Trabalhadores do setor funerário de Porto Alegre enfrentam intensificação da rotina e medo da contaminação
Linha de frente | Ao realizar uma atividade que costuma ficar invisível, agentes funerários sentem a pressão da piora da pandemia e da demora da vacinação

Por Eduarda Stefenon, para o Jornal da Universidade
Encontrar um tempo disponível para conversar com Victor Burzlaff não foi fácil. Ele trabalha como sepultador no Cemitério Jardim da Paz. Durante as últimas semanas, com o aumento do número de óbitos em Porto Alegre, o trabalho se intensificou. Entre uma tarefa e outra, conseguimos conversar por alguns minutos em chamada por telefone.
Victor relata como tem sido a rotina nesses dias. Assim que chega ao serviço, passa na portaria e vê o que tem agendado para o trabalho. Ele divide as demandas com outros sete colegas. Se é preciso fazer o sepultamento de quinze em quinze minutos ou meia hora, como tem acontecido, se dividem em duas equipes “para conseguir vencer o dia”.
De forma tímida, conta que há 15 anos trabalha no cemitério, mas já chegou a trabalhar em outros setores: padaria, frigorífico, entregando jornal. Foi ali, porém, que aprendeu a ser como é hoje. “Eu olhava pras pessoas, não dava bola. Comum, como qualquer pessoa. Hoje não, hoje eu tenho um coração mais humano.”
Ele também trabalha junto com o filho no Cemitério e conta que, apesar da proximidade familiar, não dá moleza para o garoto.
O trabalho é cuidadoso, principalmente agora, tendo de seguir os protocolos de segurança da covid-19. Para ele, no entanto, a parte mais difícil é lidar com os familiares de quem costuma precisar dos seus serviços de sepultador. Tem familiar que, por conta do caixão fechado, não acredita que seja mesmo seu parente quem está lá dentro e desconta a frustração nos trabalhadores do cemitério. Victor conta que é preciso ter calma, afinal é mesmo um momento difícil.
Em Porto Alegre, março foi o pior mês da pandemia até agora, com o número de óbitos superando o de nascimentos: 3.221 contra 1.509. Esse aumento, provocado pelo maior contágio de covid-19, gerou dificuldades para o setor funerário, como a falta de materiais.
Felipe Carneiro, sócio-diretor da Funerária Medianeira, conta que, pelo atraso dos fornecedores, chegou a ter alguns modelos de caixões que zeraram no estoque. Entre os que mais faltam estão os mais baratos. Felipe atribui a maior venda desse tipo, em função da pandemia, “pela questão de as pessoas estarem desempregadas”.
Das quatro fábricas com as quais trabalha, ele não conseguiu resposta e procurou fornecedores antigos que prometeram as entregas para junho. “Daí não adiantava, porque o meu problema tá sendo agora.” Para contornar a situação, o jeito, às vezes, é oferecer caixões mais caros por preços mais baixos. “A gente faz algumas negociações pra não perder o cliente e pra não deixar o cliente na mão também, né?”, observa Felipe.
Já nas funerárias do Grupo Mathias não houve falta, mas a demora também foi percebida. Além disso, a capacidade de funcionamento precisou ser ampliada. Daniel Mathias gerencia as seis funerárias do grupo em Porto Alegre e uma na cidade de Glorinha. Durante o mês de março, a empresa teve um aumento de 105% no atendimento em relação ao mesmo mês de 2020. Os funerais e as cremações dobraram, o que fez Daniel ter que pagar hora extra para os funcionários, além de aumentar a estrutura, comprando baús refrigerados para armazenar os corpos antes da cremação.
Nesse período, o telefone não parou e o nível de estresse emocional e físico foi alto, tanto pelo volume de trabalho quanto pela necessidade de o serviço ser detalhista. “A gente não pode cometer erros, porque não estamos vendendo uma TV, né? A gente tá vendendo um serviço de despedida”, comenta.
Além do estresse com o aumento de trabalho, há ainda o medo da contaminação pelo vírus. Daniel não escapou da doença. Ficou 12 dias hospitalizado, precisou de oxigênio e teve 60% do pulmão comprometido. Depois de alguns dias de recuperação, perdeu o pai para a doença, que morreu no dia do Natal. Também perdeu três amigos para o vírus. “A gente tem cada vez mais medo, porque é uma coisa a que todo mundo está sujeito e, para nós, ele tá muito próximo.”
