UFRGS e a Covid-19

Artigo: A assustadora manipulação política da pandemia

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Sumário
Em Nova York, cidade estadunidense de perfil tipicamente democrata, presidente Trump teve ações criticadas em relação à crise do coronavírus, e é abertamente contestado nas ruas (Foto: Flávio Dutra/JU)

Por Paulo Visentini, professor titular de Relações Internacionais aposentado/convidado na UFRGS e Coordenador do NERINT/CEGOV, para o Jornal da Universidade

Em fala recente, no contexto da pandemia, Noam Chomsky denunciou o que poderia ser a formação de uma Internacional Reacionária, que teria como resposta a emergência de uma Internacional Progressista. Esta seria baseada em personalidades progressistas, como Bernie Sanders, em Estados que ajudam materialmente (China) ou nos médicos (Cuba) e na sociedade civil, impulsionada por iniciativas solidárias. Tudo em oposição a líderes como Trump e Modi (da Índia), entre outros. O problema é que as pessoas acreditam que basta postar mensagens de adesão e apoio à nobre iniciativa para que ela se torne realidade.

Chomsky é conhecido por sua visão crítica e ética, mas também por crer na vontade moral, um pensamento mágico sem análise mais acurada da realidade e suas contradições. Hoje, como durante a Grande Depressão dos anos 1930, muita gente pensa que a crise terá uma resposta progressista como reação lógica à gravidade e à brutalidade da situação que vivemos. Todavia, como disse um ex-presidente, “o que está ruim ainda pode piorar”. O desemprego massivo e a mobilização resultante tiveram como resposta o nacionalismo genocida, o fascismo e a guerra mundial.

A origem da pandemia está envolta em teorias da conspiração, mas o que se sabe é que ela atingiu em cheio a globalização, reforçando o egoísmo nacional e social. Na verdade, a reação iniciou há uma década, como resposta à crise do capitalismo globalista de 2008, com mais neoliberalismo para dentro e novas formas de conflitos para fora. E durante essa década a sociedade se fragmentou política e socialmente e se desorientou ideologicamente nas redes tecnológicas chamadas “sociais”. O 1984 de Orwell se encontrou com o Admirável Mundo Novo de Huxley. Trump não inventou a agenda, apenas assumiu-a sem a máscara do discurso politicamente correto dos Democratas, que também defendem America First. 

O que assusta é o impacto que o meteoro covid-19 teve sobre a sociedade e a manipulação política da pandemia por autoridades, do nível internacional e nacional ao municipal. A classe média (segmento “esclarecido”) entrou em pânico irracional, recolhida em quarentena total e incapaz de pensar em amplos setores da sociedade com empregos informais, largados à própria sorte. 

Um verdadeiro “salve-se quem puder”. Charlatões postam “análises” recicladas, espalhando boatos, enquanto personalidades fazem “doações” ou informam que também estão contaminados… E as lutas políticas seguem seu curso e até aceleram, com a população desmobilizada em casa, em um cenário surrealista.A desinformação é tal que, após ler três matérias sobre a Gripe Espanhola, tive que recorrer a um livro impresso antigo, porque uma mencionava 8 milhões de mortos e outra 100 milhões! 

Algo que Chomsky identifica corretamente é que a pandemia dividiu os Estados em dois grupos: um está sendo eficiente no manejo da crise (Coreia do Sul, China, Alemanha) e outro ineficiente (o caso norte-americano é paradigmático, para não falar dos periféricos). Simplesmente há governo e estrutura de saúde pública nos primeiros, enquanto o modelo de saúde privada produziu uma tragédia desnecessária nos Estados Unidos, onde a maioria não pode pagar. 

Na economia globalizada, China tem um peso como a grande economia industrial do planeta. Equipamentos médicos, por exemplo, são produzidos quase exclusivamente naquele país, que, por efeito da pandemia, teve parte da sua produção paralisada, implicando na falta de suprimentos em todo o mundo (Foto: Flávio Dutra/JU)

Em lugar de nos fixarmos nos números absolutos, deveríamos considerar a proporcionalidade per capita e as condições sociais das vítimas. Daí surgiria um mapa muito diferente. Mas o interessante é que a essa diferença entre Estado e mercado é ocultada por acusações sobre a responsabilidade pelo surgimento ou pela disseminação do vírus. Em um quadro de crescente xenofobia, a China e o imigrante são apontados como inimigos. E já não se fala mais em refugiados.

O desaparecimento das viagens de trabalho e de turismo, que eram massivas, a redução drástica do comércio, a paralisia da produção e a queda do consumo tornam incerto o cenário econômico futuro da globalização. O encerramento da população, em países pobres, sem qualquer política pública, como é o caso patológico da Índia, cria uma realidade de violência contra uma população desorientada. Em cidades em que quase inexistia fiscalização para lixo na rua, danos ambientais, construções irregulares ou serviços públicos inoperantes e infraestrutura danificada, subitamente surgiram agentes empoderados, munidos de armas e talões de multa.

Parlamentares em reuniões por teleconferência, às vezes à noite, aprovam “reformas” que terão impacto social negativo duradouro. Sindicatos esvaziados são obrigados a aceitar formas de flexibilizar ainda mais o trabalho para evitar desemprego total, enquanto algumas grandes empresas são socorridas. 

Na confusão reinante, até pessoas sérias defendem o home office antissocial e antitrabalhista, em que o empregado paga os custos e as pessoas perdem a dimensão coletiva do trabalho. Funcionários públicos são taxados de inimigos da sociedade e alguns, inclusive, aceitariam redução de jornada e salário para, supostamente, ter um trabalho extra.

Qual seria a saída? Imagens de ruas desertas de pessoas, mas, às vezes, com animais silvestres passeando curiosos, levantam uma contradição que pode ser dialética. A crise gerada pela pandemia demonstra que o modelo social vigente está esgotado e não possui capacidade de mudar (mas pode seguir por inércia). Todavia, a sociedade está confusa e amedrontada, o que é politicamente perigoso. Não há uma internacional dos conservadores, porque estão divididos e têm interesses materiais conflitantes. 

A imigração possivelmente será uma das pautas mais afetadas quando a normalidade se reestabelecer no pós-pandemia. Na imagem, um imigrante senegalês, atuando na economia informal em Porto Alegre, vende mercadorias nas calçadas da Av. Assis Brasil (Foto: Flávio Dutra/JU)

Por outro lado, em 150 anos os progressistas nunca estiveram tão fragmentados e confusos. Esse é o impasse que está elevando a tensão do mundo, sendo o vírus apenas um elemento catalisador. Como universitários podemos contribuir muito, desde que abandonemos o conforto do pensamento politicamente correto.

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