UFRGS e a Covid-19

Artigo: O modelo de Grossman (1972) e a Covid-19

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Sumário
Foto: Secom/MT

Por Giácomo Balbinotto Neto, professor de Economia da Saúde do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS e pesquisador do Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde da UFRGS

O trabalho seminal sobre a demanda por saúde foi formulado por Michael Grossman (1972), que nos permitiu compreender o papel de diversas variáveis, como idade, educação, estado de saúde e renda na produção de saúde, através da demanda por capital saúde.

Grossman (1972) trata a saúde como um processo de produção conjunta, requerendo a contribuição do indivíduo (nomeadamente através do uso do tempo) quer de consumo de bens e serviços apropriados, denominados cuidados médicos (medicamentos, exames, procedimentos médicos, etc.). Segundo ele, os cuidados médicos são um produto intermediário, um fator produtivo adquirido pela pessoa para produzir saúde. O outro fator produtivo essencial é o tempo dedicado pelo indivíduo a essa produção de saúde. No caso em que estamos vivendo atualmente, o da pandemia da COVID -19, o tempo que passamos isolados e as medidas preventivas que tomamos com relação ao isolamento social seriam uma forma de insumo para produzir saúde, ou nos termos que ele coloca dias saudáveis, ou dias sem doença.

A função de produção de saúde individual depende também de outros fatores como a educação e a idade, por exemplo. Para Grossman (1972), a saúde é um estoque, tendo duração de vários anos. O estoque de saúde está também sujeito a depreciação de cada período (a taxa de depreciação diferirá de pessoa para pessoa). As pessoas gozam de um determinado estoque de saúde. Pode-se obter saúde através do comportamento saudável e não só consumindo recursos assistenciais. Assim, fazer exercícios e consumir alimentos in natura podem ser formas de produzir saúde. No caso em que estamos vivendo, investir em cuidados básicos de saúde, como lavar as mãos e usar máscaras de proteção, pode ser considerado também uma forma de um comportamento social saudável, pois deste modo se evita a contaminação pelo vírus.

Grossman (1972) trata a saúde de um modo dual: (a) bem de consumo: na medida em que dá satisfação ao consumidor. A saúde produz uma utilidade direta, isto é, nós nos sentimos melhor quando estamos mais saudáveis; (b) e também como um bem de investimento: porque ela aumenta o estoque de saúde, diminuindo os dias de incapacidade, permitindo um maior nível de rendimento e dias trabalhados com saúde (e, logo, do consumo de bens e serviços). A saúde aumenta o número de dias disponíveis para participar em atividades de mercado e não mercado. Deste modo, vemos que não exsite um dilema (trade off) entre economia e saúde. O isolamento social é uma forma de investimento no presente que irá gerar benefícios no futuro em termos de um maior número de dias saudáveis.

O modelo de Grossman (1972) descreve como os consumidores fazem escolhas simultâneas durante muitos períodos ou anos. O indivíduo é um produtor de saúde: ele compra insumos no mercado e os combina com seu próprio tempo para produzir serviços que aumentam sua utilidade. A saúde é uma forma de capital e ele se constitui num ativo valioso que paga dividendos, em termos de dias saudáveis ao longo da vida, mas também se deprecia ao longo da vida. Assim, administrar e investir em saúde ao longo de nossas vidas constitui-se num problema econômico que é similar, em alguns aspectos, à administração de um portfólio de ações.

O modelo desenvolvido por Grossman (1972) provê aos economistas e outros profissionais da saúde uma estrutura analítica ponderosa para tratar da saúde como sendo algo que os indivíduos decidem em parte por eles mesmos, ao invés de algo que acontece a eles. O modelo provê, assim, um poderoso conjunto de explicações para uma grande variedade de fenômenos e fornece, também, os fundamentos microeconômicos, baseados no comportamento racional para várias políticas públicas em saúde, tal como as recomendações de lockdown, isolamento social etc.

A análise de Grossman (1972) é baseada sobre a teoria do capital humano a qual mostra como os indivíduos investem neles mesmos para aumentar sua produtividade. O montante ótimo de investimento em capital humano é determinado fundamentalmente pelos custos e benefícios relativos. De um modo geral, os custos ocorrem no curto prazo, enquanto os benefícios surgem no futuro, na forma de aumento das oportunidades de emprego e aumento no número de dias saudáveis.

O trabalho de Grossman (1972), deste modo, tornou-se um ponto inicial para grande parte dos trabalhos subsequentes na área de economia da saúde e na estimação da função de produção em saúde. Ele se constitui num dos maiores avanços conceituais na análise da demanda por cuidados de saúde. A saúde é demandada não por si mesma, mas porque ela também permite aos indivíduos participar no mercado de trabalho em termos de maior tempo de vida e em termos de dias sem doença. Este foi o aspecto central do trabalho seminal de Grossman (1972).

A saúde é determinada por muitos fatores, entre os quais os cuidados médicos são somente um deles. Entre os outros fatores podemos incluir: o ambiente de trabalho, as condições habitacionais, dieta e estilo de vida. Com relação a este último ponto, vemos que, com a atual pandemia da Covid 19, tivemos e iremos alterar nosso estilo de vida, pelos menos no curto prazo, reduzindo significativamente o contato social, a ida a grande eventos com aglomerações, a forma como iremos e estamos trabalhado (home office), como nos alimentamos (delivery, take away), reuniões virtuais, aulas com educação a distância, entre outras. Todas elas são formas, em última instância, que alteram nosso estilo de vida, a fim de gerar mais saúde, evitando o contato para a transmissão do vírus da Covid-19. Com certeza outras mudanças deverão ocorrer no futuro próximo. Estas mudanças no nosso estilo de vida são uma forma de produzir saúde.

Para Grossman (1972), quando um indivíduo adquire serviços de saúde, não está buscando adquirir o serviço em si, mas o seu efeito sobre a saúde. Portanto, a demanda por cuidados médicos é uma demanda derivada, na qual o objetivo final é a procura por saúde. A procura por cuidados médicos é, deste modo, influenciada por todos os efeitos que afetam a procura por saúde (preferências, salários, idade, educação, etc.). Assim, os benefícios da saúde resultam de diversos canais: uma pessoa sente-se melhor se tiver boa saúde (efeito consumo), perde-se menos dias de trabalho (efeito sobre a restrição de tempo disponível) e gera maior produtividade por unidade de tempo trabalhada, logo, ganha-se mais (efeito produtividade).

A saúde pode ser considerada como sendo um bem de investimento, no sentido de que a saúde é desejada pelo fato de que ela aumenta o número de dias saudáveis disponíveis para trabalhar e, assim, obter renda e maiores salários. A saúde dura mais do que um período. Ela não se deprecia instantaneamente; assim, ela pode ser tratada como sendo um bem de capital.

A saúde, como vimos acima, também pode ser tratada tanto como um bem de consumo, pois ela é desejada porque ela faz as pessoas se sentirem melhor. O estoque de capital saúde de uma pessoa pode ser concebido como sendo o número de “dias saudáveis” ou em várias dimensões de saúde física, saúde mental e atividades limitadas (por exemplo, não poder jogar tênis, futebol, etc.). Os consumidores aplicam conjuntos de insumos de saúde, que podem incluir insumos de assistência à saúde de mercado, mas também dieta, exercícios e tempo, à sua constituição física, fazendo investimentos em capital saúde. Esses investimentos mantêm ou melhoram os estoques de saúde dos consumidores, que, por seu lado, proporcionam dias saudáveis. O objetivo final do consumidor – “dias saudáveis” – orienta as decisões dos consumidores quanto à quantidade de tempo e dinheiro a ser investida no estoque de saúde.

Os investimentos em saúde geram retorno, no sentido de que eles não apenas acrescentam ao potencial de lazer, mas também aumentam a renda potencial. O dispêndio de tempo em atividades que produzem saúde, como o atual isolamento social adotado, podem, no futuro, aumentar as horas disponíveis para as atividades produtivas do indivíduo (porque ele ficará menos doente ou com menos sequelas devido à doença).

Finalizando estas considerações, o modelo de Grossman (1972), que é o modelo básico e canônico para quem estuda economia da saúde, continua tão atual e útil como nunca, e continua nos dando orientações e gerando implicações de porque a saúde importa e vale muito investir nela. Assim, para os estudantes e profissionais de saúde, vale a pena dedicar algumas horas a ler este que é um dos mais importantes artigos na área de economia da saúde.

Artigos Recomendados:

Grossman, M., 1972, “On the concept of health capital and the demand for health,” Journal of Political Economy 80, 223-255.

Grossman, M., 1999, “The human capital model of the demand for health”. Handbook of Health Economics.

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