravou a pandemia pela forma irresponsável como vem sendo conduzida.”
Edson Luiz André de Souza
A coleta, na interpretação de Edson, é como um arquivo subterrâneo, “como uma espécie de radar captando os vapores de pensamento, sofrimento, esperança que estamos vivendo”. A intenção do inventário é ser um documento para o futuro, um registro de memória. “Isso é fundamental, pois nosso país carece de memoriais. Sem uma política de memória não vamos poder ir muito longe enquanto nação”, complementa.
Um filme de sonhadores
Em Recife, o cineasta Gabriel Coêlho também está recebendo relatos das atividades oníricas. Diferentemente, porém, dos projetos realizados em Porto Alegre, os sonhos virarão filme. Gabriel foi além da palavra e vem registrando também imagens, áudios, músicas e ruídos. A ideia é de que a coleta possa acontecer em mais formatos e que, quando encerrada, o filme trabalhe com todo esse material como a expressão de um sonho coletivo, de um grande desejo. “Começou pela ideia de entender esse momento como um catalisador muito grande da atividade onírica. Entender como as sensações de controle, confinamento e impotência poderiam ser transformadas em imagem”, conta.
O cineasta tem como ponto de partida do documentário a ideia de configurar uma paisagem coletiva desse momento, produzindo imagens feitas a muitas mãos. Inicialmente, a proposta era de que a coleta acontecesse apenas em Recife, mas Gabriel conta que tem pensado na expansão desse limite, uma vez que os sonhos também desconhecem fronteiras.
“Me interessa saber como diferentes realidades, de diferentes estados do Brasil – e quem sabe de diferentes países –, podem confluir nos sonhos. O que eles têm a dizer sobre essas fronteiras imaginárias? A globalização acelerada pela pandemia parece se quebrar ou se diluir quando pensamos sobre o onírico. Acontece uma diluição das comunidades imaginadas pela dimensão do sonho, pois estamos conectados.”
Gabriel Coêlho
O sonho que é desejo e esperança
“Qual é seu sonho? Com o que você sonha?” Fora de contexto, essas poderiam ser perguntas sobre o futuro e, possivelmente, seriam respondidas com desejos. A ambiguidade, porém, não é acidental. “Se a palavra sonho significa desejo e ao mesmo tempo experiência onírica do inconsciente, isso não é à toa. É porque a gente encontrou uma proximidade entre essas duas coisas”, provoca Anelise.
A fertilidade do sonho depende, em grande parte, do estabelecimento de relações mais próximas com os outros, com o entorno, com a comunidade e também com nosso papel no mundo. Laura Pujol relembra o conceito trazido pelo pesquisador Sidarta Ribeiro de o sonho como um oráculo probabilístico. “Não só uma forma de ler o passado, mas também uma maneira de ver para onde a gente está indo e para onde a gente pode ir, e talvez para onde a gente quer ir”, explica.
Quer contar um sonho?
– Projeto “Ainda Sonhar”: e-mail para ooniricojornal@gmail.com
– Projeto “Sonhos da Quarentena”: acesse o formulário
– Projeto “Inventário dos sonhos”: acesse o formulário
– Projeto de documentário: e-mail para g.coelho00@gmail.com
Para mais reportagens do Jornal da Universidade acesse https://www.ufrgs.br/jornal/.
Texto de Anna Ortega / JU. Ilustração de Caroline Sant’Anna, artista visual e estudante de artes visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS.
Para saber mais
