UFRGS e a Covid-19

Artigo: a pandemia tem cor

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Sumário
Estudantes e servidores da UFRGS. Foto: Gustavo Diehl / Secom.

Escrito por Giovanna Teixeira Rodrigues, Franciela Delazeri Carlotto, estudantes de Enfermagem da UFRGS, e Deise Riquinho, professora da UFRGS.

O caos que estamos vivenciando também decorre do que, há muito tempo, não é nenhuma novidade: o investimento destinado à área da saúde, ao SUS, não é adequado às demandas. Ainda antes, em meados de 2016, a Emenda Constitucional 95 (também conhecida como PEC da morte), que congelou investimentos em saúde e educação por 20 anos foi aprovada, prejudicando a população que mais necessita de atendimento. Além dos muitos problemas relacionados a investimentos é importante dizer o que não está sendo dito durante a crise atual: a pandemia tem cor.

São alguns exemplos na história que se repetem no cotidiano das pessoas negras. O que muda, no cenário atual é o acréscimo de mais um grande obstáculo, a pandemia, que se desdobra em vários outros, como a espera pelo auxílio emergencial, o desemprego, a falta de água encanada, a falta de leitos hospitalares, a fome. E assim, as pessoas mais atingidas e com mais chance de morte seguem sendo as de sempre: pretas, pardas e pobres.

A declaração do quesito raça/cor é importante para a construção de políticas públicas, na medida em que revela o acometimento em saúde, doença e morte das pessoas, possibilitando conhecer a susceptibilidade dos grupos populacionais.

Assim é possível entender, por meio de indicadores, os efeitos dos acontecimentos sociais e das desigualdades sobre os diferentes segmentos da população.

Conhecer esse panorama é relevante para atender aos princípios do SUS, entre eles a equidade, assim como reconhecer as diferenças nas condições de vida e saúde dos indivíduos. Dessa forma, é possível ofertar atendimento de acordo com suas necessidades, reduzindo o impacto dos determinantes sociais da saúde aos quais as pessoas negras estão submetidas. O acesso a tais informações permite pesquisas com dados consolidados e que representam a realidade de vida e saúde da população. No entanto, a falta do preenchimento do quesito raça/cor pode mascarar a distribuição das mortes e agravos.

Pensar sobre a espacialização dos hospitais de referência para os casos do Covid-19, que são posicionados na região central e zona norte da cidade de Porto Alegre, denota restrição para as pessoas que vivem no Extremo Sul e Restinga.

Ouvi o relato de um trabalhador, de profissão açougueiro, que procurou três vezes o hospital local com sintomas respiratórios, com quadro compatível com o novo coronavírus, e na quarta vez o encaminharam para o hospital de referência.

  • Apesar de esse hospital ser 100% SUS, também é gerido por uma instituição hospitalar privada que se utiliza de isenções fiscais para prestação de serviço.
  • Sigo a me questionar qual o motivo para este hospital não ser referência à Covid-19 na região Extremo Sul e Restinga.

A pandemia tem mostrado os impactos da falta de investimentos no SUS, como por exemplo, na redução de leitos públicos de UTI e nas unidades de atenção primárias insalubres. Porém, para além, da estrutura física e aporte tecnológico há a alma do SUS, que são os profissionais de saúde e de apoio, e que me levam a indagar:

Como sensibilizar trabalhadores do SUS sobre as consequências negativas do racismo institucional na situação de saúde da população negra?

Por fim, ações como os Diálogos Negros são um pequeno, mas importante passo para ressignificação de quem somos e no que acreditamos.

Texto publicado originalmente em https://www.ufrgs.br/levi/acad-enf-giovanna-teixeira-rodrigues/#page-content.

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